As pessoas dizem ter medos. Têm medo da doença e/ou da morte. Têm medo do roubo e da violência e medo da pobreza e da solidão. Há pessoas que temem de tudo um pouco e temem o escuro, as aranhas, os outros e a ira de Deus.
Declaro-me aqui também medroso: eu que também tenho medos, inúmeros deles. Medo da mentira, da traição, da perda de bens materiais ou da minha dignidade. Tenho medo da incapacidade física e, não raras vezes ultimamente, medo do meu futuro e do da minha família.
Já experimentei vários medos. Já tive cagunfa, já fugi, já fiz frente a alguns dos meus temores. Senti o medo correr-me pela espinha e o gelo a apoderar-se-me das veias, mas confesso que nunca tinha experimentado o terror.
Nunca tinha sentido de perto o efeito físico do pavor.
Agarrei a mão da mais nova e atravessamos a estrada. Para trás ficava a pequena sacada (se é que se pode chamá-la assim) da casa dos meus sogros.
De repente ouvi um grito desesperado da minha senhora a chamar pelo nome do mais pequenito que, entretanto, fugira ao controlo de 3 adultos e do seu próprio pai. O pequeno atravessava a estrada no exacto momento em que se aproximava um automóvel.
Ao ouvir a mãe e, ao imaginar o que poderia ser, deixei a mais velha junto ao meu carro e corri para a estrada sem sequer me preocupar com o que me pudesse vir a acontecer.
Meu olhos estavam apenas fixos no miúdo e o meu objectivo era arrancá-lo o mais depressa possível do meio da estrada. Só depois de o ter nos braços reparei que o condutor, muito prudente e ao qual não tive oportunidade de agradecer, vinha numa velocidade correcta para aquele local e tinha abrandado ao ver a criança.
Agarrado aos meus braços, o rapaz sorria sem imaginar pelo que passara. A mãe, os avós e eu, desesperados e aturdidos, olhavam uns para os outros com expressões faciais desconhecidas. Num ataque irracional de desespero, tentava-se arranjar desculpas e culpas para o acontecido.
Geralmente os meus medos ficam dentro do meu corpo apenas alguns segundos e reflectem-se no tremer do corpo e na boca seca. Passados alguns minutos volta tudo ao normal. Neste caso foi diferente: o corpo não compreendeu o que se passou; não tremeu, não gelou, apenas reagiu de forma automática em resposta a uma mente aflita. E foi mesmo a mente que ficou com mazelas do acontecimento já que durante todo o resto do dia a cena repetiu-se na cabeça mas sempre com os finais alternativos mais tenebrosos que se possam imaginar.
Como confessei acima, já tive vários confrontos com medos mas nunca tinha sentido algo que ficasse incrustado desta forma no coração e no espírito. Imaginar a vida sem um dos meus pequenos...
O rapaz e a irmã vieram a viagem de regresso a cantar alegremente uma canção infantil qualquer; eu chorei ao longo de todo o caminho: tinha finalmente tido contacto com o sentimento de "terror".
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15 maio 2014
17 julho 2013
Pai sofre XXXIII - Ver vídeos na internet, mas sempre com protecção que é para não apanhar vírus
O tempo de ver filmes na televisão já lá vai. Os miúdos de hoje parecem se entreter mais ao ver os seus bonecos através do computador ou telemóvel. Culpa dessas novas tecnologias que põe à mão de semear qualquer conteúdo audiovisual que se pretenda sem grandes inconvenientes ou dificuldades.
Assim, numa bela tarde, e em resposta a um pedido deste tipo vindo de um dos pimpolhos, foi o pai ligar o ordenador. Acedeu à netinha para navegar com destino ao sítio dos filmes e escolheu aquele pretendido. A criança, de olhos bem abertos e impaciente pelo início da animação, deixou-a sentada na cadeira e foi à sua vida de pai satisfeito por agradar a cria. Tudo preparado para alguns minutos de pura diversão infanto-juvenil ingénua e pura, mas…
Um à parte: quem costuma visitar estes grandes servidores de vídeos sabe que, quase sempre, antes de cada filme existe uma publicidade a qualquer coisa. São telemóveis, produtos de higiene, comida para cão, qualquer coisa se vende a quem tiver uns segundos de paciência ou muito interesse em ver o vídeo que vem a seguir.
Como ia dizendo, a criança esperava ansiosamente pelo início do boneco e eis que, ao invés de um desenho colorido e infantil, surge um comercial de uma famosa marca de quê mesmo? De quê? De rebuçados? De chocolates? De gelados? De brinquedos? Não? Então de quê, caraças... suspense...tcharam: PRESERVATIVOS!!! E não eram uns quisquer, não, eram preservativos que diziam ser “sensação pele com pele”!!! Mas que o quê, em nome de um deus qualquer, é “sensação pele com pele”?!
Mas quem foi o génio que plantou uma propaganda semi-erótica antes de um vídeo infantil!? Quem achou conveniente por um comercial com esfregação e pecado num canal de animação? Tudo bem que era de animação que se estava à procura mas não desse tipo, caramba! O que valeu foi a destreza do pai em dissimular a cena.
Não quero censurar nada aos pequenos mas cada coisa a seu tempo, ok? Sei que existem miúdos precoces mas que os meus o sejam em matemática ou literatura báltica.
Já estava ciente de que a net era coisinha insegura e promíscua mas isto parece-me algo exagerado.
Assim, numa bela tarde, e em resposta a um pedido deste tipo vindo de um dos pimpolhos, foi o pai ligar o ordenador. Acedeu à netinha para navegar com destino ao sítio dos filmes e escolheu aquele pretendido. A criança, de olhos bem abertos e impaciente pelo início da animação, deixou-a sentada na cadeira e foi à sua vida de pai satisfeito por agradar a cria. Tudo preparado para alguns minutos de pura diversão infanto-juvenil ingénua e pura, mas…
Um à parte: quem costuma visitar estes grandes servidores de vídeos sabe que, quase sempre, antes de cada filme existe uma publicidade a qualquer coisa. São telemóveis, produtos de higiene, comida para cão, qualquer coisa se vende a quem tiver uns segundos de paciência ou muito interesse em ver o vídeo que vem a seguir.
Como ia dizendo, a criança esperava ansiosamente pelo início do boneco e eis que, ao invés de um desenho colorido e infantil, surge um comercial de uma famosa marca de quê mesmo? De quê? De rebuçados? De chocolates? De gelados? De brinquedos? Não? Então de quê, caraças... suspense...tcharam: PRESERVATIVOS!!! E não eram uns quisquer, não, eram preservativos que diziam ser “sensação pele com pele”!!! Mas que o quê, em nome de um deus qualquer, é “sensação pele com pele”?!
Mas quem foi o génio que plantou uma propaganda semi-erótica antes de um vídeo infantil!? Quem achou conveniente por um comercial com esfregação e pecado num canal de animação? Tudo bem que era de animação que se estava à procura mas não desse tipo, caramba! O que valeu foi a destreza do pai em dissimular a cena.
Não quero censurar nada aos pequenos mas cada coisa a seu tempo, ok? Sei que existem miúdos precoces mas que os meus o sejam em matemática ou literatura báltica.
Já estava ciente de que a net era coisinha insegura e promíscua mas isto parece-me algo exagerado.
10 junho 2013
Pai sofre XXXII - Um milhão de quilates
A minha menina tem um amigo na escola.
