11 março 2010

Contra a maré...

, O Sr. Fulano entra no gabinete. Sente dificuldades para se sentar. Aumenta a distância que separa a cadeira da secretária para que esse espaço possa albergar, com algum conforto, o seu volumoso ventre.
O Sr. Fulano é um sujeito bonacheirão, o gordo simpático. No seu corpo alberga um tratado de patologia, ele é obesidade mórbida, hipertensão, diabetes, dislipidémia mista, gota, artroses e desgostos.
O Sr. Fulano é um senhor de vícios: álcool, tabaco, venham eles! Nas patuscadas com os “amigos” ele se sente bem…

Falo com o Sr. Fulano para o alertar dos perigos a que está exposto. Aconselho-o a mudar estilos de vida, parar com as adições, alertar para os perigos das amizades de tasca, fazer exercício físico.
Aí começam as desculpas: “porque me doem as pernas”, “também não tenho tempo nem hipóteses de caminhar”, “é difícil deixar de ir ao tasco, xótor, meus colegas chateiam-me e tenho que beber um copo… ou mais”, “não gosto da comida insonsa”, “o que são orégãos?”, “eu como pouco, não sei porque engordo” e o famigerado “prometo-lhe que vou mudar e da próxima vez já vou estar mais magro!”.
Entretanto o Sr. Fulano sai do gabinete equipado com credenciais para análises completas (comparticipadas a - quase - 100%) que irá fazer antes da próxima consulta (que não paga por ser isento) e medicação (quase totalmente gratuita, já que a maioria é genérica). Um doente que custa ao Estado uns bons milhares de € anualmente; mas isso não interessa, eu continuo a achar que a saúde deve ser, tendencialmente, gratuita.
Fiz a minha parte.

Então o dia de trabalho acaba. Entro no meu popó e vou até a padaria comprar uns pãezinhos acabados de sair do forno (a minha mais pura adição).
A padaria situa-se numa esquina e logo aí vejo a incrível mania do português em deixar o carro à frente da porta. Não importa se atrapalha o trânsito, o que interessa é estar o mais próximo possível do local onde se quer ir. É perdida uma hipótese de caminhar.
Deixo a minha viatura no parque do prédio (completamente vazio, já que os outros clientes aglomeraram os respectivos automóveis no meio da estrada à frente da padaria) e caminho 20 segundos até a porta.
Lá dentro vejo algumas das pessoas que dizem aqueles “clichés” que transcrevi antes.
Entre os espécimes está o Sr. Fulano devidamente apetrechado com uma mini e um prato de orelha de porco e moelas de frango que bóiam num molho vermelho e reluzente.
Quando me vê o Sr. Fulano sorri desconsertado. Eu não digo nada; não sou seu pai e a minha fatiota de médico deixei no centro de saúde.
Carrego a mercadoria que pedi e vou-me embora.

No caminho ponho em causa todo o meu trabalho. Para quê levantar às 7 da manhã? Para quê gastar o meu latim, a minha saliva e o meu saber? Para isto? Para quê me esforçar para garantir que os serviços de saúde sejam praticamente de graça? Para que todo esse esforço para garantir que, este candidato a um AVC ou enfarte agudo do miocárdio (EAM), possa viver mais algum tempo com qualidade de vida?
Mas a pergunta fundamental: para que me preocupar com isto? Tenho uma vida e é nela que tenho que pensar. Começo a deixar de me preocupar em salvar almas, deixo essa tarefa aos senhores padres.

Vou para casa e passo um pouco de manteiga (magra) no pão ainda a fumegar. Entre uma dentada e outra desejo que, quando o Sr. Fulano tiver o seu EAM, este seja fulminante, para que, pelo menos, não nos fique ainda mais caro.

(Tudo isto é fictício…
será?)

10 março 2010

A famigerada história dos Cogumelos (re-post)

À custa dela já perdi amigos, e os que não perdi meteram-se no álcool e nas drogas. Ela é infame, desgraçada, aterrorizante, e mais um sem número de adjectivos maléficos. Tenham medo, muito medo (e já agora, também um copo de água).

