Hoje, durante o trabalho, sinto o telemóvel a avisar-me que tinha recebido uma mensagem. Num intervalo entre consultas li "o ator que fazia os sopranos morreu: ataque cardíaco". Pensei logo no Gandolfini, já que a pessoa que escreveu a mensagem não via a série.
Gandolfini era o "boss" e por isso era reconhecido por quem não via o programa. Era ele a âncora de uma série que ia muitíssimo mais além da simples problemática da máfia. Aliás, a questão da organização era apenas um pretexto para apresentar um conjunto de outras problemáticas muito interessantes e complexas. Um exemplo disso mesmo: um grande amigo meu, psiquiatra, dizia que pensara em escrever um trabalho sobre toda a psicopatologia existente nas diferentes personagens; psicoses, personalidades megalómanas, depressão, demência, ataques de pânico, you name it - um verdadeiro graal. Quem nunca viu esqueça a máfia e veja por outro prisma: vai ficar espantado.
Nota: É incrível ver as manifestações de carinho e afecto que este grande actor está a ser alvo. Reconhecimento de um trabalho extraordinário e de fãs do mesmo calibre.
O Estado estava gordo. Estava cansado de ouvir falar de um necessário "fitness" para emagrecer o obeso glutão, sorvedouro de fundos e impostos, em que se tornara. Viciado no doce sabor do dinheiro, dependente da gordurosa perdição da corrupção e preguiçoso nos esforços de obtenção de hábitos administrativos saudáveis, já não conseguia ser suportado pela rede que o aguentava e estava a perder interesses.
O Estado investira pouco na sua educação e saúde. Suas economias eram parcas e o desenvolvimento exíguo nas últimas 3 décadas. Seu plano de seguro social era terrível e ameaçava desaparecer. Crescera pouco para cima e muito para os lados e já não cabia no traje orçamentado anualmente. O peso era tal que as suas pernas não o sustinham e deixara de andar; movimentava-se agora com canadianas, americanas, europeias, chinesas, ou qualquer outras muletas que o pudessem manter em pé.
Já por várias vezes inscrevera-se em ginásios de reputação mundial, contratara diferentes personal trainers de várias latitudes políticas, e, mesmo assim, falhara redondamente. Apesar dos esforços dos supostos profissionais, engordara cada vez mais, ficara pançudo e doente. Estava agora com obesidade mórbida e hipertenso. Aliás, a tensão estava a aumentar de tal forma que ameaçava explodir, a qualquer momento, mesmo no seu coração do poder central. A crescente gula por tudo que estava à sua volta ameaçava os seus sistemas orgânicos e arriscava-se agora à acidentes e convulsões sociais.
Cansado das dietas "ioiô" a que se tinha submetido tantas vezes, resolvera radicalizar: decidira ir à faca. Procurara auxílio de um corporação economico-estética, de renome temível internacionalmente, para resolver os problemas. Esta impingira um sério plano cirúrgico de cortes a direito em todas as suas áreas, inclusive as nevrálgicas. Iniciara a empreitada com uma equipa cirúrgica supostamente canhota que, no entanto, demonstrara uma incrível tendência para o "show-off", a auto-propaganda e a incompetência (por coincidência, tal como as que a antecederam). Trocou-a por uma (demasiado) destra. Oficializada a nova equipa de salvadores, o Estado começou a ser intervencionado.
Na sala de cirurgia mundial, o Estado foi manietado, anestesiado e esquartejado. Com o seu âmago exposto, seus órgãos funcionais foram cobiçados e ficaram à mercê de um mercado traficante/agiota/especulativo: órgãos funcionantes, com dividendos, foram cuidadosamente retirados; os podres lá se mantiveram, corroendo-lhe as remanescentes entranhas. Nessa cirurgia demorada ( que levará ainda décadas a terminar) grande parte da gordura foi mantida e apenas a riqueza intelectual, o sangue bom e os neurónios funcionantes foram migrados para outros Estados mais saudáveis e activos. Os cortes indiferenciados feriram os tecidos estatais retirando-lhes a sua nutrição e matando-os lentamente.