Tanto ela como ele se iluminam quando se vêem. E enquanto não se encontram, parece-me, o dia não tem brincadeira, ou tem, mas sem tanto riso nem tanta graça.
A relação de amizade entre as duas crianças me enriquece. A pureza daquele amor infantil é um verdadeiro diamante. Faz-me encarar a vida de forma mais simples e perceber que, por trás de tantas nuvens, metaforica e fisicamente falando, existe realmente uma estrela para nos aquecer o espírito.
Os miúdos mais velhos perguntam a ela "onde está o teu namorado, menina?", numa jocoza brincadeira sobre os mais novos. Ela aponta para o rapaz sem saber ao certo o sentido daquela estranha palavra. Para ela é o melhor amigo, aquele com o qual tem mais afinidade, o que brinca melhor e a faz sorrir. Não há sentimento de posse ou de ciúme, apenas um desejo verdadeiro de companhia.
Confesso, no início, um pouco de ciúmes, uma verdadeira patetice e típico de um homem há muito vendido aos problemas do mundo dos adultos. Para quem já passou da primavera, a vida está carregada de preconceitos e medos irracionais e espanta-se com a naturalidade de um verdadeiro abraço desinteressado. É difícil aceitar tanta nobreza e é preciso alguma humildade para perceber que temos muito a aprender com a petizada.
Ainda faltam alguns anos até eu realmente ter de me preocupar com carcamanos atrás da minha princesa. Mas façam esforço para perdoar um pai adulto levemente enciumado e corrompido pelos males da sociedade.
Em meio a tanta "preocupação" parental consola-me esta beleza apenas proporcionada pela limpeza da alma infantil. A amizade aqui não tem cor, não tem sexo, não tem idade e, principalmente, não tem fronteiras.
Aprendêssemos alguma coisa com os pequenitos e este mundo seria um lugar melhor.
Tanto ela como ele se iluminam quando se vêem. E enquanto não se encontram, parece-me, o dia não tem brincadeira, ou tem, mas sem tanto riso nem tanta graça.
A relação de amizade entre as duas crianças me enriquece. A pureza daquele amor infantil é um verdadeiro diamante. Faz-me encarar a vida de forma mais simples e perceber que, por trás de tantas nuvens, metaforica e fisicamente falando, existe realmente uma estrela para nos aquecer o espírito.
Os miúdos mais velhos perguntam a ela "onde está o teu namorado, menina?", numa jocoza brincadeira sobre os mais novos. Ela aponta para o rapaz sem saber ao certo o sentido daquela estranha palavra. Para ela é o melhor amigo, aquele com o qual tem mais afinidade, o que brinca melhor e a faz sorrir. Não há sentimento de posse ou de ciúme, apenas um desejo verdadeiro de companhia.
Confesso, no início, um pouco de ciúmes, uma verdadeira patetice e típico de um homem há muito vendido aos problemas do mundo dos adultos. Para quem já passou da primavera, a vida está carregada de preconceitos e medos irracionais e espanta-se com a naturalidade de um verdadeiro abraço desinteressado. É difícil aceitar tanta nobreza e é preciso alguma humildade para perceber que temos muito a aprender com a petizada.
Ainda faltam alguns anos até eu realmente ter de me preocupar com carcamanos atrás da minha princesa. Mas façam esforço para perdoar um pai adulto levemente enciumado e corrompido pelos males da sociedade.
Em meio a tanta "preocupação" parental consola-me esta beleza apenas proporcionada pela limpeza da alma infantil. A amizade aqui não tem cor, não tem sexo, não tem idade e, principalmente, não tem fronteiras.
Aprendêssemos alguma coisa com os pequenitos e este mundo seria um lugar melhor.
09 maio 2013
08 dezembro 2012
Pai Sofre XXX - Maldito plural
A ver televisão:
"Olha, aqueles "cãos" estão a brincar"
"Pois estão. Mas, olha, não são "cãos": são "cães""
"Ah, sim, os cães!"
Passado um bocado
"Os cãos gostam de brincar, pai"
"Não são os "cãos", linda. Quem são, lembras-te?"
"São os cã... os cã... são os cachorrinhos!"
"Olha, aqueles "cãos" estão a brincar"
"Pois estão. Mas, olha, não são "cãos": são "cães""
"Ah, sim, os cães!"
Passado um bocado
"Os cãos gostam de brincar, pai"
"Não são os "cãos", linda. Quem são, lembras-te?"
"São os cã... os cã... são os cachorrinhos!"
04 dezembro 2012
Pai Sofre XXIX - Criança num palheiro
Hoje fui incumbido pela minha patroa de levantar a mais velha ao infantário, jardim de infância, escolinha ou lá que seja. Obviamente que disse que sim, primeiro porque é algo que me dá prazer em fazer, segundo porque poderia haver represálias caso me recusasse...
Gosto de ir buscar a moça à escola. Nem me importo com as filas de trânsito ou a falta de lugar para estacionar, coisinhas que, no meu dia-a-dia normal, tiram-me realmente do sério.
Gosto porque quero vê-la a inteirar-se do mundo, aquele longe de casa e do abrigo dos pais, o mundo de verdade, embora em miniatura e despreocupado... mas por vezes cruel.
"Cruel?", perguntarão vocês. Sim, cruel. As crianças são criaturas maquiavélicas. Não têm culpa mas está-lhe nos genes. É coisa primitiva e animalesca. Tudo normal, portanto.
Nesta altura da vida, esses projectos de gente começam a encontrar o seu papel na matilha e conhece-se quem, no futuro, terá mais propensão para ser "alfa".
Das vezes em que fui buscar a moçoila postei-me a observá-la ao longe, a "estudar" o seu comportamento. Tal como eu, parece-me que a rapariga não é muito de "meter conversa". Fica na sua a observar. Deu-me a impressão de, ela própria, estar a estudar o ambiente e ver, do seu jeito, quem poderá vir a interessar ter como amigo/companhia. Esperta a fulana, também ela a mostrar eu lado maquiavélico.
Nesses perídos de observação, já a vi ser ostracizada pelas mais velhas numa clara tentativa de intimidação. Ela não fez frente mas, pareceu-me, lançar um olhar tipo "ok, venceste esta batalha mas... prepara-te". Até a mim meteu medo.
No entanto, como dizia no princípio, hoje fui buscá-la mais uma vez. Como ía com alguma pressa, culpa de um dia cheio no trabalho, fui imediatamente à sua procura.
Chegando ao estabelecimento, deparei-me com um cenário caótico. Invadiu-me uma sensação tipo Gulliver, rodeado de dezenas de seres pequenos em algazarra total, que corriam em anarquia completa pelo pátio coberto do estabelecimento.
Eu disse "dezenas"? Bem, se calhar, pequei por defeito, deviam ser mais.
Pus-me à procura do meu exemplar no meio de tanta pimpolhagem. Só aí, depois de tantas vezes lá ter ido, é que percebi que não é fácil encontrar uma crinaça no meio de tantas outras semelhantes. É mais difícil que encontrar o tal do Wally! Não há pontos de referência: são (quase) todos do mesmo tamanho e configuração! Haja capacidade de observação!
Resolvi pedir ajuda a uma contínua:
"OLÁ, BOA TARDE!" - já num tom de voz considerável.
"BOA TARDE!" - respondeu-me a senhora enquanto se debatia para não ser arrastada por 3 ou 4 imitações de gnomos.
