15 julho 2014

O coice

A mula velha era de Lisboa mas a sua fama estendia-se para além da capital.
Todos pretendiam domá-la, tentavam conter o seu poder e absorver todos os seus proveitos sem cair do seu colo. Todos falharam na aventura. Alguns aguentaram-se alguns minutos, outros alguns segundos, mas todos, sem excepção, cairam ao solo sob o extraordinário poder do seu coice.
Ele era apenas mais um a querer aventurar-se no lombo da mula velha. Pensando poder vencer a teimosa ruminante começou por lhe experimentar as virtudes lentamente. A jumenta até lhe deixou aproveitar-se por alguns momentos do seu doce regaço mas logo cansou-se e aviou-lhe um belo murro com os cascos nas ventas.
O embate ele sentiu com força, de tal modo que caiu quase insconsciente, quase demente, para trás. No entanto, não sentiu-se chegar ao chão, ao invés disso, viu-se a flutuar. Levitou por cima das estranhas vinhas de Lisboa e depois pela própria cidade. Sentiu-se a voar a uma estonteante velocidade pelos céus laranja de um fim de tarde dominical, aproveitou-se das brisas quentes do atlâtico lhe lambiam a face e as encostas da metrópole. Por fim, foi perdendo a cinética e a gravidade parecia agora puxar-lhe com força para terra. Levou mais um trago do sumo da mula à boca para evtar o impacto frenético da ressaca e continuou mais um pouco a prazerosa viagem.

E tal como os outros que o experimentaram, também ele foi vencido pelo coice da mula velha mas, afinal, não foi assim tão doloroso... e será para repetir.


11 julho 2014

Cagaço ventral

Chamo o doente ao gabinete. Vem hoje à consulta para mostrar alguns exames pedidos da última vez que nos encontramos.
Após as conversas de ocasião típicas de um encontro com qualquer outra pessoa, com os "bons dias" e "como tem passado" da praxe, peço-lhe os exames.
Depois de dar uma vista d'olhos a cada uma das provas ressalvei uma alteração no seu electrocardiograma.

- Bem, está tudo "ok" com os exames, Sr. "Manuel" (fictício). No entanto, aqui no seu ECG tem uma coisita menos bem, uma espécie de arritmia chamada fibrilhação auricular.
- Ó, Dr, eu sei porque tenho essa arritmia.
- Sabe? Então diga lá porquê (já ansiando por uma daquelas deliciosas histórias).
- É por causa dos nervos, Dr. E digo-lhe mais, até sei quando é que começou.
- A sério? O quê? A arritmia ou os nervos.
-  Os nervos... ou se calhar os dois. Pois bem, em 1900 e troca o passo, aqui perto do Centro de Saúde, houve uma trovoada muito forte. Andava eu no ventre da minha mãe, está a ouvir? Bem, acontece que nesse dia caiu uma faísca na casa vizinha da dos meus pais. O raio da faísca entrou pela chaminé e matou a senhora da casa que ficou carbonizada, está a ver? A minha mãezinha que ouviu o estrondo, e depois viu o corpo da mulher toda desfeita, apanhou uma carga de nervos tal que passou para mim que estava na barriga. Desde essa altura que sou estressado e é de certeza daí que vem essa arritmia.
- Pronto, tudo bem... mas vamos ter de tomar medicação, ok?
- Prós nervos?
- Não, Sr. Manuel, para a arritmia...

Quisera eu que tudo em medicina fosse tão fácil de explicar...