O Estado então ficou magro de nutrientes e gordo de venenos. Terminou pobre, (miserável mesmo), subdesenvolvido e cheio de sequelas físicas e psíquicas. A desnutrição intelectual levou-o à insanidade. A falta de nutrientes económicos levou-o à anemia e à fraqueza muscular/braçal, atirando-o para a inanição. Como resultado da abdução das suas mais valias, o Estado implodiu. Caiu por colapso das infraestruturas. Seu esqueleto social ruiu perante a falta das vitaminas laborais e económicas necessárias para o manter activo.
No fim, o Estado, obeso de vícios/magro de virtudes, tornou-se moribundo. Agónico e perdido, morreu pouco-a-pouco e, fagocitado por algo maior, desapareceu...
... ficou, no entanto, num grão das suas cinzas, a lembrança de poemas de glória e de um fino à beira-mar...
No seguimento de mais um roubo, mais cortes finos e dementes, cresce a vontade de abalar. Enquanto não decido para onde deserto, vou sonhando com Parságada.
Vou-me Embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira
Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que nunca tive
E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar a mãe-d'água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar — Lá sou amigo do rei — Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada.
Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90
Caro leitor, encare este texto apenas como um desabafo, um desalento de alguém entristecido. Não sinta pena, não tenha compaixão, não julgue; apenas leia se tiverem pachorra e encare isto como algo sem qualquer importância e que só serve para aliviar um pouco a alma de quem o escreveu.
Estou de férias. Uma semana que saio do inferno do meu trabalho, mas trago-o comigo, como um moedouro que não me permite o afastamento completo.
Desde miúdo cultivei um sonho: ser médico. Trabalhei muito ao longo do liceu, privei minha adolescência de várias “coisas da idade”; namorei tarde, saí tarde, vivi pouco daquela fase buscando o objectivo que tinha em mente. Fui muitas vezes tentado, ridicularizado, provocado por aqueles do “deixa-estar”, do “empurrar-os-anos-com a barriga”, do “tu-só-sabes-estudar": bando de chicos-espertos. Porquê ser médico? Porque sempre tive tendência para ser otário. Sim, isso mesmo: otário. Porquê? Porque, pensava eu, poderia, assim, ajudar quem mais precisasse. Ajudar o doente, o dependente, o desesperado. Coisas que vejo, agora, terem pouca ou nenhuma importância para a sociedade em que vivemos. O interesse actual gira em torno de outros dogmas muito menos magnos.
Tinha o médico como um ídolo e um modelo que gostaria de seguir. A beleza da arte me fascinava: a preocupação para com o próximo, o segurar da mão e o mimo ao doente, o sorriso fomentador de esperança, o consolo da família. Tinha um enorme respeito pelo médico que ía, solícito, à casa do doente; adorava ver o que tinha na mala e prestava atenção à observação que fazia ao doente. Idolatrava a postura, a sabedoria, a delicadeza e a educação inerentes à profissão. Ignorava que era um trabalho igual a tantos outros e sujeito a alvíssaras. Era isso que desejaria fazer para sempre e faria tudo o que pudesse para alcançar esse propósito. Passados os anos de clausura (e muitas vezes solidão) veio a recompensa: Coimbra. Passei as passas do Algarve para acabar o meu curso. Estudava durante a semana, tentava ajudar os meus pais no fim-de-semana, arrisquei o meu relacionamento com a minha mais-que-tudo. Não aguentei a pressão e deprimi passado algum tempo, pensei e planeei formas de entrar em contacto directo com o Criador, foram lágrimas, suor e quase, mesmo quase, sangue. O meu percurso na faculdade não me orgulha… mas levantei, sacudi a poeira, dei a volta por cima e consegui. Fiz o Juramento de Hipócrates e nessa altura senti-me médico por inteiro. Não foi o diploma ou o cartão da ordem que me fizeram médico, foi o meu esforço espelhado naquelas frases feitas mas com uma minha interpretação própria.