"POR ACASO VIU A MINHA MOÇA? JÁ ESTIVE AI A VER SE A ENCONTRAVA MAS NÃO TENHO OS OLHOS TREINADOS!"
"ESPERE LÁ UM BOCADINHO" - e deixou-se ir com a manada.
Passados alguns segundos, em meio à gritaria insana, ouço:
"PAAAAIIIIIII" - enquanto estala um beijo e espreme-me num gostoso abraço.
"Onde estavas?" - perguntei eu.
"Ali, naquele banco" - repondeu-me com uma expressão de "és mesmo totó e cegueta".
Ela não tem razão em achar-me cegueta... agora, "totó"... coisas de pai enamorado.
Gosto de ir buscar a moça à escola. Nem me importo com as filas de trânsito ou a falta de lugar para estacionar, coisinhas que, no meu dia-a-dia normal, tiram-me realmente do sério.
Gosto porque quero vê-la a inteirar-se do mundo, aquele longe de casa e do abrigo dos pais, o mundo de verdade, embora em miniatura e despreocupado... mas por vezes cruel.
"Cruel?", perguntarão vocês. Sim, cruel. As crianças são criaturas maquiavélicas. Não têm culpa mas está-lhe nos genes. É coisa primitiva e animalesca. Tudo normal, portanto.
Nesta altura da vida, esses projectos de gente começam a encontrar o seu papel na matilha e conhece-se quem, no futuro, terá mais propensão para ser "alfa".
Das vezes em que fui buscar a moçoila postei-me a observá-la ao longe, a "estudar" o seu comportamento. Tal como eu, parece-me que a rapariga não é muito de "meter conversa". Fica na sua a observar. Deu-me a impressão de, ela própria, estar a estudar o ambiente e ver, do seu jeito, quem poderá vir a interessar ter como amigo/companhia. Esperta a fulana, também ela a mostrar eu lado maquiavélico.
Nesses perídos de observação, já a vi ser ostracizada pelas mais velhas numa clara tentativa de intimidação. Ela não fez frente mas, pareceu-me, lançar um olhar tipo "ok, venceste esta batalha mas... prepara-te". Até a mim meteu medo.
No entanto, como dizia no princípio, hoje fui buscá-la mais uma vez. Como ía com alguma pressa, culpa de um dia cheio no trabalho, fui imediatamente à sua procura.
Chegando ao estabelecimento, deparei-me com um cenário caótico. Invadiu-me uma sensação tipo Gulliver, rodeado de dezenas de seres pequenos em algazarra total, que corriam em anarquia completa pelo pátio coberto do estabelecimento.
Eu disse "dezenas"? Bem, se calhar, pequei por defeito, deviam ser mais.
Pus-me à procura do meu exemplar no meio de tanta pimpolhagem. Só aí, depois de tantas vezes lá ter ido, é que percebi que não é fácil encontrar uma crinaça no meio de tantas outras semelhantes. É mais difícil que encontrar o tal do Wally! Não há pontos de referência: são (quase) todos do mesmo tamanho e configuração! Haja capacidade de observação!
Resolvi pedir ajuda a uma contínua:
"OLÁ, BOA TARDE!" - já num tom de voz considerável.
"BOA TARDE!" - respondeu-me a senhora enquanto se debatia para não ser arrastada por 3 ou 4 imitações de gnomos.
"POR ACASO VIU A MINHA MOÇA? JÁ ESTIVE AI A VER SE A ENCONTRAVA MAS NÃO TENHO OS OLHOS TREINADOS!"
"ESPERE LÁ UM BOCADINHO" - e deixou-se ir com a manada.
Passados alguns segundos, em meio à gritaria insana, ouço:
"PAAAAIIIIIII" - enquanto estala um beijo e espreme-me num gostoso abraço.
"Onde estavas?" - perguntei eu.
"Ali, naquele banco" - repondeu-me com uma expressão de "és mesmo totó e cegueta".
Ela não tem razão em achar-me cegueta... agora, "totó"... coisas de pai enamorado.
04 novembro 2012
Pai Sofre XXVIII - Os olhos da mão
Quando era miúdo, e quando mexia em algo que não devia,
era frequente ouvir: “ei, não mexas nisso! Tens os olhos nas mãos, por acaso?”.
Quando pequeno não era reguila ou maroto, mas reconheço que era um mexilhão. Assim,
ouvi aquela frase milhares de vezes ao longo da minha infância.
Apesar de tudo, sempre achei piada àquela expressão.
Realmente, quando bem aplicada, tem a sua graça.
Isso para dizer que “quem sai aos seus…”.
O meu mais novo tem os olhos nas mãos. Gosta de apalpar
tudo o que o rodeia. Gosta de sentir a consistência, a resistência, a textura
da matéria à sua volta. Gosta de pesquisar as coisas que estão ao seu alcance
com uma visão que não necessita de globos, órbitas ou lentes. Não se contenta em
ver com os olhos da cara e quer experimentar os outros sentidos, nomeadamente o
tacto e, esporadicamente, o paladar.
Assim, dessa forma, é difícil ficar indiferente ao perigo
que correm as coisas que ficam à mão de semear. Meus discos, os DVDS, os bibelôs
vários, álbuns de fotos até “tremem” à sua passagem e à eventual possibilidade
de pararem nas suas manápulas. Algumas delas já jazem num aterro sanitário
qualquer depois de um encontro imediato do terceiro grau.
Desde que o rapaz obteve a liberdade dada pelo andar que
tudo em casa ficou à sua mercê. Na casa-de-banho foi o papel higiênico que
ganhou outra utilidade: decoração; e os produtos de higiene servem para limpar
também materiais inorgânicos. No corredor, os livros da estante começaram também
a conhecer outras disposições. Nos quartos, os brinquedos raramente permanecem no
sítio por muito tempo. Todas as fotografias emolduradas expostas são para por para
baixo (vergonha dos modelos?).
No entanto, o pior acontece quando a curiosidade impele o
moço a abrir as portas dos armários da sala e da cozinha. As garrafas do bar e
da cozinha deixaram de estar deitadas e já foram de encontro ao chão algumas
vezes (salve o tapete que amortece a queda!). Alguns pratos já pariram “pratinhos”,
bem como alguns copos. Os talheres já serviram como baquetas contra a escada de
alumínio, numa estranha batucada. Os produtos de limpeza, dado aos brilhantes e
coloridos autocolantes, passaram a ser inimigos do bem-estar.
Extensões com interruptores iluminados são para ligar e
desligar e todas as máquinas que tenham botões são para apertar.
Com isto, as idas àquelas casas de lembranças, faianças e
cristais estão fora de cogitação (não que eu me importe muito com este “inconveniente”).
Com toda essa curiosidade e necessidade em pesquisar tudo
com as pontas dos dedos, começo a ficar preocupado quando o rapaz for para a
escola…
Imagem daqui
10 outubro 2012
Pai SofreXXVII: a justiça aos olhos de uma criança de 3 anos
Nestes dias de descalabro económico-social,
vem a minha pequena falar de justiça.
Gostava ela de ficar um
pouco mais de tempo a brincar na rua, com a sua mota cor-de-rosa adereçada com
autocolantes daquela gata japonesa estranha, mas recebeu a revoltosa ordem para
voltar para casa. Ela chorou, esperneou, fez a sua birra infantil, na expectativa
de aquecer os “frios” corações dos pais, e, com os olhos rasos d’água, proferiu
uma triste reclamação: “não é justo!”.