" Era uma cogumelo-normal cogumelo-manhã na cogumelo-cidade, quando o cogumelo-pai resolve dar um cogumelo-passeio com o seu cogumelo-filho. Já fazia algum tempo que os dois não cogumelo-confraternizavam e o cogumelo-pai estava cogumelo-ansioso pela cogumelo-saída.
O cogumelo-filho andava um pouco cogumelo-chateado com a cogumelo-vida, pois a sua cogumelo-namorada tinha-o cogumelo-encornado com o seu melhor (?) cogumelo-amigo: "aquele cogumelo-fdp" - cogumelo-pensava ele.
Foi de bom-cogumelo-grado que cogumelo-aceitou o cogumelo-convite do cogumelo-pai para o cogumelo-passeio. Estavam a cogumelo-pensar em cogumelo-ir até o cogumelo-estádio da cogumelo-luz para ver o cogumelo-jogo do cogumelo-benfica com a cogumelo-académica e, claro, iam cogumelo-preparados para cogumelo-"torcer" pela cogumelo-Briosa.
Cogumelo-prepararam-se a cogumelo-rigor, cada um com o seu cogumelo-cachecol e cogumelo-bandeira. O cogumelo-pai ainda cogumelo-lembrava-se dos bons-cogumelo-tempos do cogumelo-futebol, em que as cogumelo-pessoas levavam seus cogumelo-filhos aos cogumelo-estádios com cogumelo-segurança: cogumelo-suspirou…

Cogumelo-arrancaram, então.

O cogumelo-filho estava cogumelo-radiante; parecia uma cogumelo-cogumelo-criança de tão cogumelo-feliz que cogumelo-estava e nem se cogumelo-apercebeu do cogumelo-carro que vinha cogumelo-disparado pela cogumelo-estrada cogumelo-acima. Vinha o cogumelo-condutor cogumelo-embriagado aos cogumelo-Ss pela cogumelo-via cogumelo-pública e não teve cogumelo-tempo de cogumelo-travar: apanhou em cogumelo-cheio o cogumelo-filho. Apenas ficou o cogumelo-silêncio depois do seu cogumelo-grito. Parecia que o cogumelo-tempo cogumelo-parou enquanto o seu cogumelo-corpo cogumelo-esponjoso cogumelo-caía para a cogumelo-frente com o cogumelo-impacto do cogumelo-automóvel cogumelo-desgovernado.

O cogumelo-condutor não cogumelo-parou, mas alguém cogumelo-anotou a cogumelo-matrícula.

O cogumelo-pai, cogumelo-desesperado, cogumelo-correu em direcção do cogumelo-filho cogumelo-inconsciente que cogumelo-jazia no cogumelo-chão. Cogumelo-tentava cogumelo-acordar o cogumelo-filho, mas era em cogumelo-vão. O cogumelo-filho estava em cogumelo-coma.

Passados alguns cogumelo-minutos chegou o cogumelo-INEM. Tentaram cogumelo-reanimar o cogumelo-filho; usaram um cogumelo-desfribilhador e deram uns cogumelo-choques: “já tem cogumelo-pulso” – disse o cogumelo-médico- “vamos levá-lo para o cogumelo-hospital”. E foram-se embora na cogumelo-ambulância.

O cogumelo-pai estava cogumelo-transtornado, cogumelo-chorava e cogumelo-jurava de cogumelo-morte o cogumelo-condutor que cogumelo-atropelou seu cogumelo-filho.

A cogumelo-notícia cogumelo-espalhou-se como cogumelo-fogo no cogumelo-verão e todos os cogumelos-parentes cogumelo-telefonaram. Todos queriam cogumelo-saber do cogumelo-estado do cogumelo-filho. O cogumelo-pai cogumelo-explicava quão cogumelo-grave era o cogumelo-estado do cogumelo-filho e que o cogumelo-mesmo estava em cogumelo-perigo de cogumelo-vida no cogumelo-hospital. Os cogumelo-parentes queriam fazer uma cogumelo-visita ao cogumelo-filho pelo que o cogumelo-pai cogumelo-prontificou-se a cogumelo-disponibilizar o cogumelo-horário das cogumelo-visitas.

Combinaram de se cogumelo-encontrar na cogumelo-casa do cogumelo-pai para cogumelo-fazer a cogumelo-visita ao cogumelo-filho.

