Amigos, porque os textos sobre a vinhaça estavam a ser uma constante, optei por publica-los em sede própria.
Podem acompanhá-los aqui: http://deliciosodelitro.blogspot.pt/
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17 fevereiro 2015
29 dezembro 2014
A migração
Outro abibe aproximou-se e "meteu conversa" com o incauto adito. Com o seu canto alcoólico e sua dança hipnotizante, encantou-lhe o pobre espírito.
Após tê-lo nas mãos iniciou a conquista do seu corpo. Esvoaçou perante os seus olhos e descreveu, no céu violáceo, vertiginosas e pungentes manobras etílicas, enfeitiçando-o. Após tão ardilosas acrobacias mergulhou violentamente boca adentro rasgando-lhe o palato e fazendo cócegas ao olfato. Continuou na pecaminosa jornada e dirigiu-se a toda velocidade em direcção ao estômago onde fez acrobático ricochete, subindo imediatamente até ao encéfalo do pobre alcoólatra. Lá fez ninho e descansou, tendo como companhia outros abibes que ali também se tinham aninhado antes.
Aturdido mas estranhamente feliz, o homem deixou-se ser alvo da invasão daquele bando e fez votos para que, quando partirem, sejam céleres num novo doce, pecaminoso e inebriante fluxo “embriagatório”.
Após tê-lo nas mãos iniciou a conquista do seu corpo. Esvoaçou perante os seus olhos e descreveu, no céu violáceo, vertiginosas e pungentes manobras etílicas, enfeitiçando-o. Após tão ardilosas acrobacias mergulhou violentamente boca adentro rasgando-lhe o palato e fazendo cócegas ao olfato. Continuou na pecaminosa jornada e dirigiu-se a toda velocidade em direcção ao estômago onde fez acrobático ricochete, subindo imediatamente até ao encéfalo do pobre alcoólatra. Lá fez ninho e descansou, tendo como companhia outros abibes que ali também se tinham aninhado antes.
Aturdido mas estranhamente feliz, o homem deixou-se ser alvo da invasão daquele bando e fez votos para que, quando partirem, sejam céleres num novo doce, pecaminoso e inebriante fluxo “embriagatório”.
15 julho 2014
O coice
A mula velha era de Lisboa mas a sua fama estendia-se para além da capital.
Todos pretendiam domá-la, tentavam conter o seu poder e absorver todos os seus proveitos sem cair do seu colo. Todos falharam na aventura. Alguns aguentaram-se alguns minutos, outros alguns segundos, mas todos, sem excepção, cairam ao solo sob o extraordinário poder do seu coice.
Ele era apenas mais um a querer aventurar-se no lombo da mula velha. Pensando poder vencer a teimosa ruminante começou por lhe experimentar as virtudes lentamente. A jumenta até lhe deixou aproveitar-se por alguns momentos do seu doce regaço mas logo cansou-se e aviou-lhe um belo murro com os cascos nas ventas.
O embate ele sentiu com força, de tal modo que caiu quase insconsciente, quase demente, para trás. No entanto, não sentiu-se chegar ao chão, ao invés disso, viu-se a flutuar. Levitou por cima das estranhas vinhas de Lisboa e depois pela própria cidade. Sentiu-se a voar a uma estonteante velocidade pelos céus laranja de um fim de tarde dominical, aproveitou-se das brisas quentes do atlâtico lhe lambiam a face e as encostas da metrópole. Por fim, foi perdendo a cinética e a gravidade parecia agora puxar-lhe com força para terra. Levou mais um trago do sumo da mula à boca para evtar o impacto frenético da ressaca e continuou mais um pouco a prazerosa viagem.
E tal como os outros que o experimentaram, também ele foi vencido pelo coice da mula velha mas, afinal, não foi assim tão doloroso... e será para repetir.
Todos pretendiam domá-la, tentavam conter o seu poder e absorver todos os seus proveitos sem cair do seu colo. Todos falharam na aventura. Alguns aguentaram-se alguns minutos, outros alguns segundos, mas todos, sem excepção, cairam ao solo sob o extraordinário poder do seu coice.