Engraçada a justiça vista
pela óptica de uma miúda de 3 anos. Engraçada a sua forma de reclamar. Estranha
a semelhança com a vida nossa de adultos. Engraçado o mesmo resultado: a
vontade insatisfeita.
Afinal, que justiça a destes
pais? Negar mais uns minutos de prazer em brincadeiras de criança, ou negar
mais uns minutos de televisão antes da cama, ou negar mais uma bolacha antes do
almoço, ou tantas outras coisas que ela gostaria de fazer e que vão contra a
vontadinha do pai ou da mãe.
Onde foi ela arranjar essa
noção de justiça? Como terá entendido que quando se é negado algo, que se acha
ter direito, é uma situação injusta? Onde terá ela tido contacto com essa
expressão?
Se calhar a moça terá ouvido
as reclamações dos seus mais próximos. Terá escutado as comiserações paternas em
frente à televisão aquando de notícias da actualidade nebulosa na qual vivemos.
Terá, quem sabe, visto as lágrimas que por vezes caem do rosto do seu velho e
feito, ela mesma, a sua interpretação do cenário, criando a sua própria cena de reacção às contrariedades: “aquando
de uma nega: esbracejar, chorar, espernear e soltar um “não é justo”, tal como
o pai faz de vez em quando em frente à TV, rádio, computador ou ao ler um
matutino”.
Tenho um misto de orgulho e
pena pela sua resistência. Orgulho porque estou a criar alguém que não se coíbe
em mostrar a sua insatisfação perante aquilo de que não concorda. Pena porque,
por mais que reclame, por mais que grite ou esperneie, os ouvidos do poder são surdos
perante as reclamações dos seus patrícios e as suas revoltas tenderão a cair em
saco rôto.
O pai também reclama; também
ele se chateia, range os dentes… mas nada; ninguém o ouve, ninguém tem peninha
dele e os “maus” continuam a lhe tirar o que pensava ter direito.
Afinal, que justiça a deste
país? Empobrecer a malta, endividá-la, enviá-la (como mercadoria) para
exportação, enevoar o seu futuro e o da república, retirar direitos primários, levar
“o melhor povo do mundo” para muito próximo de um ataque de nervos colectivo…
Esperem lá… querem ver que eu, ao ignorar a reclamação da moça, impondo as minhas regras e ordens, represento uma espécie de governo absolutista doméstico?
Credo!!! Não, claro que não. A minha actuação
representa as pequenas vicissitudes da educação enquanto que os “outros”,
aqueles que não me ouvem, esses parecem nunca terem sido sequer educados…
Contudo, perante à cópia da
pequenita, concluo ter de ter mais
cuidado com o calão que, por vezes, acompanham as minhas birras de adulto sob
pena de, algum dia, passar por uma vergonha: as crianças costumam ser muito espontâneas…
27 agosto 2012
Pai sofre XXVI: Férias em família ≠ de descanso
Quando se é solteiro ou quando, em casal, não se tem filhos, a malta vai de férias para descansar. Vai para a praia, “trabalha pró bronze”, mira as meninas em trajes (cada vez mais) pequenos, bebe uma mini na esplanada acompanhados de um pires de mariscos do Eusébio e vai tateando, aqui ou ali, peixes-aranha que calmamente adornam o fundo do mar gelado da nossa costa.
Essa malta “desgraçada” e despreocupada faz viagens de 3 horas bem andadas entre o Porto e o “Allgarve”, sem verdadeiras necessidades de parar em estações de serviço, viajam com o ar condicionado ligado no máximo e a ouvir a música que lhes apetece no volume que lhes dá na telha. Chegados ao “Marrocos lusitano”, o people abanca em casa, come qualquer coisa regada com um vinho rosé bem fresquinho e vai para o areal, sem guarda-sol, equipados com toalha e protector solar factor 12, às 3 da tarde. Levam um conjunto de entretenimento composto apenas por bola + raquetes + baralho de cartas. Ficam por lá, ora deitados, ora a jogar, ora dentro d’água, até, pelo menos, às 8 da noite, dependendo apenas da vontade e da metereologia.
Cambada de filhos da mãe!
Não é que eu seja invejoso, longe de mim, mas são uns ignorantes, esses tipos!
Ignoram que, com crianças, a viagem demora o dobro do tempo e vai se conhecendo as pitorescas decorações das casas-de-banho das autoestradas. Ignoram que se deve ter uma temperatura amena na viatura e que as escolhas musicais estão feitas antes do carro arrancar e não vão além daquele cd infantil que a cria já canta com grande à vontade, tal o número de "repeats". Ignoram que a palavra “esplanada” deixou, subitamente, de constar no dicionário e que “minis” se refere aos ditadores cá de casa. Quanto à arte de “ir à praia”, eles ignoram que se tem de acordar às 8 da matina (sim, essa hora existe, mesmo em Agosto) para apanhar o tempo mais fresquinho mas que só às 9:30 se está mesmo pronto para arrancar. Ignoram que, ao chegar à praia, se tem de descarregar tudo o que a mala pôde transportar, mais a mulher e as crianças, e depois andar à procura de lugar para estacionar a carroça, lugar esse que dista, quase sempre, entre 5 a 10 minutos do areal. Ignoram que o material de veraneio deve incluir uma mala com toalhas, fraldas (do mais pequeno), conjuntos de roupa, garrafas e biberões d’água, mais uma outra sacola que albergue moinhos, pás, baldes, figuras alusivas a moluscos ou artrópodes marinhos entre outros entretenimentos infantis e que, no seu conjunto, pesam sempre uma tonelada cada (produto do peso real pelo calor abrasador que já se faz sentir). Ignoram que as toalhas dos adultos não servem para descanso já que se passa pouco tempo lá deitado. Ignoram a vida para além do factor 12 de protecção solar e a existência da arte do “besuntar” dos pupilos até que fiquem brancos "albino-like". Ignoram que a maltinha só pode ir à água acoplados à nossa mão e sob a protecção de uma camisola e de um “sombrero” mexicano. Ignoram que parece existir uma estranha atracção entre a areia e a boca de um bebé. Ignoram que a praia deve ser o único lugar onde “filho” não traz sex appeal. Ignoram que às 11 horas da manhã são horas em que se devia sair da praia. Ignoram que pedir aos pimpolhos para que não sujem o carro com areia é uma utopia. Ignoram que apenas se pode voltar à praia às 5:30 da tarde para que tudo recomece… e tudo isso obedecendo à tirana vontade dos pequenitos.
No entanto, às 5:30 da tarde, sob um tempo mais ameno e uma maré mais baixa, quando brinco com os miúdos a fazer castelos de areia ou corro atrás da mais velha enquanto esta ri como uma desalmada na esperança vã de que não a alcance; e molho os seus pequenos pés à beira mar e os seus cabelos com um balde cheio d’água acabada de “colher”; e caminho ao lado do pequeno que cambaleia sobre a areia fresca mais a sua fralda inchada da água salgada ao mesmo tempo que aponta para uma gaivota mais atrevida que pousa mesmo a 2 metros de nós; e sento com os dois mais a mamã, com os corpos a colar, salgados e cheios de areia, a observar um pôr-do-sol vermelho do verão, lá bem longe no horizonte, com a sonoplastia da mãe natureza, qual dj, rodopiando doces ondas numa praia agora mais calma; acabo por pensar que, afinal, e apesar da tremenda canseira que tudo isso acarreta, os que vivem na ignorância não sabem o que perdem.
