05 outubro 2012
A cigarra e a formiga
09 setembro 2012
19 março 2012
Prisões

… foi então que ele lhe disse: “os índios não gostam de fotografias porque julgam que aprisionam a alma de quem é fotografado”.
“A sério?”, perguntou ela.
“Sim”.
Ela, então, calmamente, abriu a bolsa que trazia a tiracolo, retirou a carteira e, de dentro desta, uma pequena fotografia tipo passe. Segurou a foto numa mão e mirou-a durante alguns segundos. Fechou os olhos, suspirou profundamente e rasgou-a em 4 pedaços. Virou-se para ele e disse:
“Sendo assim, libertei-o para sempre... ou pelo menos em parte” – e perguntou, singelamente – “já agora, diz-me uma coisa, e para os que também estão aprisionados no coração?”.
08 janeiro 2012
Dia-a-dia

“- Meninos, amanhã queria que trouxessem um trabalho sob o tema “O dia-a-dia”, ok? Pode ser uma composição, um desenho, uma montagem, façam o que quiserem e o que mais gostarem, certo?”
E em coro as crianças responderam um sonoro “tá bem!”, arrumaram as coisas nas mochilas e foram-se apressadas, uma após outra.
Clara ficou preocupada. Pensava em como iria transpor para o papel um tema como “dia-a-dia”. O que quereria a professora que a malta fizesse em torno de um tema tão estranho? Poderia ter escolhido, sei lá, “o que fizemos nas férias” ou “brincadeiras”, mas “dia-a-dia”? Será que ela queria que ela trabalhasse em torno de um dia comum ou do que acontece no mundo actualmente?
Chegou a casa casmurra e foi lanchar.
“- Olá para ti também! Vens tão chateada porquê?”, perguntou a mãe.
“- Olá. A professora quer que nós façamos um trabalho para amanhã e não sei por onde começar”, respondeu.
“- E é sobre o quê mesmo?”
“- Sobre o dia-a-dia!”
“- Ai menina, se o trabalho fosse dado a mim seria tão fácil…”, sussurrou a mãe.
“- O quê?”, perguntou a menina.
“- Nada, nada”, respondeu a mãe a disfarçar, “come e vai para o quarto trabalhar, então”.
Clara chegou ao quarto, deitou as coisas sobre a secretária e… nada. Durante o que restava da tarde pensou no que poderia fazer e népias, nenhuma inspiração, nenhuma lâmpada sobre a cabeça, zero.
“- CLARA, VEM JANTAR!”
A menina sentou-se à mesa desolada. Ficara ao lado do pai como sempre e recebeu, do progenitor, um beijinho na testa.
“- Então, moço, como foi o teu dia”, perguntou a mãe ao senhor da casa.
“- Ó pá, sempre o mesmo dia-a-dia”, respondeu por entre um sopro de desalento.
Clara despertou: “o meu pai disse “dia-a-dia”?”
“- Um gajo só ouve falar de “crise”! Já estou farto, mulher! Isso está como nos dias de inverno: tudo nublado a ameaçar tempestade. Um gajo anda sempre na corda bamba, num emprego que o patrão quer cortar à força toda.”
“- Tem calma, há sempre uma luz ao fundo do túnel”, acalentou a esposa.
“- Já não sei, linda, cá para mim o nosso futuro passa por emigrar, ainda só não sei para onde! Se caio desse emprego aterro no inferninho, não é? Vemos o meu salário voar todos os meses, imagina se ficamos sem ele? Agora só se ouve a troika, tal deus, a mandar em tudo e em todos… humpf”.
“- Anda cá, faço-te um miminhos”.
“- És um anjito…”
Clara saltou da cadeira e correu para o quarto, nem ligou aos chamamentos da mãe para que voltasse para a mesa. Não queria perder a inspiração.
No outro dia quase não tomou o pequeno-almoço. Saiu a correr em direcção ao autocarro com a mochila às costas e uma cartolina azul sob o braço.
Clara chegou à casa radiante. Tinha um sorriso tão grande quanto o daqueles “smiles” amarelos. Vinha de peito feito e quando viu a mãe saiu a correr para lhe contar a boa nova.
“- Mãe, mãe!”
“- Elá, miúda…”
“- A professora gostou imenso do meu trabalho, queres ver?”
“- Calma, calma. Claro que quero ver. Mostra-me”
E Clara, então, estendeu a cartolina azul sobre a mesa.
“- Graças a ti e ao pai consegui arranjar a ideia para o trabalho.”

“- Tive nota máxima: ex-ce-len-te!”, comemorou a menina, "a professora até suspirou!"
"- Pois, pois, como eu a compreendo..."
05 dezembro 2011
Esmola - repost

Sexta-feira caminhava pela cidade, preocupado em comprar uma prenda de aniversário para a minha "mais-que-tudo". Apressado e olhando para todas as montras, queimava meus (poucos e cansados) neurónios na tentativa de imaginar algo que fosse "simpleszinho mas bonitinho".
Nessa confusão, passei pelos correios e, mesmo ao lado da porta, como um guardião, um senhor de idade e com a mão estendida segurava uma boina virada para o céu. Não dizia nada mas pedia uma esmola.
