Mostrar mensagens com a etiqueta Amor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amor. Mostrar todas as mensagens

13 abril 2014

94

Ela faz 94.
94 anos é muito tempo. Dos meus trinta e tais vejo-os ainda longínquos e custa-me crer que por lá passarei.
Por vezes fico a pensar em tudo o que ela passou e em tudo o que viu ao longo desses longos anos.
Ela viu, seguramente com espanto, a tecnologia dominar o quotidiano do homem. Viu o carro passar de novidade extraordinária à obsessão desnecessária. Ela viu a televisão invadir as casas e afastar as conversas da hora do jantar e também viu as pessoas passarem a conversar através de pequenos aparelhos que trazem nos bolsos das calças. Ela também soprou as velas de casa e ligou os interruptores da recém-chegada electricidade. Ela deve ter achado estranho as lembranças passarem da mente para películas de fotografia, depois para computadores e depois para lugares virtuais dos quais ela nem sequer sonha. Deve ter ficado abismada com os riscos no céu feitos pelos aviões, esses mesmos aparelhos que a levariam, anos depois, para o lado de lá do Atlântico.
O que lhe passará hoje pela cabeça quando observa este mundo e o compara com aquele, muito mais simples, que conheceu na infância?

Certamente passou por muito nesta sua longa vida. Nasceu em tempos de miséria, viveu sem luxos mas ainda foi a tempo de conhecer estes nossos tempos de fartura obscena. Viveu em tempos de guerra. Conheceu vária ditaduras e uma revolução. 
Viveu na ignorância das letras por culpa de uma vida dura, por culpa de uma cultura de trabalho e dedicação a outros bens essenciais.

A sua história de amor originou 3 filhas, 9 netos e 14 bisnetos. Penso muitas vezes na sua importância para a minha própria existência. Olho para os meus filhos e penso, não raramente, que lhe devo um obrigado: sem ela, eles não estariam por cá.
Penso naquela sua história de amor. Na sua vida dedicada ao homem que escolheu para meu avô e no exemplo que nos deixa a todos. Queira eu também, ao fim de tantos anos de sofrimento para manter o bem estar de quem se ama, poder humildemente olhar nos olhos de quem se perdeu e dizer: "podia ter feito tanto mais por ti".

Ela faz 94 anos e está há 38 na minha vida. Agradeço a qualquer divindade a oportunidade que me deu de ter por tanto tempo a sua companhia. Dou graças por poder ter apresentado a ela os meus filhos e de poder tê-la usado como cobaia da minha profissão.  
Não penso em quanto tempo mais estará cá connosco, facto inerente à fragilidade da vida aos 94, e limito-me a aproveitar da sua presença. Limito-me a mandar chalaças ordinárias à mesa do almoço dominical; limito-me a ouvir os seu infindáveis "ais" e o ranger das suas "artrósias"; limito-me a rir da sua teimosia; limito-me a vê-la rir-se das palhaçadas que os seus netos fazem. Limito-me a invejar-lhe os lindos olhos azuis, ainda cheios de vida.

Parabéns, avó, e obrigado por todos os ensinamentos passados. Que aos 94 eu também possa ter quem de mim tenha tanto orgulho.










17 setembro 2011

Pai sofre XXIII: remédio

Sexta-feira. Mais uma semana de intenso trabalho terminou.

Cheguei à casa estafado. Vinha chateado com a vida e com um trabalho que cada vez mais me desaponta. Estudar uma vida toda para fazer algo que está há milhas de distância leva a um sentimento de frustração e impotência que nunca havia experimentado. Reclamações, exigências desmesuradas e excesso de direitos atiram-me para um lugar ao qual não estou acostumado. Cansa-me muito tentar ser justo e honesto. Seria mais fácil ceder às vontades e vícios e essa insistência, em fazer o que meus pais ensinaram, estafa-me.
Liguei a televisão. Vi buracos, miséria, guerras, corrupção e o Vítor Pereira no telejornal. Nada me interessa, nada me tira o gosto amargo de 5 dias de decepções.
Começo a ficar preocupado com a gota no canto do olho, a insónia e a falta de apetites...

Ela chegou. Os olhos enormes e vivaços miraram-me, as pernas aceleraram, os braços abriram-se num grande pequeno abraço e a língua, no início da afinação, estala um grande "É o pai!" na minha triste face.
E puff!... tudo o resto deixou de ter qualquer importância.