Enveredei pela parente pobre das especialidades médicas: a Medicina Geral e Familiar. Tão falada nas notícias, tão pouco compreendida por todos (inclusive muitos dos que a representam e praticam). A especialidade que "vê" a pessoa como um todo e que é a pedra basilar do sistema de saúde. Se for feita com seriedade e respeito: a mais bela forma de se fazer medicina. Foram quase quatro anos de mais trabalho, de investigação, de aprendizagem e de mais privação pessoal e familiar. Novamente consegui e desta vez com distinção.
Hoje sou Médico de Família. Trabalho no que sempre quis e sonhei... mas quem sonha muito, por vezes, tem noites em que sonha mal.
Estando no terreno vê-se o que não se vê nas polegadas da TV. O que jornalistas, políticos, alguns médicos e utentes dizem não corresponde à inteira realidade e não pinta o quadro todo. Quem "é de fora" não tem noção (nem compreende) a dificuldade da tarefa, as pressões várias dos doentes, dos colegas, dos chefes, dos políticos e as limitações do próprio médico. Não se pense que é fácil ser-se médico e gerir todo um mundo de interesses que de medicina nem sequer chegam a ter cheiro.
Tal qual a imagem que sonhava, norteio a minha prática pela ética, honestidade, seriedade, rectidão e trabalho. Chego à conclusão que todas estas virtudes encontram-se subvalorizadas. Quem por elas se orienta é alvo a abater porque encrava o sistema instituído. Vejamos, é mais fácil mentir, aceitar, resignar-se e ir com a corrente do que insistir e lutar contra o que se considera errado. Quem muito cria raízes arrisca-se a sofres mais na hora de ser arrancado do sistema.
Cheguei à conclusão (em muito pouco tempo) de que, ao fim dos meus dias de trabalho, pouca medicina faço. Sou mais um secretário. São papéis a mais e estetoscópio a menos. São burocracias, economias, números e estatística, vontades e direitos hipertrofiados; ninguém dá valor aos deveres e responsabilizações.
Cansa muito mais ser íntegro; seria mais simples juntar-me à manada.
Depois de tantos anos de trabalho árduo em busca de um sonho, entristece-me concluir que andei atrás de uma fantasia, de um unicórnio alado. Cheguei à triste conclusão de que, mais que os doentes, é a própria medicina e seus agentes que padecem de patologia. A medicina e o sistema de saúde estão podres e os seus valores subvertidos. A figura do médico, que me apaixonou à infância, existe agora em forma residual, aqui e ali; deixou-se borrar pelos interesses instituídos, pelo sonho de riqueza, pela arrogância de um posto, pela má gestão e pelo facilitismo. Deixou-se levar pela falácia dos políticos, pelos desejos insustentáveis e impaciência dos utentes e esqueceu-se dos verdadeiros doentes. Elegeu pessoas para as representar que não têm a visão daquele que sofre no horizonte e que apenas defende os seus subscritores (e mesmo assim nem todos e nem nas situações que deveria). A Medicina está agónica e a precisar urgentemente de um Hipócrates ou Galeno.
Talvez seja eu e a minha irritante tendência ao exagero. Talvez a culpa seja minha de idealizar uma imagem que nunca correspondeu à realidade. Talvez seja apenas muito ingénuo (mea culpa). Talvez seja apenas uma fase em que esteja hiper-hidratado e necessite libertar alguma água pelos olhos sempre que termine o dia de trabalho. Talvez nada disso exista e seja apenas uma miragem da minha personalidade negativista. Talvez... quem sabe?
Neste momento, a medicina que sou obrigado a fazer deixou de ser apaixonante, divertida e, pior, deixou de fazer sentido.
Este senhor da foto era forte e era o Feio. O Tóni, o António ou o Zé da Trincha. O Tóni foi um exemplo de força nestes últimos tempos; de força numa luta desigual. Acabou por perder a batalha mas fez frente à malvada e vendeu cara a derrota. Tive a sorte de o ver, a ele e ao seu grande amigo JPG, no teatro José Lúcio. Nessa altura já se sabia da doença e mesmo assim o espectáculo aconteceu, num exemplo de profissionalismo e dedicação ao seu público.
No ano passado, enquanto estava de férias, morreu Solnado. Este ano, enquanto estou de férias, morreu o Feio. Nunca mais tiro férias ou corro o risco de perder as poucas pessoas que me fazem rir.