Ele era apenas mais um a querer aventurar-se no lombo da mula velha. Pensando poder vencer a teimosa ruminante começou por lhe experimentar as virtudes lentamente. A jumenta até lhe deixou aproveitar-se por alguns momentos do seu doce regaço mas logo cansou-se e aviou-lhe um belo murro com os cascos nas ventas.
O embate ele sentiu com força, de tal modo que caiu quase insconsciente, quase demente, para trás. No entanto, não sentiu-se chegar ao chão, ao invés disso, viu-se a flutuar. Levitou por cima das estranhas vinhas de Lisboa e depois pela própria cidade. Sentiu-se a voar a uma estonteante velocidade pelos céus laranja de um fim de tarde dominical, aproveitou-se das brisas quentes do atlâtico lhe lambiam a face e as encostas da metrópole. Por fim, foi perdendo a cinética e a gravidade parecia agora puxar-lhe com força para terra. Levou mais um trago do sumo da mula à boca para evtar o impacto frenético da ressaca e continuou mais um pouco a prazerosa viagem.
E tal como os outros que o experimentaram, também ele foi vencido pelo coice da mula velha mas, afinal, não foi assim tão doloroso... e será para repetir.
30 maio 2014
Foxy fox
A raposinha convidou-o para um passeio.
O pequeno e matreiro canídeo puxou-lhe pela mão e cantou-lhe doces notas etílicas na regouga, enfeitiçando-o.
Ele, não resistindo-lhe aos encantos, deixou-se ir.
Subiram o monte em direcção ao covil da pequena raposa quase sem tocar o chão, tal era a leveza porporcionada pela hipnose do etilo.
Chegaram a toca da raposinha no cimo do monte, confortavelmente encondida entre verdes parras e formosas vides, e por lá ficaram.
Comemoraram durante horas a comunhão entre os dois. Dançaram cada vez mais rápido e pularam cada vez mais alto. Ele cantou cada vez mais desafinado e cambaleou cada vez mais embriagado. Após algum tempo de júbilo consumo, aterrou violentamente no chão, vencido pela vertigem alcoolémica e pelo peso saboroso do sumo arroxeado oferecido pela anfitriã.
Por fim, perdeu de vez todos os sentidos.
A raposinha vencera o fraco humano. Do cimo do seu monte ouviu-se uma espécie de uivo de triunfo estranhamente familiar... talvez, quem sabe, por se repetir com alguma frequência.
O pequeno e matreiro canídeo puxou-lhe pela mão e cantou-lhe doces notas etílicas na regouga, enfeitiçando-o.
Ele, não resistindo-lhe aos encantos, deixou-se ir.
Subiram o monte em direcção ao covil da pequena raposa quase sem tocar o chão, tal era a leveza porporcionada pela hipnose do etilo.
Chegaram a toca da raposinha no cimo do monte, confortavelmente encondida entre verdes parras e formosas vides, e por lá ficaram.
Comemoraram durante horas a comunhão entre os dois. Dançaram cada vez mais rápido e pularam cada vez mais alto. Ele cantou cada vez mais desafinado e cambaleou cada vez mais embriagado. Após algum tempo de júbilo consumo, aterrou violentamente no chão, vencido pela vertigem alcoolémica e pelo peso saboroso do sumo arroxeado oferecido pela anfitriã.
Por fim, perdeu de vez todos os sentidos.
A raposinha vencera o fraco humano. Do cimo do seu monte ouviu-se uma espécie de uivo de triunfo estranhamente familiar... talvez, quem sabe, por se repetir com alguma frequência.
15 março 2014
Valle, ó que valle
Ele tragou do licor e deixou-se ir, escorrendo pela ingrime montanha em direcção ao mágico valle.
Pelo alucinante caminho encosta abaixo sentiu-se feliz, ouviu-se rir por tudo e principalmente por nada; viu a vida de forma diferente: viu-a em duplicado.