Essa malta “desgraçada” e despreocupada faz viagens de 3 horas bem andadas entre o Porto e o “Allgarve”, sem verdadeiras necessidades de parar em estações de serviço, viajam com o ar condicionado ligado no máximo e a ouvir a música que lhes apetece no volume que lhes dá na telha. Chegados ao “Marrocos lusitano”, o people abanca em casa, come qualquer coisa regada com um vinho rosé bem fresquinho e vai para o areal, sem guarda-sol, equipados com toalha e protector solar factor 12, às 3 da tarde. Levam um conjunto de entretenimento composto apenas por bola + raquetes + baralho de cartas. Ficam por lá, ora deitados, ora a jogar, ora dentro d’água, até, pelo menos, às 8 da noite, dependendo apenas da vontade e da metereologia.
Cambada de filhos da mãe!
Não é que eu seja invejoso, longe de mim, mas são uns ignorantes, esses tipos!
Ignoram que, com crianças, a viagem demora o dobro do tempo e vai se conhecendo as pitorescas decorações das casas-de-banho das autoestradas. Ignoram que se deve ter uma temperatura amena na viatura e que as escolhas musicais estão feitas antes do carro arrancar e não vão além daquele cd infantil que a cria já canta com grande à vontade, tal o número de "repeats". Ignoram que a palavra “esplanada” deixou, subitamente, de constar no dicionário e que “minis” se refere aos ditadores cá de casa. Quanto à arte de “ir à praia”, eles ignoram que se tem de acordar às 8 da matina (sim, essa hora existe, mesmo em Agosto) para apanhar o tempo mais fresquinho mas que só às 9:30 se está mesmo pronto para arrancar. Ignoram que, ao chegar à praia, se tem de descarregar tudo o que a mala pôde transportar, mais a mulher e as crianças, e depois andar à procura de lugar para estacionar a carroça, lugar esse que dista, quase sempre, entre 5 a 10 minutos do areal. Ignoram que o material de veraneio deve incluir uma mala com toalhas, fraldas (do mais pequeno), conjuntos de roupa, garrafas e biberões d’água, mais uma outra sacola que albergue moinhos, pás, baldes, figuras alusivas a moluscos ou artrópodes marinhos entre outros entretenimentos infantis e que, no seu conjunto, pesam sempre uma tonelada cada (produto do peso real pelo calor abrasador que já se faz sentir). Ignoram que as toalhas dos adultos não servem para descanso já que se passa pouco tempo lá deitado. Ignoram a vida para além do factor 12 de protecção solar e a existência da arte do “besuntar” dos pupilos até que fiquem brancos "albino-like". Ignoram que a maltinha só pode ir à água acoplados à nossa mão e sob a protecção de uma camisola e de um “sombrero” mexicano. Ignoram que parece existir uma estranha atracção entre a areia e a boca de um bebé. Ignoram que a praia deve ser o único lugar onde “filho” não traz sex appeal. Ignoram que às 11 horas da manhã são horas em que se devia sair da praia. Ignoram que pedir aos pimpolhos para que não sujem o carro com areia é uma utopia. Ignoram que apenas se pode voltar à praia às 5:30 da tarde para que tudo recomece… e tudo isso obedecendo à tirana vontade dos pequenitos.
No entanto, às 5:30 da tarde, sob um tempo mais ameno e uma maré mais baixa, quando brinco com os miúdos a fazer castelos de areia ou corro atrás da mais velha enquanto esta ri como uma desalmada na esperança vã de que não a alcance; e molho os seus pequenos pés à beira mar e os seus cabelos com um balde cheio d’água acabada de “colher”; e caminho ao lado do pequeno que cambaleia sobre a areia fresca mais a sua fralda inchada da água salgada ao mesmo tempo que aponta para uma gaivota mais atrevida que pousa mesmo a 2 metros de nós; e sento com os dois mais a mamã, com os corpos a colar, salgados e cheios de areia, a observar um pôr-do-sol vermelho do verão, lá bem longe no horizonte, com a sonoplastia da mãe natureza, qual dj, rodopiando doces ondas numa praia agora mais calma; acabo por pensar que, afinal, e apesar da tremenda canseira que tudo isso acarreta, os que vivem na ignorância não sabem o que perdem.
Alvor
23 março 2012
Pai sofre XXV - Pai sofre : brinquedos assassinos e possuídos por lúcifer!
No início da aventura parental, escrevi um texto sobre a minha surpresa ao ver como as fraldas invadiam o ambiente doméstico. Agora, passado algum tempo, descobri que as fraldas têm concorrência… e de peso: brinquedos.
Vejamos, é aniversário de uma criança, ou natal, ou páscoa, 1º de Junho, baptismo, ou o que quer que justifique uma prenda, “o que vamos oferecer?” “Hum… o que achas de um brinquedo?”, “Boa!!! Genial! Nem tinha pensado nisso!”
E a malta vai aparecendo com brinquedos.
Lembro-me da minha infância (que foi mais ou menos ontem), num tempo em que eu também queria (e delirava) com brinquedos. Recordo-me de passar horas com aquelas miniaturas de automóveis (os meus preferidos). Foi a única altura em que tive, ao mesmo tempo, Porches®, Mercedes® e BMW’s®. Confesso que ainda gosto de pegar num destes pequenos veículos e ciciar um “vrummm-vrummm” mais as suas mudanças imaginárias… quando ninguém está a ver, obviamente.
Voltando ao assunto.
Tal como as fraldas, os brinquedos vão tomando conta da casa. Eles são peluches, bonecas e coisas que fazem sons e acendem luzinhas; com esses posso eu bem. O problema são os chamados “brinquedos educativos”. Estes últimos são puzzles convencionais, legos, cubos, etc, que vêm quase sempre acompanhados de arestas engraçadas e quinas carinhosas.
Qual o problema? Perguntam vocês (se é que terão algum interesse nesta treta). O problema não é nenhum… desde que fiquem arrumadinhos no sítio depois de usados. Senão o cenário fica sendo o "quase que se consegue ver o padrão do tapete que penso existir na sala por baixo de cubos, legos, chaves de plástico entre outras coisas".
Mas, qual é o problema? (e insistem!).
Imaginemos que, a meio da noite, não sei se por ser da próstata, surge aquela necessidade de desaguar. Como o caminho até o objectivo passa obrigatoriamente pela sala, o situação passa a assemelhar-se à passagem por um campo minado de uma república democrática da África Ocidental. Além disso, um gajo, macho que é, não acende a luz. Aí surge o poder magnético dos pés, atraindo para si tudo o que tenha quinas afiadas, arestas por limar, coisinhas pontiagudas. Os legos então deixam uma marca tal que dá para encaixar uma nova peça na "tatuagem" que resistirá por horas na planta do pedúnculo.
Não sei se não será exagero mas era capaz de jurar que quase se consegue ouvir, tal “toy story”, os brinquedos a congeminarem entre si um “PRÓ PÉ DO FULANO, MALTA!”.
Conclusão: quedas, saltinhos efeminados, onomatopeias, caralhadas, esconjuro e grunhidos até se chegar ao destino. A solução? Educar a miúda a arrumar os brinquedos educativos (passe a redundância), ou arrumá-los eu, ou acender a luz, ou incentivar a prenda sob forma de livro, ou (em última instância) uma algália!
