17 novembro 2013

The end


Pode ser para sempre, pode ser um até breve, mas a questão é que, neste momento, falta vontade de escrever e quando assim é, é melhor parar.



A todos os que por aqui se perderam nos mais de 8 anos de existência deste meu mundo, um meu sincero abraço. 
See ya.



03 novembro 2013

"Não faço ideia porque as pessoas se irritam comigo" in "Diário de Notícias" 

É só pensar um pouco, não, amigo Sócrates?
Parece-me que para pensador e filósofo será tão bom como foi como político...


"Deixa-me ver... hum... não, não consigo mesmo perceber..."

29 outubro 2013

Zoo

Da mesma forma que o governo quer diminuir o número de animais em edifícios, deveríamos querer diminuir o número de animais no governo.


Haja cãoragem para aguentar estes jegues!!! 

27 outubro 2013

Empreendedorismo

Para o primeiro ministro das finanças deste governo  (aquele que desapareceu do mapa para poder descansar um pouco) o povo português é o melhor do mundo. O PM tem a mesma opinião e, orgulhosamente, por diversas vezes, lá vai dando exemplos da extraordinária criatividade e da grande capacidade de empreendedorismo nacional; eu, depois de ler esta notícia, e pela primeira vez, tenho de concordar com aqueles membros da quadrilha...



Imagem do "Público"

25 outubro 2013

Fábula infantil sob o ponto de vista médico

Vendo a versão original da Branca de Neve (1937) e observando a personagem descontraída em meio a esquilos, coelhos, ratinhos, texugos, veados e outros animaizinhos, chego à conclusão que teve uma sorte do caraças por ter sido a única gaja da idade média a não ter contraído raiva ou peste bubónica!

24 outubro 2013

Sessenta

Portugal já é um país moderno. Porquê? Porque já tem adolescentes com planos de assassinatos em massa. 
Não acompanhei muito "de perto" o que se passou naquela escola de Massamá, mas nas raras vezes que perdi alguns segundos com aquilo, perdi-os com muita atenção. 
O rapaz terá ferido 3 colegas e uma funcionária com uma faca mas planeava matar 60 pessoas! Inspiração: os grandes assassinantes (assassinos+estudantes) americanos. Acho que sim, que quando iniciamos um projecto temos de ser auspiciosos e tal, mas também acho que ele deveria concentrar-se em matar um primeiro, só para ver como é que é, e depois de "ganhar mão", fazer a coisa à americana.

Não ficou claro se queria matar 60 pessoas no mesmo dia mas, de qualquer forma, 4, para começo, já é um bom número de cadáveres. A questão é que não cumpriu os seus intentos e as pessoas não morreram, graças a deus ou, se calhar, ao armamento trazido pelo esboço de homicida: facas de cozinha. Que tipo de facas de cozinha terá o rapazote utilizado? Se fosse eu usava aquelas a que chamamos "facalhão", aquelas que mal cabem nas gavetas dos armários e que nunca soube o que raio fazem numa cozinha em tempos de paz. Talvez o fascínorazinho tenha usado uma faca de sobremeza ou mesmo uma faca de peixe que, como todos sabemos, nem sequer deveriam ser chamadas  de "faca".

A verdade é que o senhor queria levar 60 directamente para as portas do paraíso. Porquê 60? Será fetiche do  moço? Se calhar foi ao calhas: "deixa-me ver, vou matar 58; não, não... já sei: 60, qué um número redondo!". Talvez tenha uma daquelas roletas de bingo e calhou-lhe uma bolinha com esse número. 
Eu apoio este tipo de empreendedorismo e aconselho este rapaz que, aquando da sua saída da choça, não desista da ideia, pois é muito bonita. No entanto, vá matar outras coisas, sei lá, tempo, por exemplo, ou, quem sabe, políticos.
Que fique bem claro que não sou a favor de assassinatos, deus me livre e guarde. Mas, ao ver o esforço que têm feito estes sucessivos grupos de gente para matar velhinhos indefesos (vide cortes nas pensões e saúde), se alguém tiver realmente de matar outro alguem, talvez matar políticos seja mais lógico e saia mais barato ao país. Ora vejamos, se o salário e a pensão de um deputado (contas por baixo) equivalerem a pensão de uns 40 reformados, o trabalho feito pelo jovem ao liquidar 60 deputados pouparia cerca de 2400 daqueles pobres pensionistas! É ou não é uma boa política? E ainda com a salvaguarda de se poder aprender muito mais coisas com apenas um reformado do que com os 60 deputados abatidos. Sem falar de que se poupariam os 60 jovens do plano original: uma riqueza incontestável para o país.
E se tudo corresse bem, podia até ser um negócio com grande valor para a exportação, principalmente para países como o Brasil ou Angola...

20 outubro 2013

À caça

Abriu a nova época de caça. 
Foi novamente liberada a caça a uma espécie animal ignóbil, irritante e dispendiosa: o funcionário público.
À semelhança de qualquer actividade que envolva barbárie, como a tourada, o futebol ou o tuning, também a caça ao funcionário público está acompanhada de muita controvérsia. Os detractores agitam-se em defesa do animal dizendo que se trata de uma espécie em vias de extinção, que basta ir a uma instituição estatal (o seu habitat natural) para observar que já não existem em número suficiente para a demanda de trabalho e, ainda, que a sua caça é desumana e cruel. Os defensores e aficionados dizem que a caça é essencial para o equilíbrio do ambiente económico nacional, que o funcionalismo público é uma praga sugadora de recursos e, a desculpa universal de todos os defensores destas grotescas actividades, porque é "arte e tradição". Estes últimos defende-se dizendo que "o que seria de Portugal sem a tradição de se caçar animais tão perigosos como perdizes, codornizes, pombos e, agora, funcionários públicos?"

No entanto, com a conivência das autoridades, tem-se observado laivos de sadismo crescentes ao longo dos últimos anos no seio dos diferentes grupos destes "desportistas". Não obstante a boa pontaria dos caçadores, tem havido preocupantes relatos de maus tratos aos animais que não se conseguem expoliar. Esses funcionários sobreviventes parecem ter os seus direitos, subsídios, férias, condições de trabalho e salários cortados. Dessa forma, ficam os animais amputados de uma vida decente, deixados à sorte numa sociedade que não os apoia, minguando até ao seu desaparecimento. Alguns espécimes ficam encarcerados na sua instituição tendo a jornada de trabalho aumentada, de forma injusta, violenta e súbita, padecendo de esgotamento físico e psicológico. Embora as entidades responsáveis  já tenham sido avisadas, escusaram-se de qualquer responsabilidade nesta selvajaria, remetendo um comentário aprofundado apenas após um estudo minucioso a ser realizado pelo grupo Galilei.

Como acontece com diversas outras espécies animais, já existem pedidos de excepção e protecção do funcionário público. Estudos mostram que, mantendo-se a sua caça desenfreada, a espécie pode desaparecer nos anos mais próximos, sendo substituída por espécies alóctones, como o funcionário privado. Neste último ponto, parece haver muito interesse de várias empresas privadas em repovoar as instiuições de saúde públicas, entre outras, com aquela espécie invasora, muito mais cómoda e económica. Esta hipótese de alteração de espécies é potencialmente danosa para todos aqueles que dependem do ecossistema público, mas o Ministério do Ambiente refere, em nota de imprensa, que "tal não é verdade" e aponta a Grécia (onde o extermínio de funcionários públicos é ainda mais tradicional) como "o exemplo a seguir para o desenvolvimento da coisa pública."

Outra solução, apontada pela Associação Nacional para a Protecção do Funcionário Público (ANPFC), entidade sem fins-lucrativos (porque o funcionário público parece não dar qualquer dividendo), não podendo evitar a caça de espécies animais, foi a troca de alvo; propõe a ANPFC que se casse políticos. Defende a entidade que "a cassação de deputados, ministros e, eventualmente, primeiros-ministos ou presidentes, pode ser um passo importante para um maior equilíbrio ambiental" e, afirma ainda a ANPFC, "eliminar estes animais do poder poderia ser um passo importante para livrar o ambiente de tanto lixo".

Que se abra, então, a caça (ou cassa) a políticos e afins!




selvajaria

"Selvajaria", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/Selvajaria [consultado em 20-10-2013].

15 outubro 2013

Hoje, à hora do almoço, foi-me apresentado um novo medicamento para a ejaculação precoce (ou "prematura", em léxico médico mais recente). Veio a delegada de informação dizer que a medicação é maravilhosa, que prolonga o acto, que é eficaz, que isso, que aquilo... eu ouvi, fazendo-me interessado.

No entanto, após ouvir a Albuquerque, fico seriamente a pensar se aquilo servirá para alguma coisa...

Estranha, e algo irónica, coincidência.