Passei por ele como um Ferrari passa por um carocha na A1, mas a minha consciência (que carinhosamente chamo de Ofélia), essa senhora da vida que mora na minha mente e não paga renda, picou e moeu a minha cabeça, chamando-me nomes por não ter dado atenção àquela pobre alma.
Defendi-me dizendo que não era o único e que outras pessoas passaram por ele sobranceiras, ignorando-o imperialmente; ela simplesmente mandou-me pró car"#$.
Não sei se existirá "conciêncicídeo", de qualquer forma tal acto teria que passar, inevitavelmente, por um suicídio, o que não me agradou muito naquele momento.
Decidi que se comprasse alguma coisa, em qualquer loja, passaria de propósito à frente do senhor e deitaria, na sua boina, uma quantia qualquer de dinheiro.
Dito e feito, após adquirir algo que fizesse a minha senhora esquecer o erro que cometera há alguns anos, passei pelo homem e "amandei" para a sua protecção capilar duas moedas de 0,20€ que tinha a mais na carteira. As moedas aterraram no chapéu e não bateram em mais nenhuma; as pessoas estavam tão imbuídas de espírito natalício que, na rua, só viam pais-natais, duendes e corninhos de renas.
O homem instantaneamente sorriu um sorriso vazio e disse: "Muito obrigado e um feliz natal!"
Aquilo desconcertou-me e, apesar de ser algo que eu já esperaria que o homem dissesse, foi dito de uma forma incrivelmente verdadeira e agradecida. Algo que, se calhar, não faço todos os dias.
Fez-me muito bem e concluí que, afinal, aquela esmola não foi para ele: foi para mim.
05 agosto 2011
Fugir por amor...

“Vamos fugir deste lugar, baby, vamos fugir”
“Não posso, sabes bem”
“Mas porquê? Pela tua família? Pelos teus amigos? Pela tua boa vida?”
“É por tudo, amor. Não posso abdicar das coisas que tenho em casa. Se for contigo tenho que me virar sozinha, certo?”
“Não sejas tonta, querida, eu trabalho para ti. E se as coisas não correrem bem, viveremos de amor!”
“És um romântico… e também um grandessíssimo pateta! Amor não enche barriga, ok? Tu és um “D. Juan” que só me quer saltar para as cuecas!!!”
“Se pelo menos usasses umas…”
“És mesmo tonto”
“Anda lá, ninguém vai sentir a tua falta. Eu sei do que falo. Já vivi em muitos lugares e ninguém quis saber. Já me fui embora inúmeras vezes e ninguém me chamou de volta.”
“Mas tu sempre foste um solitário. Talvez não percebas o valor de uma família. A minha não é assim, tá bem? Nunca me abandonaria! E eu não sou capaz de o fazer. A minha família sempre fez e faria tudo por mim."
“Mas só eu te dou amor. Só eu sei fazer o quê e como tu gostas, não é verdade, minha coisita fofa?”
“Pára lá com isso… não mexas aí… ui… OK! O que tens em mente?”
“Hoje, pela meia-noite , venho buscar-te e…”
Na manhã seguinte, a menina foi até a porta de casa e gritou pela sua cadelita. Insistiu muitas vezes naquele dia e nos seguintes sem nunca obter resposta.
A menina, a sofrer, chorou durante muito tempo até ouvir a bonita história da pequena caniche que foi seduzida por um rafeiro e que se foi embora por amor... coisas de pai para apaziguar coraçõeszitos inocentes.
17 julho 2011
A confissão

Maria sentiu o telemóvel a vibrar no bolso apertado da calça de ganga. Estava no silêncio, não queria chamar a atenção a meio da aula. Retirou com grande discrição o aparelho e não conteve um sorriso assustado ao ler o que continha a missiva electrónica:
“Maria, estou há algum tempo para te dizer algo que só pode ser dito pessoalmente. Um segredo que não posso mais esconder. Se puderes, vem ter comigo ao nosso lugar depois das aulas. Bj. Marco”.
Marco era o melhor amigo de Maria. Era “apenas” o melhor amigo porque Maria ainda não tinha tido coragem de lhe dizer que o queria de outra maneira. Duma maneira como nunca quis ninguém. Queria-o muito para além da amizade, muito para além do abraço e do beijo fraterno na face.
Enquanto caminhava apressada para casa, conjecturou inúmeros cenários para a tão esperada revelação. “Será que esse segredo é o que eu penso?” , pensava. Imaginou o amigo de joelhos a confessar o quão difícil foi criar coragem para lhe dizer que a amava e a dificuldade de esconder tal sentimento. Imaginava “Nothingman” a tocar ao fundo e o sol a esconder-se por trás dos montes que se vêem de onde se costumam encontrar. De tanto antecipar a cena nem deu por ter chegado à sua casa.
Foi ter com a sua irmã gémea, Laura. Mostrou-lhe a mensagem como que desvendando o terceiro segredo de Fátima. Laura ficou boquiaberta, mirou Maria nos olhos e abraçou-a. Ao saltos no meio do quarto pareciam duas tontas do tempo do liceu quando bastava um olhar do menino bonito da turma para perderem as estribeiras.
Laura dizia repetidamente “o que é que eu te disse? Não te tinha dito? Eu sabia, eu sabia!”. Riram-se desalmadamente, conversaram em algazarra, de tal forma que toda aquela maluqueira chamou a atenção dos seus pais.