Além dos problemas físicos, há que contar com os problemas psicológicos, já que muitos destes brinquedos "falam" ou emitem sons dos mais variados tipos. Imagine-se o cagaço que causa, em meio ao grande silêncio nocturno, uma risada maquiavélica dum primo afastado do nenuco! Sem mais nem menos, a porra do boneco a rir-se a bandeiras despregadas?! Corre o arrepio pela espinha acima!
Possessão, possessão! Saravá, meu pai!!!
À próxima questão “o que é que a tua filha precisa?”, responderei: “pais sãos, limpos e aliviados”; ou com um curto, simples, directo e honesto: “dinheiro”.
Vejamos, é aniversário de uma criança, ou natal, ou páscoa, 1º de Junho, baptismo, ou o que quer que justifique uma prenda, “o que vamos oferecer?” “Hum… o que achas de um brinquedo?”, “Boa!!! Genial! Nem tinha pensado nisso!”
E a malta vai aparecendo com brinquedos.
Lembro-me da minha infância (que foi mais ou menos ontem), num tempo em que eu também queria (e delirava) com brinquedos. Recordo-me de passar horas com aquelas miniaturas de automóveis (os meus preferidos). Foi a única altura em que tive, ao mesmo tempo, Porches®, Mercedes® e BMW’s®. Confesso que ainda gosto de pegar num destes pequenos veículos e ciciar um “vrummm-vrummm” mais as suas mudanças imaginárias… quando ninguém está a ver, obviamente.
Voltando ao assunto.
Tal como as fraldas, os brinquedos vão tomando conta da casa. Eles são peluches, bonecas e coisas que fazem sons e acendem luzinhas; com esses posso eu bem. O problema são os chamados “brinquedos educativos”. Estes últimos são puzzles convencionais, legos, cubos, etc, que vêm quase sempre acompanhados de arestas engraçadas e quinas carinhosas.
Qual o problema? Perguntam vocês (se é que terão algum interesse nesta treta). O problema não é nenhum… desde que fiquem arrumadinhos no sítio depois de usados. Senão o cenário fica sendo o "quase que se consegue ver o padrão do tapete que penso existir na sala por baixo de cubos, legos, chaves de plástico entre outras coisas".
Mas, qual é o problema? (e insistem!).
Imaginemos que, a meio da noite, não sei se por ser da próstata, surge aquela necessidade de desaguar. Como o caminho até o objectivo passa obrigatoriamente pela sala, o situação passa a assemelhar-se à passagem por um campo minado de uma república democrática da África Ocidental. Além disso, um gajo, macho que é, não acende a luz. Aí surge o poder magnético dos pés, atraindo para si tudo o que tenha quinas afiadas, arestas por limar, coisinhas pontiagudas. Os legos então deixam uma marca tal que dá para encaixar uma nova peça na "tatuagem" que resistirá por horas na planta do pedúnculo.
Não sei se não será exagero mas era capaz de jurar que quase se consegue ouvir, tal “toy story”, os brinquedos a congeminarem entre si um “PRÓ PÉ DO FULANO, MALTA!”.
Conclusão: quedas, saltinhos efeminados, onomatopeias, caralhadas, esconjuro e grunhidos até se chegar ao destino. A solução? Educar a miúda a arrumar os brinquedos educativos (passe a redundância), ou arrumá-los eu, ou acender a luz, ou incentivar a prenda sob forma de livro, ou (em última instância) uma algália!
Além dos problemas físicos, há que contar com os problemas psicológicos, já que muitos destes brinquedos "falam" ou emitem sons dos mais variados tipos. Imagine-se o cagaço que causa, em meio ao grande silêncio nocturno, uma risada maquiavélica dum primo afastado do nenuco! Sem mais nem menos, a porra do boneco a rir-se a bandeiras despregadas?! Corre o arrepio pela espinha acima!
Possessão, possessão! Saravá, meu pai!!!
À próxima questão “o que é que a tua filha precisa?”, responderei: “pais sãos, limpos e aliviados”; ou com um curto, simples, directo e honesto: “dinheiro”.
31 outubro 2011
Pai sofre XXIV: Halloween
Passados os "Noddys", Rucas" e outros que tais, eis que a minha menina passou a gostar de outro tipo de bonecos. Não que me orgulhe muito, mas ela vê o que eu via quando, há muitos anos atrás, era também um miudito.
Na TV Cabo (já não me ligam há meses, esses malandros!) existe um canal de desenhos animados inglês que pode causar um achaque de nostalgia fulminante aos mais velhos. O canal em causa chama-se "Boomerang" e por causa dele (e dela) comecei a (re)ver "Mutley and Dastardly", "Wacky Races", "Top cat", "Tom & Jerry", "The Flintstones", "The Jetsons" e, o preferido da minha pequenita (e porque hoje é noite de Halloween):
Aliás, o visionamento do amigo Scooby é quase um ritual: começa o desenho, aquece-se o leite, uma bolacha Maria e cama; é automático!
E a moçoila até já canta em inglês, pá! Se pelo menos o Sócrates visse isso...
Na TV Cabo (já não me ligam há meses, esses malandros!) existe um canal de desenhos animados inglês que pode causar um achaque de nostalgia fulminante aos mais velhos. O canal em causa chama-se "Boomerang" e por causa dele (e dela) comecei a (re)ver "Mutley and Dastardly", "Wacky Races", "Top cat", "Tom & Jerry", "The Flintstones", "The Jetsons" e, o preferido da minha pequenita (e porque hoje é noite de Halloween):
Aliás, o visionamento do amigo Scooby é quase um ritual: começa o desenho, aquece-se o leite, uma bolacha Maria e cama; é automático!
E a moçoila até já canta em inglês, pá! Se pelo menos o Sócrates visse isso...
17 setembro 2011
Pai sofre XXIII: remédio
Sexta-feira. Mais uma semana de intenso trabalho terminou.
Cheguei à casa estafado. Vinha chateado com a vida e com um trabalho que cada vez mais me desaponta. Estudar uma vida toda para fazer algo que está há milhas de distância leva a um sentimento de frustração e impotência que nunca havia experimentado. Reclamações, exigências desmesuradas e excesso de direitos atiram-me para um lugar ao qual não estou acostumado. Cansa-me muito tentar ser justo e honesto. Seria mais fácil ceder às vontades e vícios e essa insistência, em fazer o que meus pais ensinaram, estafa-me.
Liguei a televisão. Vi buracos, miséria, guerras, corrupção e o Vítor Pereira no telejornal. Nada me interessa, nada me tira o gosto amargo de 5 dias de decepções.
Começo a ficar preocupado com a gota no canto do olho, a insónia e a falta de apetites...
Ela chegou. Os olhos enormes e vivaços miraram-me, as pernas aceleraram, os braços abriram-se num grande pequeno abraço e a língua, no início da afinação, estala um grande "É o pai!" na minha triste face.
E puff!... tudo o resto deixou de ter qualquer importância.
Amor: está aqui um remédio que tenho de começar a prescrever mais vezes...
Cheguei à casa estafado. Vinha chateado com a vida e com um trabalho que cada vez mais me desaponta. Estudar uma vida toda para fazer algo que está há milhas de distância leva a um sentimento de frustração e impotência que nunca havia experimentado. Reclamações, exigências desmesuradas e excesso de direitos atiram-me para um lugar ao qual não estou acostumado. Cansa-me muito tentar ser justo e honesto. Seria mais fácil ceder às vontades e vícios e essa insistência, em fazer o que meus pais ensinaram, estafa-me.