Ao longo da viagem embateu violentamente contra as várias cepas do terreno, mães da mágica fruta que lhe deu de beber. Chocou com as vides e sangrou da mesma cor do fermentado que enfeitava o copo e do qual sorveu em honesta quantidade. Sujou-se com a terra santa das escarpas férteis do ouro violeta e limpou-se às parras das santas plantas licorosas.
Chegou finalmente ao destino e ainda sob efeito lisérgico da arroxeada seiva ficou deitado no valle a imaginar curvas de mulher nas montanhas à sua volta e num abraço infinito tentou envolve-las a todas.
Nesse valle encantado encontrou um rio de líquido pecado e sorveu-lhe um pouco do seu conteúdo. Depois mergulhou no curso etílico e deixou-se ir a boiar em direcção a uma cascata vinhateira para, por fim, afogar-se em novo valle de prazer.
Pelo alucinante caminho encosta abaixo sentiu-se feliz, ouviu-se rir por tudo e principalmente por nada; viu a vida de forma diferente: viu-a em duplicado.
Ao longo da viagem embateu violentamente contra as várias cepas do terreno, mães da mágica fruta que lhe deu de beber. Chocou com as vides e sangrou da mesma cor do fermentado que enfeitava o copo e do qual sorveu em honesta quantidade. Sujou-se com a terra santa das escarpas férteis do ouro violeta e limpou-se às parras das santas plantas licorosas.
Chegou finalmente ao destino e ainda sob efeito lisérgico da arroxeada seiva ficou deitado no valle a imaginar curvas de mulher nas montanhas à sua volta e num abraço infinito tentou envolve-las a todas.
Nesse valle encantado encontrou um rio de líquido pecado e sorveu-lhe um pouco do seu conteúdo. Depois mergulhou no curso etílico e deixou-se ir a boiar em direcção a uma cascata vinhateira para, por fim, afogar-se em novo valle de prazer.
18 agosto 2013
La piela
Prólogo
Ah, as pielas, ou cabras, ou tosgas, tubas, bubas, bezanas, cadelas, borracheiras, cardinas, nardas, pifos. Ah, as bebedeiras. Quem não teve contacto com o produto final de um irracional consumo alcoólico ocorrido ao longo de uma tarde, ou noite, ou de um dia inteiro? Sei que alguns costumam apanhá-las anualmente, outros mensalmente, outros ainda, mais beatos do santo baco, diariamente.
O que vos vou contar tem a ver com a minha segunda viagem transcendental ao mundo dos pileques. Preparem-se, a história vai ser longa...
Da minha primeira já tenho poucas memórias. Não me interpretem mal, não foi assim tão grande para provocar amnésia, apenas já foi há muito tempo. Lembro-me apenas de umas sandálias, de permanecer alguns minutos por baixo de uma mesa num baile de gala de uma queima das fitas, após um jantar interessantemente regado com vinho branco e whisky velho e com o acompanhamento de um Havana compartilhado entre amigos. E, na verdade, parece haver pontos de contacto entre as duas situações, pelo menos no que toca ao combustível.
Mas passado é passado e o que interessa foi o que se passou nesta segunda vez e que apenas tem algum interesse (pouco) por ter acontecido ontem.
Parte I - por mais que os tentes enxotar, eles teimam em voltar
Feriado. O que fazer se não aceitar o convite quando uns laboriosos pais oferecerem o almoço à descendência toda (netos já incluídos), inclusive alguns que, seguindo as palavras de incentivo da quadrilha que nos governa de momento, foram viver para a França. Oportunidade para se estar um pouco com os do próprio sangue e disparar uma quantidade tão grande de patetices que fica difícil entender como é que gente dessa pode educar de forma correcta as suas próprias crias.
Abraços, beijinhos, "como tens passado" e essas coisas, até que um mais afoito (ou será: "esfomeado") diz "já vale?".
