31 outubro 2012

A carta mágica

Baco entregou-lhe uma carta perfumada; tresandava à farra, à orgia e a outros odores mágicos e pecaminosos. Escreveu-lhe certo mas em linhas, que no decorrer da sua leitura, se tornavam cada vez mais tortas. As palavras escrivinhadas com espécie rara de tinta roxa, estraída à força por rudes pegadas humanas, de uvas importadas das montanhas do luso Norte.

Da missiva, ele sorveu-lhe a escrita. Gota a gota, transfundiu para o seu sangue o prazer do manuscrito. Entendeu-lhe as ideias, sentiu-lhe o delit(r)o e perdeu-se numa paixão súbita e alucinogénea. Envolveu-se na poética, dissipou-se na métrica e, finalmente, tropeçou na cadência das enebriantes palavras sagradas, caindo, desamparadamente, num mar de CH3CH2OH pecaminoso.

Ah, as missivas de Dioníso têm vindo a surgir-lhe com mais frequência e, graças ao bom deus, acrecidas de repetidos, incansáveis e deliciooossoooosss Post-Scriptum!








P.S: insisto em contrariar aqueles que acham que virei alcoólatra!
E Grave (sempre gostei mais desse nick, amigo), está aqui um do Douro que é um espectáculo.

29 outubro 2012

(Más) Intenções de voto

Não ligo nenhuma às eleições americanas (embora, de forma indireta[?], nos sejam muito importantes) mas, se votasse, já tinha definido a minha intenção de boto, ou melhor, voto!






21 outubro 2012

Nem todos os Cortes sabem mal

Ele viu a chaminé e entreteve-se a explorar.
A violácea vinhateira deixou-a subir na sua estrutura. 
Sentiu o sangue assustado fugir-lhe das extremidades e, em turbulenta velocidade, ir embater com violência contra o cerne do seu ser em etílico acidente.
Experimentou a vertigem do choque do etilo mas continuou na pecaminosa experiência. 

Fumou os odores do sagrado sumo e  "helicoidou-se".
Mais um copo, mais uma taça, mais um graal evaporaram-lhe o espírito. 
Volátil, foi ao topo, dirigiu-se ao céu tal balão de ar ardente.

Deixou-se cair ao ritmo no qual o efeito dos (de)graus lhe passava e à medida que a hepática parafernalha lhe ia queimando o combustível.

Retornou ao terreno por pouco. 
Mais um pouco do estímulo báquico e voltou a subir a chaminé: foi perguntar a Deus se escondia algo de melhor só para Si... 
O Senhor disse que não mas lhe entregou mais um lanço de escadas dizendo: "cuidado com o tortuoso e frutado caminho da chaminé. Não deixais que te envenene a alma com os seus perfumes..."



17 outubro 2012

"Sporting TV arranca em 2013" in Record

Canal especializado em tragicomédia?

14 outubro 2012

Dedicatória

No rescaldo da palhaçada protagonizada pelo senhor deputado Carlos Zorrinho e o seu compincha Francisco Assis, fica aqui uma singela homenagem em forma de canção.

Deixo também uma sugestão: que os deputados andem uns sobre os outros para passarem todos a andar de mula!




12 outubro 2012

A bela droga

Hoje, numa consulta:
"Dr, tenho tido problemas durante o sono. Não descanso nada porque tenho muitos sonhos!"
"Ok. Quer dizer que a senhora quer algo para que desapareçam os sonhos, certo?
"Sim, era isso que pretendia".
"'Tá certo. Olhe, sugiro-lhe "política". Pode tomar genéricos: PSD, PP, PS... vai ver que lhe tiram os sonhos todos de uma vez por todas".
"Oh, doutor, esses não que têm muitos efeitos secundários!"

Humor: o que vai valendo para manter alguma motivação...

10 outubro 2012

Pai SofreXXVII: a justiça aos olhos de uma criança de 3 anos




Nestes dias de descalabro económico-social, vem a minha pequena falar de justiça.
Gostava ela de ficar um pouco mais de tempo a brincar na rua, com a sua mota cor-de-rosa adereçada com autocolantes daquela gata japonesa estranha, mas recebeu a revoltosa ordem para voltar para casa. Ela chorou, esperneou, fez a sua birra infantil, na expectativa de aquecer os “frios” corações dos pais, e, com os olhos rasos d’água, proferiu uma triste reclamação: “não é justo!”.

Engraçada a justiça vista pela óptica de uma miúda de 3 anos. Engraçada a sua forma de reclamar. Estranha a semelhança com a vida nossa de adultos. Engraçado o mesmo resultado: a vontade insatisfeita.
Afinal, que justiça a destes pais? Negar mais uns minutos de prazer em brincadeiras de criança, ou negar mais uns minutos de televisão antes da cama, ou negar mais uma bolacha antes do almoço, ou tantas outras coisas que ela gostaria de fazer e que vão contra a vontadinha do pai ou da mãe.