Imagem daqui

14 outubro 2013

Foge, foge



Os meus amigos já se foram 
E, repara, também já se foram os teus. 
Ficámos nós os dois e os velhos e as crianças,
Os únicos com a ridícula esperança
De que melhores dias virão 
E de que terão as preces ouvidas por Deus. 

10 outubro 2013

Expectar

O primeiro ministro aprendeu uma palavra nova. Em véspera de mais um orçamento de estado criminoso, vem o também criminoso indivíduo dizer que é preciso não criar falsas expectativas.
Fala o homem como se o povo que governa tivesse alguma expectativa. Talvez tenha; talvez tenha uma expectativa de chegar ao dia de amanhã com algum dinheiro para pagar a casa, ou o carro, ou para comprar um pão aos filhos. Demagogia minha? Talvez sim, mas penso que não. Demagogia é cortar 15% numa subvenção vitalícia a quem nada faz, nem nada fez, nem alguma vez fará, pelo país, isso sim parece-me um pouco, mesmo pouco, demagógico.

Vem o senhor Coelho dizer que não se deve criar falsas expectativas aos funcionários público. Eu, como funcionário público, tenho uma grande expectativa relativamente ao dia 15: saber o quanto me vão roubar desta vez, se 5, se 10, se mais %'s do meu salário e, consequentemente, da minha já agónica motivação.
Diz o político que não devem, os pensionistas, criar falsas expectativas. Tem razão, os velhos mais valem perder qualquer expectativa de viver o resto dos seus dias com dignidade. Devem ser roubados daquilo que deram ao Estado para que, no fim das vidas, esse mesmo Estado pudesse tomar conta deles. Que morram caquéticos num canto qualquer duma aldeia deserta. 
Diz o filha da puta que não se criem expectativas em crescimento económico, em criação de emprego, em juros da dívida, em diminuição da austeridade... numa vida melhor.

Pagamos nós impostos para por a RTP a funcionar e transmitir programas com propaganda política fascísta. Não há "Pronto" suficiente em todo mundo que dê lustro suficiente à cara-de-pau do "moleque" que foi programado para estar no lugar que ocupa. Não há truques de luzes e de espelhos que escondam todos os cordelinhos que manipulam este e os outros bandidos da trupe. 

O próximo dia 15 vai ser fundamental já que, apesar do Sr. Pedro Coelho aconselhar a que não se crie qualquer expectativa, tenho eu a expectativa que o seu orçamento de estado finalmente levante este povo adormecido.

07 setembro 2013

Mix

Bruno Alves, jogador da nossa selecção, após o golo que marcou ontem:
"Jesus, obrigado, caralho!!!"

Sempre gostei dessa mistura de religiosidade e blasfémia.

(a não ser que o Bruno estivesse a mandar o outro Jesus para o caralho o quê, dado o seu passado, até faz algum sentido)


04 setembro 2013

Dúvida honesta

Amigos, não me levem a mal, mas fico preocupado quando não consigo definir, com uma sólida certeza, o sexo de uma pessoa... e é o que me acontece quando vejo a imagem abaixo relativamente a um dos elementos da seita:



01 setembro 2013

Passos Coelho vai discursar hoje nas uniadversidades de verão do PSD. Portanto, amigos, fechai os narizes porque há-de ser conversa nauseabunda.


Anais da estupidez partidária

Juntam um bando de putos numa quinta qualquer e chamam a esse ajuntamento "universidade de verão".
Mas andam a ensinar o quê a um grupo de patetas juvenis? Técnicas recentes de anilingus? Já os vejo a medir línguas e a cuspir para o chão!
Ai, se um dia apanho um dos meus filhos numa reunião satânica dessas!!!

18 agosto 2013

La piela

Prólogo
Ah, as pielas, ou cabras, ou tosgas, tubas, bubas, bezanas, cadelas, borracheiras, cardinas, nardas, pifos. Ah, as bebedeiras. Quem não teve contacto com o produto final de um irracional consumo alcoólico ao longo de uma tarde, ou noite, ou de um dia inteiro? Sei que alguns costumam apanhá-las anualmente, outros mensalmente, outros ainda, mais acólitos do santo baco, diariamente. 
O que vos vou contar tem a ver com a minha segunda viagem transcendental ao mundo dos pileques. Preparem-se, a história vai ser longa...
Da minha primeira já tenho poucas memórias. Não me interpretem mal, não foi assim tão grande para provocar amnésia, apenas já foi há muito tempo. Lembro-me apenas de umas sandálias, de permanecer alguns minutos por baixo de uma mesa num baile de gala de uma queima das fitas, após um jantar interessantemente regado com vinho branco e whisky velho com o acompanhamento de um Havana dividido entre amigos. E, na verdade, parece haver pontos de contactos entre as duas situações, pelo menos no que toca ao combustível.
Mas passado é passado e o que interessa foi o que se passou nesta segunda vez e que apenas tem algum interesse (pouco) por ter sido ontem.

Parte I - por mais que os tentes enxotar, eles teimam em voltar 
Feriado. O que fazer se não aceitar o convite quando uns laboriosos pais oferecerem o almoço à descendência toda (netos já incluídos), inclusive alguns que, seguindo as palavras de incentivo da quadrilha que nos governa de momento, foram viver para a França. Oportunidade para se estar um pouco com os do próprio sangue e disparar uma quantidade tão grande de patetices que fica difícil entender como é que gente dessa pode educar de forma correcta as suas próprias crias.
Abraços, beijinhos, "como tens passado" e essas coisas, até que um mais afoito (ou será: "esfomeado") diz "já vale?".

Parte II - sardinha gosta de borbulhas 
À mesa, meto uma sardinha a cavalo numa metade de papo-seco torrado, devidamente aconchegada numa cama de cebolas, tomates e pimentos também eles passados pelas brasas. Trinco-os a todos e empurro-os com um golo de um vinho branco frisante vindo de umas caves infernais de Murça. Já o povo diz com sapiência que “sardinha e água não combinam” e como sou um homem atento às tradições, sabedoria e mesinhas populares, concordo que as ditas só devem estar em contacto com a água enquanto vivas, depois, quando mortinhas e queimadas pela fagulha, requerem outro tipo de mistura no lago estomacal. Juro que tentei que cada dentada fosse acompanhada de uma golada mas confesso que talvez o líquido tenha vencido de goleada no fim das contas dado que o mundo já andava um pouco acelerado no fim do almoço. 

Parte III - não deveria já ter ido para casa?
Não contente com o etilo oferecido às Sardinops sagax devoradas ao almoço, lá fui envenenando-as mais um bocadinho. Sabem como é, depois do almoço a malta vai ficando, "amandando" conversa fora... e bebendo um pouco mais. Fez-nos então companhia um amigo escocês dos velhos que nos ia cantando notas de carvalho e aquelas tretas que ninguém presta atenção após dois ou três goles. Se a madeira do licor se acumulasse, no fim já teria o suficiente para construir uma pequena cabana de 4 assoalhadas... 
Não sei se foi do calor mas a verdade é que, quanto mais líquido punha, mais depressa evaporava do balão. E se há pouco sentia o mundo um nada acelerado, agora parecia, a sala-de-estar daquela casa, ter-se transformado num pequeno barco pesqueiro em mar revolto dum furacão de categoria 4. 
Estava altamente antropocêntrico pois sentia todo mundo a girar à minha volta. 

Parte IV - explorando locais alternativos para dormitar 
Nestas alturas de rodopios e quando o sangue em circulação perde em percentagem para o álcool, o que fazer? Acender um fósforo a ver se explode? Beber café para se ter uma bebedeira estressada? Não, nada disso, decidi por me ir deitar na minha velha cama de solteiro que os meus pais ainda não precisaram de queimar no inverno. Chegando ao meu antigo quarto não me dei ao trabalho de me deitar e deixei que a gravidade enviasse o meu corpo em velocidade warp em direcção ao colchão. Fiquei ali até ser inadvertidamente acordado pela minha senhora a perguntar se estava tudo bem comigo (mulher de ouro, já vos tinha dito?). 
Ao acordar, aquele barquinho, outrora em mar revolto, parecia já ter apenas a popa à tona. Sim, a popa, já que a proa seguia em mergulho alucinante para deus sabe onde rodopiando num remoinho em oceano ardente.
Com apenas metade do corpo e mente acordados, fiz esforço para me levantar. Sentia-me confiante o suficiente para ir à casa-de-banho. Parecia que iria receber em breve a visita do senhor Gregório e me fui- preparar a preceito para o encontro. Não que o senhor Gregório (ou Greg para aqueles mais íntimos) fosse santo ou eu muito religioso, mas achei que o devia receber de joelhos, em prece maometana e apoiado na bonita latrina que os meus pais têm naquela divisão sanitária. No entanto o dito senhor resolveu atrasar-se e eu, sem mais nada para fazer naquele momento e  já algo aborrecido, resolvi esperar deitado (que sentado também estava a ser cansativo naquelas condições). Acabei por adormecer. Fiquei espantado com o conforto providenciado pelo azulejo daquela casa-de-banho. Com o calor que se fazia sentir, dava um fresquinho espectacular. Vou fazer isto mais vezes, mesmo quando estiver sóbrio.  

