31 dezembro 2011

E se os Maias estiverem certos?

Se os Maias estiverem certos:
- Ficaremos sem saber quem será o próximo campeão mundial de futebol;
- Não iremos receber subsídios de férias ou natal (espera lá, não é preciso previsões maias para esta...);
- Faremos a vontade aos socialistas e não pagaremos as nossas
dívidas;
- Se o fim do mundo acabar com fogo, o Gaspar procurará aumentar o imposto sobre os produtos pretolíferos;
- Se acabar numa quinta-feira, o pessoal do Estado aproveitará para fazer ponte;
- O PCP dirá que acaba porquê é do interesse do grande Capital;
- O PS dirá que já tinha tentado acabar com o mundo antes no governo Sócas mas tinha sido boicotado pela oposição e que, acabar justo agora, é pu
ra demagogia;
- O CDS não aceitará porque os Maias são pagãos e que viviam à custa do RSI da época, daí terem sido aniquilados pelos espanhóis;
- O Bloco apoiará porque assim acabam as off-shore;
- O PNR irá dizer que os estrangeiros querem ocupar os lugares dos portugueses no processo de acabar com o mundo;
- A SONAE irá vender bilhetes com descontos de 50% em cartão continente enquanto a FNAC cobrará 1€ pela venda dos mesmos;
- Não teremos os aumentos dos impostos e do preço dos bens essenciais previstos para 2013;
- Poderemos prometer que pagamos tudo dentro de um ano;
- A IURD inflacionará o preço dos terrenos no céu;
- O Governo irá tentar vender suas acções de "acabar com o mundo" a investidores chineses, indianos ou azeris;
- em 2013, onde quer que estejamos, estreará um filme, realizado por Roland Emmerich, com o título: "Eu não vos disse?";

- No entanto, se "acabar com o mundo" for entregue à responsabilidade exclusiva de Portugal, com a nossa burocracia, desenrascanso, cunha, compadrio, tachos, recursos, etc, etc, de certeza que o mundo aguenta-se mais, pelos m
enos, 2359 anos...



Que 2012 vos traga, sobretudo, oportunidades; oportunidades para
ganhar dinheiro, para viver bem, para terem filhos (se o quiserem e se fizerem por isso), para dar o salto, para apanhar os touros pelos cornos e, principalmente, oportunidades para se ser feliz (que é o que interessa).

Grande abraço e, pelo menos hoje, não se estraguem...



20 dezembro 2011

Com a palavra, o povão...

Outro dia ouvi um iluminado qualquer dizer que "quem quiser ver o estado no qual esta democracia se encontra, deve ir às caixas de comentários das notícias dos jornais online".
Ora, concordo plenamente.
E hoje, ao ler uma notícia sobre saúde no Diário de Notícias, encontrei esta pérola aplicada ao governo:

"manuel
20.12.2011/22:14
Este governo É igual a uma camisa de vÉnus a camisa de vénus permite inflação, impede produção, destrói a próxima geração, protege um bando de car@lhos e ainda transmite um sentimento de segurança... enquanto na verdade, alguém está f@dendo alguém!!!"

Viva a sabedoria popular!

18 dezembro 2011

Vai tu!

"Passos Coelho sugere a emigração a professores desempregados" in Público

Parece que, para alguns, Portugal deixou de ser para os portugueses. Parece que Portugal deixou de poder proporcionar a "felicidade" aos seus filhos. Os nossos governantes apregoam a incompetência do país em assegurar um futuro honesto e confortável a quem nele vive. Confirma-se o buraco no casco da lusa nau e o governo aconselha que se a abandone antes que seja tarde, sob pena de todos terminarem na fila da sopa ou debaixo de uma milionária ponte de uma auto-estrada/SCUT qualquer.

Entristece-me essas perspectivas, principalmente porque já pensei (penso ainda) em me tornar num desses ratos. No entanto, pensei por iniciativa própria, não precisei de um iluminado a dizer que para mim não há hipótese...

Porque não se vão embora eles? Acharia de bom grado que se fossem de uma vez. Passos, Seguros, Jardins, Soares, Cavacos e todos os outros incompetentes que agora clamam pela evasão dos excedentários. Eles que se ponham a andar, tomem essa iniciativa e dêem o exemplo. Vão de low cost para poupar.
Como complemento deste post deixo esta lúdica proposta de "pesquisa de opinião":


14 dezembro 2011

Os 15 segundos de infâmia


Hoje, ao ver o noticiário, vi uma cena que me deixou algo mais perturbado do que já normalmente sou.
Vi uma senhora, com uma pequena menina ao colo, chateada com o nosso (pouco) querido PM.
Com a criança ao colo a senhora gritava impropérios ao digníssimo. Chamou-o cabrão, filho da puta entre outros adjectivos pouco abonatórios.
Com a criança nos seus braços avançou em direcção à polícia que entretanto montara cerco. Escudou-se na menina e foi de encontro ao "muro" então formado. Foi, como é óbvio, afastada com muito pouco carinho.
Então ouviu-se:
"Como é possível, a empurrar uma mãe com uma criança ao colo!"

Tem razão, a pobre mãe: como foi possível tal acontecer? Como foi possível uma mãe usar, de forma tão baixa, uma pobre criança? Como foi possível usá-la como escudo, como arma de arremesso e, por fim, como desculpa para uma uma indignação ignóbil?


Pergunto-me pelo futuro daquela menina. Como pode alguém, em tão tenra idade, absorver tanto ódio e crescer de forma "normal"? Não julgo os motivos que levaram aquela mãe àquele acto mas será que existe desespero, pobreza e revolta que justifique fazer com que uma criatura inocente fique perante um risco desses?



A pobreza material é penosa, mas a pobreza moral é danosa...

10 dezembro 2011

Conversinhas

Os únicos diálogos eloquentes, educativos, responsáveis e transcendentais que tenho tido ultimamente são com o meu filho de 4 meses... sabichão, o gajo!

08 dezembro 2011

Brinquedos de %$#&§



Com duas crianças em casa, o Canal Panda é, obviamente, o que tem mais tempo de antena. Canal virado para a malta mais nova, farta-se de ganhar dinheiro nesta altura do ano com os comerciais de brinquedos. Tudo normal, afinal, do jeito que as coisas estão, todos têm de fazer pela vida.
Assim, hoje, feriado, enquanto a minha menina aguardava pelo próximo boneco animado, fiquei a acompanhar as novas tendências do mercado.
Foi então que percebi que a nova tendência é o nojento, o estranho e, principalmente, o grotesco. Só assim é possível encontrar explicação para estes produtos:
Neste 1º exemplar, um puto, com tendências megalómanas, cria os seus próprios monstros e depois, insatisfeito, aperta-os com as mãos até que o cérebro estoire ou os olhos expludam das órbitas enquanto deita uma gosma verde por tudo o que seja buraco.



Nesta 2ª coisa, o objectivo passa por arrancar o maior número possível de macacos do nariz do boneco e até que lhe salte o pequeno encéfalo (algo maior do que o daqueles que criaram esta treta)! Ganha aquele que mantenha o almoço no estômago.

E para terminar, o melhor (ou pior?):







Para este não encontrei objectivo. Não sei quem ganha, se é o que apanha mais cagalhões (desculpem, mas só me lembro desta palavra para isto), ou o que fica menos borrado, ou o que mantenha os pais casados depois de um deles ter a infeliz ideia de escolher esta porcaria para presente de natal.

E isso são só três exemplos...

Saudades do pião e da bola de berlinde!

05 dezembro 2011

Esmola - repost

Em época de Natal e aproveitando o tema deste mês da "Fábrica de Letras", faço um re-post de um texto de Dezembro de 2008:



Esmola


Sexta-feira caminhava pela cidade, preocupado em comprar uma prenda de aniversário para a minha "mais-que-tudo". Apressado e olhando para todas as montras, queimava meus (poucos e cansados) neurónios na tentativa de imaginar algo que fosse "simpleszinho mas bonitinho".
Nessa confusão, passei pelos correios e, mesmo ao lado da porta, como um guardião, um senhor de idade e com a mão estendida segurava uma boina virada para o céu. Não dizia nada mas pedia uma esmola.
Passei por ele como um Ferrari passa por um carocha na A1, mas a minha consciência (que carinhosamente chamo de Ofélia), essa senhora da vida que mora na minha mente e não paga renda, picou e moeu a minha cabeça, chamando-me nomes por não ter dado atenção àquela pobre alma.
Defendi-me dizendo que não era o único e que outras pessoas passaram por ele sobranceiras, ignorando-o imperialmente; ela simplesmente mandou-me pró car"#$.
Não sei se existirá "conciêncicídeo", de qualquer forma tal acto teria que passar, inevitavelmente, por um suicídio, o que não me agradou muito naquele momento.
Decidi que se comprasse alguma coisa, em qualquer loja, passaria de propósito à frente do senhor e deitaria, na sua boina, uma quantia qualquer de dinheiro.
Dito e feito, após adquirir algo que fizesse a minha senhora esquecer o erro que cometera há alguns anos, passei pelo homem e "amandei" para a sua protecção capilar duas moedas de 0,20€ que tinha a mais na carteira. As moedas aterraram no chapéu e não bateram em mais nenhuma; as pessoas estavam tão imbuídas de espírito natalício que, na rua, só viam pais-natais, duendes e corninhos de renas.
O homem instantaneamente sorriu um sorriso vazio e disse: "Muito obrigado e um feliz natal!"
Aquilo desconcertou-me e, apesar de ser algo que eu já esperaria que o homem dissesse, foi dito de uma forma incrivelmente verdadeira e agradecida. Algo que, se calhar, não faço todos os dias.
Fez-me muito bem e concluí que, afinal, aquela esmola não foi para ele: foi para mim.