Parte II - sardinha gosta de borbulhas
À mesa, meto uma sardinha a cavalo numa metade de papo-seco torrado, devidamente aconchegada numa cama de cebolas, tomates e pimentos também eles passados pelas brasas. Trinco-os a todos e empurro-os com um golo de um vinho branco frisante vindo de umas caves infernais de Murça. Já o povo diz com sapiência que “sardinha e água não combinam” e como sou um homem atento às tradições, sabedoria e mesinhas populares, concordo que as ditas só devem estar em contacto com a água enquanto vivas, depois, quando mortinhas e queimadas pela fagulha, requerem outro tipo de mistura no lago estomacal. Juro que tentei que cada dentada fosse acompanhada de uma golada do sumo d'uvas mas confesso que talvez o líquido tenha vencido de goleada no fim das contas ; só isso poderia explicar o porquê do mundo já andar um pouco acelerado no final do almoço.
Parte III - não deveria já ter ido para casa?
Não contente com o etilo oferecido às Sardinops sagax devoradas ao almoço, lá fui envenenando-as mais um bocadinho. Sabem como é, depois do almoço a malta vai ficando, "amandando" conversa fora... e bebendo um pouco mais. Fez-nos então companhia um amigo escocês dos velhos, entretanto convidado pelo meu cunhado, que nos ia cantando notas de carvalho e de especiarias e daquelas tretas que ninguém presta atenção após dois ou três goles. Se a madeira do licor se acumulasse, no fim já teria o suficiente para construir uma pequena cabana de 4 assoalhadas...
Não sei se foi do calor mas a verdade é que, apesar de reabastecimentos frequentes, o líquido evaporava rapidamente do balão; e se há pouco sentia o mundo um nada acelerado, agora parecia, a sala-de-estar daquela casa, ter-se transformado num pequeno barco pesqueiro em mar revolto dum furacão de categoria 4.
Estava altamente antropocêntrico pois sentia todo mundo a girar à minha volta.
Parte IV - explorando locais alternativos para dormitar
Nestas alturas de rodopios e quando o sangue em circulação perde em percentagem para o álcool, o que fazer? Acender um fósforo a ver se explode? Beber café para se ter uma bebedeira estressada? Não, nada disso, decidi por me ir deitar na minha velha cama de solteiro que os meus pais ainda não tinham sentido necessidade de queimar no inverno. Chegando ao meu antigo quarto não me dei ao trabalho de me deitar, deixei que a gravidade enviasse o meu corpo em velocidade warp em direcção ao colchão.
Fiquei ali até ser inadvertidamente acordado pela minha senhora a perguntar se estava tudo bem comigo (mulher de ouro, já vos tinha dito?). Quando despertei, aquele barquinho pesqueiro, outrora em mar revolto, parecia já ter apenas a popa à tona. Sim, a popa, já que a proa seguia em mergulho alucinante para deus sabe onde, rodopiando num remoinho em oceano ardente.
Com apenas metade do corpo e mente acordados, fiz esforço para me levantar. Sentia-me confiante o suficiente para ir à casa-de-banho. Parecia que iria receber em breve a visita do senhor Gregório e me fui preparar a preceito para o encontro. Não que o senhor Gregório (ou Greg para os mais íntimos) fosse santo ou eu muito religioso, mas achei que o devia receber de joelhos, em prece maometana e apoiado na bonita latrina que os meus pais têm naquela divisão sanitária. No entanto o dito senhor resolveu atrasar-se e eu, sem mais nada para fazer naquele momento e já algo aborrecido, resolvi esperar deitado (que sentado também estava a ser cansativo naquelas condições). Acabei por adormecer. Fiquei espantado com o conforto providenciado pelo azulejo daquela casa-de-banho. Com o calor que se fazia sentir, dava um fresquinho espectacular. Vou fazer isto mais vezes, mesmo quando estiver sóbrio.
Parte V - ele tarda... mas não falha
Foi difícil manter-me a dormir. Como aquela situação era inédita lá em casa (pelo menos com o filho mais velho), a casa-de-banho era um corrupio de gente. Minha mãe visivelmente preocupada, perguntava-me se estava bem. Minha mulher fazia o mesmo mas também tirava fotografias. Minha irmã só tirava fotografias...