“O que combinaste com ele”, perguntou Laura.
“Vamos encontrar-nos na encosta”.
“Oh, man”, suspirou, “vai ser uma cena digna de um bom filme meloso”.
“Estás é com inveja” e mostrou-lhe a língua.
“Maria, quem não estaria? O homem é tão jeitoso!”.
“O que visto para esta ocasião?”.
“Vais sexy e irresistível, mana!” disse Laura enquanto corriam para o roupeiro do quarto de Maria.
Depois de uma curta procura, encontraram um vestido que concordaram adequar-se à situação.
Laura penteou a irmã, aplicou umas mistelas coloridas na sua face e ajudou-a a maquilhar-se.
Depois de algum tempo Maria pousou para si própria à frente do espelho: estava linda… ainda mais.
Como combinado, Maria foi ter com Marco à encosta que fizeram seu ponto de encontro. Naquele lugar já lhes tinham corrido litros de saliva em longas conversas e cantigas de escárnio. Foram cúmplices de vários crimes de difamação e, se aquele lugar pudesse falar, teriam muito com que se preocupar.
Marco já lá estava. Visivelmente nervoso, olhou para ela e soltou um “uau” prolongado e com vários pontos de exclamação.
Ela sorriu… e corou.
Depois de um curto período para se acomodarem nos devidos lugares, Marco começou a conversa libertando uma voz estranha e tremida:
“Maria, já deves imaginar porque te chamei cá”.
“Imagino” respondeu Maria prontamente.
“Não sei por onde começar. Juro não ter sido a minha intenção, mas aconteceu sem me aperceber e agora estou assim: numa encruzilhada. Sabes que eu gosto muito de ti, que és a minha melhor amiga e que não podia te esconder nada”.
“Sim, Marco. Eu compreendo…” dizia sôfrega.
“Deixa-me falar ou passa-me a coragem. Maria, vou contar-te meu segredo, vou confessar-me…”
“Diz-me, Marco”.
“Maria, estou apaixonado!”
E os olhos da moça humedeceram-se…
Maria chegou à casa lívida e visivelmente perturbada. A irmã, que a esperava “em pulgas”, ficou preocupada com o estado da moça.
“Maria, o que se passa? Porquê estás assim? Diz-me, mana, diz-me!”
Maria então chorou. Deu um abraço tão apertado à Laura que conseguia sentir o seu coração assustado.
“Sabes que eu amo-te profundamente, Laura” e, olhando-a profundamente nos olhos, completou “e o que se passou é que o Marco também…”
05 junho 2011
4

4
A professora já não suportava mais. Aquela era a pior turma que alguma vez tivera a seu cargo. Nos seus longos anos de experiência nunca vira nada assim e a sua já pouca paciência esgotava-se a cada dia.
Eles gritavam, eles brigavam, mandavam papeis, borrachas e bocas uns aos outros.
Já tinha sido insultada, humilhada e desrespeitada de todas as formas e feitios por aqueles pequenos estafermos. Já não os suportava e, vindo de alguém que os devia "adoptar" como aprendizes, isso era terrível e inaceitável.
Por causa daqueles alunos iniciara uma incursão no mundo da piscofármacologia. Sentia-se nervosa só de pensar em pisar a sala de aula; as sextas-feiras eram de alívio e os domingos à tarde de terror.
Decidira acabar com este sofrimento. Não merecia essa cruz. Ia rebelar-se!
Chegou à sala naquela segunda-feira de manhã e viu o que via todos os dias: algazarra. Uns gritavam, outros corriam, mais um em cima da sua secretária e uma que escrevia no quadro enquanto o colega a usava como alvo para as suas bolas de papel. Nem notaram a sua entrada.
Escostou-se, invisível, à um canto, encheu-se de coragem e...
- CALEM-SE! TODOS SENTADOS! - a plenos pulmões, vindo do mais fundo, do mais recôndido e escondido canto escuro do seu espírito.
A sala de aula congelou-se. Todos ficaram imóveis como se alguém parasse o tempo. Espantados, viram no semblante da, outrora paciente professora, algo nunca antes observado. Algo estranho, novo e assustador. Um frio lhes correu espinha acima.
- SENTADOS, JÁ DISSE! NÃO VOLTO A REPETIR!
A pequena trupe então sentou-se. Expectantes, aguardavam o que dali viria.
A professora viu-se num impasse. Agora não poderia voltar atrás. Iniciou uma viagem sem retorno; uma batalha onde não poderia ceder um milímetro. Pensava no que fazer já que alguns insistiam em desafiá-la; riam-se baixinho, nervosos mas provocadores.
Decidiu-se por dar-lhes uma lição que jamais esqueceriam. Lição essa que pagaria com juros tudo o que lhe haviam feito passar até então. Ficariam "quites". Correria riscos, mas agora encontrava-se no ponto de não retorno.
Escreveu "2+2= " no quadro negro. Olhou para a turma e chamou: Pedro.
Não era aleatória a escolha pelo Pedrinho. O Pedrinho era o maestro daquela sinfonia dos infernos. Era o general, o padrinho, o pastor daquele rebanho de pequenas "Maria-vai-com-as-outras".