11 novembro 2011

Trocadilhos da bola

Sobre o Portugal X Bósnia de hoje:

- Portugal não jogou uma bósnia;
- Paulo Bento pensou em convocar o Madjer para jogar no areal de Zenica;
- Cristiano Ronaldo jogou mal porque costuma "comer a relva" e isso hoje era algo indisponível ;
- Postiga saiu no 2º tempo depois de se lesionar contra um adversário que estava na apanha da batata;
- Parece que os jogadores aqueceram ao som de "Le Freak" dos Chic, com direito a laser's e coreografias eróticas com as mãos;
- A federação de futebol da Bósnia leiloou a relva ao final do jogo: angariou 3, 52 €;
- Pepe levou um amarelo depois de chamar "filhadaputic" a um adversário;
- Moutinho quase marcava, pena a bola ter desviado numa cenoura;


Terça-feira há mais...



01 novembro 2011

Azul de vergonha

O que me chateia não é a derrota. O que me chateia não é o facto de perder para uma equipa sem tradições no mundo do futebol europeu. O que me chateia não é perder para uma equipa sem estrelas. O que me chateia não é ficar fora da Champions.

O que me chateia é a arrogância. É o "ôba-ôba". É a prepotência de quem ganha milhões directamente proporcional à falta de humildade e o mal perder. O que me chateia é não ter na equipa um Costa, um Santos, um Pinto, um Barros, alguém portista como eu e que representa as tradições nortenhas. Chateia-me a falta de pressão e luta características dos azuis.

Há alguns dias, um tal Sr. Víctor, que se diz treinador, numa tentativa de jogo psicológico, cuspia no microfone que a sua equipa era a mais forte. Esse mesmo Sr., que tem um plantel de alta qualidade, veio provar que a sua equipa não presta e que não passa de um amontoado de peças soltas sem sentido; veio hoje demonstrar o quão incompetente é a treinar. Mas deixou ainda mais patente a sua incompetência a planear uma época e a sua miopia táctica.

A Champions já lá vai, que a vença o outro clube português. Agora lutamos pela Liga Europa.

Jogo das bolinhas

Na RTP Informação:
"O golfe é um desporto individual, uma luta constante entre o jogador e o campo"

Tentava um entusiasta do golfe justificar a importância do "desporto" para a economia nacional e disparou tão eloquente e poética frase. Não se conforma, o pobrezito, com a intenção de taxar este tão luso "desporto" com o IVA a 23%. Receia a perda de turistas para o Allgarve, algo que deverá acontecer por culpa, única e exclusiva, desta medida disciminatória, abusiva e inconsequente, já que o subsídio de férias foi ao ar e os ricos portugueses não terão como sustentar este tão saudável e atlético "desporto". Ok que a maioria dos "atletas" não são tugas; ok que a Europa está em crise e os estranjas não têm tanta cheta como antigamente; vão ter de cortar nos "caddys" (já que está na moda cortar nos assalariados.) ou por cabras a "aparar" a relva.

Compreendo a posição dos golfista já que, esta medida, é mesmo discriminatória.
Passo a explicar:

No entanto, antes de mais, tenho que confessar a minha dificuldade em encara
r o golfe como um desporto. Não o consigo comparar com a natação, atletismo ou mesmo o futebol. É-me difícil imaginar um senhor balofo, agarrado a um saco cheio de paus, equipado com um Havana e uns sapatos brancos de gosto duvidoso e que não consegue percorrer uns metros senão montado num carrinho de supermercado com motor, como um exemplar desportista. Considero o golfe mais um jogo com um tabuleiro gigantesco e de manutenção dispendiosa, onde tanto se pode jogar como alimentar uma manada de búfalos, outros ruminantes endinheirados ou hooligans de férias.
O golfe é tanto um desporto como o são o automobilismo, o bilhar, o tiro ou o bowling.

E é por não ser um desporto que acho bem que o golfe não seja sujeito aos 23%. É um acto discriminatório relativamente a outros jogos tipicamente lusitanos. Então vejamos, a sueca, o sobe e desce, o chinquilho, o solitário das repartições públicas, a coçadela dos tintins, a cusparada à distância e a sua variante, mijada à distância, e todos os "desportos" cujo objectivo é empurrar uma bola para dentro de um buraco não deveriam também ter IVA a 23%? Podem todos ser encarados como actividades desportivas e não têm qualquer taxação! Taxá-los seria uma questão de equidade tributária entre os diferentes jogos e traria dividendos ao Estado português; corria-se apenas o risco de diminuir o consumo de minis e porções de moelas e de orelha de porco e um pequeno aumento da violência familiar...




31 outubro 2011

Pai sofre XXIV: Halloween

Passados os "Noddys", Rucas" e outros que tais, eis que a minha menina passou a gostar de outro tipo de bonecos. Não que me orgulhe muito, mas ela vê o que eu via quando, há muitos anos atrás, era também um miudito.

Na TV Cabo (já não me ligam há meses, esses malandros!) existe um canal de desenhos animados inglês que pode causar um achaque de nostalgia fulminante aos mais velhos. O canal em causa chama-se "Boomerang" e por causa dele (e dela) comecei a (re)ver "Mutley and Dastardly", "Wacky Races", "Top cat", "Tom & Jerry", "The Flintstones", "The Jetsons" e, o preferido da minha pequenita (e porque hoje é noite de Halloween):



Aliás, o visionamento do amigo Scooby é quase um ritual: começa o desenho, aquece-se o leite, uma bolacha Maria e cama; é automático!
E a moçoila até já canta em inglês, pá! Se pelo menos o Sócrates visse isso...

7.000.000.000

Foto: Público










Parece ter nascido o bebé 7.000.000.000... e estes (e outros exemplos que facilmente se podem encontrar) vêm provar que existe (mesmo) gente para tudo.
Que este Homo sapiens sapiens possa ter uma vida longa, saudável e digna.

20 outubro 2011

"O" Médico

Tem sido difícil acompanhar a blogosfera (e muito menos publicar o que quer que seja) durante a semana. "Culpa" do trabalho e da família que me preenchem o tempo.
No entanto, hoje deixo aqui um vídeo que encontrei após "zappingar" o seu filme no canal Hollywood:



É indescritível o amor pelo próximo narrado por este "velho" médico. Mostra uma alegria e um desprendimento tão grandes que, ao longo de várias passagens, me fez sentir envergonhado das reclamações diárias.
Houvesse mais gente assim...

PS: existe neste blog um link para o site do seu projecto mas, para facilitar, aos interessados: www.patchadams.org/

16 outubro 2011

The (real) biggest loser

O Estado estava gordo. Estava cansado de ouvir falar de um necessário "fitness" para emagrecer o obeso glutão, sorvedouro de fundos e impostos, em que se tornara. Viciado no doce sabor do dinheiro, dependente da gordurosa perdição da corrupção e preguiçoso nos esforços de obtenção de hábitos administrativos saudáveis, já não conseguia ser suportado pela rede que o aguentava e estava a perder interesses.

O Estado investira pouco na sua educação e saúde. Suas economias eram parcas e o desenvolvimento exíguo nas últimas 3 décadas. Seu plano de seguro social era terrível e ameaçava desaparecer. Crescera pouco para cima e muito para os lados e já não cabia no traje orçamentado anualmente. O peso era tal que as suas pernas não o sustinham e deixara de andar; movimentava-se agora com canadianas, americanas, europeias, chinesas, ou qualquer outras muletas que o pudessem manter em pé.

Já por várias vezes inscrevera-se em ginásios de reputação mundial, contratara diferentes personal trainers de várias latitudes políticas, e, mesmo assim, falhara redondamente. Apesar dos esforços dos supostos profissionais, engordara cada vez mais, ficara pançudo e doente. Estava agora com obesidade mórbida e hipertenso. Aliás, a tensão estava a aumentar de tal forma que ameaçava explodir, a qualquer momento, mesmo no seu coração do poder central. A crescente gula por tudo que estava à sua volta ameaçava os seus sistemas orgânicos e arriscava-se agora à acidentes e convulsões sociais.

Cansado das dietas "ioiô" a que se tinha submetido tantas vezes, resolvera radicalizar: decidira ir à faca. Procurara auxílio de um corporação economico-estética, de renome temível internacionalmente, para resolver os problemas. Esta impingira um sério plano cirúrgico de cortes a direito em todas as suas áreas, inclusive as nevrálgicas.
Iniciara a empreitada com uma equipa cirúrgica supostamente canhota que, no entanto, demonstrara uma incrível tendência para o "show-off", a auto-propaganda e a incompetência (por coincidência, tal como as que a antecederam). Trocou-a por uma (demasiado) destra. Oficializada a nova equipa de salvadores, o Estado começou a ser intervencionado.