Já pronto para me levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, ele apareceu. O senhor Gregório deu ar da sua desgraça e lembrou-me tudo o que bebi (e principalmente o que comi) numa curta conversa à berma da privada. Apesar de algo dura, a reprimenda do Greg foi remédio santo; depois de lhe confessar os meus excessos, levantei-me e fui ter com a minha malta tendo sido recebido com uma mistura pouco uniforme de sentimentos mas onde o escárnio dominava.
Despenquei no sofá onde fiquei mais algum tempo pois o mundo ainda estava em alvoroço.
Epílogo - puttana de tecnologias e pitacos da assistência
Tal como na minha primeira vez, pensava eu que também esta estaria condenada à escassas memórias poucos estruturadas pela confusão e tudo desapareceria em pouco tempo. Pois bem, há 10 anos a internet não estava tão disseminada, não existiam câmaras digitais e os telemóveis eram utilizados sobretudo para pôr duas pessoas a conversar. A reportagem fotográfica do acontecimento parece ter sido intensa e por isso existe registos do crime que me fazem questão de enviar por email e apresentar a alguns entes queridos que não puderam vivenciar a experiência. Só assim fui capaz de entender como pôde a minha avó, que não estava presente, ter achado piada e mandado bocas... mas, depois deste episódio, de certeza que vai ter mais cuidado antes de me chamar para qualquer problema de saúde.
Nota: erros ortográficos e gramaticais são, neste texto, excepcionalmente tolerados dada a quantidade de neurónios perdida por apoptose.
Ah, as pielas, ou cabras, ou tosgas, tubas, bubas, bezanas, cadelas, borracheiras, cardinas, nardas, pifos. Ah, as bebedeiras. Quem não teve contacto com o produto final de um irracional consumo alcoólico ocorrido ao longo de uma tarde, ou noite, ou de um dia inteiro? Sei que alguns costumam apanhá-las anualmente, outros mensalmente, outros ainda, mais beatos do santo baco, diariamente.
O que vos vou contar tem a ver com a minha segunda viagem transcendental ao mundo dos pileques. Preparem-se, a história vai ser longa...
Da minha primeira já tenho poucas memórias. Não me interpretem mal, não foi assim tão grande para provocar amnésia, apenas já foi há muito tempo. Lembro-me apenas de umas sandálias, de permanecer alguns minutos por baixo de uma mesa num baile de gala de uma queima das fitas, após um jantar interessantemente regado com vinho branco e whisky velho e com o acompanhamento de um Havana compartilhado entre amigos. E, na verdade, parece haver pontos de contacto entre as duas situações, pelo menos no que toca ao combustível.
Mas passado é passado e o que interessa foi o que se passou nesta segunda vez e que apenas tem algum interesse (pouco) por ter acontecido ontem.
Parte I - por mais que os tentes enxotar, eles teimam em voltar
Feriado. O que fazer se não aceitar o convite quando uns laboriosos pais oferecerem o almoço à descendência toda (netos já incluídos), inclusive alguns que, seguindo as palavras de incentivo da quadrilha que nos governa de momento, foram viver para a França. Oportunidade para se estar um pouco com os do próprio sangue e disparar uma quantidade tão grande de patetices que fica difícil entender como é que gente dessa pode educar de forma correcta as suas próprias crias.
Abraços, beijinhos, "como tens passado" e essas coisas, até que um mais afoito (ou será: "esfomeado") diz "já vale?".