Liguei a televisão. Vi buracos, miséria, guerras, corrupção e o Vítor Pereira no telejornal. Nada me interessa, nada me tira o gosto amargo de 5 dias de decepções.
Começo a ficar preocupado com a gota no canto do olho, a insónia e a falta de apetites...
Ela chegou. Os olhos enormes e vivaços miraram-me, as pernas aceleraram, os braços abriram-se num grande pequeno abraço e a língua, no início da afinação, estala um grande "É o pai!" na minha triste face.
E puff!... tudo o resto deixou de ter qualquer importância.
Amor: está aqui um remédio que tenho de começar a prescrever mais vezes...
01 agosto 2011
Pai sofre XXII: da tróica?
Como escrevi há alguns "posts" atrás, minha mais-que-tudo tinha a ideia de que durante 1 mês pós-parto não haveria furunfunfada para ninguém e assim mais valia rezar para complementar o celibato.
No entanto, parece que lhe foi dito, por uma minha colega Obstetra/ginecologista, que, afinal, o período de aridez copuladora deverá ser não inferior a 1 mês e meio!!!
Tudo bem que ela é especialista em vaginas e eu apenas apreciador/admirador, mas 45 dias? Até o dilúvio teve menos tempo!
Num dia em que a malta reclama que os transportes aumentaram até 25%, o que vou eu dizer quando o aumento do tempo de sexo unipessoal aumentou em 50%!!!
Olhem para mim dentro de mês e meio:
31 julho 2011
Pai sofre XXI: Na maternidade
Com a minha senhora internada, de recobro da cesariana, lá vai o papá para a maternidade.
Como a visita do pai decorre das 12:00 às 20:30, ficam mais de 8 horas para preencher. Não me interpretem mal, mas o meu pequeno "pilas", neste momento, só obedece a um plano: dorme/come/caga e não exactamente por essa ordem, sendo que a parte "dormir" é a que demora mais tempo. Dessa forma, há sempre "coisas" que vão chamando atenção.
No quarto da minha madame estão mais 3 bebés e, no meio do mesmo, incrustada na parede, jaz uma televisão. Como lá manda a puta da democracia, todos vemos o canal da maioria. Nos 2 primeiros dias a TV esteve na SIC, ou como costumo chamar "televisão doentia", e tive que levar com a Ana Marques e Cia ilimitada (Cláudio Ramos incluído!).
No entanto, hoje lá mudaram para o primeiro canal da RTP. Não é que eu estivesse a ligar muito para o que estava a dar na televisão, mas não pude deixar de ficar estúpido de facto com algumas "músicas" do Top +. Primeiro de tudo as famigeradas musiquinhas infantis, várias vezes comentadas neste blogue nos últimos 2 anos; depois uma tal de Rosinha que põem uma minhoca numa vara qualquer; por fim, e antes que eu perdesse os sentidos, um tal de Leandro com isto:
Parti-me a rir quase instantaneamente:
"Fuuoooda-se", pensei logo, "uma canção sobre a morte da mãe a passar numa maternidade? Isto só pode ser o cúmulo da ironia!!!"
O tempo assim até passa mais depressa e amanhã o meu menino vem para casa, finalmente!
Como a visita do pai decorre das 12:00 às 20:30, ficam mais de 8 horas para preencher. Não me interpretem mal, mas o meu pequeno "pilas", neste momento, só obedece a um plano: dorme/come/caga e não exactamente por essa ordem, sendo que a parte "dormir" é a que demora mais tempo. Dessa forma, há sempre "coisas" que vão chamando atenção.
No quarto da minha madame estão mais 3 bebés e, no meio do mesmo, incrustada na parede, jaz uma televisão. Como lá manda a puta da democracia, todos vemos o canal da maioria. Nos 2 primeiros dias a TV esteve na SIC, ou como costumo chamar "televisão doentia", e tive que levar com a Ana Marques e Cia ilimitada (Cláudio Ramos incluído!).
No entanto, hoje lá mudaram para o primeiro canal da RTP. Não é que eu estivesse a ligar muito para o que estava a dar na televisão, mas não pude deixar de ficar estúpido de facto com algumas "músicas" do Top +. Primeiro de tudo as famigeradas musiquinhas infantis, várias vezes comentadas neste blogue nos últimos 2 anos; depois uma tal de Rosinha que põem uma minhoca numa vara qualquer; por fim, e antes que eu perdesse os sentidos, um tal de Leandro com isto:
Parti-me a rir quase instantaneamente:
"Fuuoooda-se", pensei logo, "uma canção sobre a morte da mãe a passar numa maternidade? Isto só pode ser o cúmulo da ironia!!!"
O tempo assim até passa mais depressa e amanhã o meu menino vem para casa, finalmente!
29 julho 2011
Pai sofre XX: Sequelas
O meu miúdo já estava vestido e eu estava a apresentá-lo à mamã quando a obstetra sai-se com:
"Pronto, como foi cesariana, dentro de dois anos voltam pelo terceiro"
"Como?" digo eu espantado.
"Foi cesariana e..."
"Não é isso. Essa parte do "não sei quê do terceiro"
Vamos fazer uma analogia.
O "Tubarão" foi bom. O "Tubarão 2" também foi. Os outros "tubarões" eram escusados. Os dois primeiros "Back to the future" foram espectaculares, já o 3º: nhec, foi bonzito, vá.
Ninguém disse que isto seria uma trilogia, ok! Eu não sou o George Lucas a tentar esticar ideias. Isto cá em casa não é Hollywood e a minha holy wood já não trabalha para estes resultados!
Citando o sábio povo: "um é bom, 2 é óptimo, 3 e as coisas começam a ficar apertadas".
"Pronto, como foi cesariana, dentro de dois anos voltam pelo terceiro"
"Como?" digo eu espantado.
"Foi cesariana e..."
"Não é isso. Essa parte do "não sei quê do terceiro"
Vamos fazer uma analogia.
O "Tubarão" foi bom. O "Tubarão 2" também foi. Os outros "tubarões" eram escusados. Os dois primeiros "Back to the future" foram espectaculares, já o 3º: nhec, foi bonzito, vá.
Ninguém disse que isto seria uma trilogia, ok! Eu não sou o George Lucas a tentar esticar ideias. Isto cá em casa não é Hollywood e a minha holy wood já não trabalha para estes resultados!
Citando o sábio povo: "um é bom, 2 é óptimo, 3 e as coisas começam a ficar apertadas".
21 julho 2011
Pai sofre XIX: A gravidez ou o sertão sexual
Há alguns dias, durante um zapping, parei no canal Hollywood e fiquei a ver o filme “Um azar do caraças”. A história girava em torno de uma casal de pessoas completamente diferentes que, podres de bêbados, têm uma noite daquelas. Passado um tempo descobrem que a moça engravidou, e patati, patatá, pardais ao ninho.
O que me faz escrever este texto é o facto de existir uma cena nesse filme que tentava retractar o acto sexual durante a gravidez. Nessa cena, o futuro pai não conseguia continuar o “bem bom” porque, apesar da moça ser bem jeitosa e estar super “horny”, não deixava de pensar que podia acertar na testa ou outras partes do bebé e que o seu bacamarte não deveria ser a primeira imagem que o filho veria (aliás, um pensamento muitíssimo sensato!).