Na sala de cirurgia mundial, o Estado foi manietado, anestesiado e esquartejado. Com o seu âmago exposto, seus órgãos funcionais foram cobiçados e ficaram à mercê de um mercado traficante/agiota/especulativo: órgãos funcionantes, com dividendos, foram cuidadosamente retirados; os podres lá se mantiveram, corroendo-lhe as remanescentes entranhas. Nessa cirurgia demorada ( que levará ainda décadas a terminar) grande parte da gordura foi mantida e apenas a riqueza intelectual, o sangue bom e os neurónios funcionantes foram migrados para outros Estados mais saudáveis e activos. Os cortes indiferenciados feriram os tecidos estatais retirando-lhes a sua nutrição e matando-os lentamente.

O Estado então ficou magro de nutrientes e gordo de venenos. Terminou pobre, (miserável mesmo), subdesenvolvido e cheio de sequelas físicas e psíquicas. A desnutrição intelectual levou-o à insanidade. A falta de nutrientes económicos levou-o à anemia e à fraqueza muscular/braçal, atirando-o para a inanição.
Como resultado da abdução das suas mais valias, o Estado implodiu. Caiu por colapso das infraestruturas. Seu esqueleto social ruiu perante a falta das vitaminas laborais e económicas necessárias para o manter activo.

No fim, o Estado, obeso de vícios/magro de virtudes, tornou-se moribundo. Agónico e perdido, morreu pouco-a-pouco e, fagocitado por algo maior, desapareceu...

... ficou, no entanto, num grão das suas cinzas, a lembrança de poemas de glória e de um fino à beira-mar...

15 outubro 2011

Vontade de abalar

No seguimento de mais um roubo, mais cortes finos e dementes, cresce a vontade de abalar. Enquanto não decido para onde deserto, vou sonhando com Parságada.



Vou-me Embora pra Pasárgada


Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei


Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive


E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

06 outubro 2011

Yo quería ser de América Latina*

Adicionar sobrenome latino-americano: hecho;
Utilizar sotaque da América do Sul: hecho;
Adicionar "Portunhol" em idiomas: hecho;
Foto de Hugo Chavez na carteira: hecho;
Solário para bronze Barranquilha-like: programado;
Inscrição no partido de Bolívar: programado;
Curso de Marinera: en la ponderación;
Registo na página do Sendero Luminoso ou FARC:
pendiente de aprobación;
Formação adicional na Faculdade de Medicina da Universidade Anton de Kom - Suriname: programado;
Finalmente:
Nuevo contrato con el ARS: bajo negociación;








*PS: private joke.

Desabafo

Caro leitor, encare este texto apenas como um desabafo, um desalento de alguém entristecido. Não sinta pena, não tenha compaixão, não julgue; apenas leia se tiverem pachorra e encare isto como algo sem qualquer importância e que só serve para aliviar um pouco a alma de quem o escreveu.



Estou de férias. Uma semana que saio do inferno do meu trabalho, mas trago-o comigo, como um moedouro que não me permite o afastamento completo.

Desde miúdo cultivei um sonho: ser médico. Trabalhei muito ao longo do liceu, privei minha adolescência de várias “coisas da idade”; namorei tarde, saí tarde, vivi pouco daquela fase buscando o objectivo que tinha em mente. Fui muitas vezes tentado, ridicularizado, provocado por aqueles do “deixa-estar”, do “empurrar-os-anos-com a barriga”, do “tu-só-sabes-estudar": bando de chicos-espertos.
Porquê ser médico? Porque sempre tive tendência para ser otário. Sim, isso mesmo: otário. Porquê? Porque, pensava eu, poderia, assim, ajudar quem mais precisasse. Ajudar o doente, o dependente, o desesperado. Coisas que vejo, agora, terem pouca ou nenhuma importância para a sociedade em que vivemos. O interesse actual gira em torno de outros dogmas muito menos magnos.

Tinha o médico como um ídolo e um modelo que gostaria de seguir. A beleza da arte me fascinava: a preocupação para com o próximo, o segurar da mão e o mimo ao doente, o sorriso fomentador de esperança, o consolo da família. Tinha um enorme respeito pelo médico que ía, solícito, à casa do doente; adorava ver o que tinha na mala e prestava atenção à observação que fazia ao doente. Idolatrava a postura, a sabedoria, a delicadeza e a educação inerentes à profissão. Ignorava que era um trabalho igual a tantos outros e sujeito a alvíssaras.
Era isso que desejaria fazer para sempre e faria tudo o que pudesse para alcançar esse propósito.

Passados os anos de clausura (e muitas vezes solidão) veio a recompensa: Coimbra. Passei as passas do Algarve para acabar o meu curso. Estudava durante a semana, tentava ajudar os meus pais no fim-de-semana, arrisquei o meu relacionamento com a minha mais-que-tudo. Não aguentei a pressão e deprimi passado algum tempo, pensei e planeei formas de entrar em contacto directo com o Criador, foram lágrimas, suor e quase, mesmo quase, sangue. O meu percurso na faculdade não me orgulha… mas levantei, sacudi a poeira, dei a volta por cima e consegui.
Fiz o Juramento de Hipócrates e nessa altura senti-me médico por inteiro. Não foi o diploma ou o cartão da ordem que me fizeram médico, foi o meu esforço espelhado naquelas frases feitas mas com uma minha interpretação própria.

Enveredei pela parente pobre das especialidades médicas: a Medicina Geral e Familiar. Tão falada nas notícias, tão pouco compreendida por todos (inclusive muitos dos que a representam e praticam). A especialidade que "vê" a pessoa como um todo e que é a pedra basilar do sistema de saúde. Se for feita com seriedade e respeito: a mais bela forma de se fazer medicina.
Foram quase quatro anos de mais trabalho, de investigação, de aprendizagem e de mais privação pessoal e familiar. Novamente consegui e desta vez com distinção.

Hoje sou Médico de Família. Trabalho no que sempre quis e sonhei... mas quem sonha muito, por vezes, tem noites em que sonha mal.

Estando no terreno vê-se o que não se vê nas polegadas da TV. O que jornalistas, políticos, alguns médicos e utentes dizem não corresponde à inteira realidade e não pinta o quadro todo. Quem "é de fora" não tem noção (nem compreende) a dificuldade da tarefa, as pressões várias dos doentes, dos colegas, dos chefes, dos políticos e as limitações do próprio médico. Não se pense que é fácil ser-se médico e gerir todo um mundo de interesses que de medicina nem sequer chegam a ter cheiro.

Tal qual a imagem que sonhava, norteio a minha prática pela ética, honestidade, seriedade, rectidão e trabalho. Chego à conclusão que todas estas virtudes encontram-se subvalorizadas. Quem por elas se orienta é alvo a abater porque encrava o sistema instituído. Vejamos, é mais fácil mentir, aceitar, resignar-se e ir com a corrente do que insistir e lutar contra o que se considera errado. Quem muito cria raízes arrisca-se a sofres mais na hora de ser arrancado do sistema.

Cheguei à conclusão (em muito pouco tempo) de que, ao fim dos meus dias de trabalho, pouca medicina faço. Sou mais um secretário. São papéis a mais e estetoscópio a menos. São burocracias, economias, números e estatística, vontades e direitos hipertrofiados; ninguém dá valor aos deveres e responsabilizações.

Cansa muito mais ser íntegro; seria mais simples juntar-me à manada.


Depois de tantos anos de trabalho árduo em busca de um sonho, entristece-me concluir que andei atrás de uma fantasia, de um unicórnio alado. Cheguei à triste conclusão de que, mais que os doentes, é a própria medicina e seus agentes que padecem de patologia. A medicina e o sistema de saúde estão podres e os seus valores subvertidos. A figura do médico, que me apaixonou à infância, existe agora em forma residual, aqui e ali; deixou-se borrar pelos interesses instituídos, pelo sonho de riqueza, pela arrogância de um posto, pela má gestão e pelo facilitismo. Deixou-se levar pela falácia dos políticos, pelos desejos insustentáveis e impaciência dos utentes e esqueceu-se dos verdadeiros doentes. Elegeu pessoas para as representar que não têm a visão daquele que sofre no horizonte e que apenas defende os seus subscritores (e mesmo assim nem todos e nem nas situações que deveria). A Medicina está agónica e a precisar urgentemente de um Hipócrates ou Galeno.

Talvez seja eu e a minha irritante tendência ao exagero. Talvez a culpa seja minha de idealizar uma imagem que nunca correspondeu à realidade. Talvez seja apenas muito ingénuo (mea culpa). Talvez seja apenas uma fase em que esteja hiper-hidratado e necessite libertar alguma água pelos olhos sempre que termine o dia de trabalho. Talvez nada disso exista e seja apenas uma miragem da minha personalidade negativista. Talvez... quem sabe?

Neste momento, a medicina que sou obrigado a fazer deixou de ser apaixonante, divertida e, pior, deixou de fazer sentido.

Espero por dias melhores...

03 outubro 2011

Ilhas dos amores? Sois vós Açores.