Parte V - ele tarda... mas não falha 
Foi difícil manter-me a dormir. Como aquela situação era inédita lá em casa (pelo menos com o filho mais velho), a casa-de-banho era um corrupio de gente. Minha mãe visivelmente preocupada, perguntava-me se estava bem. Minha mulher fazia o mesmo mas também tirava fotografias. Minha irmã só tirava fotografias...
Já pronto para me levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, ele apareceu. O senhor Gregório deu ar da sua desgraça e lembrou-me tudo o que bebi (e principalmente o que comi) numa curta conversa à berma da privada. Apesar de algo dura, a reprimenda do Greg foi remédio santo; depois de lhe confessar os meus excessos, levantei-me e fui ter com a minha malta tendo sido recebido com uma mistura pouco uniforme de sentimentos mas onde o escárnio dominava.
Despenquei no sofá onde fiquei mais algum tempo pois o mundo ainda estava em alvoroço. 

Epílogo - puttana de tecnologias e pitacos da assistência
Tal como na minha primeira vez, pensava eu que também esta estaria condenada à escassas memórias poucos estruturadas pela confusão e tudo desapareceria em pouco tempo. Pois bem, há 10 anos a internet não estava tão disseminada, não existiam câmaras digitais e os telemóveis eram utilizados sobretudo para pôr duas pessoas a conversar. A reportagem fotográfica do acontecimento parece ter sido intensa e por isso existe registo do crime que fazem questão de me enviar por mail e apresentar a alguns entes queridos que não puderam vivenciar a experiência. Só assim pode-se perceber como pôde a minha avó, que não estava lá, ter achado piada... mas vai ter mais cuidado antes de me chamar para qualquer problema de saúde.


Nota: erros ortográficos e gramaticais são, neste texto, excepcionalmente tolerados dada a quantidade de neurónios perdida por apoptose.



16 agosto 2013

Hall of fame

Com que então, estamos a ficar famosos, hã, Isabelita?


15 agosto 2013

O país não está imbecil, o povo é que está!

Só num país imbecil é que se poderia cogitar que um preso, um político condenado por crimes de corrupção aquando das suas funções políticas, se pudesse candidatar à mesma Câmara onde cometeu os ditos crimes. 
Só num país idiota é que se poderia pensar que alguém pudesse ocupar um cargo de responsabilidade política estando ao mesmo tempo encarcerado.
Só num país retardado é que se poderia imaginar que alguém colocaria a hipótese de se candidatar nessas condições rocambolescas e, quando esta intenção fosse recusada, ousaria recorrer nas diversas instâncias jurídicas na tentativa de fazer pressão para ser aceite a sua pretensão.
Só num país escamoteado da sua razão é que se poderia pensar que a justiça, por mais desvairada que se possa crer ultimamente, cometeria um erro grosseiro desta ordem.
Só num país parvo é que o condenado poderia ficar de beicinho, revoltado com tamanha injustiça.
Só num país estúpido é que se poderia organizar um grupo de cidadãos (?), talvez em estranha liberdade, que tem como objectivo colocar de volta o criminoso no poleiro e que pensa em contestar a decisão do tribunal (tudo uma vicissitude da democracia).

Desculpem, é melhor começar a escrever no início de cada parágrafo "só num país de gente tola", porque o país não tem culpa de alguma gentinha apoucada que lhe calhou...

Em homenagem:

 


 

14 agosto 2013

Palmas

Finalmente estou em férias. São merecidas e as mais desejadas de sempre tal a quantidade de trabalho que me tem caído na cabeça ultimamente.

E o que melhor há para fazer nas férias do que ver os programas de verão nas televisões lusas, hã? Espectáculo! Festas para imigrantes, música pop portuguesa com gritadores secundados por gajas a baloiçar tudo o que deve ser baloiçado, apresentadores estridentes acompanhados por gente que pertence a outra espécie animal também ela bípede, you name it!

Embora tudo nesses programas seja bastante aliciante, nada me agrada mais do que ver as variações populares de bater as palmas. Sinceramente não sei como vocês o fazem mas eu costumo bater uma palma da mão contra a outra, violentamente e num sentido horizontal, muitas vezes de forma um pouco cínica e pouco entusiasta (para que aqueles que as merecem não ficarem a pensar que o trabalho terminou e que já não há espaço para melhorias). Não sei se é melhor forma, se é a correcta, mas é a que uso desde criança e não quero, neste momento, alterá-la.
No entanto, confesso que gosto de ver as senhoras de meia idade que fazem com que o acto de bater as palmas das mãos pareça o desenho de um caça F22. Estas moças costumam fazer danças com os braços para depois chocar as palmas fazendo que, para além do som, também o estremecer do corpo seja engraçado. É incrível o arco que um membro superior consegue descrever, algo que não vem em livros de biomecânica, com certeza.
Mas existem mais variações interessantes. Existem aqueles que não acertam com o ritmo da cantiga e os que falham constantemente as próprias palmas das mãos, talvez distraídos, talvez por serem incrivelmente descoordenados (ainda mais que eu!); há os que parecem aqueles macacos de brinquedo com pratos quando abrem os braços até acertarem no nariz do vizinho e, em linha recta, amandar os membros um contra o outro para executar o acto (sob o risco de acertarem no cocuruto do indivíduo à frente); temos ainda os que batem palmas e saltam ao mesmo tempo, não fazendo nada de jeito nas duas coisas; há os delicados, que batem as pontas dos dedos contra a palma da mão contrária o que não é, na verdade, um bater as palmas; enfim, vale a pena ver um número musical desses programas (com o volume reduzido,é claro: segurança auditiva primeiro) só para ver essas variações sobre este tema.

E, "prontos" (também gosto dos estrangeirismos [ou será melhor "esquisitismos"] linguísticos da silly season), vou ali às festas da terra ver os perdigotos kamikazes dos novos falantes de francês que, como as andorinhas, migram de volta para estas áreas do Liz. 
Férias no seu esplendor!





07 agosto 2013

Mentir ao telefone ou como nunca teria sucesso com uma traição

Já eram quase 9:30 da noite e, com a desculpa de querer ligar a um amigo mas não ter saldo no telefone, saí a caminho de um multibanco. Aproveitando a deixa diriji-me a um centro comercial aqui da terra para comprar uma prenda à madame, já que está próximo o aniversário do nosso longo namoro.
Obviamente que a moça não sabia dessa segunda parte da missão e acreditava que a minha saída seria lesta.

Chegei ao centro comercial e me perdi por entre as lojas. Comprar coisas para senhoras não é trabalho fácil para um homem... que não esteja acostumado à tarefa (já tive de pedir ajuda a uma das senhoritas que por este blog põem os olhos). 
Resumindo: demorei mais do que deveria.

Numa jogada idiota de mestre resolvi ligar à chefa dizendo que teria encontrado um amigo do futebol junto ao multibanco e que ficámos na conversa. Disse que lhe estava a ligar para não deitar os miúdos antes de eu chegar e que já estava a voltar para casa.
"Encontraste quem?", perguntou ela.
"O fulano do futebol. Agora vou ali à caixa geral para "por" dinheiro no telemóvel", respondi eu, ansioso pela mentirinha.
"Mas essa caixa geral já fechou há uns tempos..."
"Ah, pois é. Bolas, tenho de ir a outro lado então"
"Mas estive a ver aqui a nossa conta na net e já foste ao multibanco..."
"Er...", pensando numa boa desculpa, "ok, vim comprar-te uma prenda...", desisti logo.
Ela riu-se... e muito.

Fica ela sossegada quanto à hipótese deste jegue alguma vez pular a cerca...



30 julho 2013

Forreta? Eeeeuuu?!

Numa grande rotunda de Coimbra, desde há algum tempo, estão uns saltimbancos a distrair os automobilistas enquanto aguardam pela sinalética verde dos semáforos. Entretém o people com pinos e bolas já que são todos malabaristas. 
Confesso que acho interessante esta forma de ganhar a vida. É muito melhor tê-los ali a mostrar o seu talento do que ter que aguentar vendedores fajutas de "Borda d'água", "Cais" ou os famigerados limpadores de pára-brisas. Não pedem nada, mas é óbvio que têm um objectivo com o espectáculo público: no final da "apresentação", estendem um chapéu no sentido de receber qualquer coisa dos impacientes condutores.
Eu, na minha magnânima solidariedade, resolvi "amandar" para a cobertura capilar uma moeda de 20 cêntimos.
"Só 20 cêntimos!?", perguntarão vocês, indignados com a avareza.
Pois, 20 cêntimos. Parece pouco? Também achei a princípio, mas depois fiz as contas: se em cada sinal vermelho, 10 condutores fornecerem 20 cêntimos; se em cada hora houver, no mínimo, 10 sinais encarnados; se trabalharem as 8 horas de um normal trabalhador; se estiverem ali 20 dias por mês; quanto isto dará no fim do mês, limpinho, limpinho de impostos? Pois bem, para facilitar, digo-vos eu: 3200€! Ou seja, mais do dobro que eu recebo com o meu trabalho como Médico de Família. 

