18 agosto 2013

La piela

Prólogo
Ah, as pielas, ou cabras, ou tosgas, tubas, bubas, bezanas, cadelas, borracheiras, cardinas, nardas, pifos. Ah, as bebedeiras. Quem não teve contacto com o produto final de um irracional consumo alcoólico ocorrido ao longo de uma tarde, ou noite, ou de um dia inteiro? Sei que alguns costumam apanhá-las anualmente, outros mensalmente, outros ainda, mais beatos do santo baco, diariamente. 
O que vos vou contar tem a ver com a minha segunda viagem transcendental ao mundo dos pileques. Preparem-se, a história vai ser longa...
Da minha primeira já tenho poucas memórias. Não me interpretem mal, não foi assim tão grande para provocar amnésia, apenas já foi há muito tempo. Lembro-me apenas de umas sandálias, de permanecer alguns minutos por baixo de uma mesa num baile de gala de uma queima das fitas, após um jantar interessantemente regado com vinho branco e whisky velho e com o acompanhamento de um Havana compartilhado entre amigos. E, na verdade, parece haver pontos de contacto entre as duas situações, pelo menos no que toca ao combustível.
Mas passado é passado e o que interessa foi o que se passou nesta segunda vez e que apenas tem algum interesse (pouco) por ter acontecido ontem.

Parte I - por mais que os tentes enxotar, eles teimam em voltar 
Feriado. O que fazer se não aceitar o convite quando uns laboriosos pais oferecerem o almoço à descendência toda (netos já incluídos), inclusive alguns que, seguindo as palavras de incentivo da quadrilha que nos governa de momento, foram viver para a França. Oportunidade para se estar um pouco com os do próprio sangue e disparar uma quantidade tão grande de patetices que fica difícil entender como é que gente dessa pode educar de forma correcta as suas próprias crias.
Abraços, beijinhos, "como tens passado" e essas coisas, até que um mais afoito (ou será: "esfomeado") diz "já vale?".

Parte II - sardinha gosta de borbulhas 
À mesa, meto uma sardinha a cavalo numa metade de papo-seco torrado, devidamente aconchegada numa cama de cebolas, tomates e pimentos também eles passados pelas brasas. Trinco-os a todos e empurro-os com um golo de um vinho branco frisante vindo de umas caves infernais de Murça. Já o povo diz com sapiência que “sardinha e água não combinam” e como sou um homem atento às tradições, sabedoria e mesinhas populares, concordo que as ditas só devem estar em contacto com a água enquanto vivas, depois, quando mortinhas e queimadas pela fagulha, requerem outro tipo de mistura no lago estomacal. Juro que tentei que cada dentada fosse acompanhada de uma golada do sumo d'uvas mas confesso que talvez o líquido tenha vencido de goleada no fim das contas ; só isso poderia explicar o porquê do mundo já andar um pouco acelerado no final do almoço. 

Parte III - não deveria já ter ido para casa?
Não contente com o etilo oferecido às Sardinops sagax devoradas ao almoço, lá fui envenenando-as mais um bocadinho. Sabem como é, depois do almoço a malta vai ficando, "amandando" conversa fora... e bebendo um pouco mais. Fez-nos então companhia um amigo escocês dos velhos, entretanto convidado pelo meu cunhado, que nos ia cantando notas de carvalho e de especiarias e daquelas tretas que ninguém presta atenção após dois ou três goles. Se a madeira do licor se acumulasse, no fim já teria o suficiente para construir uma pequena cabana de 4 assoalhadas... 
Não sei se foi do calor mas a verdade é que, apesar de reabastecimentos frequentes, o líquido evaporava rapidamente do balão;  e se há pouco sentia o mundo um nada acelerado, agora parecia, a sala-de-estar daquela casa, ter-se transformado num pequeno barco pesqueiro em mar revolto dum furacão de categoria 4. 
Estava altamente antropocêntrico pois sentia todo mundo a girar à minha volta. 