Onde foi ela arranjar essa noção de justiça? Como terá entendido que quando se é negado algo, que se acha ter direito, é uma situação injusta? Onde terá ela tido contacto com essa expressão?
Se calhar a moça terá ouvido as reclamações dos seus mais próximos. Terá escutado as comiserações paternas em frente à televisão aquando de notícias da actualidade nebulosa na qual vivemos. Terá, quem sabe, visto as lágrimas que por vezes caem do rosto do seu velho e feito, ela mesma, a sua interpretação do cenário, criando a sua  própria cena de reacção às contrariedades: “aquando de uma nega: esbracejar, chorar, espernear e soltar um “não é justo”, tal como o pai faz de vez em quando em frente à TV, rádio, computador ou ao ler um matutino”.

Tenho um misto de orgulho e pena pela sua resistência. Orgulho porque estou a criar alguém que não se coíbe em mostrar a sua insatisfação perante aquilo de que não concorda. Pena porque, por mais que reclame, por mais que grite ou esperneie, os ouvidos do poder são surdos perante as reclamações dos seus patrícios e as suas revoltas tenderão a cair em saco rôto.

O pai também reclama; também ele se chateia, range os dentes… mas nada; ninguém o ouve, ninguém tem peninha dele e os “maus” continuam a lhe tirar o que pensava ter direito.
Afinal, que justiça a deste país? Empobrecer a malta, endividá-la, enviá-la (como mercadoria) para exportação, enevoar o seu futuro e o da república, retirar direitos primários, levar “o melhor povo do mundo” para muito próximo de um ataque de nervos colectivo…

Esperem lá… querem ver que eu, ao ignorar a reclamação da moça, impondo as minhas regras e ordens, represento uma espécie de governo absolutista doméstico?
Credo!!!  Não, claro que não. A minha actuação representa as pequenas vicissitudes da educação enquanto que os “outros”, aqueles que não me ouvem, esses parecem nunca terem sido sequer educados…

Contudo, perante à cópia da pequenita,  concluo ter de ter mais cuidado com o calão que, por vezes, acompanham as minhas birras de adulto sob pena de, algum dia, passar por uma vergonha: as crianças costumam ser muito espontâneas…

07 outubro 2012

"Burocratidose"

Depois de mais um "enorme aumento de impostos" e do elogio, que muito nos envaidece, de sermos o "melhor povo do mundo", resolvi fazer um re-post de um texto do início de 2010. 


Burocratidose

Existe uma praga que está a destruir o país. É uma infecção, uma verminose, uma parasitose.
Portugal está infestado por uma espécie de seres desprezíveis, abjectos e asquerosos: os burocratas.Esses animais corroem as estranhas do Estado, sugando-lhe até ao tutano, nutrindo-se com o alheio, acabando com a paciência dos pobres mortais.
São caracterizados pela mediocridade, especialistas em compadrio, no lambe-botismo e no por-baixo-do-pano. Pululam em todos os cargos possíveis e imagináveis. Colonizam juntas, câmaras, assembleias, ministérios ou qualquer lugar cujo concurso dependa da vontade de outro burocrata. Tomam decisões baseadas na mais pura e cristalina ignorância e a sua inépcia não tem limites.
Mas, apesar de tudo, os burocratas reinam. Eles estão lá, à nossa frente, ocupando os lugares cimeiros e cargos de chefia; colocados nos respectivos assentos por outros da sua espécie, perpetuando o ciclo vicioso e doentio.
Eles mandam em tudo. Aparecem na televisão sorridentes. Escapam incólumes às vãs tentativas de os eliminar. E, apesar da tremenda cara-de-pau, são ágeis, elásticos e esquivos.
Fala-se nas mortes pela SIDA, Tuberculose ou Malária mas, amigos, não há doença que mate mais que os burocratas. Eles são piores que o cancro, vão minando, insidiosos, até ao ponto do não retorno, e tudo depois é paliativo.
Por causa deles se morre de fome e de sede, não se constroem hospitais, escolas ou outras benfeitorias; eles decidem-se sempre pelo supérfluo, desde que lhes dê lucro.
São eles que encravam as engrenagens...
Os burocratas estão por todo o lado; sempre estiveram e, temo não errar por muito, sempre estarão, ou talvez não... quem sabe arranjamos uma droga eficaz ou, quem sabe, já a temos mas não usamos.