Ao longo do caminho fiquei a pensar que deveria ter enveredado pelo mundo do malabarismo (que de certa forma vou fazendo com o orçamento doméstico). No entanto, como são necessários talento, destreza e uma grande dose de coordenação motora, obviamente que esta hipótese foi imediatamente posta de parte. Mas como a minha madame está desempregada...




29 julho 2013

O povo português deve estar sedado; deve ter sido injectado com um sumo de entorpecimento e desânimo. Se não for assim como se pode explicar a apatia perante o comportamento completamente tresloucado dos que nos governam.
Primeiro, o casa e descasa da insensata coligação governamental. Depois, a patética actuação do demente palhaço presidente da república. A seguir, a salvação nacional que abortou antes de o ser. Continuando com a remodelação de um governo que, não obstante já ter um elevado nível de incompetência, lá juntou mais uns tachos ao trem e multiplicou 1 por 0.
Se se pensava que a estupidez e inutilidade desta gente tinha limites lá veio o sr. PM provar a inata criatividade para a parvalheira e extravasar mais um pouco da sua maluquice ao dizer que num país como Portugal não será com aumentos de impostos que vamos sair da crise e blá, blá, blá para os gordurentos votantes PSD de uma autarquiazinha qualquer.
Vinha eu no meu bólide a ouvir a TêSêFê e quase tive que parar o carro para tentar entender o que se estava a passar. 
"Espera lá, pensei que o locutor tinha dito Passos Coelho"
E repetiu que a frase era mesmo desse energúmeno.

Ora, se eu fosse José Seguro (e graças a deus que não sou) ficava arreliado, caraças! Esse Passos quer o protagonismo todo? Quer estar ao mesmo tempo na situação e na oposição? Está a fazer o papel do PS ao criticar-se a si próprio! Mas que porra é essa?! Será que se esqueceu que é o responsável pelo maior aumento de impostos de sempre neste pequeno rectângulo? E pelo aumento exponencial do desemprego? E pelo descalabro das contas públicas? Mas anda tudo doido?

Não me admira que o Portas tenha amuado: o Passos quer o protagonismo todo para ele. Ele mais os seus laivos espumosos dextros em comícios de eleições autárquicas que deixaria cheio de orgulho o seu mentor Salazar. Querem ver que a constituçãozinha canhota não deixará que, este governo desenvolvido, possa nos escravizar e sodomizar a todos? E que não deixará impor um racionamento ao pão e à água que cada um de nós vai ter para o almoço? Dormir é para fracos! Descansar é para maricas! Férias e salário são direitos obsoletos de um ideal socialista/comunista atrasado. 

Já não nos bastava ter de lidar com uma personalidade filha da Pu$%, agora temos que lidar com duas? Duas personalidades filha da pu%& é difícil de aguentar (a não ser que se pergunte a opinião a um presidente de um banco que eu cá sei, também ele um grande filho da pu/&a).

Acordai, porra!!! 


17 julho 2013

Pai sofre XXXIII - Ver vídeos na internet, mas sempre com protecção que é para não apanhar vírus

O tempo de ver filmes na televisão já lá vai. Os miúdos de hoje parecem se entreter mais ao ver os seus bonecos através do computador ou telemóvel. Culpa dessas novas tecnologias que põe à mão de semear qualquer conteúdo audiovisual que se pretenda sem grandes inconvenientes ou dificuldades.
Assim, numa bela tarde, e em resposta a um pedido deste tipo vindo de um dos pimpolhos, foi o pai ligar o ordenador. Acedeu à netinha para navegar com destino ao sítio dos filmes e escolheu aquele pretendido. A criança, de olhos bem abertos e impaciente pelo início da animação, deixou-a sentada na cadeira e foi à sua vida de pai satisfeito por agradar a cria. Tudo preparado para alguns minutos de pura diversão infanto-juvenil ingénua e pura, mas…

Um à parte: quem costuma visitar estes grandes servidores de vídeos sabe que, quase sempre, antes de cada filme existe uma publicidade a qualquer coisa. São telemóveis, produtos de higiene, comida para cão, qualquer coisa se vende a quem tiver uns segundos de paciência ou muito interesse em ver o vídeo que vem a seguir.

Como ia dizendo, a criança esperava ansiosamente pelo início do boneco e eis que, ao invés de um desenho colorido e infantil, surge um comercial de uma famosa marca de quê mesmo? De quê? De rebuçados? De chocolates? De gelados? De brinquedos? Não? Então de quê, caraças... suspense...tcharam:  PRESERVATIVOS!!! E não eram uns quisquer, não, eram preservativos que diziam ser “sensação pele com pele”!!! Mas que o quê, em nome de um deus qualquer, é “sensação pele com pele”?! 

Mas quem foi o génio que plantou uma propaganda semi-erótica antes de um vídeo infantil!? Quem achou conveniente por um comercial com esfregação e pecado num canal de animação? Tudo bem que era de animação que se estava à procura mas não desse tipo, caramba! O que valeu foi a destreza do pai em dissimular a cena.
 Não quero censurar nada aos pequenos mas cada coisa a seu tempo, ok? Sei que existem miúdos precoces mas que os meus o sejam em matemática ou literatura báltica.

Já estava ciente de que a net era coisinha insegura e promíscua mas isto parece-me algo exagerado.

25 junho 2013

A trip(a)

Primeira consulta do dia, numa segunda-feira, noite mal dormida e mau humor associado.
Chamo a primeira doente: completamente tresloucada; discurso verborreico, sem nexo, a saltar de um assunto para outro como se fosse um canguru com um foguete no rabo. Deixo-a falar, falar, falar, sem não parar e escondo-me atrás de um par de mãos a sussurrar o porquê de vir para medicina.
E então:
"Sabe doutor, eu tenho muitos gases. Tenho sempre a barriga assim inchada (não é da gordura, não...). Acho que é de ter a tripa grossa", diz ela.
"Desculpe, o que disse?", pergunto eu, tentando perceber o que tinha acontecido.
"Pois, tenho a tripa grossa, sim. Disseram-me num exame que me fizeram há uns anos. Faz sentido, Dr..Quando era pequena, lembro-me de obrar ao lado do meu irmão e olhar para as nossas fezes e perguntar a ele porque o meu cocó era maior que o dele. Ele já na altura disse-me: "és tu que tens a tripa grossa!". Vê? Sempre tinha razão, o meu irmão"

Confesso que não aguentei e escangalhei-me a rir sob o olhar incrédulo da senhora.
Haja paciência, carago, um gajo não é de ferro!!!



23 junho 2013

O verdadeiro cancro

Bonifácio carregava o exame para mostrar ao médico. Batia violentamente com os pés no chão num demonstrar inequívoco de ansiedade crescente. Finalmente ouviu o seu nome a ser chamado e dirigiu-se ao consutório.
Após os cumprimentos de ocasião, o médico pediu-lhe o exame. O clínico abriu o envelope e analisou o conteúdo. Em meio a "hum"'s proferidos pelo doutor, Bonifácio aumentava a adrenalina em circulação.
Por fim, após um longo e desolador suspiro do médico, a tão estremecedora notícia:
"Senhor Bonifácio, o meu amigo tem um cancro e o que temos de fazer agora é pensar na melhor maneira de tratar e..." 
Toda a explicação, Bonifácio ouviu sem ouvir. Só estava realmente interessado numa coisa: o prognóstico.
"Bem, senhor Bonifácio, o prognóstico para estes casos é reservado. Vai depender da resposta ao tratamento convencional: quimio, radio e, quem sabe, cirurgia."

Bonifácio saiu do consultório um pouco atordoado. Não tinha dores físicas mas sentia o seu espírito agredido no estômago, caído ao chão, continuando a ser pisoteado pela cruel verdade.
Foi directamente para casa tentando arranjar um texto tipo para passar tão devastadora informação à família; já bastava o seu próprio sofrimento.


Passaram-se alguns meses e Bonifácio respondia mal aos tratamentos. Sua última tentativa seria uma nova droga que parecia ter evidenciado benefícios para a sua doença. A esperança residia na possibilidade de ser administrada o mais rapidamente possível mas restrições orçamentais obrigavam a aprovação do pedido pelo Ministério da Saúde. 