O Pedrinho era filho único. Gostava de toda a atenção que lhe pudessem dispensar. Gostava de ser o centro do universo e tudo fazia para que o considerassem assim.
Não era um rapaz brilhante, muito pelo contrário, e por isso mesmo chumbara alguns anos. Dessa forma era o maioral da turma, o mais velho, o mais alto e forte... e aproveitava-se disso. Não havia orelha na turma que já não tivesse sido aquecida pela mão do Pedrinho, nem rabo que não tivesse a marca de uma das suas sapatilhas.
Era um arruaceiro, um desordeiro e um candidato a futuro delinquente.
O Pedrinho era o alvo (e o exemplo) perfeito para a lição das lições.
- Pedro, anda cá ao quadro e resolve esta conta.
O menino levantou-se e desfilou desdém entre o corredor de carteiras. Sorriu para os outros, confiante, com a arrogância de quem já conta com a vitória antes do jogo acabar.
A professora entregou um pedaço de giz ao rapaz e insistiu no pedido.
- "Stôra", não vou resolver - diz matreiro.
- Ai não? Porquê? - pergunta a professora.
- Porque não sei.
- Não sabes? Como não? Claro que sabes.
- Ó "stôra", não sei nem quero saber! - e vira as costas à educadora.
Foi então que sentiu a mão quente e húmida da professora a agarrar-lhe o braço.
- Não te mandei sentar. Tu hoje sais daqui a saber matemática, meu amigo. Olha aqui, que número é esse?
- Não sei, nem quero saber, já disse e...
- É UM "2"! - e conta "1" e "2" enquanto desfere dois valentes estalos nas bochechas rosadas do rufia.
O Pedro estremece. Não estava à espera nem sabia de onde vinha aquela mão cheia de dedos.
A assistir a cena, a turma toda em suspensão, aturdida, boquiaberta, a beliscar-se...
- AGORA CONTA COMIGO: 3 E 4! - mais dois tabefes na cara do puto - ENTÃO QUANTOS SÃO 2+2, HÃ? DIZ LÁ, RAPAZ, DIZ!!!
- São 4, "stôra", 4!!! - lutando para não chorar à frente dos colegas (luta inglória).
- Vês? Vês como sabes? - diz calma e ternamente a professora - meus parabéns, Pedro. Pronto, agora vai, meu rapaz, vai-te lá sentar.
A professora lutava para esconder o tremor das mãos e a ansiedade que lhe inundava a alma.
- Alguém mais tem dúvidas? -perguntou à turma com um sorriso doce nos lábios - algum de vocês quer fazer alguma pergunta? Sabem todos quantos são 2+2?
- SIM, Sra"stôra", são 4 ! - responderam em uníssono.
- Muito bem! Então assim sendo, abram os vossos livros na página 26 e ...
Desde então, nunca se vira naquela escola turma tão trabalhadora, organizada e orgulhosa da sua mestra e, ainda na semana passada, ficou-se a saber que o Pedro acabara a licenciatura em Engenharia com distinção.
Já diriam os sábios populares: "nada como um bom estímulo".
14 maio 2011
Zunido
Estava deitado. Olhava para um céu negro nocturno de onde espiava uma lua minguante e envergonhada.
Tentou levantar-se para tentar compreender onde estava e o que se passava. Viu então muitos vestidos de igual e armados. Uns gritavam palavras de ordem e acenavam, outros apenas gritavam enquanto alguns caíam e não mais levantavam.
Deu-lhe então um click: “estou em combate!”
Tinha treinado para aquilo. Tinham-no tornado insensível, destemido, frio e impiedoso. Tinha sido dos melhores da sua turma; nenhum atirava como ele, nem tinha sua força ou destreza. Era um lutador terrível e todos o temiam.
E ali estava ele: o produto do que lhe ensinaram e do treino que o preparara para a guerra... mas aquilo era tão mais real.
Ao olhar para a frente da batalha pôde ver o corredor de fogo que iluminava a noite uns quilómetros mais à frente. De lá conseguia ouvir os gritos de horror e a colecção de últimos suspiros que ia crescendo à grande velocidade.
A custo, e também graças a empurrões vários do seu superior, foi avançando pelo terreno tornado irregular pela carne humana deixada para trás. Ouvia o zunido do enxame de balas que passavam ora ali e acolá; rezou pela primeira vez em anos…
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ foi o que ouviu antes de sentir uma força brutal, que o enviou ao chão uns bons metros atrás, seguida de uma dor lancinante que começou no peito e logo passou-lhe à alma.
Sentiu um gosto estranho na boca que o lembrou do tempo de pequenino quando lambia as feridas depois dos jogos de futebol.
Ouviu os pedidos do médico do pelotão enquanto sentia as mãos de um companheiro a segurar a sua e a pedir para se aguentar.
Já pouco se podia fazer e daquele jovem tornado Homem duro, rude, frio e temido, só ouviram mais uma pequena frase; uma pequena frase que dava sentido a tudo naquele momento:
“Eu quero a minha Mãe”
13 abril 2011
Aike

Aike
Era uma tarde copiosamente infernal de Agosto e sentia o vento quente a queimar-lhe a cara enquanto caminhava à beira mar. Acompanhavam-no, no passeio “molha-pés”, inúmeros idosos, aparentemente imunes ao melanoma, torrados, suados, enrugados mas sorridentes.