Para o desafio viagens da "Fábrica de Letras":



Das (poucas, infelizmente) viagens que fiz, a que mais me surpreendeu foi a que me levou até aos Açores. Surpreendeu-me talvez porque não estava preparado para o que ía ver. Não tinha qualquer noção do que me apresentariam as diferentes ilhas e fiquei apaixonado, desejoso de voltar...
Este envergonhado projecto de poema que vos apresento surgiu-me na viagem de regresso num repente, quase sem pensar, daí poder parecer negligente ou infantil, mas é assim que o coração "escreve" quando está enamorado, certo?
O que surgiu foi, portanto, puro e verdadeiro.




(foto da minha autoria)

01 outubro 2011

Gastronomia madrugadora

Meu vizinho tem um galo que, às 4 horas da manhã, faz-me pedir por um bom arroz de cabidela...

20 setembro 2011

20 anos

Há cerca de 17 anos, ao entreter-me com uma revista "especializada" em música, lia um artigo, de um erudito qualquer, que vaticinava o fim dos Pearl Jam logo ao 2º álbum. Ironizava o sabichão que o líder da banda se tinha aburguesado, que a música do grupo não respondia à chamada grunge da origem e que estava por isso, esse trabalho, destinado ao fracasso.
O álbum em questão era o "Vs", por sinal um colossal (está na moda) sucesso. Parece-me que para profeta, o tal escritor dava um excelente mestre-d'obras...

Mais 20, sff.


19 setembro 2011

PS (porto Seguro)

Depois do último congresso do PS; depois de ouvir o ardente, sincero, verdadeiro (e amnésico?) discurso do sucessor de Sócrates; depois de ouvir as suas inúmeras e infindáveis declarações, opiniões e acusações diárias; de sentir as suas preocupações; fiquei extremamente aliviado: afinal o PS nunca deixará o povo na mão e estará sempre aí para nos salvar!

Aleluia

17 setembro 2011

Bonfire of the Vanities

"Cristiano Ronaldo: “Assobiam-me porque sou bonito, rico e um grande futebolista. Não tenho outra explicação” in Público

É por não "encontrar outra explicação" que não pode acrescentar "inteligente" a essa frase, certo?

Pai sofre XXIII: remédio

Sexta-feira. Mais uma semana de intenso trabalho terminou.

Cheguei à casa estafado. Vinha chateado com a vida e com um trabalho que cada vez mais me desaponta. Estudar uma vida toda para fazer algo que está há milhas de distância leva a um sentimento de frustração e impotência que nunca havia experimentado. Reclamações, exigências desmesuradas e excesso de direitos atiram-me para um lugar ao qual não estou acostumado. Cansa-me muito tentar ser justo e honesto. Seria mais fácil ceder às vontades e vícios e essa insistência, em fazer o que meus pais ensinaram, estafa-me.
Liguei a televisão. Vi buracos, miséria, guerras, corrupção e o Vítor Pereira no telejornal. Nada me interessa, nada me tira o gosto amargo de 5 dias de decepções.
Começo a ficar preocupado com a gota no canto do olho, a insónia e a falta de apetites...

Ela chegou. Os olhos enormes e vivaços miraram-me, as pernas aceleraram, os braços abriram-se num grande pequeno abraço e a língua, no início da afinação, estala um grande "É o pai!" na minha triste face.
E puff!... tudo o resto deixou de ter qualquer importância.

Amor: está aqui um remédio que tenho de começar a prescrever mais vezes...


01 setembro 2011

31 agosto 2011

Vaselina fiscal

Depois de, mais uma vez, o Ministro Víctor Gaspar ("Soninho" para os íntimos) vir anunciar novas medidas (leia-se "mais impostos) para minorar o défice luso, veio-me à lembrança uma passagem do "Evolution":



Sábias palavras as de Orlando Jones:

"There's always time for lubricant!!!"

15 agosto 2011

Santíssima pândega

"Santana Lopes convidado para Provedor da Santa Casa" in Iinformação

Qual é a vossa opinião sobre os motivos de tão assertiva escolha?




12 agosto 2011

Aumentos


"Governo antecipa aumento do IVA na electricidade e gás" - in Público

Hoje à noite já se iluminará a casa com velas.
Já comprei um ratinho para montar um microgerador para o computador.


E, a partir de hoje, 2 refeições diárias contendo feijão e/ou repolho.


09 agosto 2011

Inglesada

A polícia inglesa revelou os nomes de alguns dos jovens presos nos desacatos na área metropolitana de Lomdres. Ei-los:

- Ahremessa Al-Calhau;
- Pontus Nathesta;
- Isaac Nathein Job;
- Amin Nan Ah-Kembata;
- Juan Lleno de Dolores;
- Amândio Rochas;
- Storvas Zaragatas;
- Allipio Rada;
- Aiden McCair O'Dent;
- Chang Ia Lee;
- Alan Smith.

Todos eles ingleses à excepção do último: australiano.




Post baseado neste.

08 agosto 2011

Bomba

Comprei uma pequena bomba para encher os pneus à bicicleta.



Fiquei sem desculpas...

06 agosto 2011

Estrelinha de azar

Já há algum tempo que tenho pensado em escrever sobre esta matéria e esta semana, depois de mais um quiproquó com um destes de que vou falar, resolvi finalmente dissertar sobre o tema.

No nosso país parece haver um culto ao carro. Típico de países atrasados, em Portugal quem tem um bom carro parece estar envolto num halo de status vindo sab
e-se lá de onde ou porquê. Muitas pessoas geram opiniões sobre outrem baseadas na viatura conduzida pelo vizinho. A pessoa pode ser a maior vadia, mau carácter, desprezível, mas, se tiver um bom automóvel, já deve valer alguma coisa. Isso pode explicar o facto de os tugas comprarem todo o lixo que os alemães já não querem.

Vou ser claro: eu receio e odeio os Mercedes-Benz 190 ® e afins que encontro na estrada!
Recear porquê? Porquê, na maior parte, são conduzidos ou por velhotes, que mal se podem mexer, ou por putos que querem um Mercedes® para impressionar. Odiar porquê? São feios, velhos, poluentes; odeio-os principalmente porque põem a nu uma faceta da sociedade que me chateia, aquela em que "não é preciso ser, é preciso parecer". Ficam convencidos que, comprando esses trambolhos sobre rodas, passam a pertencer a uma elite qualquer.

Um 190 na estrada é sinónimo de grandes filas e de infracções ao código. Daí que, quando vou atrás de um no IC2, dou uma distância de segurança: 1º porque representam um perigo à segurança dos outros condutores; 2º porque não quero ficar intoxicado com o fumo; 3º porquê são horríveis;
Para além disso, o facto de um fulano conduzir um Mercedes® não invalida que o mesmos deixe de ser uma besta. Já os vi cavalgados nas bermas, em segunda fila, a ultrapassar pela direita ou a pisar riscos contínuos, a esbracejar e esbravejar com tudo e com todos e por tudo e por nada. Parece que educação e civismo, na
maioria dos casos, não faz parte do equipamento de série...

Mas a culpa não é da Mercedes®. A marca apenas fabrica os carros. A culpa é de uma sociedade que julga os outros pelo que têm, pelo que veste, pelo que aparenta... triste comunidade motorizada.

No entanto, há oásis nesse deserto de mediocridade. Não sei se já escrevi aqui, mas há pouco tempo ouvi um jovem colega meu proferir uma das frases mais simples e bonitas que ouvi nos últimos tempos. Dizia ele que gostava de ter 5 filhos. Falei do meu espanto, de que não é normal hoje em dia o desejo de famílias numerosas e das dificuldades económicas que as pessoas referem para criar um filho. O meu
amigo, de forma muito calma e singela, respondeu: "se não puder ter um Mercedes® tenho um Renault Clio®".
Valha-nos esses que nos "enxergam" para além da nossa embalagem e
nos julgam pela nossa alma.


"Se não fosse o 190 não arranjava essas gajas boas (todas com mais de 18!)"

05 agosto 2011

Fugir por amor...

Para o tema "Fugir" da Fábrica de Letras:



Fugir por amor

“Vamos fugir deste lugar, baby, vamos fugir”
“Não posso, sabes bem”
“Mas porquê? Pela tua família? Pelos teus amigos? Pela tua boa vida?”
“É por tudo, amor. Não posso abdicar das coisas que tenho em casa. Se for contigo tenho que me virar sozinha, certo?”
“Não sejas tonta, querida, eu trabalho para ti. E se as coisas não correrem bem, viveremos de amor!”
“És um romântico… e também um grandessíssimo pateta! Amor não enche barriga, ok? Tu és um “D. Juan” que só me quer saltar para as cuecas!!!”
“Se pelo menos usasses umas…”
“És mesmo tonto”
“Anda lá, ninguém vai sentir a tua falta. Eu sei do que falo. Já vivi em muitos lugares e ninguém quis saber. Já me fui embora inúmeras vezes e ninguém me chamou de volta.”
“Mas tu sempre foste um solitário. Talvez não percebas o valor de uma família. A minha não é assim, tá bem? Nunca me abandonaria! E eu não sou capaz de o fazer. A minha família sempre fez e faria tudo por mim."
“Mas só eu te dou amor. Só eu sei fazer o quê e como tu gostas, não é verdade, minha coisita fofa?”
“Pára lá com isso… não mexas aí… ui… OK! O que tens em mente?”
“Hoje, pela meia-noite , venho buscar-te e…”

Na manhã seguinte, a menina foi até a porta de casa e gritou pela sua cadelita. Insistiu muitas vezes naquele dia e nos seguintes sem nunca obter resposta.
A menina, a sofrer, chorou durante muito tempo até ouvir a bonita história da pequena caniche que foi seduzida por um rafeiro e que se foi embora por amor... coisas de pai para apaziguar coraçõeszitos inocentes.