Entretanto, o cogumelo-filho lutava pela cogumelo-vida no cogumelo-bloco-operatório do cogumelo-hospital cogumelo-distrital da sua cogumelo-cidade. Naqueles cogumelo-tempos de cogumelo-cortes os cogumelo-cirurgiões faziam das cogumelo-tripas cogumelo-coração para cogumelo-trabalhar cogumelo-bem. O cogumelo-ministro da cogumelo-saúde, Cogumelo-Correia de Cogumelo-Campos, tinha cogumelo-cortado em cogumelo-tudo: cogumelo-médicos, cogumelo-enfermeiros e cogumelo-materiais. O cogumelo-bloco necessitava de cogumelo-obras cogumelo-urgentes mas não havia cogumelo-fundos para isso, e quem se cogumelo-lixava era o cogumelo-doente.

Os cogumelo-cirurgiões tinham cogumelo-feito de cogumelo-tudo, só restava cogumelo-rezar ao cogumelo-Deus.

Assim o cogumelo-filho foi cogumelo-internado na cogumelo-enfermaria dos cogumelo-cuidados cogumelo-intensivos.

Enquanto cogumelo-isso, a cogumelo-família inteira cogumelo-reunia-se na cogumelo-casa do cogumelo-pai. Todos cogumelo-anseavam por cogumelo-notícias sobre a cogumelo-saúde do cogumelo-filho. Cogumelo-combinaram em quais cogumelo-carros iriam para o cogumelo-hospital. Juntaram-se cogumelo-todos em 11 cogumelo-carros e seguiram para o cogumelo-hospital com a cogumelo-ajuda do cogumelo-GPS.

Chegaram ao cogumelo-hospital em cerca de 25 cogumelo-minutos. Muito cogumelo-aflitos por cogumelo saber do cogumelo-estado do cogumelo-filho. Chegaram ao cogumelo-balcão das cogumelo-informações onde uma cogumelo-muito cogumelo-simpática cogumelo-senhora cogumelo-informou em qual cogumelo-serviço estava cogumelo-internado o cogumelo-filho.

Apanharam um cogumelo-elevador, não todos cogumelo-juntos pois eram cogumelo-muitos. Chegaram ao cogumelo-serviço de cogumelo-cirurgia onde falaram com o cogumelo-médico.

- Então cogumelo-doutor, como está meu cogumelo-filho? – perguntou o cogumelo-pai.

- Encontra-se cogumelo estável. Esteve no cogumelo-bloco durante 5 cogumelo-horas, mas cogumelo-penso que o cogumelo-pior já cogumelo-passou – cogumelo-respondeu o cogumelo-médico – seu cogumelo-filho está a cogumelo-descansar no cogumelo-quarto 13. É ao cogumelo-fim do cogumelo-corredor.

- Muito cogumelo-obrigado. O cogumelo-senhor cogumelo-doutor cogumelo-salvou a cogumelo-vida do meu cogumelo-filho.

O cogumelo-pai cogumelo-chamou a cogumelo-família e se cogumelo-dirigiram para o cogumelo-tal cogumelo-quarto.

O cogumelo-pai cogumelo-bateu à cogumelo-porta e nada. Cogumelo-resolveu cogumelo-entrar. Nesse cogumelo-momento cogumelo-ficou em cogumelo-choque: seu cogumelo-filho cogumelo-encontrava-se todo cogumelo-ligado, com cogumelo-fios e cogumelo-tubos em todos os cogumelo-orifícios corporais. Cogumelo-catéteres, cogumelo-sondas, cogumelo-soros, cogumelo-etc, cogumelo-etc.

Nem cogumelo-sinal de cogumelo-reacção do cogumelo-filho à cogumelo-chegada do cogumelo-pai. O cogumelo-filho estava cogumelo-mal.

A cogumelo-família também cogumelo-entrou. Era bastante cogumelo-numerosa, mas a cogumelo-situação era tão cogumelo-desesperante que cogumelo-entraram todos de uma só cogumelo-vez.

Todos eles ficaram cogumelo-espantados com a cogumelo-cena. Cogumelo-lágrimas vieram aos cogumelo-olhos e só cogumelo-pensaram em como cogumelo-poderiam cogumelo-ajudar.

Eles cogumelo-acreditavam na cogumelo-força do cogumelo-pensamento e decidiram fazer uma cogumelo-corrente à cogumelo-volta da cogumelo-cama do cogumelo-filho. Era uma cogumelo-forma de cogumelo-reunir cogumelo-forças e cogumelo-energias cogumelo-positivas.