Ao ver aquela cena não pude deixar de lhe achar piada, mas ao mesmo tempo pensei: “pelo menos estás a tentar!”
Na gravidez “o amor” é um bicho estranho, realmente. Para quem não tem fetiche por grávidas é algo esquisito. Dependendo da idade gestacional é difícil e quase acrobático. Um fulano tem de ter destreza física e capacidade mental para a empreitada.
Isso se houver alguma hipótese de existir qualquer coisa desse género e é esse o tema deste texto: a seca.
Na primeira viagem pelas terras dos “9 meses” tinha um amigo que, no gozo, elogiava a massa muscular do meu braço direito. Eu perguntava-lhe “êpá, é assim tão evidente?”, ao que me respondia: “já fui pai duas vezes, não te esqueças…”
Não serão bem 9 meses de seca, há que descontar as semanas da ignorância e o tempo até à primeira ecografia: depois de ser ver aquela coisinha no ecrã um fulano olha pró material das moças de outra forma! É todo um mundo que se fecha…
E é justamente nessa altura do querer e não poder que vem à baila o tão famoso ditado do “proibido é mais apetecível” e essas merdas. Um gajo, que normalmente já quer, quer ainda mais! Parece sacanagem, querer sacanagem e não poder.
“Pode sim, caraças. Eu sei que não há problema! Vai, foca-te” e até se hasteia uma bandeira aqui, outra ali, mas não há terra para se encravar (ou até há mas está em pousio).
O tempo vai passando, a sede aumentando...
Começa-se a achar interessante toda e qualquer tipo de pele exposta. Chega-se ao verão e as saias atormentam. Vai-se à praia e é um martírio. Vê-se o fashion TV e o preço certo com certa frequência e não se sabe bem porquê. Ai, ensandece-se qualquer coisita...
Começa a ser constrangedora a “insustentável leveza do ser”.
Agora, mesmo, mesmo no finalzito, com o filhote quase a rebentar, depois de todo o sofrimento e de auto-contemplação e satisfação, da subida da direita ao poder, ouço uma frase aterradora: “já se sabe como é: no primeiro mês não há nada!”
É paradoxal um acto sexual vir a dificultar (ou impedir) a realização de outros-que-tais subsequentes. Talvez possa ser chamado de “sexo empata fodas”.

O que me faz escrever este texto é o facto de existir uma cena nesse filme que tentava retractar o acto sexual durante a gravidez. Nessa cena, o futuro pai não conseguia continuar o “bem bom” porque, apesar da moça ser bem jeitosa e estar super “horny”, não deixava de pensar que podia acertar na testa ou outras partes do bebé e que o seu bacamarte não deveria ser a primeira imagem que o filho veria (aliás, um pensamento muitíssimo sensato!).
Ao ver aquela cena não pude deixar de lhe achar piada, mas ao mesmo tempo pensei: “pelo menos estás a tentar!”
Na gravidez “o amor” é um bicho estranho, realmente. Para quem não tem fetiche por grávidas é algo esquisito. Dependendo da idade gestacional é difícil e quase acrobático. Um fulano tem de ter destreza física e capacidade mental para a empreitada.
Isso se houver alguma hipótese de existir qualquer coisa desse género e é esse o tema deste texto: a seca.
Na primeira viagem pelas terras dos “9 meses” tinha um amigo que, no gozo, elogiava a massa muscular do meu braço direito. Eu perguntava-lhe “êpá, é assim tão evidente?”, ao que me respondia: “já fui pai duas vezes, não te esqueças…”
Não serão bem 9 meses de seca, há que descontar as semanas da ignorância e o tempo até à primeira ecografia: depois de ser ver aquela coisinha no ecrã um fulano olha pró material das moças de outra forma! É todo um mundo que se fecha…
E é justamente nessa altura do querer e não poder que vem à baila o tão famoso ditado do “proibido é mais apetecível” e essas merdas. Um gajo, que normalmente já quer, quer ainda mais! Parece sacanagem, querer sacanagem e não poder.
“Pode sim, caraças. Eu sei que não há problema! Vai, foca-te” e até se hasteia uma bandeira aqui, outra ali, mas não há terra para se encravar (ou até há mas está em pousio).
O tempo vai passando, a sede aumentando...
Começa-se a achar interessante toda e qualquer tipo de pele exposta. Chega-se ao verão e as saias atormentam. Vai-se à praia e é um martírio. Vê-se o fashion TV e o preço certo com certa frequência e não se sabe bem porquê. Ai, ensandece-se qualquer coisita...
Começa a ser constrangedora a “insustentável leveza do ser”.
Agora, mesmo, mesmo no finalzito, com o filhote quase a rebentar, depois de todo o sofrimento e de auto-contemplação e satisfação, da subida da direita ao poder, ouço uma frase aterradora: “já se sabe como é: no primeiro mês não há nada!”
É paradoxal um acto sexual vir a dificultar (ou impedir) a realização de outros-que-tais subsequentes. Talvez possa ser chamado de “sexo empata fodas”.

26 maio 2011
Pai sofre XVIII: Homem das Caldas
Antes de mais uma pergunta:
O que faz um homem das Caldas da Rainha depois de um dia de trabalho?
Novamente no cubículo escuro das ecografias, lá estava eu e a minha senhora. Era a 2ª, aquela a que chamam morfológica. Porquê? Porque se vêm os perímetros, o estômago, os rins, blá, blá,blá...
Embora tanto me fizesse ser menino ou menina, confesso que estava curioso para saber o sexo e que, confesso também, devido a já termos uma princesinha no nosso reino, havia agora espaço para um sapito.
"Boa tarde", disse o obstetra. "Vamos lá ver se está tudo bem".
Dado ter passado algum tempo numa maternidade estou +/- familiarizado com o branco e preto das ecografias obstétricas e ia identificando o que a sonda tentava mostrar.
"Ora, aqui está o coração", dizia o médico, "e aqui estão os rins"...
Parecia um piloto de aviação a "checar" os instrumentos.
"O perímetro abdominal, o bi-parietal, o yada, yada, yadal..."
"Ó amigo, já agora, mostra lá o que existe entre as pernas" pensava eu.
"Olhem aqui o fémur, o úmero, os dedos...", listava o homem.
"Pila, pila, pila..." desejava (sem trocadílhos, ok?) eu.
E um "glimpse".
Pensei: êlá, será que... esperaí...
Olhei para a minha grávida e sorri. Avistei um jogo de bilhar em miniatura, a saladinha de tomates e pepino, os kiwis e a bananinha, e um sem fim de trocadilhos patetas que só compreende quem passa pela coisa. Apeteceu-me dizer: "Máquecara##$".
"Bem, têm aqui um belo rapaz. Vêem, este é o escroto e este é o pênis".
Só pensava (dizer era capaz de ser constrangedor): "fiz uma pila, fiz uma pila, fiz uma pila!". E diga-se de passagem o que se via era uma bela duma pilinha, guardada por dois cojones de respeito! Para um gajo com experiência em fazer vaginas, aquele falo estava muito bem feito. Pronto, chega de auto-elogios.
Vai voltar a estar equilibrado cá por casa: dois homens e duas meninas; não quer dizer que saia a ganhar nas discussões...

Resposta à pergunta inicial do post.
Como este será, em princípio, o último que faço, direi o mesmo que um homem das Caldas depois de um grande dia de trabalho: "não faço mais nenhum cara#$%!!!"
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