04 agosto 2011

Pontaria

Hoje, durante a minha estadia nas instalações de uma superfície comercial, apareceu-me, assim de repente, uma vontade incontrolável de mictar.
É estranho como, nesses momentos de sobressalto, vamos confirmando informações que vão surgindo aqui e ali.

Passo a explicar:
Li há já algum tempo, numa revista qualquer, que a altura média da população portuguesa tem vindo a aumentar. Parece que a dos rapazes se encontra actualmente nos 174cm, ultrapassando, por exemplo, a média dos rapazes espanhóis (um aparte).

Voltando àquela ida para resolver necessidades fisiológicas.
Quando me dirigi ao sanitário mais próximo verifiquei que, mesmo estando um pouco acima daquela média de altura, necessitava de ficar em bicos dos pés para acertar no interior do urinol.
Fiquei espantado com o facto da nossa sociedade estar atenta à ciência e com a rapidez com se adapta aos novos desafios que se lhe impõem: já aumentaram a altura da porra dos urinóis?! Tem agora um gajo que se esticar todo para não roçagar os tim-tins na porcelana, caraças! E quem não alcança o alvo compra uma escada? Faz exercícios pélvicos? Resolve o problema no lavatório?

Ai, os arquitectos vanguardistas...

02 agosto 2011

Investimento

Se tivesse ganho o gigantesco jackpot do euromilhões (lembram, 182000000€?!), também eu tinha ido atrás da barganha/pechincha BPN.

E parafraseando o Bloco nesta matéria:


01 agosto 2011

Pai sofre XXII: da tróica?


Como escrevi há alguns "posts" atrás, minha mais-que-tudo tinha a ideia de que durante 1 mês pós-parto não haveria furunfunfada para ninguém e assim mais valia rezar para complementar o celibato.
No entanto, parece que lhe foi dito, por uma minha colega Obstetra/ginecologista, que, afinal, o período de aridez copuladora deverá ser não inferior a 1 mês e meio!!!
Tudo bem que ela é especialista em vaginas e eu apenas apreciador/admirador, mas 45 dias? Até o dilúvio teve menos tempo!

Num dia em que a malta reclama que os transportes aumentaram até 25%, o que vou eu dizer quando o aumento do tempo de sexo unipessoal aumentou em 50%!!!

Olhem para mim dentro de mês e meio:



Um post a roçar o gay * e carregado de estereótipos

Dentro da maternidade, passei por dois gajos das obras vestidos com coletes e que carregavam caixas de ferramentas. Eram ambos grandes e carecas.
Depois de os ver apanhei-me a cantarolar "I'm too sexy for my love...", o que me soou algo estranho.



Depois vi uma enfermeira jeitosa e fiquei mais descansado...



*sem trocadilhos, ok?

31 julho 2011

Pai sofre XXI: Na maternidade

Com a minha senhora internada, de recobro da cesariana, lá vai o papá para a maternidade.
Como a visita do pai decorre das 12:00 às 20:30, ficam mais de 8 horas para preencher. Não me interpretem mal, mas o meu pequeno "pilas", neste momento, só obedece a um plano: dorme/come/caga e não exactamente por essa ordem, sendo que a parte "dormir" é a que demora mais tempo. Dessa forma, há sempre "coisas" que vão chamando atenção.

No quarto da minha madame estão mais 3 bebés e, no meio do mesmo, incrustada na parede, jaz uma televisão. Como lá manda a puta da democracia, todos vemos o canal da maioria. Nos 2 primeiros dias a TV esteve na SIC, ou como costumo chamar "televisão doentia", e tive que levar com a Ana Marques e Cia ilimitada (Cláudio Ramos incluído!).
No entanto, hoje lá mudaram para o primeiro canal da RTP. Não é que eu estivesse a ligar muito para o que estava a dar na televisão, mas não pude deixar de ficar estúpido de facto com algumas "músicas" do Top +. Primeiro de tudo as famigeradas musiquinhas infantis, várias vezes comentadas neste blogue nos últimos 2 anos; depois uma tal de Rosinha que põem uma minhoca numa vara qualquer; por fim, e antes que eu perdesse os sentidos, um tal de Leandro com isto:



Parti-me a rir quase instantaneamente:
"Fuuoooda-se", pensei logo, "uma canção sobre a morte da mãe a passar numa maternidade? Isto só pode ser o cúmulo da ironia!!!"

O tempo assim até passa mais depressa e amanhã o meu menino vem para casa, finalmente!

29 julho 2011

Pai sofre XX: Sequelas

O meu miúdo já estava vestido e eu estava a apresentá-lo à mamã quando a obstetra sai-se com:
"Pronto, como foi cesariana, dentro de dois anos voltam pelo terceiro"
"Como?" digo eu espantado.
"Foi cesariana e..."
"Não é isso. Essa parte do "não sei quê do terceiro"

Vamos fazer uma analogia.
O "Tubarão" foi bom. O "Tubarão 2" também foi. Os outros "tubarões" eram escusados. Os dois primeiros "Back to the future" foram espectaculares, já o 3
º: nhec, foi bonzito, vá.
Ninguém disse que isto seria uma trilogia, ok! Eu não sou o George Lucas a tentar esticar ideias. Isto cá em casa não é Hollywood e a minha holy wood já não trabalha para estes resultados!
Citando o sábio povo: "um é bom, 2 é óptimo, 3 e as coisas come
çam a ficar apertadas".


28 julho 2011

Filho

Na minha prepotência dos 30 e tais, com a certeza de que tinha certeza de tudo, vieste tu, meu filho, mostrar-me que, afinal, ainda tenho muito, mesmo muito, o que aprender.
Tu que és tão pequenino e frágil, vieste mostrar-me o que enfim sou: mais pequenino do que tu.
Quem sabe tudo? Quem conhece todos os segredos do mundo? Não sou eu, ora bolas, é essa a verdade.
Tu que és puro e limpo, com esses olhos, que pouco vêem mas tanto mostram, abriste os meus e os lavaste em água salgada.
Mal te ouvi, ainda no ventre da tua mãe, vi logo as minhas imperfeições, e ao pegar em ti, pedaçinho de gente, vi o quanto eu também tenho de crescer.
Ah, pequeno, quanto tempo esperei por ti em ansiedade; quanta vontade tinha de te conhecer e ver, reflectido em ti, o fruto do amor destes teus pais apaixonados.
E assim, filho, este teu, pensava ele, sábio pai, viu-se num mundo novo; num mundo onde tu passas a ser rei depondo o velho sabichão: o que tinha a certeza de tudo ter certeza e, vê bem miúdo, que pensava que a felicidade e o amor tinham limites...

Sê bem-vindo que tenho muito a aprender contigo.


25 julho 2011

Os princípios


"No princípio criou Deus os céus e a terra" Gênesis 1

Deus estava presente naquele princípio, mas um dia criou os portugueses. Esses criaram outros princípios:
"Eu tive um princípio de AVC..."
"O meu pai tem princípio de diabetes."
"Estou com tosse, deve ser princípio de pneumonia."
"Há alguns tempos tive um princípio de depressão."
E etc, etc.
Quando falam isso digo logo que não vale a pena tratamento porque só conseguimos tratar doenças estabelecidas.

Agora percebo porque deveria conhecer melhor o Harrison...



23 julho 2011

Sangue frio

Há quem diga que um profissional de saúde deve ter sangue frio. Sangue frio para aguentar as agruras do dia-a-dia, as misérias, as doenças, a violência das imagens, do sangue e das vísceras expostas.
Eu acho que não. Na minha mui humilde opinião, um profissional de saúde deve ter sangue frio para aguentar firme e hirto quando ouve, a meio de um discurso de queixas, coisas como: "constipação nos ossos", "fumador invertebrado", "estreptocópus", "quero um electrocardiograma à coluna", entre muitas outras coisas bonitas.
Por vezes não é fácil e confesso que já me parti a rir duma tirada dessas
... um gajo não é de ferro, pá!!!


21 julho 2011

Pai sofre XIX: A gravidez ou o sertão sexual

Há alguns dias, durante um zapping, parei no canal Hollywood e fiquei a ver o filme “Um azar do caraças”. A história girava em torno de uma casal de pessoas completamente diferentes que, podres de bêbados, têm uma noite daquelas. Passado um tempo descobrem que a moça engravidou, e patati, patatá, pardais ao ninho.
O que me faz escrever este texto é o facto de existir uma cena nesse filme que tentava retractar o acto sexual durante a gravidez. Nessa cena, o futu
ro pai não conseguia continuar o “bem bom” porque, apesar da moça ser bem jeitosa e estar super “horny”, não deixava de pensar que podia acertar na testa ou outras partes do bebé e que o seu bacamarte não deveria ser a primeira imagem que o filho veria (aliás, um pensamento muitíssimo sensato!).