Amor: está aqui um remédio que tenho de começar a prescrever mais vezes...


08 março 2010

Adoráveis mulheres

365 dias para vocês...


"Gerânio"

Composição: Nando Reis, Marisa Monte, Jennifer Gomes


Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente

Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda

Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes

Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga

Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema

Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda
Estou com saudades e penso tanto em você

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda

09 janeiro 2010

Eu gosto é de mulher

Não podia deixar de escrever sobre o dia de ontem.
Parece que agora as pessoas podem casar com quem quiserem. Parece que é possível, finalmente, quem ama alguém, passar o resto da vida com essa pessoa, usufruindo dos mesmos direitos (ou quase) de qualquer outra dupla.
Tempos houve em que eu teria sido contra a lei aprovada ontem. Eram tempos no qual reinava o produto de uma educação católica, de direita e heterossexual tradicional. Esta educação forçava-me a avaliar como certo apenas o que era comum ou vulgar: uma normalidade condicionada.
Hoje mantenho-me heterossexual e levemente pendente para a direita, mas as experiências de vida levaram-me a encarar todos os cenários como possíveis.
Actualmente, não tenho pruridos em falar sobre o casamento homossexual. Não me custa aceitar que uma pessoa queira viver até o fim dos seus dias na companhia de quem ama, independente da cor, religião, posição política, profissão, cor clubística ou orientação sexual.
O que me custa, hoje em dia, é ver parceiros condenados a viver em relações falidas apenas porque "deus" impôs, ver mulheres batidas e violadas por mentecaptos, homens agarrados a mulheres irascíveis e fibromiálgicas, raparigas agarradas a príncipes que nunca deixarão de ser sapos. O que me custa é ver relações coladas com tudo, menos amor. Isso não quer dizer que estes problemas não ocorram com os homossexuais, onde também existem agressores e afins...
O que me custaria, ainda mais, era ter que ir às urnas votar esta lei. Custa-me ter que aguentar com a retórica do clero e beatas mal fodi"#! que vem para a televisão cuspir o seu ódio e intolerância. Se fosse para decidir se queria a porra do TGV, auto-estradas, 3ª travessia sobre o Tejo, ajudas a bancos, etc e coisa e tal, ía a correr para as urnas votar um valente NÃO!!!

A mim não mete medo o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que mete medo são comentários como os proferidos (no jornal da SIC, se não me engano) por um rapazinho, dos seus 20 anos, que professa o fim da raça humana com a aprovação dessa lei. A esse rapaz digo apenas que a lei não o obriga a casar com outro rapaz e que ele pode tentar passar os seu genes para a próxima geração... embora isso seja deveras deprimente.


Agora um vídeo para provar que sou hetero
Mr. Green



E a versão da Ana Carolina:




Eu Gosto De Mulher
Ultraje a Rigor
Composição: Roger Moreira

Vou te contar o que me faz andar
Se não é por mulher não saio nem do lugar
Eu já não tento nem disfarçar
Que tudo que eu me meto é só pra impressionar

Mulher de corpo inteiro
Não fosse por mulher eu nem era roqueiro
Mulher que se atrasa, mulher que vai na frente
Mulher dona-de-casa, mulher pra presidente

Mulher de qualquer jeito
Você sabe que eu adoro um peito
Peito pra dar de mamar
E peito só pra enfeitar

Mulher faz bem pra vista
Tanto faz se ela é machista ou se é feminista
'Cê pode achar que é um pouco de exagero
Mas eu sei lá, nem quero saber,
eu gosto de mulher, eu gosto de mulher
eu gosto de mulher

Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!
Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!
Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!
Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!
Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!

Nem quero que você me leve a mal
Eu sei que hoje em dia isso nem é normal

Eu sou assim meio atrasadão
Conservador, reacionário e caretão

Pra quê ser diferente
Se eu fico sem mulher eu fico até doente
Mulher que lava roupa, mulher que guia carro
Mulher que tira a roupa, mulher pra tirar sarro

Mulher eu já provei
Eu sei que é bom demais, agora o resto eu não sei
Sei que eu não vou mudar
Sei que eu não vou nem tentar

Desculpe esse meu defeito
Eu juro que não é bem preconceito
Eu tenho amigo homem, eu tenho amigo gay
Olha eu sei lá, eu sei que eu não sei,
Eu gosto é de mulher Eu gosto é de mulher

[Refrão]

Eu adoro mulher!
Eu não durmo sem mulher!