"Bonifácio, tenho más notícias para si. O hospital não vai poder providenciar a medicação. O senhor ministro rejeitou o pedido alegando não haver evidência científica suficiente para a sua utilização".
"Mas, senhor doutor, o ministro é médico?"
"Não"
"Então não percebo"
"Eu também não, senhor Bonifácio"
"Então, e agora, senhor doutor? Sei que nunca fez um prognóstico temporal mas, quanto tempo me resta?"
"Bem, sem rodeios, Bonifácio, sem esta droga... talvez 2 meses, mais coisa, menos coisa"

Bonifácio abandonou o hospital. Vagueou por algum tempo pela baixa de Lisboa e decidiu-se por caminhar um pouco mais até a avenida João Crisóstomo, nº9. Chegando lá, aguardou.

Pouco tempo depois, Bonifácio viu aproximar-se um belo carro negro. Levantou-se e esperou que o veículo se imobilizasse. 
Do carro negro, Bonifácio viu sair um senhor de facto impecavelmente engomado que concluiu ser o ministro da saúde. Abordou o senhor e perguntou-lhe em jeito de confirmação:
"Bom dia. É o senhor o excelentíssimo ministro da saúde"
"Sou sim, meu caro"
Bonifácio, ao aperceber-se da resposta positiva, retirou do bolso uma pequena Beretta calibre 22 e aplicou 5 injecções de chumbo no tórax ministerial, impelindo o alvo numa queda lenta à retaguarda, apenas amparada por metade dos seus guarda-costas, visto a outra metade estar a manietar o agressor.

O incidente chocou a pequena e anárquica república. Bonifácio foi imediatamente preso e apresentado ao juiz. Deveria ser julgado de forma célere para servir de exemplo e assim evitar alastramentos de revolta.

O julgamento de Bonifácio foi alvo da maior cobertura jornalística alguma vez vista no país. Milhares de jornalistas nacionais e estrangeiros aguardavam à porta do tribunal. Aguardavam a sentença e especulavam sobre o período de cárcere destinado ao criminoso. Alguns analistas teciam comentários sobre a terrível ironia da possível maior sentença da justiça portuguesa poder traduzir-se  num período exíguo de prisão efectiva, dado que o réu estava em fase terminal. 

Finalmente o veredito. 

Bonifácio saiu pela porta da frente do tribunal, abraçado ao advogado e à esposa, perante o olhar atónito daqueles que ali puderam estar presentes. O inocente homem entrou numa viatura e abandonou o local, ficando o seu advogado a dar explicações:
"O senhor Bonifácio sempre se declarou inocente e o juiz percebeu isso claramente após o depoimento do meu cliente"
"Mas como foi isso possível? Havia uma série de testemunhas de acusação; elas viram o seu cliente assassinar a sangue frio o ministro da saúde", perguntou incrédulo um dos jornalistas.
"Sim, claro, elas depuseram, mas de nada valeu ao Ministério Público. A nossa alegação foi muito mais forte", respondeu triunfante o advogado.
"Mas, para além da inocência, o que mais o seu cliente alegou?", questionava furioso um novo jornalista.
"Meu cliente, perante a recusa, por parte do senhor ministro da saúde, da medicação que lhe salvaria a vida, alegou obviamente legítima defesa!"




21 junho 2013

Simplicidade

Seth: Can I ask you something?
Susan: Yes?
Seth: What did you like best?
Susan: Pajamas.


20 junho 2013

James GOLDolfini


Hoje, durante o trabalho, sinto o telemóvel a avisar-me que tinha recebido uma mensagem. Num intervalo entre consultas li "o ator que fazia os sopranos morreu: ataque cardíaco". Pensei logo no Gandolfini, já que a pessoa que escreveu a mensagem não via a série.

Gandolfini era o "boss" e por isso era reconhecido por quem não via o programa. Era ele a âncora de uma série que ia muitíssimo mais além da simples problemática da máfia. Aliás, a questão da organização era apenas um pretexto para apresentar um conjunto de outras problemáticas muito interessantes e complexas.
Um exemplo disso mesmo: um grande amigo meu, psiquiatra, dizia que pensara em escrever um trabalho sobre toda a psicopatologia existente nas diferentes personagens; psicoses, personalidades megalómanas, depressão, demência, ataques de pânico, you name it - um verdadeiro graal.
Quem nunca viu esqueça a máfia e veja por outro prisma: vai ficar espantado.


Nota: É incrível ver as manifestações de carinho e afecto que este grande actor está a ser alvo. Reconhecimento de um trabalho extraordinário e de fãs do mesmo calibre.

Até um dia, Tony.



19 junho 2013

Que nos contagie

No Brasil um aumento de cerca de 7 cêntimos nos transportes foi a gota d'água, a faísca que está a originar um incêndio social.
A revolta contra a pobreza, a violência e toda a corrupção, acumulada há décadas, insurgiu-se nas ruas.
Nós, deste lado, vamos comentando com assombro... e alguma esperança. Oxalá essa Primavera brasileira (embora lá seja Outono) contra o polvo do seu governo seja um rastilho que nos incedeie contra o nosso. 

Parabéns, Brasil!


18 junho 2013

Depurar



Depois de um telejornal carregado de informação deprimente apraz-me exanguar a alma com a extrema beleza desta peça genial.
Fechar os olhos, respirar fundo e sentir as vozes penetrar os ouvidos de forma a purificar o espírito, preparando-o para o dia seguinte.


Red:"I have no idea to this day what those two Italian ladies were singing about. Truth is, I don't want to know. Some things are best left unsaid. I'd like to think they were singing about something so beautiful, it can't be expressed in words, and makes your heart ache because of it. I tell you, those voices soared higher and farther than anybody in a gray place dares to dream. It was like some beautiful bird flapped into our drab little cage and made those walls dissolve away, and for the briefest of moments, every last man in Shawshank felt free."

17 junho 2013

Trocadilho

Chovia torrencialmente naquela noite de verão.

As cinco Marias vinham de retorno à casa depois da semana de estudos na capital. 
Maria Esperança era a que conduzia o carro. Mantinha-se atenta aos perigos daquela estrada molhada. Após uma semana intensa na faculdade estava ansiosa por rever a família mas não era isso que a obrigaria a acelerar. Ao seu lado, Maria Felicidade ria-se com as piadolas das companheiras do banco de trás, Maria Piedade, Maria da Saudade e Maria Preciosa, sempre a provocar o riso das companheiras da frente com os acontecimentos e desventuras semanais: as graçolas dos rapazes, as saídas nocturnas, os namoricos, a juventude... 

A amizade entre as meninas era algo mágico. Só se haviam encontrado na universidade mas parecia que se conheciam há séculos. Sentiam-se ligadas de alguma forma e havia, é certo, grande afinidade entre elas: tinham praticamente a mesma idade, partilhavam os mesmos gostos, tinham sonhos de futuro comuns e, aquilo que sempre acharam muita piada, comiungavam do mesmo nome: Maria.
Pela coincidência nominal, tratavam-se simplesmente pelo segundo nome.

Esperança, apesar da conversa animada, sorria pouco; conhecia bem o caminho que percorria mas, com tanta chuva, tinha dificuldades em identificar onde estava. 
“Esperança, estás perdida?”, brincava Preciosa, a mais galhofeira das três. 
“Não, só está difícil conduzir com tanta chuva”, respondeu a condutora. 
“Podes parar um pouco, se quiseres. Eu não tenho grande pressa”, tranquilizou Piedade. 
“Ó pá, tem piedade”, gracejou Preciosa, “eu quero chegar logo para ver o meu Diamantino. 
“Preciosa e Diamantino: o casal mais valioso”, agora era Felicidade a mandar uma graçola da qual riram-se todas. 

Esperança também rira, mas rira um riso encavacado, pouco dedicado em responder à piada. Estava preocupada; apesar de ter alguma experiência ao volante não se lembrava de ter conduzido sob condições tão adversas. 

“Estás muito quieta, Saudade. Sentes falta de alguma coisa… ou de alguém?”, mandou Preciosa enquanto piscava o olho à Felicidade que se mantinha voltada para trás. 
“Lá está tu, Preciosa. Não consegues passar sem mandar piadolas. Sim, por mim ficava por Lisboa na companhia do Augusto”, replicou Saudade, incomodada pela brincadeira da amiga. 
“E tu, Felicidade, estás a rir mas também preferias ficar por lá a namoriscar com o teu Felix. Formam o casal mais alegre da faculdade”, continua a Preciosa, a "disparar" em todas as direcções. Felicidade deu uma gargalhada muito característica dela e que combinava bem com o seu nome; ao mesmo tempo suspirou um “e vamos ter um Benjamim”.

A viagem manteve-se animada por um bom tempo... 

Então, numa curva perigosa da estrada, sob a chuva intensa que se fazia sentir e se acumulava na estrada, Esperança perdeu o controlo do carro. O veículo ziguezagueou pela via indo beijar com fulgor uma velha nogueira que morava à beira da estrada, parando instantânea e violentamente.
Em pouco tempo o silêncio apoderou-se da cena; o som do motor calou-se e os risos cessaram; apenas se ouviam as gotas da chuva sobre a chapa e o rádio do carro que insistia em funcionar e onde se ouvia uma música que as meninas sabiam de cor: “Last Kiss”. 