Ao ver aquela cena não pude deixar de lhe achar piada, mas ao mesmo tempo pensei: “pelo menos estás a tentar!”

Na gravidez “o amor” é um bicho estranho, realmente. Para quem não tem fetiche por grávidas é algo esquisito. Dependendo da idade gestacional é difí
cil e quase acrobático. Um fulano tem de ter destreza física e capacidade mental para a empreitada.
Isso se houver alguma hipótese de existir qualquer coisa desse género e é esse o tema deste texto: a seca.

Na primeira viagem pelas terras dos “9 meses” tinha um amigo que, no gozo, elogiava a massa muscular do meu braço direito. Eu perguntava-lhe “êpá, é assim tão evidente?”, ao que me respondia: “já fui pai duas vezes, não te esqueças…”
Não serão bem 9 meses de seca, há que descontar as seman
as da ignorância e o tempo até à primeira ecografia: depois de ser ver aquela coisinha no ecrã um fulano olha pró material das moças de outra forma! É todo um mundo que se fecha…

E é justamente nessa altura do querer e não poder que vem à baila o tão famoso ditado do “proibido é mais apetecível” e essas merdas. Um gajo, que normalmente já quer, quer ainda mais! Parece sacanagem, querer sacanagem e não poder.
“Pode sim, caraças. Eu sei que não há problema! Vai, foca-te” e até se hasteia uma bandeira aqui, outra ali, mas não há terra para se encravar (ou até há mas está em pousio).

O tempo vai passando, a sede aumentando...
Começa-se a achar interessante toda e qualquer tipo de pele exposta. Chega-se ao verão e as saias atormentam. Vai-se à praia e é um martírio. Vê-se o fashion TV e o preço certo com certa frequência e não se sabe bem porquê. Ai, ensandece-se qualquer coisita...
Começa a ser constrangedora a “insustentável leveza do ser”.

Agora, mesmo, mesmo no finalzito, com o filhote quase a rebentar, depois de todo o sofrimento e de auto-contemplação e satisfação, da subida da direita ao poder, ouço uma frase aterradora: “já se sabe como é: no primeiro mês não há nada!”


É paradoxal um acto sexual vir a dificultar (ou impedir) a realização de outros-que-tais subsequentes. Talvez possa ser chamado de “sexo empata fodas”.




18 julho 2011

Maus caminhos

Não sei porquê, mas a maioria dos blogs que visito frequentemente tem aquele aviso do blogger sobre conteúdos impróprios.
Parece que os mesmos surgem após alguém, mais susceptível, queixar-se ao todo poderoso virtual sobre os malandrecos autores das respectivas páginas.
Leva-me a pensar que este mundo está inundado de gente hipócrita e "queixinhas"!
Deixai-os publicitar ideias, caraças! Deixai-os mostrar pachachas, piças e o acto do amor! Deixa fluir textos ordinários, obscenos e plenos de caralhadas lusitanas!
Cambada de falsos beatos e puritanos!

Aos delatorezitos que por aí andam, virgens de ouvidos e olhos, levai ( e deixo vossa imaginação fluir...)



PS: não se espantem se amanhã também tiver aquela tartufa mensagem antes de adentrarem o meu estaminé.

17 julho 2011

A confissão

Para o desafio "Segredo" da Fábrica de Letras:


A confissão

Maria sentiu o telemóvel a vibrar no bolso apertado da calça de ganga. Estava no silêncio, não queria chamar a atenção a meio da aula. Retirou com grande discrição o aparelho e não conteve um sorriso assustado ao ler o que continha a missiva electrónica:
“Maria, estou há algum tempo para te dizer algo que só pode ser dito pessoalmente. Um segredo que não posso mais esconder. Se puderes, vem ter comigo ao nosso lugar depois das aulas. Bj. Marco”.

Marco era o melhor amigo de Maria. Era “apenas” o melhor amigo porque Maria ainda não tinha tido coragem de lhe dizer que o queria de outra maneira. Duma maneira como nunca quis ninguém. Queria-o muito para além da amizade, muito para além do abraço e do beijo fraterno na face.

Enquanto caminhava apressada para casa, conjecturou inúmeros cenários para a tão esperada revelação. “Será que esse segredo é o que eu penso?” , pensava. Imaginou o amigo de joelhos a confessar o quão difícil foi criar coragem para lhe dizer que a amava e a dificuldade de esconder tal sentimento. Imaginava “Nothingman” a tocar ao fundo e o sol a esconder-se por trás dos montes que se vêem de onde se costumam encontrar. De tanto antecipar a cena nem deu por ter chegado à sua casa.

Foi ter com a sua irmã gémea, Laura. Mostrou-lhe a mensagem como que desvendando o terceiro segredo de Fátima. Laura ficou boquiaberta, mirou Maria nos olhos e abraçou-a. Ao saltos no meio do quarto pareciam duas tontas do tempo do liceu quando bastava um olhar do menino bonito da turma para perderem as estribeiras.
Laura dizia repetidamente “o que é que eu te disse? Não te tinha dito? Eu sabia, eu sabia!”. Riram-se desalmadamente, conversaram em algazarra, de tal forma que toda aquela maluqueira chamou a atenção dos seus pais.

“O que combinaste com ele”, perguntou Laura.
“Vamos encontrar-nos na encosta”.
“Oh, man”, suspirou, “vai ser uma cena digna de um bom filme meloso”.
“Estás é com inveja” e mostrou-lhe a língua.
“Maria, quem não estaria? O homem é tão jeitoso!”.
“O que visto para esta ocasião?”.
“Vais sexy e irresistível, mana!” disse Laura enquanto corriam para o roupeiro do quarto de Maria.
Depois de uma curta procura, encontraram um vestido que concordaram adequar-se à situação.
Laura penteou a irmã, aplicou umas mistelas coloridas na sua face e ajudou-a a maquilhar-se.
Depois de algum tempo Maria pousou para si própria à frente do espelho: estava linda… ainda mais.

Como combinado, Maria foi ter com Marco à encosta que fizeram seu ponto de encontro. Naquele lugar já lhes tinham corrido litros de saliva em longas conversas e cantigas de escárnio. Foram cúmplices de vários crimes de difamação e, s
e aquele lugar pudesse falar, teriam muito com que se preocupar.
Marco já lá estava. Visivelmente nervoso, olhou para ela e soltou um “uau” prolongado e com vários pontos de exclamação.
Ela sorriu… e corou.

Depois de um curto período para se acomodarem nos devidos lugares, Marco começou a conversa libertando uma voz estranha e tremida:
“Maria, já deves imaginar porque te chamei cá”.
“Imagino” respondeu Maria prontamente.
“Não sei por onde começar. Juro não ter sido a minha intenção, mas aconteceu sem me aperceber e agora estou assim: numa encruzilhada. Sabes que eu gosto muito de ti, que és a minha melhor amiga e que não podia te esconder nada”.
“Sim, Marco. Eu compreendo…” dizia sôfrega.
“Deixa-me falar ou passa-me a coragem. Maria, vou contar-te meu segredo, vou confessar-me…”
“Diz-me, Marco”.
“Maria, estou apaixonado!”
E os olhos da moça humedeceram-se…

Maria chegou à casa lívida e visivelmente perturbada. A irmã, que a esperava “em pulgas”, ficou preocupada com o estado da moça.
“Maria, o que se passa? Porquê estás assim? Diz-me, mana, diz-me!”
Maria então chorou. Deu um abraço tão apertado à Laura que conseguia sentir o seu coração assustado.
“Sabes que eu amo-te profundamente, Laura” e, olhando-a profundamente nos olhos, completou “e o que se passou é que o Marco também…”


06 julho 2011

Férias sem net


Alguns dias passados em Santa Cruz (Torres Vedras) sem net, apenas o mar, o vento, algum sol e (o mais importante) a família, foram responsáveis pelo entupimento da minha conta de mail, pelo vazio criativo neste espaço e pela recarga das minhas baterias (que já estão a ficar viciadas e cada vez aguentam menos...)


E segunda-feira é logo ali (suspiro)...

13 junho 2011

Fernando, a Pessoa

Há 123 anos nascia um dos maiores poetas da língua portuguesa: Fernando Pessoa. Com ele, nasceram também várias outras Pessoas que o Fernando foi desvendando na sua obra intemporal.
Tal é a sua importância para as 2letras" que a Google resolveu homenageá-lo, no seu motor de busca, com esta imagem:

Sua poesia perdura e impulsiona milhares a escrever; é possível, nas viagens pela blogosfera, ver excertos das suas obras a "adornar" templates vários.


Quem me dera escrever "coisas" como esta:


O Infante


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!



E que deu origem a "isto":


Ou "isto":

05 junho 2011

4




Em resposta ao desafio "os problemas resolvem-se à chapada" da Fábrica de Letras.








4

A professora já não suportava mais. Aquela era a pior turma que alguma vez tivera a seu cargo. Nos seus longos anos de experiência nunca vira nada assim e a sua já pouca paciência esgotava-se a cada dia.
Eles gritavam, eles brigavam, mandavam papeis, borrachas e bocas uns aos outros.
Já tinha sido insultada, humilhada e desrespeitada de todas as formas e feitios por aqueles pequenos estafermos. Já não os suportava e, vindo de alguém que os devia "adoptar" como aprendizes, isso era terrível e inaceitável.