Assim cogumelo fizeram. Cogumelo-organizaram um cogumelo-círculo à cogumelo-volta do cogumelo-filho. E todos fizeram cogumelo-forças. Seus cogumelo-olhos cogumelo-encerraram-se, suas cogumelo-faces numa cogumelo-expressão de cogumelo-sofrimento. Eles cogumelo-gritavam ("aqui estamos cogumelo-nós!!!), cogumelo-rezavam, cogumelo grunhiam e cogumelo-rangiam os cogumelo-dentes; eles cogumelo-cantavam por cogumelo-forças. Pediam aos cogumelo-espíritos por cogumelo-ajuda. Eles cogumelo-suavam de tanta cogumelo-vontade. Eles estavam cogumelo-desesperados, cogumelo-empenhados, cogumelo-decididos…

E quando tudo cogumelo-parecia irremediavelmente cogumelo-perdido, eis que o cogumelo-filho abre levemente um cogumelo-olho. E cogumelo-todos à sua cogumelo-volta começam a cogumelo-cantar:

“ – WE ARE THE CHAMPIGNONS, MA FRIEND!!!”

PS. quem quiser a versão longa é só pedir.

09 março 2010

5


Acordei bem disposto e com um pouco de ansiedade ao ouvir falar no jogo de hoje.
Arsenal X FC Porto. Bom jogo, liga dos campeões, a equipa em vantagem... vai ser difícil mas há que ter esperança.
Fui trabalhar, as consultas correram bem e novamente um disparo de adrenalina ao ouvir as notícias sobre a preparação do FCP para o jogo de hoje.
Faltava pouco.
Fiz de tudo para estar em casa antes das 19:45 e à essa hora estava já preparado para sofrer um bocado.
O FCP trazia a vantagem de ter ganho em casa mas essa, logo, em pouco tempo, desapareceu: 2 X 0 e fim do 1º tempo.
2º Tempo e o FCP começa bem mas... 3 X 0 e clique: desliguei a televisão.
Liguei o PC e pus Astor Piazzolla a tocar, nas horas tristes ou é tango ou é fado e hoje estava mais virado para as Pampas.
Fiquei depois a saber que, afinal, foram 5. Já não me lembro da última vez que o FCP teve um hi5 e, o pior, já não me lembro de termos uma equipa a jogar tão mal...

Estarei incontactável por uns tempos... a recuperar
Obrigado...

Ao Jesualdo, que inventou um Nuno André Coelho a trinco, proponho o tratamento da imagem seguinte:



08 março 2010

Adoráveis mulheres

365 dias para vocês...


"Gerânio"

Composição: Nando Reis, Marisa Monte, Jennifer Gomes


Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente

Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda

Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes

Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga

Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema

Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda
Estou com saudades e penso tanto em você

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda

06 março 2010

Atracção fatal!

Se a bola de futebol tem íman então os meus tomates são de ferro!!!


02 março 2010

A menina que se esqueceu de falar

Em resposta ao desafio "Silêncio" da Fábrica de Letras:


A menina que se esqueceu de falar

“Silêncio!” e uma mão cheia de dedos acerta-lhe em cheio na face.

Helena nascera num dia esplendoroso de verão, um dia sem nuvens e sem brisa. Gritara desde o primeiro instante de vida e, logo aí, recebera uma palmada nas nádegas.
Ao longo dos primeiros tempos pouco estímulo teve para falar. Sua mãe nunca estava e seu pai nunca estivera. Não tinha irmãos, não tinha amigos, não tinha ninguém com quem trocasse uma palavra recém-aprendida.
Vivia no silêncio de uma casa pobre. Pobre de recheios e, mais grave, pobre de movimentos e de vida. Tinha um espelho e era aí que dialogava consigo mesma, trocando palavras toscas e enroladas que só o seu reflexo entendia.
Assim passou a primeira infância.
Nas raras oportunidades que teve para falar com a mãe, era interrompida por um “cala-te!”, “’tá quieta” ou, se a progenitora estivesse mais bem disposta ou sóbria, um “Silêncio!”, sempre acompanhados de uma palma da mão. Helena era filha de um projecto comercial. Um efeito colateral de uma transacção de negócios da sua mãe e esta não lhe empregava muito do seu tempo.
Helena foi sendo autodidata e aprendeu o que ouvia entre as paredes, por trás das portas e às janelas, tudo desvirtuado e distorcido que mesclou numa espécie de dialecto estranho.