Todas pereceram. 
Após o embate, no automóvel, só Saudade ficou. Piedade foi atirada para longe. Preciosa perdeu a vida alguns metros à frente junto a um banco de jardim. Felicidade desapareceu pouco depois do embate. De todas, e fazendo jus ao seu nome, Esperança foi mesmo a última a morrer.

15 junho 2013

Fazer o que um político deveria fazer: ouvir o povo

Não é exagero da minha parte se vos disser que a maioria das consultas que faço diariamente têm uma grande parte do seu tempo útil gasto em críticas aos políticos em geral e a este governo em particular.
As pessoas estão descontentes e desanimadas, o que não é novidade, e para além do pulso orgânico que o médico lhes tira, também este pulso de desalento é por nós obsevado nos contactos. Também vemos o nervo das pessoas direccionado para os cargos de decisão. Também sentimos a desmoralização de quem, por ganhar pouco mais de um salário mínimo, tem agora de pagar por tudo, até para uma simples medição da tensão arterial (0.80€ num Centro de Saúde, ou seja, mais caro do que em qualquer farmácia). Observa-se a fractura existente entre um povo cada vez mais pobre e um governo cada vez mais autoritário e desinteressado pelo bem-estar dos seus concidadãos.

Infelizmente, sou um privilegiado nesta observação da lástima in loco. Infelizmente porque me rouba tempo para a medicina pura e física (no entanto, alguns estados da alma também podem vir a ser doença e, portanto, se tratam). Infelizmente apenas porque entristece e, vez por outra, desmotiva...

De todas as queixas dos doentes são estas as que me preocupam mais. Podem apresentar dores, tosse ou uma unha encravada, isso são questões físicas que ao corpo de outrem dizem respeito, mas quando começam a destilar as reclamações relacionadas com a pobreza, a exclusão, a solidão, o esquecimento a que foram atirados, demonstram que a sociedade na qual vivemos está, também ela, doente; e, dessa "doença" que me mostram, também eu sou responsável e passível de contágio.

Ontem foi mais um dia de dores e descontentamentos. Já nada me surpreende nos protestos. Existem os revoltados que esbracejam e pedem a cabeça de um ministro ou dois. Existem os resignados como o lema sempre actual do "é a vida". Existem os que vêm a luz ao fim do túnel e, portanto, saem do gabinete bem medicados. Existem os que até apoiam em parte o governo mas que acham que já se está a exagerar qualquer coisita. 
Mas ontem, apesar de já ter ouvido um pouco de tudo, uma das queixosas apresentou-me um lamento que me tocou mais profundamente. Perdera uma filha e uma neta para a França, para onde foram sob a promessa de uma vida melhor. Por essa sentença culpava o governo e os políticos. Acusava-os de serem frios e desumanos, gentinha pequena, imoral e sem alma. Não se queixava de ter sido roubada, enganada e expoliada paulatinamente dos seus direitos, apenas reinvidicava o direito de ter os seus perto de si. No fim disparou:
"- Sabe, Dr., essa gente parece não ter família nem coração. São pessoas frias, robôs. Fazer o quê, não é...", encolheu o ombro e enxugou as lágrimas mais uma vez, agradeceu a consulta e deixou o consultório.
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Os políticos são como o cometa Halley: só aparecem de tempos em tempos. Só se vislumbram em momentos de eleições. só abraçam, sorriem, interessam-se pela plebe quando dela dependem para sentar o traseiro no assento do poder. No intervalo tornam-se nos três macacos sábios... mas com pouca sapiência.
Um aviso as decisores deste país: pessoas que não têm nada a perder tornam-se extremamente perigosas. 
E estamos a ficar com poucas coisas a que nos possamos agarrar...



13 junho 2013

A doença

Portugal sentia-se mal. Sentia-se fraco, febril, com cefaleias e desvarios; sentia-se a convulsivar a qualquer momento. Queixava-se de vómitos austeros e diarreias intelectuais. Tinha ideias persecutórias nas quais seria alvo de alemães e organizações financeiras várias.
Resolveu ir a um médico cirurgião, famoso pelos seus dotes nos cortes, a ver se este lhe cortava definitivamente o mal pela raiz.

O Dr. Passos atendia em São Bento. A troco de uns bons trocos consultou Portugal.
Durante a consulta, Portugal foi contando os seus ais: "ai, que me doem as estruturas, as infra e as macro", "ai, que tenho a visão curta e não vejo o futuro", "ai, que me dói os ouvidos de tanta lamúria", "ai, que a sodomia política me fez mal às hemorróidas","ai, que me coçam as virilhas de tanto parasita"...
O Sr. Prof. Dr Passos diagnosticou, de imediato, uma neurose nesse tão estranho paciente. Considerou-o um daqueles doentes chatos que se queixam de tudo e mais alguma coisa: tudo lhe dói, até o cabelo; tudo é uma desgraça; tudo vai acabar mal; blá, blá blá. O doutorzito começava a ficar irritado com tanta queixola. "Esse Portugal é mesmo um maricas, pá; será que não vê que está tudo bem? Quem dera que os meus pacientes pudessem ver com os meus olhos", pensava o Dr.

A consulta já se prolongava no tempo quando o Dr. Passos, após profunda reflexão e uma boa dose de canastrice, resolveu dar nomes aos bois:
- Meu caro Portugal, o Sr. padece de uma espécie rara de Síndrome Metabólico Nacional. É o primeiro caso que tenho mas parece ser endémico do sul da Europa e tenho a impressão de ser bastante contagioso. Consiste, basicamente, em gorduras a mais e, consequentemente, peso a mais. O seu Estado é, portanto, obeso. A somar, o senhor tem Diabetes pública, resultado dos doces gastos dos últimos 38 anos. Sabe, as suas células viveram à grande e os seus órgãos sugaram tudo o que podiam e não podiam. Quando somos novos não pensamos no futuro e a sua democracia é um claro exemplo de uma juventude transviada... ah, e o senhor é neurótico também, já agora.
- Mas, Dr, isso está assim tão mal? O que é que se pode fazer?  
- Proponho um tratamento de choque?  
- Ok, drogas fortes...  
- Não, não, mesmo choques: electrochoques! Electroconvulsoterapia! É o melhor para essa mania de perseguição e esse fado que o senhor tem.  
- Mas, sr. Dr., pensei que a neurose era um diagnóstico secundário! E então essa gordura e a diabetes, não me podem parar o coração republicano e o cérebro democrático? O senhor não é cirurgião? Não me corta nada?  
- Bem, primeiro esses orgãos de que fala já há muito estão parados, meu caro Portugal. Além disso, há quem viva dessa gordurinha boa que tem; não lhes quer estragar a vida só porque tem a sua arruinada, não é? Quanto ao cortar, já lhe cortei as esperanças, que mais quer?    
Portugal saiu a rastejar, desmoralizado, daquele gabinete. No entanto, não satisfeito, foi procurar uma segunda opinião doutro douto senhor que consultava num palácio cor-de-rosa de Belém.
Pobre Portugal, estava mesmo perdido...

11 junho 2013

On/off

Marido e mulher entram no gabinete. Vêm os dois para uma consulta de "rotina" acompanhados pela filha.
Ela é baixa, não chega ao metro e meio bem cheinhos por uns bons quilos a mais; ele é um pouco mais alto e mais longilíneo.

Desde o momento em que os dois abrem a porta do gabinete ouço a senhora a falar. Aliás, se não estiver a exagerar, penso já ouvi-la mesmo antes de entrar no consultório.

Começo as consultas por ela. 
A senhora é daquelas pessoas que vai ao Porto para ir para Lisboa. Começa a falar em alhos e, sem se saber como e porque, altera para bugalhos. Tem um discurso verborreico incessante, rotativo, apenas com ligeiras pausas para respirar. Salta de um assunto para outro como um Cadillac de um mexicano qualquer de Los Angeles. A filha bem tenta reprimi-la mas é como se se sentasse num touro mecânico: desiste logo aos 3 segundos.

Eu deixo a simpática senhora falar, falar, falar. Não digo palavra nem faço qualquer interrogação: dou-lhe tempo de antena. Quando finalmente cede um flanco, tomo as rédeas e, passados os 15 minutos de antena (não de fama), a consulta se encerra.

Passo então para o companheiro. 
Durante todo o tempo da consulta da esposa, ele nada falou. Não abriu o bico ou prestou atenção no que foi dito. Por vezes elevava os ombros e suspirava. Parecia acostumado...
Quando finalmente pergunto "e então, sr, o que o traz cá", a senhora liga-se novamente em virtuoso e veloz discurso, tentando explicar tudo por ele e voltando às suas próprias mazelas.
Deixo-a falar por mais um ou dois minutos e então olho seriamente no rosto do seu marido e pergunto com a maior naturalidade:
- Onde é que se desliga?