Parte II - sardinha gosta de borbulhas
À mesa, meto uma sardinha a cavalo numa metade de papo-seco torrado, devidamente aconchegada numa cama de cebolas, tomates e pimentos também eles passados pelas brasas. Trinco-os a todos e empurro-os com um golo de um vinho branco frisante vindo de umas caves infernais de Murça. Já o povo diz com sapiência que “sardinha e água não combinam” e como sou um homem atento às tradições, sabedoria e mesinhas populares, concordo que as ditas só devem estar em contacto com a água enquanto vivas, depois, quando mortinhas e queimadas pela fagulha, requerem outro tipo de mistura no lago estomacal. Juro que tentei que cada dentada fosse acompanhada de uma golada do sumo d'uvas mas confesso que talvez o líquido tenha vencido de goleada no fim das contas ; só isso poderia explicar o porquê do mundo já andar um pouco acelerado no final do almoço.
Parte III - não deveria já ter ido para casa?
Não contente com o etilo oferecido às Sardinops sagax devoradas ao almoço, lá fui envenenando-as mais um bocadinho. Sabem como é, depois do almoço a malta vai ficando, "amandando" conversa fora... e bebendo um pouco mais. Fez-nos então companhia um amigo escocês dos velhos, entretanto convidado pelo meu cunhado, que nos ia cantando notas de carvalho e de especiarias e daquelas tretas que ninguém presta atenção após dois ou três goles. Se a madeira do licor se acumulasse, no fim já teria o suficiente para construir uma pequena cabana de 4 assoalhadas...
Não sei se foi do calor mas a verdade é que, apesar de reabastecimentos frequentes, o líquido evaporava rapidamente do balão; e se há pouco sentia o mundo um nada acelerado, agora parecia, a sala-de-estar daquela casa, ter-se transformado num pequeno barco pesqueiro em mar revolto dum furacão de categoria 4.
Estava altamente antropocêntrico pois sentia todo mundo a girar à minha volta.
Parte IV - explorando locais alternativos para dormitar
Nestas alturas de rodopios e quando o sangue em circulação perde em percentagem para o álcool, o que fazer? Acender um fósforo a ver se explode? Beber café para se ter uma bebedeira estressada? Não, nada disso, decidi por me ir deitar na minha velha cama de solteiro que os meus pais ainda não tinham sentido necessidade de queimar no inverno. Chegando ao meu antigo quarto não me dei ao trabalho de me deitar, deixei que a gravidade enviasse o meu corpo em velocidade warp em direcção ao colchão.
Fiquei ali até ser inadvertidamente acordado pela minha senhora a perguntar se estava tudo bem comigo (mulher de ouro, já vos tinha dito?). Quando despertei, aquele barquinho pesqueiro, outrora em mar revolto, parecia já ter apenas a popa à tona. Sim, a popa, já que a proa seguia em mergulho alucinante para deus sabe onde, rodopiando num remoinho em oceano ardente.
Com apenas metade do corpo e mente acordados, fiz esforço para me levantar. Sentia-me confiante o suficiente para ir à casa-de-banho. Parecia que iria receber em breve a visita do senhor Gregório e me fui preparar a preceito para o encontro. Não que o senhor Gregório (ou Greg para os mais íntimos) fosse santo ou eu muito religioso, mas achei que o devia receber de joelhos, em prece maometana e apoiado na bonita latrina que os meus pais têm naquela divisão sanitária. No entanto o dito senhor resolveu atrasar-se e eu, sem mais nada para fazer naquele momento e já algo aborrecido, resolvi esperar deitado (que sentado também estava a ser cansativo naquelas condições). Acabei por adormecer. Fiquei espantado com o conforto providenciado pelo azulejo daquela casa-de-banho. Com o calor que se fazia sentir, dava um fresquinho espectacular. Vou fazer isto mais vezes, mesmo quando estiver sóbrio.
Parte V - ele tarda... mas não falha
Foi difícil manter-me a dormir. Como aquela situação era inédita lá em casa (pelo menos com o filho mais velho), a casa-de-banho era um corrupio de gente. Minha mãe visivelmente preocupada, perguntava-me se estava bem. Minha mulher fazia o mesmo mas também tirava fotografias. Minha irmã só tirava fotografias...