Aos 6 anos, Helena foi para a escola. Sua forma de falar provocava risos nos colegas que passaram a ridicularizá-la. Chamavam-na retardada, sem compreender que para ser bom em algo é necessário treinar. Helena não tinha oportunidade de treinar falar com ninguém e fechava-se cada vez mais. Os seus colegas eram retardados em afecto.
“- Prgofegssora, pgosso i à c’sa de bganho?”
“- Helena, cala-te, vais ao intervalo!”
“- Sgtora, e se essa respogsta!”
“- Silêncio, menina, agora é o teu colega a responder!”

“Cala-te”, “Não digas nada”, “´tá calada”, “Shhhhiiiiiiiiiuuuuuu!”

Não tinha parceira de carteira, não tinha lugares em grupo, era um pedaço de gente rodeada de preconceito por todos os lados.
À esta altura, Helena começava a pensar que falar não era solução. Optou pelo silêncio. Estava cansada das conjugações dos verbos "calar" e "silenciar" direccionadas violentamente contra ela.
Helena calou-se e demorou muito tempo para que se ouvisse algo dela.
Passou os anos da escola com boas notas gerais penalizadas apenas pela fraca participação nas aulas. Já não levantava a mão, não perguntava, não se “engrupava”, tornou-se a eremita da turma. Preferia falar consigo mesma, interiormente, já que não se mandava calar a si mesma.

Amplificou a arte de ouvir, especializou-se em ver, deixou a habilidade de falar para os outros e nunca se arrependeu.
Quando jovem aprendeu a linguagem gestual e mandava fod#$ aqueles que não a compreendiam. Helena cresceu e tornou-se uma mulher de enorme carácter, de mais acções e de menos (nenhumas) palavras.

Foi então que, num dia de verão radioso, sem nuvens e sem brisa, conheceu um simpático jovem. Era um rapaz que também não falava. Mas, ao contrário dela, não falar para ele não era opção: estava privado pela natureza.
Compreendiam-se muito bem através da arte dos sinais e brincavam sobre o que liam nos lábios dos outros. Tornaram-se cúmplices dos mesmos crimes e nunca precisaram sonorizar nada um ao outro.

Helena estava feliz pela primeira vez na sua vida. Apetecia-lhe dizer o que lhe ía na alma. Apetecia-lhe gritar, explicar ao mundo o que o seu coração sentia . Mas há tanto tempo que nada dizia que sentia a garganta enferrujada e tinha dificuldades de iniciar o árduo processo de falar.
Olhou para o seu rapaz, que lhe sorriu, encheu-se de coragem e força e da sua boca ouviu-se pela última vez a sua voz… num caloroso, sonoro e apaixonado: “amo-te”.
E depois, para sempre, apenas o silêncio...

Luís Fernandes Lisboa ®

01 março 2010

Sem vaselina...



Espero, sinceramente, que o Jesualdo não se consiga sentar hoje!

27 fevereiro 2010

CPI

Hoje, enquanto preparava o pequeno-almoço e como é hábito cá em casa, ouvia as notícias matinais na RTP.
Falava-se da proposta do PSD sobre a criação de uma CPI (comissão parlamentar de inquérito) para apurar as (diversas) tentativas do governo em controlar a comunicação social, neste caso em concreto, a compra de parte da TVI pela PT.
À dada altura da peça jornalística, aparece o Sr. deputado Francisco Assis, qual paladino do governo, a dizer uma frase que me intrigou. Dizia ele:
"O PSD, com este acto, tenta por em causa o carácter do Sr. Primeiro Ministro!"
Achei realmente estranha e descabida esta afirmação, até porque, para isso, era necessário que o Sr. PM tivesse realmente algum carácter.
Continuando...
Depois de ouvir esta reportagem e depois de ouvir tudo o que se tem dito, ler tudo o que se tem escrito e ver tudo o que se tem mostrado, tomei uma decisão: este blog vai passar a conjecturar sobre este governo, nomeadamente sobre a pessoa do PM.
E aí vocês perguntam (ou, mais provavelmente, não): Porquê?Porque se a TVI e o Sol sofreram tentativas de compra por entidades semi-públicas, pode ser que, criando novos boatos sobre esquemas, o governo se interesse e queira comprar também este blogue...
...é que estou mesmo a precisar de uns cobres.