Imagens google

05 outubro 2012

A cigarra e a formiga

Em resposta ao desafio "o cair da folha" da "Fábrica de Letras": 


A cigarra e a formiga

Na floresta encantada, andava feliz a cigarra a tocar o seu pífaro. O sol do verão ainda lhe dava a energia necessária para saltar por todo o lado embalada pelo som estridente do seu instrumento.
Um pouco cansada de tanta alegria e divertimento, a cigarra aterrou num cogumelo, que nascera da humidade de uma chuvada estival, e ali ficou a descansar.
Enquanto recarregava as baterias ficou a observar a azáfama que acontecia num formigueiro um pouco mais além. Via formigas a trabalhar intensamente e, intrigada, pensou em dar um salto para conversar com uma delas.

“Olá, amiga. Tudo bem consigo?” – perguntou a cigarra.
“Olá. Desculpe, mas não tenho tempo para conversas” – respondeu a formiga de forma ofegante.
“Êlá. Tenha calma, amiguinha, ou ainda tem um treco. Descanse por uns segundos e fale comigo” – insistiu a cigarra.
“Já lhe disse que não posso. Vem aí o Outono e temos de trabalhar para armazenar comida para o inverno!”.
“É por isso que trabalham tanto?”
“Claro. Porquê? Achava que era por diversão? A senhora anda aí toda contente, veja lá se chega até ao próximo verão!”.
“Credo! Não agoure. Há muita comida. Veja a quantidade de folhas nas árvores e plantas no chão. Vai ver que esse trabalho todo não é necessário. Chega de estresse, cara amiga, toca a cantar e a dançar!”
E a cigarra, dum salto, desapareceu no meio da mata deixando para trás a formiga estupefacta com tanta displicência.

O Outono chegou e passou num ápice, dando lugar a um dos Invernos mais intensos e rigorosos dos últimos tempos.
Quando a primavera chegou, as formigas voltaram a dar o ar da sua graça e começaram a aventurar-se para fora do formigueiro.  Lá fora ouviam-se os pássaros e cheiram-se os diferentes odores das flores. Da cigarra nenhum sinal.
Chegado o verão o silêncio da cigarra mantinha-se.  A formiga começou a preocupar-se e a culpar-se da nebulosa profecia que fizera sobre o futuro da cigarra. Começou por isso a indagar os outros insectos do bosque à procura de explicações para o desaparecimento da cigarra.

Falou com a moscas-da-fruta que nada sabiam porque ainda não eram nascidas no verão passado e, por isso não conheciam a cigarra.
Tentou com o escaravelho-do-estrume que disse não saber de nada porque seu olfacto, visão e audição andavam, ultimamente, numa verdadeira bosta.
Conversou com o Louva-a-Deus que desconhecia qualquer acontecimento mas que lhe garantiu uma oração para que a formiga encontrasse a amiga.
Falou com um mosquito que, para além de não ter qualquer informação útil, revelou-se uma verdadeira melga que não a largava.

Por fim, visitou a colmeia mais próxima. Lá conversou com algumas abelhas. Elas lhe contaram o que sabiam. Tinham ouvido um “zum-zum” qualquer sobre a história de uma malfadada cigarra que tinha sofrido um grave acidente no Outono passado.
“O que aconteceu?” – perguntou, angustiada, a pequena formiga.
“Bem, parece que a cigarra estava montada numa folha de uma caducifólia em Outubro” – disse uma das abelhas – “ e, inesperadamente, terá caído da planta juntamente com a folha e partido uma perna no embate com o chão”.
“Mas uma perna partida não é suficiente para matar uma cigarra” – disse, intrigada, a formiga.
“Pois não. Tens toda a razão. No entanto, parece que a cigarra ficou no chão durante algum tempo à espera do INEM, já que a ambulância estava parada por falta de profissionais. Quando finalmente vieram buscá-la, levaram-na para o hospital mais próximo. Chegando lá viram que as urgência estavam fechadas pois este serviço tinha sido concentrado noutro hospital alguns kms mais à frente. Nesse outro hospital foi confrontada com a taxa moderadora; como a cigarra não trabalhava, não tinha dinheiro para pagar a taxa e teve de deixar o pífaro como caução. No consultório foi observada por um médico duma empresa de prestação de serviços. Esse médico, pouco motivado pelos 4€/hora e que mal falava português, pediu-lhe um Rx da perna que, apesar de demonstrar uma fractura evidente, foi mal lido. A cigarra teve alta medicada apenas com um analgésico genérico que lhe foi trocado na farmácia por um de uma marca indiana desconhecida.  Com o decorrer do tempo a situação agravou-se e a perna da cigarra começou a ficar negra num claro sinal de gangrena. Por fim, no decorrer do inverno, a tua amiga pereceu por complicações devida a uma sépsis.”
“Jesus, que fim triste!” – disse a formiga, claramente chocada com o desfecho da situação.

E, lá ao fundo, uma abelha conhecida pelo seu humor negro e em jeito de provocação, manda uma chalaça:
“Pois é, a preguiçosa e obesa cigarra morreu ao cair da folha!”