Aquela cidade encarava o Natal como uma espécie de maldição. Uma factura a pagar por erros antigos, cometidos por pessoas sem escrúpulos, que condenaram a cidade a viver aquele suplício. As pessoas gostariam de esquecer o Natal, mas isso era impossível.
Nas cidades vizinhas o Natal era normal e as pessoas mantinham as preocupações rotineiras do dia-a-dia, sem grandes temores. Eles conheciam os efeitos do Natal em S. Jerónimo; conheciam a história daquela cidade e sabiam o porquê da maldição envolvendo o Natal mas, como bons católicos que eram e como não era nada com eles, aceitavam-na.
Notava-se uma crescente ansiedade e angústia em todas as gentes à medida que aquela altura do ano se aproximava. Às vésperas da chegada do Natal já ninguém falava com ninguém, não havia sorrisos nas caras das pessoas e o comércio pouco se preocupava com as vendas. O Natal estava à porta e o povo pensava em como se proteger e conjecturava sobre o que de mal poderia acontecer este ano.
A cidade encontrava-se em reboliço e o movimento era frenético nas ruas. Algumas pessoas compravam pregos e tábuas para fixarem portas e janelas, outras faziam as malas e partiam nos seus carros.
Havia uma grande debandada da população e a cidade ficava praticamente vazia. Em determinados anos a cidade ficava sem qualquer pessoa e a única coisa que se ouvia eram os ventos fortes e frios das noites de Dezembro.
A cidade preparava-se novamente para enfrentar a sua maldição.
Naquela noite não estava ninguém na rua. Raramente, via-se um carro na avenida principal a dirigir-se para fora da cidade. As luzes das ruas permitiam ver as poucas decorações de Natal preparadas pela câmara municipal.
As casas mantinham portas e janelas encerradas e as pessoas, que se mantinham corajosamente na cidade, protegiam-se do que viesse a acontecer. Os moradores conseguiam ver luzes azuis e vermelhas que penetravam nas frestas das janelas que imaginaram ser dos pirilampos das viaturas da polícia.
De repente o silêncio foi quebrado. Ouviram-se gritos, sirenes e, finalmente, uma saraivada de tiros. Ouviam-se vidros a partir e pessoas a correr. Vozes de comando indicavam as posições dos polícias no terreno. Ouviam-se o zunir das balas que seguiam o seu caminho. Viam-se flashs e cheirava-se o medo. O Natal chegara para cumprir com a tradição.
E fez-se silêncio novamente. Tão depressa como começou, terminou. Ouviam-se agora gritos de alegria e gargalhadas e as pessoas comemoravam.
A maldição terminara, finalmente.
Na manhã seguinte, os ardinas gritavam a principal notícia do jornal da cidade. As pessoas beliscavam-se mutuamente numa tentativa de descobrir se tudo não seria um sonho.
No jornal podia-se ler:

Luís Fernandes Lisboa ®
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