31 dezembro 2009

O último do ano

Este é o último post deste ano.
Serve para desejar a todos aqueles que passam os olhos naquilo que aqui escrevo um ano de 2010 repleto de coisinhas boas.
Espero, sinceramente, que o próximo ano seja melhor que 2009. Não me posso queixar, já que foi este ano que "recebi" a maior prenda de sempre, mas compreendo que, para a maioria das pessoas, 2009 não foi um bom ano.
Resta a esperança de que nos próximos 365 dias algo mude para melhor.

Um grande abraço e grandes festas na companhia dos que mais gostam.

Vemos-nos em 2010!


Fica esta imagem de uma cidade que adoraria visitar em 2010...



28 julho 2009

Pai sofre II

Sexta-feira passada, depois de um dia de trabalho e 250 Km de buraco com um pouco de estradas, fui à consulta de obstetrícia com a minha grávida.
Como a minha senhora tem a vã esperança de que a consulta comece a horas, chegamos cerca de 15 minutos mais cedo do que era suposto.
Resultado: em vez de esperarmos 1 hora, esperamos 1h e 15 minutos...
No entanto, o intuito deste post não é falar mal do facto de ter estado à espera, este post tem, como fundamental objectivo, explicar a tormenta que é passar 1h e 15 minutos a ver os "morangos com açúcar"!
Aliás, antes de mais, gostaria de saber uma coisita (se alguém me puder ajudar): porquê raio, todas as salas de espera deste país, equipadas com uma televisão, têm, como canal de eleição, a TVI? Já estive 45 minutos, numa sala de espera dos HUC, a ouvir a voz esganiçada da apresentadora do programa da manhã daquela estação, lado-a-lado das estroinas e coloridas roupas do Goucha! E não se pode fugir; está-se ali a ouvir, sim porquê para não ver basta virar a cara, mas meter dois dedos (ou outros objectos) nos ouvidos dá mais nas vistas.
E lá estava eu, petrificado. O medo não vinha do facto de saber que a consulta iria demorar,isso eu já tinha assumido como fatal, mas sim, do tempo de espera até ter a consulta. Poderia ser meia hora, 45 minutos,...
, e isso assustava.
Mudei de cadeira para uma que estivesse a uma distância na qual a imagem ficasse mais distorcida e o som chegasse em piores condições. Tal era ridículo numa sala de 20 m2
, mas o desespero tem destas coisas.
Desisti e resolvi que tentaria ver o mínimo possível. Tentei me acalmar com o facto de que poderia me interessar com qualquer coisa que estivesse na sala de espera e, assim, o tempo passaria mais depressa. Olhei à volta e pensei comigo mesmo no que, dentro de uma sala de espera de ginecologia/obstetrícia, teria o condão de me distrair. Nada. Não existe nada num lugar desses que distraia um homem. As revistas são de gajas, os poster são de aparelhos genitais femininos (sãos e doentes), as doentes/utentes só falam de coisas de gaja ou mal de outras gajas. Mesmo as fotos de mulheres nuas das revistas são de senhoras prenhes, algo que não desperta grande interesse em mim. Eu sei que existem taras por grávidas, epá, mas não é muito a minha "cena".
Restaram-me os comerciais da televisão, mas mesmo esses estavam todos virados para a desneuronização imberbe: girl-band que não lembro o nome, 200º CD dos morangos e reclame das, infindáveis e inúmeras, novelas da TVI.
Já disse que a TV estava em altos berros? Isso é outra coisa que acontece muito em salas de espera, mas fica para outro post, qualquer dia.
Continuando...
Falei, à minha esposa, que só o meu amor por elas fazia com que ainda não tivesse atentado contra a minha própria vida. Expliquei que estava assim por perder a "virgindade" dos morangos. Ela riu-se e disse que era por uma boa causa.