25 fevereiro 2010

Dizer - verbo intransitivo (re-post)

Como estou com preguiça, hoje faço um re-post de um texto já com algum tempito (07/2007), do tempo do Correia de Campos como ministro da saúde, Maria de Lurdes Rodrigues como ministra da educação e outros que tais. De um tempo no qual para ser funcionário público era necessário ter um olho na nuca... mas será que esse tempo já passou? Hum...

Gostaria de dizer algo que tenho vontade de dizer há já algum tempo. Não digo porque se disser corro um enorme risco: dizer algo que não devia ter dito.
Por trabalhar para quem trabalho, estou impedido de dizer o que quer que seja actualmente, pois tudo que disser pode ser e, inevitavelmente, será usado contra mim.
Se alguma vez vos disserem que disse algo, eu direi que não passa de uma mentira.
Eu não vou dizer que este governo não presta, nunca diria tal coisa. Eu nunca disse que este PM é intolerante, irascível e feio; se disseram que tinha dito equivalente assunto, venho dizer que se enganaram.
Eu nunca, em sã consciência, iria dizer que o Ministro da Saúde é incompetente. Só porque ele diz barbaridades não posso dizer que o homem é ignóbil, incoerente e intragável. Não é porque o homem é impopular que dá o direito de dizer o que apetece e por isso simplesmente não digo... e também não penso.
Por falar (ou dizer, ou talvez nenhuma nem outra) em pensar, digo que é raro hoje em dia. A arte de pensar é tão difícil como a hipótese de eu dizer que tal é culpa dos Ministros da Educação. Eu não disse que a culpa era dos ministros, muito menos da actual, essa senhora que eu não digo que não seja apta para a pasta. Alguma vez teria a lata ou a audácia de dirigir a palavra de forma jocosa a qualquer acto que a Exma Srª faça? Nunca diria nada que fosse verdade e se o fizesse seria obviamente uma inverdade dita por alguém que não sabe se sabe do que diz.
Eu não digo que estou revoltado, não tenho porque dizer. Também não vou dizer que está tudo bem. Talvez aceitem que diga que a culpa é da UE. Mas aí o Sr. Ministro da Agricultura talvez tivesse que dizer para sairmos dessa problemática "instituição". Não pensem que vou dizer que o Sr. é inábil, não seria rude a esse ponto.
Eu não digo nada mas vejo algumas coisas. Acharia graça se muitas delas não me afectassem, mas infelizmente não posso dizer que isso não aconteça.
Não vou dizer que estou amordaçado, calado, silenciado, discreto ou tácito, mas também não estou muito interessado em levar um processo disciplinar por dizer o que nunca disse nem tive vontade de dizer. Eu não digo porque tenho med.. ops, receio que ouçam os que não me interessa que ouçam o que eu não tenho para dizer, por isso eu não digo, nem penso... mas escrevo enquanto posso.
Ainda bem que ainda podemos ficar calados quando queremos dizer algo. É bom podermos ser(-se) controlados, para que depois não sejamos atacados pela nossa PID... consciência.

Não façam como eu, digam, expressem-se!!!
PS(não o partido): mas não digam que fui eu que disse!

24 fevereiro 2010

Grande (seca de) entrevista?

"Alberto João Jardim responde às perguntas de Judite de Sousa na Grande Entrevista" RTP





Olha que dois!
Uma que não gosta de respostas e outro que não gosta de perguntas... vai ser lindo vai.