Tentava abstrair-se do cenário escondendo-se por trás de uns óculos espelhados e um boné dos Bulls. Distraía-se ao som da “Alive” que ouvia no Walkman® escondido num dos bolsos dos calções.
Era tímido mas gostava destes andares à margem marítima para “micar” as garinas. Andava à caça mas tinha pouco da arte da rapina.
Sentou-se. Começava a sentir os efeitos da resistência daquele solo e do brasido solar.
Concertou o rabo na areia enquanto virava a k7 para o lado B: “Jeremy”…
Viu-a sentada um pouco mais à frente. Ela era uma rapariga de tez alva, silhueta esbelta adornada por longos cabelos pretos e lisos.
Engoliu em seco: era uma oportunidade. Porque não arriscar? O que tinha a perder?
Levantou-se a custo e deixou-se ir, lutando com a irregularidade do chão e das pernas.
“Olá. Tudo bem?”
Ela ficou espantada a olhar para ele. Seus pequenos olhos negros pareciam dois enormes pontos de interrogação, uma cena parecida com os desenhos animados feitos no seu país.
“No entendo” respondeu em meio a risinhos escondidos por trás da mão.
“Speak english?” falou ele no seu inglês macarrónico.
“Yea”
Ele sorriu. Parece que o risco valera a pena.
Falaram durante muito tempo. Falavam sobre as diferenças culturais, sobre a gastronomia, sobre anime (que ele adorava), sobre música, sobre futebol…
Ele estava impressionado com a figura da moça: exótica, simpática e simples. Ela estava encantada com a maneira de estar dele e com seu sorriso.
Olhavam-se como se olha a ídolos.
“Say something in japanese” pediu o rapaz.
“あなたが面白いです” disse ela.
“What it means?”
“Say something in portuguese first” exigiu ela.
“Ok. Ai que ternura” disse ele.
“OMG. Are you a psychic or something?!” ficou incrédula.
“What? Why?”
“How do you know my name?”
“I don’t know your name.”
“You already said”
“No, I didn't. I don't know your name. You didn’t tell me. But now i'm curious, what is your name?”
Fez suspense: “My name is Aike. Aike Tenura”.
Aquele verão de 1994 foi o melhor de sempre.
06 março 2011
Pai Sofre XVII: minha Alice
Minha filha caminha pela sala com uma fantasia que a mãe lhe comprou: Alice.
Alice caiu no país das maravilhas; assim caí eu ao vê-la. Fui transportado pela sua inocência, em conjunto com o fim-de-semana, para o seu país.
No país da minha filha “Alice” não existe pressão, não existe desemprego, a comida vem ter à mão, o banho vem acompanhado por carinho, é-se limpo, mimado, amado e posto a dormir ao som de um “boa noite” meloso e verdadeiro. No seu país, todos sorriem à sua passagem, riem-se às suas tentativas de articular as palavras ou da sua forma engraçada de andar. No seu país ela é o centro do universo.
Tive inveja, por segundos, ao vê-la correr sorridente pela casa, segurando qualquer brinquedo na mão, cheia de esperança e vivacidade. Inveja pela ignorância do que o mundo realmente é: pouco maravilhoso. Viver assim, no desconhecimento do que nos rodeia, deve ser muito bom. Tudo é descoberta, tudo é realmente fantástico e maravilhoso, mesmo que a aprendizagem inclua algumas quedas e outras dores esporádicas. É pena que são, exactamente estes, os anos dos quais nos esquecemos.
Gostava de mantê-la assim: escondida do mundo real. Mantê-la no seu mundo inocente onde os gatos falam e as cartas não se jogam a dinheiro. Gostava de a manter nessa utopia da infância, protegê-la dos monstros, dos mentirosos, dos políticos, dos religiosos. Gostava de a escusar da violência que abunda pelo mundo. Gostava escondê-la deste pai actual: triste, desanimado e preocupado com o seu futuro e do seu(sua) irmão(ã) que ainda está para chegar.
Até terça-feira é Carnaval. Nada se leva a mal. Vou manter-me a aproveitar do mundo maravilhoso da minha filha “Alice”, aquele farto em riso, pureza e paz. Vou beber dessa esperança doce que ela traz no abraço. Vou descansar minha cabeça no seu colo e sorver todos os seus “miminhos acelerados”. Vou comunicar no seu idioma ininteligível (para alguns). Vou ver bonecos na televisão e cantar canções tolas. Vou ser feliz. Vou ser o seu “Cheschire Cat”.
Vou "orar" para que o tempo passe devagar e que não encontre o túnel de volta ao mundo pouco maravilhoso.
Também para o desafio "violência" (mas não muita, que já estamos a ficar fartos) para a "Fábrica de Letras":

08 janeiro 2011
Honesty
Honesty
Ele era honesto. A sinceridade era uma das suas principais virtudes.
John vivia em Sidney e desde criança teve problemas com os outros.
Não suportava a mentira, a falsidade e o vira-casaquismo.