Por causa daqueles alunos iniciara uma incursão no mundo da piscofármacologia. Sentia-se nervosa só de pensar em pisar a sala de aula; as sextas-feiras eram de alívio e os domingos à tarde de terror.
Decidira acabar com este sofrimento. Não merecia essa cruz. Ia rebelar-se!

Chegou à sala naquela segunda-feira de manhã e viu o que via todos os dias: algazarra. Uns gritavam, outros corriam, mais um em cima da sua secretária e uma que escrevia no quadro enquanto o colega a usava como alvo para as suas bolas de papel. Nem notaram a sua entrada.


Escostou-se, invisível, à um canto, encheu-se de coragem e...
- CALEM-SE! TODOS SENTADOS! - a plenos pulmões, vindo do mais fundo, do mais recôndido e escondido canto escuro do seu espírito.

A sala de aula congelou-se. Todos ficaram imóveis como se alguém parasse o tempo. Espantados, viram no semblante da, outrora paciente professora, algo nunca antes observado. Algo estranho, novo e assustador. Um frio lhes correu espinha acima.

- SENTADOS, JÁ DISSE! NÃO VOLTO A REPETIR!

A pequena trupe então sentou-se. Expectantes, aguardavam o que dali viria.

A professora viu-se num impasse. Agora não poderia voltar atrás. Iniciou uma viagem sem retorno; uma batalha onde não poderia ceder um milímetro. Pensava no que fazer já que alguns insistiam em desafiá-la; riam-se baixinho, nervosos mas provocadores.
Decidiu-se por dar-lhes uma lição que jamais esqueceriam. Lição essa que pagaria com juros tudo o que lhe haviam feito passar até então. Ficariam "quites". Correria riscos, mas agora encontrava-se no ponto de não retorno.

Escreveu "2+2= " no quadro negro. Olhou para a turma e chamou: Pedro.

Não era aleatória a escolha pelo Pedrinho. O Pedrinho era o maestro daquela sinfonia dos infernos. Era o general, o padrinho, o pastor daquele rebanho de pequenas "Maria-vai-com-as-outras".

O Pedrinho era filho único. Gostava de toda a atenção que lhe pudessem dispensar. Gostava de ser o centro do universo e tudo fazia para que o considerassem assim.
Não era um rapaz brilhante, muito pelo contrário, e por isso mesmo chumbara alguns anos. Dessa forma era o maioral da turma, o mais velho, o mais alto e forte... e aproveitava-se disso. Não havia orelha na turma que já não tivesse sido aquecida pela mão do Pedrinho, nem rabo que não tivesse a marca de uma das suas sapatilhas.
Era um arruaceiro, um desordeiro e um candidato a futuro delinquente.
O Pedrinho era o alvo (e o exemplo) perfeito para a lição das lições.

- Pedro, anda cá ao quadro e resolve esta conta.
O menino levantou-se e desfilou desdém entre o corredor de carteiras. Sorriu para os outros, confiante, com a arrogância de quem já conta com a vitória antes do jogo acabar.
A professora entregou um pedaço de giz ao rapaz e insistiu no pedido.
- "Stôra", não vou resolver - diz matreiro.
- Ai não? Porquê? - pergunta a professora.
- Porque não sei.
- Não sabes? Como não? Claro que sabes.
- Ó "stôra", não sei nem quero saber! - e vira as costas à educadora.
Foi então que sentiu a mão quente e húmida da professora a agarrar-lhe o braço.
- Não te mandei sentar. Tu hoje sais daqui a saber matemática, meu amigo. Olha aqui, que número é esse?
- Não sei, nem quero saber, já disse e...
- É UM "2"! - e conta "1" e "2" enquanto desfere dois valentes estalos nas bochechas rosadas do rufia.

O Pedro estremece. Não estava à espera nem sabia de onde vinha aquela mão cheia de dedos.
A assistir a cena, a turma toda em suspensão, aturdida, boquiaberta, a beliscar-se...

- AGORA CONTA COMIGO: 3 E 4! - mais dois tabefes na cara do puto - ENTÃO QUANTOS SÃO 2+2, HÃ? DIZ LÁ, RAPAZ, DIZ!!!
- São 4, "stôra", 4!!! - lutando para não chorar à frente dos colegas (luta inglória).
- Vês? Vês como sabes? - diz calma e ternamente a professora - meus parabéns, Pedro. Pronto, agora vai, meu rapaz, vai-te lá sentar.

A professora lutava para esconder o tremor das mãos e a ansiedade que lhe inundava a alma.

- Alguém mais tem dúvidas? -perguntou à turma com um sorriso doce nos lábios - algum de vocês quer fazer alguma pergunta? Sabem todos quantos são 2+2?
- SIM, Sra"stôra", são 4 ! - responderam em uníssono.
- Muito bem! Então assim sendo, abram os vossos livros na página 26 e ...

Desde então, nunca se vira naquela escola turma tão trabalhadora, organizada e orgulhosa da sua mestra e, ainda na semana passada, ficou-se a saber que o Pedro acabara a licenciatura em Engenharia com distinção.
Já diriam os sábios populares: "nada como um bom estímulo".

31 maio 2011

Banda sonora

Minha banda sonora nos próximos tempos...

27 maio 2011

2 pesos

Ainda há pouco tempo, em Coimbra, e após o PCP ter pintado as escadas monumentais com "propaganda" política (o que, para mm, caracteriza um acto de vandalismo puro), um grupo de estudantes manifestou-se durante o comício do Sr. Jerónimo de Sousa. Embora alguns ânimos se tivessem exaltado, a manifestação decorreu sem problemas e não houve, salvo alguns militantes mais "antigos", da parte do PCP, qualquer comentário; nem houve agressões ou detenções por parte da polícia (nem sei se, por ventura, haveria algum polícia nas imediações).

Ontem foi a vez do mesmo acontecer num comício da sua santidade o Engº Sócrates. Um grupo manifestava-se contra o pagamento de portagens na A22. O que terá acontecido para que houvessem desacatos e uma detenção? Tiros, facadas, arremesso de tomates? Não, o que houve foi: "Decorriam os discursos no largo da Pontinha, local do comício, quando os agentes começaram a identificar pessoas que empunhavam cartazes e que assobiavam."
Perguntado sobre o sucedido o secretário, do mui democrático partido socialista, proferiu uma frase carregada de paradoxos: "“Acho absolutamente lamentável o que aconteceu. Enfim, é gente a quem a
democracia deu direitos, mas que não sabem usá-los”, afirmou, em resposta à SIC.
Fui então ver o que quer dizer democracia:
Democracia | s. f.

democracia
(grego demokratía, -as, governo do povo)
s. f.
1. Governo em que o povo exerce a soberania, directa! ou indirectamente!.
2. Partido democrático.
3. O povo (em oposição a aristocracia).

Parece que utilizar cartazes e assobiar é antidemocrático. Nunca vi, por exemplo, um adepto com os cartazes do "dá-me a camisola" ou "Mãe, estou aqui!" e que assobiam serem manietados e presos. Nunca vi um trolha a ser identificado por mandas um bom "fiu, fiu" a uma moçoila na rua (embora considere um acto de assédio).
Parece-me que manifestar-se contra as ideias do PS é, por si só, um acto antidemocrático e merecedor de reprimenda ao bom estilo ditatorial.

"Vários dirigentes socialistas sublinharam ainda que a manifestação era ilegal." in Publico
O que legaliza uma manifestação? Existe um impresso, um requerimento ou um selo qualquer para que se possa ir manifestar livremente? A democracia exige que se faça um pré-aviso de manifestação? Quem são estes dirigentes que ilegalizaram o direito à expressão?

Daí, meus caros amigos, tenham cuidado com o X no dia 5. Tenho receio que votar em qualquer outro grupo partidário seja antidemocrático e dê direito a uma bela sessão de
spanking...

Crise



"If only I could roll Soundgarden, Pearl Jam, and Alice In Chains into a joint....Id finally be in peace"

Anónimo

26 maio 2011

Pai sofre XVIII: Homem das Caldas


Antes de mais uma pergunta:
O que faz um homem das Caldas da Rainha depois de um dia de trabalho?