Escusado será dizer que, à excepção da faladora, todos os outros riram-se.
Risota passada pude, por fim, terminar as consultas.
Que nos valha o jogo de cintura.




10 junho 2013

Pai sofre XXXII - Um milhão de quilates

A minha menina tem um amigo na escola.
Tanto ela como ele se iluminam quando se vêem. E enquanto não se encontram, parece-me, o dia não tem brincadeira, ou tem, mas sem tanto riso nem tanta graça.
A relação de amizade entre as duas crianças me enriquece. A pureza daquele amor infantil é um verdadeiro diamante. Faz-me encarar a vida de forma mais simples e perceber que, por trás de tantas nuvens, metaforica e fisicamente falando, existe realmente uma estrela para nos aquecer o espírito.

Os miúdos mais velhos perguntam a ela "onde está o teu namorado, menina?", numa jocoza brincadeira sobre os mais novos. Ela aponta para o rapaz sem saber ao certo o sentido daquela estranha palavra. Para ela é o melhor amigo, aquele com o qual tem mais afinidade, o que brinca melhor e a faz sorrir. Não há sentimento de posse ou de ciúme, apenas um desejo verdadeiro de companhia.

Confesso, no início, um pouco de ciúmes, uma verdadeira patetice e típico de um homem há muito vendido aos problemas do mundo dos adultos. Para quem já passou da primavera, a vida está carregada de preconceitos e medos irracionais e espanta-se com a naturalidade de um verdadeiro abraço desinteressado. É difícil aceitar tanta nobreza e é preciso alguma humildade para perceber que temos muito a aprender com a petizada.
Ainda faltam alguns anos até eu realmente ter de me preocupar com carcamanos atrás da minha princesa. Mas façam esforço para perdoar um pai adulto levemente enciumado e corrompido pelos males da sociedade.

Em meio a tanta "preocupação" parental consola-me esta beleza apenas proporcionada pela limpeza da alma infantil. A amizade aqui não tem cor, não tem sexo, não tem idade e, principalmente, não tem fronteiras.

Aprendêssemos alguma coisa com os pequenitos e este mundo seria um lugar melhor.


09 junho 2013

Drogas de/vidas

Vinha ela dos médicos. 
Mais uma vez carregada de receitas milagrosas para mazelas e mágoas incuráveis.
Adentrou titubeante na pequena e velha botica. Cumprimentou o funcionário e apresentou-lhe a prescrição da dermatologista.
O farmacêutico sorriu e sussurrou entredentes "um manipulado? Até que enfim", numa clara alusão da necessidade pessoal de relembrar o labor num laboratório. Já ninguém praticava "pharmácia" nestes dias, vinha tudo em caixinhas coloridas.
Ela ouviu o rumorejo e respondeu num semelhante murmúrio: "manipulai-me!"

"Manipulai meu ser. Faz dele o que quiserdes. Revirai meu corpo, penetrai-o, perfurai-o, remexei-o, centrifugai-o em rotações tamanhas capazes de desfazer meus pensamentos mais sombrios. Triturai meus ingredientes e, assim, transformai-me em cura para meus próprios males.
Manipulai meu coração. Misturai os sentimentos que lá guardo em coquetel mágico de prazer. Manipulai a bomba e programai-a para estoirar como nos filmes: exactamente no momento em que me salvais e me pondes no porto seguro dos vossos carnudos braços.
Manipulai meus sofrimentos. Aquecei-os, queimai-os, fazei-os evaporar na química dos vossos preparos. Curai-me das minhas extraordinárias dores, das inventadas, das sonhadas, das queridas e companheiras, das físicas e das psíquicas. Curai-me por completo com os vossos salgados elixires místicos.
Manipulai o meu género. Manipulai-o com vigor. Manipulai-o com o rigor e precisão das ciências exactas. Não lhe tenhais perdão. Devassai-o, sugai-o, e deleiteai-vos com os seus sucos e provai que o inferno também pode ser sagrado. Usa o vosso corpo para o vasculhar meu sexo num vai e vem insaciável e pecaminoso. Fazei da minha pélvis um brinquedo e sê criança o tempo que quiserdes. 
Manipulai o que quiserdes de mim. Fazei-me vossa sem pruridos ou arrependimentos. 
Relembrai-me que a vida, por mais sofrida, pode, por fim, ter algum mínimo sentido."

O técnico voltou-se para ela com a nítida noção de ter ouvido algo e lhe perguntou:
"Desculpe, minha senhora, disse alguma coisa?"
"Oh, sim, sim. Era mais esta receita.", respondeu trêmula.
O farmacêutico olhou para o papel e falou consigo próprio:
"Hum, pois bem... sim... lítio".

08 junho 2013

Incompetência à PSD?

ATENÇÃO - spoilers (embora seja um filme já de 1999...)

Ontem estava a passar o "Coleccionador de ossos" com o Denzel e a Jolie (ainda com as mamas antigas) nos papéis principais. Aqueles que se lembram do enredo sabem que a personagem do Denzel é tetraplégica e, por necessitar dos cuidados mais básicos e de saber que a evolução da sua condição é deveras desfavorável, quer que lhe seja aceite um pedido para a morte medicamente assistida.

Mas que porra tem isto a ver com o PSD?
Esperem que isto é capaz de fazer algum sentido à dada altura.

O mauzão da fita é um dos técnicos das máquinas de suporte do tetraplégico. No final da película, por mais estranho que pareça, envolve-se numa luta com o deficiente físico e, so on and so forth, acaba tudo bem e este a levar com um tiro nos cor... nas costas.
Pois bem, resumindo: o técnico não consegue matar um tetraplégico que queria morrer!?
Já para ministro da Economia! Sai da cadeira ó Álvaro!


06 junho 2013

"Grousso"

“Grou” era o seu estilo.
Como a majestosa ave, também ele voou.
Levantou voo impulsionado violentamente por uma poção mágica que tomou. Líquido extraído de fruta poderosa ao paladar e olfato e que lhe deu um enérgico empurrão a coragem, lhe incrementou a força e lhe libertou a insanidade. Com os ingredientes certos da vinha, esse tal grou humano saltou do alto da sua elevada razão e, no ilimitado repique do licor, esvoaçou pelo celeste dia de verão.
Nessa encantadora viagem recarregou as baterias do seu ser e deixou-se volatizar num fumo violáceo e alcoólico que, com apenas um leve trago, seria capaz de inebriar deuses e demónios (principalmente estes últimos). Depois fez-se nuvem carregada e choveu-se por instantes, voltando a reunir-se em pingos frutados de si mesmo para prosseguir a ébria jornada.
Descansou no Alísio, deixando-se levar pela calmaria da tarde; por fim, quando o super-poder do liquor terminou, levou ao bico mais um gole da orgíaca poção... e adejou um pouco mais, migrando alegremente para o infinito.

19 maio 2013

Tri


31 março 2013

Seria uma boa páscoa!


Right now somebody is praying to have bunny for the easter lunch...

30 março 2013

Cancioneiro modernizado

 "(...) Juntaram-se os 2 na esquina
A tocar a concertina
E um autocarro passou-lhes por cima
Eu não tive muita dó!"

É bem feita! Quem manda andar a chatear o people a altas horas?

 

29 março 2013

8


Foi há 8 anos atrás que uma amiga chuvosa, dona de um céu de nuvens cor-de-laranja, me apresentou à blogosfera. Mostrou-me o seu próprio estaminé e criou-me uma estranha vontade de entrar neste negócio virtual. Assim nasceu o mundo catso. Mas não se enganem: o mundo já era catso muito antes deste nascer.
Ao longo desse tempo foram muitos os que "conheci"  por aqui. Conhecer nesta dimensão informática tem outra definição. Não se toca, não se ouve, não se sente. Lê-se e imagina-se como serão os donos das imagens e das letras. De alguns conheço o rosto, culpa de algo maior que lentamente está a destruir esta forma de comunicação blogueana: o Facebook. Doutros, faço eu próprio a minha criação mental. Descansem esses, pois elas são todas lindas, gostosas e vestidas a rigor para a participação num filme erótico da Palyboy TV; eles, são homens e não ando a criar imagens de machos na minha mente, recrio-os como personagens simpsonianas - amarelos, esteriotipados e com abdómenes cervejeiros. No entanto, encaro-os todos como amigos, mesmo que virtuais, já que muitos comungam das minhas ideias e, os que não comungam, costumam debater com educação. 

É raro lembrar-me do aniversário deste espaço. Talvez o tenha feito apenas por duas ou três vezes ao longo deste período. Talvez este ano me tenha lembrado justamente porque o tasco tem sido negligenciado pela gerência nestes últimos tempos. Não porque o mundo tenha deixado de proporcionar estupidez, essa parece infidável, mas porque o Catsone (que por vezes gosta de usar a 3ª pessoa) tem tido tempo para quase tudo e a blogosfera parece fazer parte desse "quase" que está a ser esquecido.