Na escola era o alvo dos colegas. Vivia levando nas trombas porque era incapaz de ficar calado e os mais velhos amaciavam-lhe a carne. Respondia a alguns professores desvendando-lhes a ignorância. Tinha as suas próprias opiniões e as expunha sem pruridos… e levava mais um pouco. Ao chegar à casa mais uma saraivada de miminhos acelerados perante os resultados escolares.
Os feios batiam-lhe quando dizia que eram feios. Os bonitos chegavam-lhe a roupa ao pêlo quando dizia que eram falsos. Os gordos e velhos não chegavam a bater-lhe porquê John era um óptimo corredor.
Nunca teve sucesso com as miúdas. Gostava de dizer que ficavam pirosas com certas pinturas, ridículas com algumas roupas e estúpidas com determinadas companhias. A sua cara era destino certo de algumas mãos mais revoltadas e os lábios nunca encontraram seus semelhantes.
John passou grande parte da sua vida desempregado. Tinha grande dificuldade em adaptar-se a trabalhos escravos, em lamber-botas e ficar em silêncio perante as injustiças/mentiras de patrões e sindicalistas. Era insultado pelo chefe e ostracizado pelos camaradas; os patrões ignoravam-no até o dia de o despedirem.
Nunca foi bem recebido em qualquer comunidade. A muçulmana quase o matou quando John criticou o fundamentalismo. A católica o esconjurou quando ouviu a sua opinião sobre as cruzadas, a inquisição e a oposição à camisinha. Os indianos e paquistaneses ofenderam-se sobre a dissertação relativa à Caxemira. Os portugueses voltaram-lhe as costas quando opinou sobre os bigodes, barrigas fartas e as cusparadas pró chão. Os italianos atentaram contra sua vida quando disse que preferia a massa grossa da pizza. Os australianos, os chineses, os africanos, pura e simplesmente ignoraram-no…
Mesmo ele irritava-se quando se olhava ao espelho e opinava sobre o que via. Muitas vezes sofreu por se criticar a si próprio mas, passados alguns anos, entendeu que isso o fazia crescer como indivíduo.
John nunca votou, nunca cumpriu o patriótico serviço militar, nunca teve religião, nunca foi a um jogo de futebol, nunca gostou da grotesca "arte" tauromáquica, nunca deu importância ao dinheiro: nunca foi normal.
Nunca entenderam a sua forma transparente, pura e verdadeira de estar na vida.
Um belo dia, decidiu fugir de Sidnei. Resolveu abandonar a terra cuja beleza o encantou desde pequenino. Resolveu ir para um lugar onde o sol e o mar se mantivessem seus companheiros.
Veio desembarcar num pequeno aeroporto do sul de Portugal. Instalou-se em Vila Moura e lá criou um pequeno restaurante onde a sinceridade e honestidade seriam a alma (e o slogan) do negócio.
Afinal a honestidade compensa: John ficou rico.
Nota: história fictícia mas imagem verdadeira (tirada com o meu telemóvel em Vila Moura).
13 outubro 2010
Lenda
Para o desafio "O cheiro da chuva" da Fábrica de Letras:

Há muito que não chovia no sertão. Nem uma pinga d'água despejada por São Pedro nos últimos 15 anos.
Naquelas bandas poucos insistiam em cavar terras que há muito deixaram de fazer nascer o que quer que fosse.
O rio sem nome, que cortava a cidade, era um fóssil que deixara de alimentar poços, hortas e expectativas.
A única água do lugar provinha das gotas de suor das gentes que teimavam em cultivar a única coisa verde que ainda existia: a esperança.
Diziam ser maldição adquirida durante as últimas chuvas. Naquela altura chuvadas abundantes quase apagaram a pequena cidade do mapa. Muitos pediram pelo fim da calamidade: oraram, fizeram promessas, imploraram aos céus para que as águas cessassem e elas cessaram… para sempre.
Francisco apareceu nessa enchente. Vinha embrulhado, em tecidos toscos e rasgados, dentro de uma caixa de madeira usada para transportar frutas. Ninguém nunca soube de onde viera o menino e muitos imputavam nele parte das culpas.
Foi adoptado por um casal jovem, ainda sem filhos. Deram-lhe guarida quando todos o queriam devolver às águas do agónico rio da cidade. Resolveram criá-lo, na esperança de que Francisco pudesse ser a cura em vez da doença.
Francisco carregara o fardo de maldito ao longo da infância. Se vissem nuvens carregadas ao longe e as mesmas desaparecessem, Francisco já sabia o que lhe aconteceria e corria para a casa de barro dos pais.
As outras crianças ostracizavam-no. Desejou, por muitas vezes, desaparecer tão misteriosamente como aparecera.
Então, numa copiosa tarde soalheira de Dezembro, uma família retirante chegou à cidade. A família Silva era composta pelo casal e seus 6 filhos. Caminhavam há semanas pelas terras secas do sertão e procuravam descansar por uns tempos no lugarejo. Diziam estar de passagem e que a estadia seria breve.
Nessa trupe nómada morava Etelvina, uma menina de olhos e cabelos negros, pele queimada do sol, que conquistou o triste coração de Francisco.
Os dois conversavam durante horas, sentados às margens do rio seco, observando os montes que cresciam no horizonte longínquo.
Ela falava-lhe das paisagens agrestes que conhecera, do calor abrasador do dia e do paradoxal frio da noite, da fome, da sede, da solidão de uma viagem sem rumo ou destino. Falava-lhe do passado e imaginava um futuro um pouco melhor.