Novamente no cubículo escuro das ecografias, lá estava eu e a minha senhora. Era a 2ª, aquela a que chamam morfológica. Porquê? Porque se vêm os perímetros, o estômago, os rins, blá, blá,blá...
Embora tanto me fizesse ser menino ou menina, confesso que estava curioso para saber o sexo e que, confesso também, devido a já termos uma princesinha no nosso reino, havia agora espaço para um sapito.
"Boa tarde", disse o obstetra. "Vamos lá ver se está tudo bem".
Dado ter passado algum tempo numa maternidade estou +/- familiarizado com o branco e preto das ecografias obstétricas e ia identificando o que a sonda tentava mostrar.
"Ora, aqui está o coração", dizia o médico, "e aqui estão os rins"...
Parecia um piloto de aviação a "checar" os instrumentos.
"O perímetro abdominal, o bi-parietal, o yada, yada, yadal..."
"Ó amigo, já agora, mostra lá o que existe entre as pernas" pensava eu.
"Olhem aqui o fémur, o úmero, os dedos...", listava o homem.
"Pila, pila, pila..." desejava (sem trocadílhos, ok?) eu.
E um "glimpse".
Pensei: êlá, será que... esperaí...
Olhei para a minha grávida e sorri. Avistei um jogo de bilhar em miniatura, a saladinha de tomates e pepino, os kiwis e a bananinha, e um sem fim de trocadilhos patetas que só compreende quem passa pela coisa. Apeteceu-me dizer: "Máquecara##$".
"Bem, têm aqui um belo rapaz. Vêem, este é o escroto e este é o pênis".
Só pensava (dizer era capaz de ser constrangedor): "fiz uma pila, fiz uma pila, fiz uma pila!". E diga-se de passagem o que se via era uma bela duma pilinha, guardada por dois
cojones de respeito! Para um gajo com experiência em fazer vaginas, aquele falo estava muito bem feito. Pronto, chega de auto-elogios.
Vai voltar a estar equilibrado cá por casa: dois homens e duas meninas; não quer dizer que saia a ganhar nas discussões...



Resposta à pergunta inicial do post.
Como este será, em princípio, o último que faço, direi o mesmo que um homem das Caldas depois de um grande dia de trabalho: "não faço mais nenhum cara#$%!!!"

24 maio 2011

Tudo doido?


Mas será possível que 1/3 da população do país não consegue ver para além da cegueira socratiana? Este gajo é o verdadeiro flautista de Hamelin... mas encanta burros!
Pec que os pariu a todos!

Shame, shame

Shame, shame

Lascívia me percorre o ser
Ao ver o corpo que me ofereces.
Toco-o como a um ídolo
E reconheço o seu odor.
Regozijo-me no seu esplendor
Percorrendo-o centímetro por centímetro,
perdendo-me aqui e ali.
Dou voltas, ando em círculos,
Para que o prazer que me propões
Seja infinito.
E caio ao chão, fatigado,
Mas em êxtase.
Venero o quanto te dás
E sacio-me mais uma vez em ti.
E o desejo perpetua-se…


22 maio 2011

Renascimento



Como têm tido a oportunidade de constatar, este espaço tem sido um pouco negligenciado, culpa da vida que nos impede, por vezes, de fazer o que gostamos.

Posto isto, venho hoje quebrar o enguiço criativo devido à paixão ao FCP.
Há cerca de um ano escrevi este texto. Nele descrevia o meu desalento pela época desastrosa protagonizada pelos mesmos jogadores que este ano fizeram a melhor temporada de sempre.
É incrível como se mudam as coisas em apenas 1 ano. É inacreditável o que acontece quando pegamos em 3 pessoas e as trocamos por outras 3 diferentes. No caso do FCP, bastou trocar um treinador principal (sem contar a equipa técnica), um defesa central e um médio centro e puff, criou-se uma das melhores equipes de sempre. Obviamente que esta última ideia é uma caricatura mas olha-se para o banco e vê-se um portista ferrenho no comando, o que faz uma diferença do caraças.
No entanto, o que mais me apraz neste sucesso talvez não sejam os títulos. O que mais me agrada é ver pessoas que se orgulham da camisa que vestem, que dão o litro, que não desistem, que não utilizam a violência dos antecessores, que não se saciam com apenas uma vitória, que não dão desculpas e que cantam com a massa...


Terminei aquele texto com a seguinte frase: "Que se encontre cura para as nossas maleitas e que possamos enfrentar os demais com a força de outrora". Encontramos a cura para algumas; outras lá continuam a morar e os títulos permitem que se tornem "transparentes" aos olhares dos incautos... o tempo há-de eliminá-las para aclarar cada vez mais as nossas vitórias.


Hoje, um título mais ricos, os portistas voltam a festejar. Este ano parece haver mais "S. Joões" (qual é o plural de João?) e os "suspiros" são por outros motivos.



Saudação De(s)portista!

14 maio 2011

Zunido

Para o desafio "Mãe" da Fábrica de Letras:


Zunido

Quando ele abriu os olhos não sabia onde estava; e naquela escuridão, apenas interrompida por clarões semelhantes a relâmpagos, ouvia um terrível estardalhaço incompreensível.
Estava deitado. Olhava para um céu negro nocturno de onde espiava uma lua minguante e envergonhada.

Tentou levantar-se para tentar compreender onde estava e o que se passava. Viu então muitos vestidos de igual e armados. Uns gritavam palavras de ordem e acenavam, outros apenas gritavam enquanto alguns caíam e não mais levantavam.
Deu-lhe então um click: “estou em combate!”

Tinha treinado para aquilo. Tinham-no tornado insensível, destemido, frio e impiedoso. Tinha sido dos melhores da sua turma; nenhum atirava como ele, nem tinha sua força ou destreza. Era um lutador terrível e todos o temiam.
E ali estava ele: o produto do que lhe ensinaram e do treino que o preparara para a guerra... mas aquilo era tão mais real.

Ao olhar para a frente da batalha pôde ver o corredor de fogo que iluminava a noite uns quilómetros mais à frente. De lá conseguia ouvir os gritos de horror e a colecção de últimos suspiros que ia crescendo à grande velocidade.

A custo, e também graças a empurrões vários do seu superior, foi avançando pelo terreno tornado irregular pela carne humana deixada para trás. Ouvia o zunido do enxame de balas que passavam ora ali e acolá; rezou pela primeira vez em anos…

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ foi o que ouviu antes de sentir uma força brutal, que o enviou ao chão uns bons metros atrás, seguida de uma dor lancinante que começou no peito e logo passou-lhe à alma.
Sentiu um gosto estranho na boca que o lembrou do tempo de pequenino quando lambia as feridas depois dos jogos de futebol.
Ouviu os pedidos do médico do pelotão enquanto sentia as mãos de um companheiro a segurar a sua e a pedir para se aguentar.

Já pouco se podia fazer e daquele jovem tornado Homem duro, rude, frio e temido, só ouviram mais uma pequena frase; uma pequena frase que dava sentido a tudo naquele momento:
“Eu quero a minha Mãe”

27 abril 2011

Mecanimais Vs Meganimais

(Atenção: se o leitor não tiver filhos com idades compreendidas entre os 0 e os 5 anos é provável que o 2º sentido deste texto lhe escape.)

Se os senhores do FMI não conseguirem resolver a nossa situação então há que recorrer aos Mecanimais!





(Para melhor compreensão, prestar atenção à última frase do genérico[aos 40'])

13 abril 2011

Aike

Para o desafio "Ternura" da "Fábrica de Letras":



Aike


Era uma tarde copiosamente infernal de Agosto e sentia o vento quente a queimar-lhe a cara enquanto caminhava à beira mar. Acompanhavam-no, no passeio “molha-pés”, inúmeros idosos, aparentemente imunes ao melanoma, torrados, suados, enrugados mas sorridentes.
Tentava abstrair-se do cenário escondendo-se por trás de uns óculos espelhados e um boné dos Bulls. Distraía-se ao som da “Alive” que ouvia no Walkman® escondido num dos bolsos dos calções.
Era tímido mas gostava destes andares à margem marítima para “micar” as garinas. Andava à caça mas tinha pouco da arte da rapina.

Sentou-se. Começava a sentir os efeitos da resistência daquele solo e do brasido solar.
Concertou o rabo na areia enquanto virava a k7 para o lado B: “Jeremy”…

Viu-a sentada um pouco mais à frente. Ela era uma rapariga de tez alva, silhueta esbelta adornada por longos cabelos pretos e lisos.
Engoliu em seco: era uma oportunidade. Porque não arriscar? O que tinha a perder?
Levantou-se a custo e deixou-se ir, lutando com a irregularidade do chão e das pernas.

“Olá. Tudo bem?”
Ela ficou espantada a olhar para ele. Seus pequenos olhos negros pareciam dois enormes pontos de interrogação, uma cena parecida com os desenhos animados feitos no seu país.
“No entendo” respondeu em meio a risinhos escondidos por trás da mão.
“Speak english?” falou ele no seu inglês macarrónico.
“Yea”
Ele sorriu. Parece que o risco valera a pena.

Falaram durante muito tempo. Falavam sobre as diferenças culturais, sobre a gastronomia, sobre anime (que ele adorava), sobre música, sobre futebol…

Ele estava impressionado com a figura da moça: exótica, simpática e simples. Ela estava encantada com a maneira de estar dele e com seu sorriso.
Olhavam-se como se olha a ídolos.

“Say something in japanese” pediu o rapaz.
“あなたが面白いです” disse ela.
“What it means?”
“Say something in portuguese first” exigiu ela.
“Ok. Ai que ternura” disse ele.
“OMG. Are you a psychic or something?!” ficou incrédula.
“What? Why?”
“How do you know my name?”
“I don’t know your name.”
“You already said”
“No, I didn't. I don't know your name. You didn’t tell me. But now i'm curious, what is your name?”

Fez suspense: “My name is Aike. Aike Tenura”.

Aquele verão de 1994 foi o melhor de sempre.