Já pronto para me levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, ele apareceu. O senhor Gregório deu ar da sua desgraça e lembrou-me tudo o que bebi (e principalmente o que comi) numa curta conversa à berma da privada. Apesar de algo dura, a reprimenda do Greg foi remédio santo; depois de lhe confessar os meus excessos, levantei-me e fui ter com a minha malta tendo sido recebido com uma mistura pouco uniforme de sentimentos mas onde o escárnio dominava.
Despenquei no sofá onde fiquei mais algum tempo pois o mundo ainda estava em alvoroço.
Epílogo - puttana de tecnologias e pitacos da assistência
Tal como na minha primeira vez, pensava eu que também esta estaria condenada à escassas memórias poucos estruturadas pela confusão e tudo desapareceria em pouco tempo. Pois bem, há 10 anos a internet não estava tão disseminada, não existiam câmaras digitais e os telemóveis eram utilizados sobretudo para pôr duas pessoas a conversar. A reportagem fotográfica do acontecimento parece ter sido intensa e por isso existe registos do crime que me fazem questão de enviar por email e apresentar a alguns entes queridos que não puderam vivenciar a experiência. Só assim fui capaz de entender como pôde a minha avó, que não estava presente, ter achado piada e mandado bocas... mas, depois deste episódio, de certeza que vai ter mais cuidado antes de me chamar para qualquer problema de saúde.
Nota: erros ortográficos e gramaticais são, neste texto, excepcionalmente tolerados dada a quantidade de neurónios perdida por apoptose.
06 junho 2013
"Grousso"
“Grou” era o seu estilo.
Como a majestosa ave, também ele voou.
Levantou voo impulsionado violentamente por uma poção mágica que tomou. Líquido extraído de fruta poderosa ao paladar e olfato e que lhe deu um enérgico empurrão a coragem, lhe incrementou a força e lhe libertou a insanidade. Com os ingredientes certos da vinha, esse tal grou humano saltou do alto da sua elevada razão e, no ilimitado repique do licor, esvoaçou pelo celeste dia de verão.
Nessa encantadora viagem recarregou as baterias do seu ser e deixou-se volatizar num fumo violáceo e alcoólico que, com apenas um leve trago, seria capaz de inebriar deuses e demónios (principalmente estes últimos). Depois fez-se nuvem carregada e choveu-se por instantes, voltando a reunir-se em pingos frutados de si mesmo para prosseguir a ébria jornada.
Descansou no Alísio, deixando-se levar pela calmaria da tarde; por fim, quando o super-poder do liquor terminou, levou ao bico mais um gole da orgíaca poção... e adejou um pouco mais, migrando alegremente para o infinito.
Como a majestosa ave, também ele voou.
Levantou voo impulsionado violentamente por uma poção mágica que tomou. Líquido extraído de fruta poderosa ao paladar e olfato e que lhe deu um enérgico empurrão a coragem, lhe incrementou a força e lhe libertou a insanidade. Com os ingredientes certos da vinha, esse tal grou humano saltou do alto da sua elevada razão e, no ilimitado repique do licor, esvoaçou pelo celeste dia de verão.
Nessa encantadora viagem recarregou as baterias do seu ser e deixou-se volatizar num fumo violáceo e alcoólico que, com apenas um leve trago, seria capaz de inebriar deuses e demónios (principalmente estes últimos). Depois fez-se nuvem carregada e choveu-se por instantes, voltando a reunir-se em pingos frutados de si mesmo para prosseguir a ébria jornada.
Descansou no Alísio, deixando-se levar pela calmaria da tarde; por fim, quando o super-poder do liquor terminou, levou ao bico mais um gole da orgíaca poção... e adejou um pouco mais, migrando alegremente para o infinito.
31 outubro 2012
A carta mágica
Baco entregou-lhe uma carta perfumada; tresandava à farra, à orgia e a outros odores mágicos e pecaminosos. Escreveu-lhe certo mas em linhas, que no decorrer da sua leitura, se tornavam cada vez mais tortas. As palavras escrivinhadas com espécie rara de tinta roxa, estraída à força por rudes pegadas humanas, de uvas importadas das montanhas do luso Norte.