Francisco ouvia-a, apaixonado. Sentia uma comichão estranha que lhe percorria o físico sempre que ela lhe lançava o olhar. Sorvia-lhe cada palavra e saciava o espírito com o seu riso.
Nunca se sentira assim. Por momentos esquecera de onde estava. No seu campo visual não cabia nada que não fosse aquela menina, qual imagem de santa aos olhos do pagador de promessas.
Sentia o corpo a responder de formas estranhas: taquicardia, polipneia, visão turva, mania e uma sensação avassaladora de plenitude. Com Etelvina tudo podia, tudo conquistava, tudo era melhor, não era mais maldito.
Na flor dos seus 15 anos, Francisco sentia-se cada vez mais viciado e precisado da sua dose diária de amor...
Tal como prometido, a família levantou ferro e partiu pouco tempo depois. Foi-se embora ainda o sol era um esboço no céu limpo do sertão.
Francisco, que sonhava com Etelvina, não estava preparado para esse pesadelo.
Ao saber da partida inesperada dos Silva, também Francisco partiu. Fugiu para o isolamento em direcção aos montes, seguindo o rasto do extinto rio e deixando para trás a maldição que residia naquele lugar.
As pessoas vieram a correr. Todas gritavam, agitadas, em estado de ansiedade descontrolada. Anunciavam que o rio voltara a correr, que se fizera um milagre: o rio voltara a nascer sem sinal de pinga do céu, sem o vento e o cheiro característicos da chuva.
Declararam ser um rio de água salgada e baptizaram-no de Rio São Francisco.
Luís Fernandes Lisboa ®
05 setembro 2010
Monopoly Portugal

Imagem aquiEstive a jogar Monopoly.
Comecei na casa de partida e recebi dinheiro, não sei bem de onde e muito menos porquê, a fundo perdido.
Iniciei a minha participação e logo comprei algumas propriedades em Lisboa e um terreno na Faria Guimarães, no Porto, a partir de leilões das Finanças e após conversas, off-record, com colaboradores de um banco público.
Continuando o jogo, consegui acções da companhia de electricidade. Como se tratava da única companhia do género achei que seria um bom negócio. Ora, segundo informações fidedignas, as acções até iriam subir após a minha aquisição. Tornei-me accionista maioritário e aumentei o preço da energia aos jogadores que, inadvertidamente, contratavam o serviço. Mais tarde, por sorte (e contactos vários) obtive a maioria das acções da companhia das águas.
Logo a seguir, consegui angariar mais algum dinheiro da Caixa Geral de Dep... peço desculpas, Caixa da Comunidade. Disseram-me que tinha havido um erro do banco a meu favor e depositaram, na minha conta à ordem, alguns milhões sem importância. Com essa verba adquiri mais algumas propriedades na capital, no Porto e em Coimbra.
Entretanto, em algumas jogadas de mestre, lá consegui saber da privatização da companhia de comboios e assumi o controlo de todas as estações disponíveis, o que me deu um grande jeito e um enorme lucro.
Nesse momento, tornava-me o jogador que mais lucrava no jogo mas tive um pequeno contratempo: começava a chamar a atenção e, após algumas denúncias (e um pouco de azar nos "dados" apresentados) fui parar à prisão. Porém, graças a um cartão providenciado por altas instâncias, vi-me livre da cadeia sem precisar sequer de um advogado.
Posteriormente, e resolvido quele quiproquó, decidi construir casas e hotéis em todas as minhas propriedades. Graças a uns amigos na Câmara de Lisboa, do Porto e de Coimbra, consegui que todos os projectos que propus fossem aprovados sem grandes contratempos ou alaridos, e mesmo contra algumas votações em câmara de vereadores. Nada como um bom e$tímulo para $e tomem $ábias deci$ões.
Estava no topo, ninguém podia contra mim, pouco a pouco fui eliminando os adversários e o futuro de riqueza mantinha-se risonho.
Mas foi então que aconteceu o pior.
Ninguém gosta de ser passado para trás, principalmente pelo melhor amigo.
Ninguém gosta de ser enganado, extorquido e, depois de tanto trabalho, perder tudo o que amealhou com muito esforço.
Ninguém gosta de ser traído...
Tive de ajustar contas e pagar por alguns "erros" que cometi:

Mas não me dei por vencido: processei-o, fiquei com o resto dos seus bens e mantive-me altivo e confiante rumo ao monopólio Portugal.
Luís Fernandes Lisboa ®
14 agosto 2010
Dead man

Carlos estava preso. Tinha sido encomendado à morte e aguardava agora ansioso para lhe encontrar a foice. Estava cansado de esperar e a angústia lhe apertava o coração agónico.
Levantou-se naquela manhã para espreitar o longo corredor que via da pequena janela da porta; mal conseguia ver onde terminava. Disseram-lhe que seria por ali que passaria pela última vez. Sentiu um previsível nó no estômago, mas não resistia a essa investigação diária do seu último caminho, como se perguntando se ainda estaria lá.