Via a minha vida a andar para trás e rendi-me à triste evidência de que teria de esperar e aguentar todo aquele cenário.
Os comerciais acabaram e voltaram as cenas da novela (?) adolescente. Decidi que iria prestar atenção para tentar encontrar assuntos de interesse para escrever um texto neste blog. Imaginei que seria simples, afinal tratava-se de um alvo fácil, tantas vezes ironizado e ridicularizado, tal e coisa, coisa
e tal... mas ainda foi pior. Aquilo não tem ponta por onde se pegue. Enredo? Figurino? Eu com uma handycam e dois putos escolhidos à sorte, à porta de um liceu qualquer, faria um trabalho muito melhor e, se tremesse um pouco a câmara, até colocavam o selo "independent cinema"!
Olhem que até têm o Nicolau a fazer de avô! Depois de "corrupção", "call girl" e afins, o quê porra faz ele aqui? Mas "prontos"...
A série(?) recomeçou com um casal de miúdos, que supostamente tinham menos de 16 anos, com uma brutal caneca de jola cada um, a falar de política estrangeira, cinema francês e literatura romântica; ok, não era bem isso, mas como não ouvi o diálogo supus que talvez falassem disso. Então o quê me chamou a atenção nesta cena? Toda a cerveja que bebi na vida não enchia a caneca daquelas personagens. Como é possível combater o alcoolismo adolescente se se passa a ideia de que é "cool" beber? Parabéns aos criadores desta treta.
Siga o baile.
Na cena posterior, aconteceu um flerte entre dois mini-actores. Na minha altura, as trocas de olhares duravam cerca de 0,001 seg e só eram detectadas por outros olhos muito atentos e... interessados. Depois disso passava-se a outros estratagemas: sorrisos, gestos e, se se tivesse coragem, partia-se para uma conversa. No flerte da TV, a rapariga choca, literalmente, nariz contra nariz, com o rapaz e... nada acontece; ficam mais uns intermináveis 2 minutos da cena a olharem-se fixamente, como um cão para a montra de um talho, com a saudável companhia de um Shot, sem nada dizerem ou fazerem. Assim, se dependesse deles, a humanidade desapareceria num futuro não muito longínquo; primeiro porque nada aconteceria, segundo porque, mesmo que acontecesse, o álcool diminui a espermatogénese.
À medida que as cenas foram passando, reparei que não havia ninguém feio dentre as personagens; ninguém nem gordo demais, nem magro demais; os rapazes altos, magros e com despenteados da moda; as raparigas de 16 anos, com corpos de 23, sem pingo de gordura e bronzeadas. Mas que puta de utopia! Quero já saber onde ficam as filmagens, catso!
As cenas na praia despertaram, um pouco mais, meu interesse. Dei uma cotovela, ao de leve, para chamar a atenção da minha senhora:
"Olha ali"
"O quê?"
"Olha aquela miúda a passar por trás dos actores"
"Tá com fio-dental, e daí?"
"E a que está a passar agora?"
"Hum... também. E as outras que estão deitadas também"
"Tá na moda?"
"Acho que não"
"Então fomos invadidos por cariocas..."
Comecei a imaginar a minha filhota a ver aquilo. Pensei em desprogramar a TVI lá em casa, de investigar bons colégios de freiras e falar das vantagens, beleza e pureza do lesbianismo. Pensei também na inutilidade de tudo isto e no chavão do "o que é proibido é mais apetecido". Não facilitam nada a vida de um bom pai (gaba-te, cesto...).
Pensei que tudo iria correr bem e que teria de ter fé no futuro...
Levantei-me e fui ter com a secretária.
"Boa tarde"
"Boa tarde"
"Poderia pedir-lhe o favor de mudar a TV para a RTP2? É que está a começar "a fé dos homens". Obrigado"