23 fevereiro 2010

O ser otário

Numa discussão acesa com um amigo cheguei à uma triste conclusão. Falava ele que muitos dos meus colegas trabalhavam no serviço nacional de saúde a ver doentes que atenderam no sector privado e que não compreendia o porquê de, aqui o vosso amigo bloguista, não fazer o mesmo. Eu, talvez ingenuamente, respondi-lhe que ainda mantinha a minha ética e que não tinha feito o curso para enriquecer à custa da desgraça alheia. Ele, "galhofadamente", disse-me: "não sejas otário, pá!"
Então, como disse antes, cheguei à uma importante conclusão, daquelas que me irá perseguir até ao fim da minha triste vida: EU SOU OTÁRIO!
Eu sou otário porque estou satisfeito com o que tenho.Sou otário porque, apesar de ambicioso, não tenho uma ganância desmedida a correr-me pelas veias.
Sou porque deixo passar uma grávida à minha frente numa fila qualquer ou porque ofereço meu lugar sentado a um idoso.
Sou otário por defender a cidadania e o civismo.
Sou otário porque pago os meus impostos e não idolatro quem não o faz. Entendo que esse não está só a roubar o estado, está é a roubar-me a mim.
Eu sou otário porque devolvo a carteira ao seu dono.Sou otário porque tento cumprir o código.
Otário porque sou honesto, íntegro e recto. Porque tenho uma consciência que me mói quando saio dos carris.
Sou otário por considerar que os fins não justificam os meios.
Sempre fui otário por não usar cábulas e não trapacear.
Sou otário mas não palerma para pensar que sou perfeito.
Sou otário por devolver a bola ao adversário.
Eu sou otário por respeitar horários previamente combinados,por dizer bom dia, por não ficar a dever e por respeitar minhas promessas.Sou otário por não ser materialista ao ponto de ter de vender a alma ao diabo para comprar um Mercedes ou uma casa de 20 assoalhadas.

Mas se tudo isso é ser otário, e se me sinto feliz e realizado por tentar ser boa pessoa, então, meus amigos, o fulano tinha toda a razão: eu sou um grande otário; sendo assim consegui tudo o que tenho, que nem é pouco...
No entanto, ele e outros como ele, que não acreditam que uma pessoa possa ser feliz com pouco, esses não são otários, mas sim uns grandessíssimos idiotas! Nunca vão experimentar o bem estar do ser otário... como eu.

21 fevereiro 2010

Madeira de Ferro!

Quem conhece a Madeira, quem conhece os madeirenses, sente uma dor tão grande hoje.
Mas, quem conhece a Madeira e quem conhece os madeirenses, tem a certeza de que aquela "Pérola" continuará a ser a mais bela do colar atlântico.


20 fevereiro 2010

Gatunagem

Gosto de "caminhar" pela blogosfera. Nela encontrei gente inteligente e acutilante (gosto desta palavra, desculpem lá).
Foi em mais um passeio pelos caminhos bloguísticos que encontrei o texto que posto a seguir. Fui à "Tasca do tio João" e lá estava um link para a "Força Emergente". Este último escreveu o que transcrevo aqui. Transcrevo por achar que é uma informação deveras interessante, e importante, para passar em claro.
Então vejamos:

"Vergonha Nacional
Até que ponto chega o descaramento dos políticos deste País ?
Como é que esta sociedade permite isto ?
Será que não sabem ?
Vamos por partes.
Bom, já todos ouvimos falar na Cova da Beira, no Freepor(t), nos sobreiros, nos submarinos, no BPN, nas contas dos primos na Suíça, nas empreitadas que começam em 5 e acabam em 10, nas adjudicações sem concurso publico, nos pagamentos a assessores, nas reformas escandalosas de políticos, autarcas, funcionários do Banco de Portugal, funcionários doutros bancos, funcionários de empresas publicas, nas indemnizações inconcebíveis e inadmissíveis a gestores partidários, na utilização do aparelho de estado para empregar amigos, familiares, correlegionários políticos, etc, etc.
Sobre esta vergonha certamente que já todos temos alguma consciência, pois a divulgação publica a isso obriga.
É certo que parece que ainda não chega para nos aborrecermos muito.
Mas...se agora lhe sugeríssemos para analisar o Diário da República nº 28 - I série- datado de 10 de Fevereiro de 2010 - RESOLUÇÃO da Assembleia da República nº 11/2010.Poderão aceder através do site WWW.dre.pt
Vamos ler;
Algumas rubricas do orçamento da Assembleia da Republica
1 - Vencimento de Deputados ...........................12 milhões 349 mil Euros
2 - Ajudas de Custo de Deputados........................2 milhões 724 mil Euros
3 - Transportes de Deputados ...........................3 milhões 869 mil Euros
4 - Deslocações e Estadas ..............................2 milhões 363 mil Euros
5 - Assistência Técnica (??) ...........................2 milhões 948 mil Euros
6 - Outros Trabalhos Especializados (??) ...............3 milhões 593 mil Euros
7 - RESTAURANTE,REFEITÓRIO,CAFETARIA..............961 mil Euros8 - Subvenções aos Grupos Parlamentares.................970 mil Euros
9 - Equipamento de Informática .........................2 milhões 110 mil Euros
10- Outros Investimentos (??) ..........................2 milhões 420 mil Euros
11- Edificios ..........................................2 milhões 686 mil Euros
12- Transfer's (??) Diversos (??)......................13 milhões 506 mil Euros
13- SUBVENÇÃO aos PARTIDOS na A. R. ..................16 milhões 977 mil Euros
14- SUBVENÇÕES CAMPANHAS ELEITORAIS ....73 milhões 798 mil Euros