Parte IV - explorando locais alternativos para dormitar 
Nestas alturas de rodopios e quando o sangue em circulação perde em percentagem para o álcool, o que fazer? Acender um fósforo a ver se explode? Beber café para se ter uma bebedeira estressada? Não, nada disso, decidi por me ir deitar na minha velha cama de solteiro que os meus pais ainda não tinham sentido necessidade de queimar no inverno. Chegando ao meu antigo quarto não me dei ao trabalho de me deitar, deixei que a gravidade enviasse o meu corpo em velocidade warp em direcção ao colchão. 
Fiquei ali até ser inadvertidamente acordado pela minha senhora a perguntar se estava tudo bem comigo (mulher de ouro, já vos tinha dito?). Quando despertei, aquele barquinho pesqueiro, outrora em mar revolto, parecia já ter apenas a popa à tona. Sim, a popa, já que a proa seguia em mergulho alucinante para deus sabe onde, rodopiando num remoinho em oceano ardente.
Com apenas metade do corpo e mente acordados, fiz esforço para me levantar. Sentia-me confiante o suficiente para ir à casa-de-banho. Parecia que iria receber em breve a visita do senhor Gregório e me fui preparar a preceito para o encontro. Não que o senhor Gregório (ou Greg para os mais íntimos) fosse santo ou eu muito religioso, mas achei que o devia receber de joelhos, em prece maometana e apoiado na bonita latrina que os meus pais têm naquela divisão sanitária. No entanto o dito senhor resolveu atrasar-se e eu, sem mais nada para fazer naquele momento e  já algo aborrecido, resolvi esperar deitado (que sentado também estava a ser cansativo naquelas condições). Acabei por adormecer. Fiquei espantado com o conforto providenciado pelo azulejo daquela casa-de-banho. Com o calor que se fazia sentir, dava um fresquinho espectacular. Vou fazer isto mais vezes, mesmo quando estiver sóbrio.  

Parte V - ele tarda... mas não falha 
Foi difícil manter-me a dormir. Como aquela situação era inédita lá em casa (pelo menos com o filho mais velho), a casa-de-banho era um corrupio de gente. Minha mãe visivelmente preocupada, perguntava-me se estava bem. Minha mulher fazia o mesmo mas também tirava fotografias. Minha irmã só tirava fotografias...
Já pronto para me levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, ele apareceu. O senhor Gregório deu ar da sua desgraça e lembrou-me tudo o que bebi (e principalmente o que comi) numa curta conversa à berma da privada. Apesar de algo dura, a reprimenda do Greg foi remédio santo; depois de lhe confessar os meus excessos, levantei-me e fui ter com a minha malta tendo sido recebido com uma mistura pouco uniforme de sentimentos mas onde o escárnio dominava.
Despenquei no sofá onde fiquei mais algum tempo pois o mundo ainda estava em alvoroço. 

Epílogo - puttana de tecnologias e pitacos da assistência
Tal como na minha primeira vez, pensava eu que também esta estaria condenada à escassas memórias poucos estruturadas pela confusão e tudo desapareceria em pouco tempo. Pois bem, há 10 anos a internet não estava tão disseminada, não existiam câmaras digitais e os telemóveis eram utilizados sobretudo para pôr duas pessoas a conversar. A reportagem fotográfica do acontecimento parece ter sido intensa e por isso existe registos do crime que me fazem questão de enviar por email e apresentar a alguns entes queridos que não puderam vivenciar a experiência. Só assim fui capaz de entender como pôde a minha avó, que não estava presente, ter achado piada e mandado bocas... mas, depois deste episódio, de certeza que vai ter mais cuidado antes de me chamar para qualquer problema de saúde.


Nota: erros ortográficos e gramaticais são, neste texto, excepcionalmente tolerados dada a quantidade de neurónios perdida por apoptose.



16 agosto 2013

Hall of fame

Com que então, estamos a ficar famosos, hã, Isabelita?


15 agosto 2013

O país não está imbecil, o povo é que está!

Só num país imbecil é que se poderia cogitar que um preso, um político condenado por crimes de corrupção aquando das suas funções políticas, se pudesse candidatar à mesma Câmara onde cometeu os ditos crimes. 
Só num país idiota é que se poderia pensar que alguém pudesse ocupar um cargo de responsabilidade política estando ao mesmo tempo encarcerado.
Só num país retardado é que se poderia imaginar que alguém colocaria a hipótese de se candidatar nessas condições rocambolescas e, quando esta intenção fosse recusada, ousaria recorrer nas diversas instâncias jurídicas na tentativa de fazer pressão para ser aceite a sua pretensão.
Só num país escamoteado da sua razão é que se poderia pensar que a justiça, por mais desvairada que se possa crer ultimamente, cometeria um erro grosseiro desta ordem.
Só num país parvo é que o condenado poderia ficar de beicinho, revoltado com tamanha injustiça.
Só num país estúpido é que se poderia organizar um grupo de cidadãos (?), talvez em estranha liberdade, que tem como objectivo colocar de volta o criminoso no poleiro e que pensa em contestar a decisão do tribunal (tudo uma vicissitude da democracia).