Da missiva, ele sorveu-lhe a escrita. Gota a gota, transfundiu para o seu sangue o prazer do manuscrito. Entendeu-lhe as ideias, sentiu-lhe o delit(r)o e perdeu-se numa paixão súbita e alucinogénea. Envolveu-se na poética, dissipou-se na métrica e, finalmente, tropeçou na cadência das enebriantes palavras sagradas, caindo, desamparadamente, num mar de CH3CH2OH pecaminoso.
Ah, as missivas de Dioníso têm vindo a surgir-lhe com mais frequência e, graças ao bom deus, acrecidas de repetidos, incansáveis e deliciooossoooosss Post-Scriptum!
P.S: insisto em contrariar aqueles que acham que virei alcoólatra!
E Grave (sempre gostei mais desse nick, amigo), está aqui um do Douro que é um espectáculo.
Da missiva, ele sorveu-lhe a escrita. Gota a gota, transfundiu para o seu sangue o prazer do manuscrito. Entendeu-lhe as ideias, sentiu-lhe o delit(r)o e perdeu-se numa paixão súbita e alucinogénea. Envolveu-se na poética, dissipou-se na métrica e, finalmente, tropeçou na cadência das enebriantes palavras sagradas, caindo, desamparadamente, num mar de CH3CH2OH pecaminoso.
Ah, as missivas de Dioníso têm vindo a surgir-lhe com mais frequência e, graças ao bom deus, acrecidas de repetidos, incansáveis e deliciooossoooosss Post-Scriptum!
P.S: insisto em contrariar aqueles que acham que virei alcoólatra!
E Grave (sempre gostei mais desse nick, amigo), está aqui um do Douro que é um espectáculo.
21 outubro 2012
Nem todos os Cortes sabem mal
Ele viu a chaminé e entreteve-se a explorar.
A violácea vinhateira deixou-a subir na sua estrutura.
Sentiu o sangue assustado fugir-lhe das extremidades e, em turbulenta velocidade, ir embater com violência contra o cerne do seu ser em etílico acidente.
Experimentou a vertigem do choque do etilo mas continuou na pecaminosa experiência.
Fumou os odores do sagrado sumo e "helicoidou-se".
Mais um copo, mais uma taça, mais um graal evaporaram-lhe o espírito.
Volátil, foi ao topo, dirigiu-se ao céu tal balão de ar ardente.
Deixou-se cair ao ritmo no qual o efeito dos (de)graus lhe passava e à medida que a hepática parafernalha lhe ia queimando o combustível.
Retornou ao terreno por pouco.
Mais um pouco do estímulo báquico e voltou a subir a chaminé: foi perguntar a Deus se escondia algo de melhor só para Si...
O Senhor disse que não mas lhe entregou mais um lanço de escadas dizendo: "cuidado com o tortuoso e frutado caminho da chaminé. Não deixais que te envenene a alma com os seus perfumes..."
A violácea vinhateira deixou-a subir na sua estrutura.
Sentiu o sangue assustado fugir-lhe das extremidades e, em turbulenta velocidade, ir embater com violência contra o cerne do seu ser em etílico acidente.
Experimentou a vertigem do choque do etilo mas continuou na pecaminosa experiência.
Fumou os odores do sagrado sumo e "helicoidou-se".
Mais um copo, mais uma taça, mais um graal evaporaram-lhe o espírito.
Volátil, foi ao topo, dirigiu-se ao céu tal balão de ar ardente.
Deixou-se cair ao ritmo no qual o efeito dos (de)graus lhe passava e à medida que a hepática parafernalha lhe ia queimando o combustível.
Retornou ao terreno por pouco.
Mais um pouco do estímulo báquico e voltou a subir a chaminé: foi perguntar a Deus se escondia algo de melhor só para Si...
O Senhor disse que não mas lhe entregou mais um lanço de escadas dizendo: "cuidado com o tortuoso e frutado caminho da chaminé. Não deixais que te envenene a alma com os seus perfumes..."
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