Pensava muito na sua sentença. No início sentiu uma revolta enorme. Sentira-se sempre inocente e vociferou contra aquela injustiça. Agora, passados alguns meses, depois de meditar e conversar com aquelas paredes brancas, reconhecia a sua culpa. Já não adiantava chorar, bater com as mãos no colchão duro ou com a cabeça nas paredes. “O que está feito, feito está”, e rendeu-se…
Estava decrépito, exausto, perdera o apetite e, ao observar-se no espelho, também o amor próprio.
Restava-lhe aguardar até que o carrasco lhe viesse buscar.
Nessa mesma manhã esperava pela visita do melhor amigo, e advogado pessoal, Dr. Dias. Ansiava por esse contacto semanal como alguém, perdido num deserto, anseia por um oásis.
“Olá Carlos. Como está?”, sussurrou-lhe ao ouvido durante um longo abraço.
“Ó Dias, uns dias mau, outros pior. Há períodos em que não me conformo mas, mesmos esses, são cada vez mais raros. Estou farto de esperar e é isso que dói! As tuas visitas lá me vão elevando um pouco a moral”
“Amigo, folgo em saber que, pelo menos para isso, posso ser útil”
“Dias, falaste com os daqui? Ainda posso ter esperanças?”
“Carlos, falei com o Dr. Vasconcelos. Não há grande esperança e, embora não possa ser preciso quanto à data, não tens muito mais tempo.”
“Porra, pá! Então que cumpram logo essa sentença!”
“Sabes que essas coisas não são assim. Existem ordens Superiores… vais ter que te aguentar”
Depois de mais alguns minutos de conversa, os amigos despediram-se:
“Ainda te volto a ver, Dias?”
“Posso não estar aqui quando te fores…”
“Deixa estar, amigo, levo-te no coração na mesma” e sorri em despedida.
Carlos acordou a meio da noite em sobressalto. À sua volta 5 pessoas lhe tentavam manietar. Quatro deles lhe seguraram os membros enquanto outro lhe injectara algo nas veias.
E sentiu tudo à roda, pouco a pouco deixou de resistir. Tinha dificuldades em respirar e mal ouvia o coração: Deixou-se ir.
Os 5 mantinham-se à sua volta, controlando seus sinais vitais, até que Carlos, finalmente, encontrou a foice.
“Estou? Posso falar com o Dr. Dias?”
“É ele mesmo. Quem fala?”
“Olá, Dr.. Aqui é o Dr. Vasconcelos. Tenho a informar que o Sr. Carlos faleceu esta noite.”
“Meu Deus, não me diga…”
“Ainda tentemos reanimá-lo. Injectamos alguns fármacos endovenosos, mas nada. Sabe como é, o Sr. Carlos estava em fase terminal, certo? Infelizmente, é o nosso dia-a-dia aqui nos Paliativos. Sinto muito. Continuação de bom dia”.
Nessa tarde, Carlos percorreu o tal corredor muitas vezes, por ele, observado.
E foi o início da sua última e mais longa viagem...
Luís Fernandes Lisboa ®
20 julho 2010
Descoberta

Em resposta ao desafio "Disparou" da Fábrica de letras:
Tinha ouvido zuns-zuns na escola. Os colegas de turma falavam entre-dentes de coisas que faziam a eles próprios. Era algo que tinham aprendido há pouco tempo e comentavam em meio à galhofada.
Pedro ainda não pertencia ao grupo. Procurou perceber o procedimento. Perguntou como quem não quer a coisa a colegas de classe, em meio a aulas mais chatas, mas todos viravam o rosto e sorriam. Pareciam tontinhos e não transmitiam a informação que queria.
Demorou cerca de 2 semanas até encontrar um colega que abrisse o jogo. Era um daqueles indivíduos menos populares, que não tinha nada a perder, e, por isso, não tinha pudor em dizer o que se passava.
Pedro tomou atenção a tudo. Achou estranho e sentiu-se incomodado com o protocolo mas decidiu ouvir até ao fim.
Foi para casa a pensar naquilo.
E lá estava ele a olhar-se no espelho: cara de pateta + angústia.
O coração a mil por hora associado a um estômago embrulhado.
Despiu-se e olhou para baixo. Viu o penduricalho ali à mão de semear e começou a executar as instruções:
"Bem, ele disse que fazendo assim...", teve uma espécie de vergonha de apanhar o pequeno amigo que há 13 anos andava ali escondido nas cuecas, "agora puxo esta pele para trás e... elá, o qué isso?!" teve a sua primeira erecção.
Continuou a manusear, fechou os olhos e pensou em "coisas" indefinidas.
Passados 39 segundos disparou...
Um êxtase nunca antes sentido invadiu-lhe o corpo. Quase caiu de costas. Tremeu dos pés ao mais alto dos cabelos arrepiados que enfeitavam o cucuruto.
Olhou-se novamente no espelho. Viu olhos castanhos esbugalhados encrustados numa face imbecilóide, misto de espanto e de algo estranho e que os outros chamavam "prazer"; depois sentiu vergonha de si próprio, num sentimento de pecado e arrependimento... que durou 2 minutos até voltar à nova investida.
10 anos depois:
Pum-Pum-Pum na porta da casa-de-banho:
"Mas qué que se passa aí?"
"Nada, mãe! Já estou a sair!"
Nunca mais parou...
Luís Fernandes Lisboa ®