Desculpem, é melhor começar a escrever no início de cada parágrafo "só num país de gente tola", porque o país não tem culpa de alguma gentinha apoucada que lhe calhou...

Em homenagem:

 


 

14 agosto 2013

Palmas

Finalmente estou em férias. São merecidas e as mais desejadas de sempre tal a quantidade de trabalho que me tem caído na cabeça ultimamente.

E o que melhor há para fazer nas férias do que ver os programas de verão nas televisões lusas, hã? Espectáculo! Festas para imigrantes, música pop portuguesa com gritadores secundados por gajas a baloiçar tudo o que deve ser baloiçado, apresentadores estridentes acompanhados por gente que pertence a outra espécie animal também ela bípede, you name it!

Embora tudo nesses programas seja bastante aliciante, nada me agrada mais do que ver as variações populares de bater as palmas. Sinceramente não sei como vocês o fazem mas eu costumo bater uma palma da mão contra a outra, violentamente e num sentido horizontal, muitas vezes de forma um pouco cínica e pouco entusiasta (para que aqueles que as merecem não ficarem a pensar que o trabalho terminou e que já não há espaço para melhorias). Não sei se é melhor forma, se é a correcta, mas é a que uso desde criança e não quero, neste momento, alterá-la.
No entanto, confesso que gosto de ver as senhoras de meia idade que fazem com que o acto de bater as palmas das mãos pareça o desenho de um caça F22. Estas moças costumam fazer danças com os braços para depois chocar as palmas fazendo que, para além do som, também o estremecer do corpo seja engraçado. É incrível o arco que um membro superior consegue descrever, algo que não vem em livros de biomecânica, com certeza.
Mas existem mais variações interessantes. Existem aqueles que não acertam com o ritmo da cantiga e os que falham constantemente as próprias palmas das mãos, talvez distraídos, talvez por serem incrivelmente descoordenados (ainda mais que eu!); há os que parecem aqueles macacos de brinquedo com pratos quando abrem os braços até acertarem no nariz do vizinho e, em linha recta, amandar os membros um contra o outro para executar o acto (sob o risco de acertarem no cocuruto do indivíduo à frente); temos ainda os que batem palmas e saltam ao mesmo tempo, não fazendo nada de jeito nas duas coisas; há os delicados, que batem as pontas dos dedos contra a palma da mão contrária o que não é, na verdade, um bater as palmas; enfim, vale a pena ver um número musical desses programas (com o volume reduzido,é claro: segurança auditiva primeiro) só para ver essas variações sobre este tema.

E, "prontos" (também gosto dos estrangeirismos [ou será melhor "esquisitismos"] linguísticos da silly season), vou ali às festas da terra ver os perdigotos kamikazes dos novos falantes de francês que, como as andorinhas, migram de volta para estas áreas do Liz. 
Férias no seu esplendor!





07 agosto 2013

Mentir ao telefone ou como nunca teria sucesso com uma traição

Já eram quase 9:30 da noite e, com a desculpa de querer ligar a um amigo mas não ter saldo no telefone, saí a caminho de um multibanco. Aproveitando a deixa diriji-me a um centro comercial aqui da terra para comprar uma prenda à madame, já que está próximo o aniversário do nosso longo namoro.
Obviamente que a moça não sabia dessa segunda parte da missão e acreditava que a minha saída seria lesta.

Chegei ao centro comercial e me perdi por entre as lojas. Comprar coisas para senhoras não é trabalho fácil para um homem... que não esteja acostumado à tarefa (já tive de pedir ajuda a uma das senhoritas que por este blog põem os olhos). 
Resumindo: demorei mais do que deveria.

Numa jogada idiota de mestre resolvi ligar à chefa dizendo que teria encontrado um amigo do futebol junto ao multibanco e que ficámos na conversa. Disse que lhe estava a ligar para não deitar os miúdos antes de eu chegar e que já estava a voltar para casa.
"Encontraste quem?", perguntou ela.
"O fulano do futebol. Agora vou ali à caixa geral para "por" dinheiro no telemóvel", respondi eu, ansioso pela mentirinha.
"Mas essa caixa geral já fechou há uns tempos..."
"Ah, pois é. Bolas, tenho de ir a outro lado então"
"Mas estive a ver aqui a nossa conta na net e já foste ao multibanco..."
"Er...", pensando numa boa desculpa, "ok, vim comprar-te uma prenda...", desisti logo.
Ela riu-se... e muito.

Fica ela sossegada quanto à hipótese deste jegue alguma vez pular a cerca...