Já muito aprendi por cá. Já muito me diverti. Já muito desabafei. Espero, mesmo que esporadicamente, manter-me por aqui a ver a bola por mais algum um tempo.



26 março 2013

Opinadeiros

Homenagem a MRS e JS:

"Era um homem tão letrado, tão imensuradamente letrado, que um dia comeu uma sopa de letras e obrou um romance com um cheirinho à Margarida Rebelo Pinto..."

14 março 2013

Exame esquisito

Da prática no Centro de Saúde 
 ...então o doente aborda-me no corredor do Centro de Saúde visivelmente transtornado. 
"Dr. precisava muito de falar consigo. Parece que tenho algo grave na próstata!", enquanto esbracejava nervosamente com um exame que tinha feito. 
Digo-lhe para aguardar e que, no intervalo entre consultas, falaria com ele.

Algum tempo depois, e para evitar conflitos com outros utentes/doentes/pacientes/clientes, chamei-o e pedi que me explicasse o que se passava. 
"Pois, xôtor, fui eu que fui a um rastreio e disseram-me que tinha a próstata em mau estado. Até lhes disse que calhava bem já que tinha este exame para mostrar ao meu MF!" 
O exame em causa era uma ecografia prostática pedida por mim mesmo e que, para um indivíduo de 60 e tais, nem estava muito má: um ligeiríssimo aumento do volume. 
"Mas ouça lá, o Sr. tem alguma queixa urinária?" 
"Não"
"Fizeram alguma análise ao sangue?" 
"Não" 
"Mas que rastreio era esse?" 
"É daquelas barracas que medem a tensão e o colesterol" 
"Mas como, em nome de um deus qq, e baseado em quê, concluíram que tinha um problema grave na próstata?" 
"Ó, xôtor, eles têm uma máquina extraordinária. Nós pomos o dedo lá dentro e a máquina mostra o nosso corpo todo!!!" 
"Desculpe. O senhor está a brincar comigo? É que para avaliar a próstata é exactamente ao contrário: constumam é enfiar o dedo (ou a máquina [eco]) em nós!" 
Tranquilizei o doente e continuei as consultas.

É difícil manter uma "poker face" nestas situações...

28 fevereiro 2013

Milagres?

Bento XVI deixa de ser Papa e torna-se "um simples peregrino"  in Público

Explicai-me, Deus, como alguém que mal anda pode andar praí a peregrinar?

06 fevereiro 2013

Viagens

Dizem que as viagens no tempo não existem. Talvez seja verdade mas dependerá do ponto de vista. Não existem viagens no tempo em termos físicos mas é impossível evitar que o espírito viaje...

As arrumações na casa nova tiveram o condão de me reapresentar à missivas há muito esquecidas numa gaveta qualquer. Cartas de amigos, de amigas algo coloridas e outras descoloridas, de colegas de escola e outros personagens. Pessoas que "abandonei" no regresso à lusa terra. Pessoas das quais perdi contacto e me indago, por vezes, em como estarão hoje. 

Entreti-me a lê-las por um bocado. Sacudi-lhes a poeira do tempo e li-lhes a data: algures de 1992, em algum tempo de 1993, meados de 1994 e 1995. Enquanto as lia olhei para as costas das mãos: já não estão tão lisas como outrora...

As palavras contavam-me as novidades daquele tempo, revelavam sentimentos guardados, confessavam saudades acumuladas, sucessos alcançados e formulavam desejos de felicidades na minha nova aventura portuguesa. Perguntavam de forma sincera se gostava de cá estar, sobre a minha adaptação; algumas perguntavam-me sobre aventuras outras.

Enquanto as lia não pude deixar de sorrir umas quantas vezes e suspirar umas tantas mais. Talvez, se não estiver enganado e não me falhe a memória, podia jurar que me saltou uma ou duas lágrimas pelo caminho da leitura.
Nessa tão diferente viagem pude ver-me novamente em inícios dos 90, puto imberbe e descordenado, dominado por hormonas e inexperiente. Pude rever clássicos do Paulistão e do campeonato brasileiro. Vi-me a pular o único e último carnaval numa matiné estranha rodeado de amigos. Voltei a ter 17 novamente. 
Numa delas encontrei 3 autógrados de jogadores do São Paulo F.C. enviados por um dos mais inveterados corinthianos que conheço e, ao mesmo tempo, um dos meus melhores amigos de sempre.

Arrumei-as com cuidado de volta na caixa que as conservava. Ficarão ali a hibernar. Talvez não mais volte a lê-las, talvez as revisite quando sentir necessidade de viajar para aquela altura... ou vontade de me sentir com 17 novamente.



20 janeiro 2013

La tralha

Bugigangas, cacarecos, quinquilharia, miudezas, coisitas... merdices.

Por culpa de uma mudança de casa, este início de ano tem sido algo turbulento. Conjugar a trasfega de objectos mil com o trabalho e a criação é tudo menos fácil. 
Apesar de, após o casório, termos feito uma mudança da casa dos papás para o nosso "ninho", penso que esta é a verdadeira mudança. Isso porque, a somar a tudo que levamos daquela vez temos as inúmeras coisas que foram sendo acrescentadas nesses últimos 7 anos.

Ora, eu, na minha ingenuidade patética, pensava apenas na tarefa hercúlea de transportar os grandes móveis. Fazia planos nos quais o aparador caberia no elevador do prédio, projectava a forma mais fácil de desmontar alguns dos outros móveis e calculava a quantidade de braços amigos necessários para acartar com os sofás e os fazer descer, pelas escadas, os 5 andares do prédio.

Mas os grandes móveis não são nada comparados com as niquices que existem em casa! Móveis robustos fora do apartamento e sobram um milhão e meio de berliques e berloques para embalar e  transportar. Enquanto que os móveis precisam de força bruta para o transporte, os trastes dos obejctos pequenos requerem paciência e uma logística muitíssimo mais apurada e tecnologicamente avançada. 
Veja-se o caso de livros e uma caixa de cartão. É preciso uma pós-graduação em Tetris para os organizar no espaço de papelão! Não vale a pena as inúmeras e diferentes tentativas que se façam: irá sobrar sempre um espaço na caixa onde não cabe o último livro a embalar...
Para os copos e loiças são precisos todos os jornais editados nos últimos 6 meses para os envolver em segurança. Mesmo assim há que rezar para que não se multipliquem...
A roupa toda vai em malas e não vale a pena gastar tempo a engomá-las: vão sempre amarrotar de qualquer forma. Além disso, são necessárias grandes quantidades de cabides, mesmo para coisas que já não se usam há séculos. Ponto a favor: dá sempre para ir se livrando de coisas que, ou já não servem, ou já estão "démodé".
Os brinquedos dos miúdos levam-se dentro de outros brinquedos: caixas dentro de caixas; legos dentro de legos; peças e mais peças dentro de um carrinho-de-mão de brinquedo. Fica-se com uma pequena ideia do trabalho na Lapónia em vésperas de Natal.
As mercearias que restam em casa vão por uma 2ª vez em sacos do hiper do Belmiro, numa espécie de regurgitação de compras.

Tudo isto é muito bonito, "ah e tal" é coisinha chata, sim senhor, que peninha... mas não é comparável à tentativa de organização de "coisas" guardadas por nostalgia. Passo a explicar: penso que todos nós gostamos de guardar coisas que nos foram caras em determinado momento da vida; alguns guardam cartas de amigos coloridos; outros guardam mapas de viagens inesquecíveis; alguns ficam com jornais desportivos que lembram conquistas do seu clube; etc, etc, etc. No fim das contas, existem um sem fim de "lembrancinhas" para transvasar! Essas coisas são piores que lapas, ficam grudadas, impossíveis de amandar fora! "Ah, porque me lembra a 1ª vez que fomos ao cinema"; "Ah, porque lembra aquela vez que fomos ao Manel dos Ossos e apanhamos uma monumental bezana!", "Ah, porque sim e pronto!"... São caixotes e mais caixotes com memórias.

Por fim, ficam as coisas mais pequenas,  as coisas "inorganizáveis" em qualquer categoria, de difícil manuseamento, quase impossíveis de ver ou de agarrar. Aquelas que, pela sua infindável quantidade e diversidade, não se sabe por onde começar a apanha. Aquelas que não se sabe (ou não se lembra) porque se têm mas que pelas quais vela algo que faz com insistamos em mantê-las... mesmo que, por vezes, exista uma vontade de lhes dar um pontapé para  longe ou varrê-las para a varanda na esperança de que o vento as faça desaparecer. São essas que nos dão cabo da cabeça e das costas.

É apenas numa situação dessas que se tem noção de quanta tralha se acumula em casa.

E depois de tudo transportado e despejado na nova residência chega-se à assustadora conclusão de que ainda só se fez metade do serviço...






Imagem google