20 julho 2009

Pai sofre

Domingo. Passado o humor tempestuoso dos últimos dias, arranquei com a minha senhora para o Fórum Coimbra. Ela tinha pensado em comprar coisas para o enxoval do bebé.
Como, futuro, pai interessado que sou, não coloquei qualquer entrave e lá fomos nós para a cidade dos estudantes. Fiz os possíveis para ignorar o facto de ser domingo à tarde e, provavelmente, toda a população do mundo e arredores preencher aquela superfície comercial.
Chegando lá, nos dirigimos à única loja que interessava no momento: pré-natal.
Antes de mais, queria dizer que desconhecia por completo o conteúdo de um enxoval de bebé. Marinheiro de primeira viagem, não fazia ideia das milhentas coisas a adquirir para receber o fruto do pecado. São roupas, lençóis, edredões (é assim que se escreve?), detergente próprio para a roupa, "canguru"(?), etc, etc...
Chegando ao dito estabelecimento, fomos observando tudo o que estava à disposição. Eu comecei a desconfiar que a máquina de etiquetagem dos fulanos só tinha 3 algarismos: 30, 70 e 105. Tudo custava 30, 70 ou 105 €, passe o exagero.
"Quanto custa isto?", perguntava eu.
"São 70€", respondia a solícita vendedora, quase uma voz robótica.
E continuamos a vasculhar.
Pedimos um catálogo. Como pode uma loja de coisas para bebés ter um catálogo com quase 200 páginas? Como é possível existir tamanha quantidade de produtos para essa faixa etária?
"Já comprou almofada? E roupinha do 1º dia? E para a maternidade, já tem roupinhas? E mala para levar para a maternidade? E isso e aquilo, já têm?"
Confesso que senti uma leve vontade de abater a moça; sempre que eu pensava ter posto no monte o último produto, lá vinha ela com uma nova pergunta.
"Então, e já tem a faixa pro pós-parto?", mas ela ainda nem teve a criança, catso!!! " Tem aqui a nossa linha de produtos para o banho, fraldas, toalhetes, chuchas, biberons, banheiras, termómetros, blá, blá, blá, yada, yada, yada, etc, etc "... deixei de ouvir, entrei em transe zen e comecei a imaginar um mundo soterrado em toalhas felpudas com ursinhos e girafas, os bebés a planarem sobre as nossas cabeças como as pombas de um jardim no verão, libertando o mesmo que as aves, na cabeça dos incautos transeuntes...
"Olha, gostas mais deste ou deste?" perguntou a minha mais-que-tudo, numa esperança vã de que eu desse a carta de alforria ao meu cromossoma X.
"Hum...", fazendo cara de pensador, "o que tu quiseres, amorzito".
À esta altura do campeonato já tinha deixado de imaginar a conta no final da aventura e tinha desistido de ir à FNAC, o meu único lugar de interesse no centro comercial.
"Já adquiriram o carrinho? E o ovo, a alcofa, a cadeirinha, ..."
A estimativa de gastos que tinha no início já havia sido pulverizada há muito e começava a ficar abatido.
Decidi abandonar, por instantes, a dupla de senhoras e fui dar uma volta pela loja. Entretive-me a ver a quantidade de coisas que existem para proteger a criança: protectores para tomadas, armários, frigorífico, sanita (!), se é para proteger tanto, mais valia não ter a miúda. Vasculhei, depois, outras secções: brinquedos, carrinhos, roupas para a grávida, lingerie para grávida, produtos de limpeza, e outras tantas coisas que ainda estou a tentar perceber para o que, em nome de Deus, servem.
Achei piada ao soutien de amamentação. Aquilo parecia a porta de um castelo medieval e quase podia ouvir o ranger do fecho e o barulho da abertura a bater, pum, libertando uma aréola rosada e... fiquei vermelho, por segundos.
"Anda cá", a doce voz do meu amor chamava, e lá fui eu, bem mandado, "olha essa roupinha, tão gira".
Pensei comigo mesmo: "se disseres "fofinha" és um homem morto".
"É gira é", e, de soslaio, espreitei o preço, "mas de repente não gostei da cor..."
Depois de escolher alguma "mudas" de roupa, fomos ver o "canguru".
"Isto é simples" disse a vendedora, "apertam esta patilha, depois tem este botão aqui, mais este fecho, dão a volta por este lado, reviram isto e depois apertam assim e (se tiverem sorte) já está!".
"E ponho o bebé onde?", chalaço.
Passadas duas horas, chegou o momento da verdade: o pagamento. As duas carregaram-me como um iaque tibetano e lá fomos nós para a caixa. Quase precisei de um GPS para me orientar.
Depositei tudo na superfície brilhante da mesa de pagamento e começaram os "bips". As senhoras da caixa, a vendedora e a minha grávida conversavam, alegremente, sobre o maravilhoso mundo da maternidade; eu suava.
Inúmeros "bips" depois, a sentença:
"São XXX,XX €", faxavor.".
"Ó mulher, acho que vai ser filha única a nossa bebé!"
"Porquê?"
"Acabaram de me cair os tintins e rolaram para baixo daquele armário..."