Em dias como este nada faz sentido. Quando a vida se esvai, quando desaparece, pergunta-se "porquê?". Nestes dias de sol envergonhado e vento frio, que esconde o calor de primavera, pensa-se sobre a efemeridade da vida. Escrevi este postsobre a nossa incapacidade e pequenez perante situações irreversíveis. A irreversibilidade confirmou-se hoje, através de um daqueles telefonemas que ninguém quer ouvir. E é como que se o tempo parasse e nos trouxesse à mente memórias há muito escondidas, imagens já amareladas do passar dos anos; imagens em Super 8, mudas mas alegres, de tempos longínquos e que não voltam mais. Lembro-me dos tempos de criança, das visitas e viagens à terra dos meus pais, das noites na tua casa, do carinho do teu abraço de amizade sincera. A verdade é que ficam memórias boas, vivências, bons momentos, coisas que nem a morte nos pode roubar. Graças aquilo em que acredito, penso que estás agora num lugar melhor, onde a dor e sofrimento dos últimos tempos não não mais te assolam e onde terás algum merecido conforto e descanso. Talvez esta crença traga a mim, inconscientemente, algum consolação... quem sabe. Resta-me a certeza de que, apesar de hoje ser o teu velório, sei perfeitamente que daqui para frente serás tu a velar por todos nós. A ti, querida tia, que muito raramente vi triste, descansa em paz e até um dia destes.
Aqueles que me visitam, que fazem comentários ao que escrevo, que dignam um pouco do seu precioso tempo a ler os meus devaneios, venho dizer que estarei um pouco afastado desta vida bloguista. Faço este pequeno aviso apenas porquê gosto de visitar os blogs, companheiros de labuta virtual, que se encontram à direita e assim "explicar" minha ausência em suas "casas". Não tenho tido o tempo que gostaria para os visitar, nem aquele necessário para escrever e assim, escrever por escrever, não é a mesma coisa. Dessa forma, vou aparecendo pelos vossos tascos de vez em quando e nesta taberna vou servindo "pratos" a espaços mais largos.
Quem conhece a Madeira, quem conhece os madeirenses, sente uma dor tão grande hoje. Mas, quem conhece a Madeira e quem conhece os madeirenses, tem a certeza de que aquela "Pérola" continuará a ser a mais bela do colar atlântico.
Milhares se calaram, outros estão prestes a se calar. Os restantes vociferam, choram e esperam a sua vez.
É incrivelmente triste. O que se passou no Haiti (tal como o que se passou na Ásia em 2004) é horrendo. Milhares de vidas que se perderam e a humanidade ficou mais pobre. Nós, com estes milhares de kms que nos separam, vamos sofrendo com o que nos vai chegando. O desespero é tão grande que parece ter chegado um "maremoto emocional" a todos os cantos. E não podemos fazer nada. Podemos doar alimentos, roupas, dinheiro, mas não doamos o essencial: uma mão. E isso me tem afectado. Cresce a vontade de ajudar de outra forma. Cresce a vontade de estar lá, de tirar uma pedra, de libertar alguém, de coser, de tratar, de amparar. Esta impossibilidade mói...
No meio disto, liga-se a televisão e a "obrigatoriedade de informar" implica mostrar imagem de corpos trucidados, crianças a chorar, fome e destruição por toda a parte. E a angústia aumenta.
Chega! Quando é que a decência e o bom senso retornam à casa mãe? Isso não é informar. Isso não ajuda ninguém, apenas aqueles que tem um desejo mórbido pela desgraça alheia.
Desligo a televisão. Peço que nunca apareça o meu corpo seminu, ensanguentado, perdido em meio a entulho e ferro retorcido, como um pedaço de carne sem história.
E se não posso estar lá fisicamente, estarei de outra forma.
Por vezes, descobre-se que existem coisas que não se dominam, que estão sob um comando maior e contra as quais não há nada a fazer senão aceitar nossa incapacidade em resolve-las. É nessa hora, quando descobrimos que não somos deuses, que caímos de joelhos e remetemo-nos à nossa mais pura insignificância.