Em resumo e NO TOTAL a DESPESA ORÇAMENTADA para o ANO de 2010, é :€ 191 405 356 191 405 356,61 (191 Milhões 405 mil 356 Euros e 61 cêntimos) - Ver Folha 372 do acima identificado Diário da República nº 28 - 1ª Série -, de 10 de Fevereiro de 2010.
Vamos lá então ver se isto agora já o começa a incomodar um "bocadinho". Repare:
Cada deputado, em vencimentos e encargos directos e indirectos custa ao País, cerca de 700.000 Euros por ano. Ou seja cerca de 60.000 Euros mês.
É muito ? Não é, tendo em conta o excelente trabalho que produzem.
Aliás, somos nós que permitimos isto !
Então diga-nos. É ou não uma autêntica vergonha Nacional ?
Ficou admirado ou já sabia ? "


Tirem as vossas conclusões... e sejam criativos.

17 fevereiro 2010

Sonho

José Rodrigues dos Santos aparece no ecrã, são 20:00 em ponto.
"Boa noite. Mais uma empresa vai fechar deixando cerca de 230 pessoas no desemprego. No entanto, os sindicatos, pela primeira vez, parecem apoiar o despedimento destes "trabalhadores". Vamos agora, em directo, à fala com a repórter da RTP, Andreia Neves, que se encontra à frente do Palácio de São Bento, sede da organização agora falida. Andreia, como estão a reagir os "trabalhadores" à esta situação de falência da Assembleia da República?"
"Boa noite, não parece haver grande surpresa nos rostos dos, agora, desempregados. Há já algum tempo que se ouviam rumores acerca duma possível dissolução desta entidade pública. Apesar de haver um ambiente de consternação, os "trabalhadores" têm, a seu favor, o facto de poder usufruir do subsídio de desemprego..."

E o despertador toca... tenho que ter cuidado com o que janto.

15 fevereiro 2010

Shāh māt

Como ontem foi dia de S. Valentim, um santo muitíssimo influente por estas bandas:


Ai, a paixão. O ser apaixonado faz tudo pelo objecto da paixão; chega ao cúmulo do ridículo e do dramático para fazer-se notar ao outro(a); escreve poemas, compra flores, gasta o que tem e o que não tem para impressionar.
O apaixonado não dorme, não come, não trabalha: o amor sustenta-o.
E, é então que se depara com a triste realidade: ninguém é perfeito.
Por mais que se idealize alguém, há sempre qualquer coisita que foge à perfeição. Ou é uma voz sibilante, ou um cheiro estranho dos pés, ou uma paixão pelo clube errado, é só procurar: o defeito estará lá.Alguns ignoram, outros até pelos defeitos se apaixonam, outros partem para outra e continuam à procura do príncipe/princesa encantados.
Não falo da minha princesa, porque agora já é rainha e isto aqui em casa é como um jogo de xadrez: a rainha é a peça mais importante...



E por fim, um saudoso vídeo de uma saudosa banda:

13 fevereiro 2010

Updates

Clica aí na imagem

Eu uso o Firefox, mas chegando à página inicial deparei-me com esse texto a publicitar a nova versão do browser.
Fiquei preocupado: será que a nova versão é mesmo melhor ou já terá o acordo ortográfico?

11 fevereiro 2010

Re-post: Ao meu 1º cabelo branco

Para o desafio "Velhice", da Fábrica de Letras:



Oh tu, branco, em destaque
Na floresta negra da cabeça,
Vens lembrar o meu corpo
Para que também se envelheça.
Vens com pompa e circunstância
Para que não me esqueça
Que já vai longe minha infância
E me vens dar nova aparência.
No imenso mar negro de cabelos
Vai tentando sobressair,
Faz de tudo para que possa vê-lo,
Não pára de insistir.

Mas é em vão.
Tentas chamar-me a atenção
E apareces-me ao espelho,
Tentas vencer-me pela exaustão.
Mas ainda não me sinto velho.
Tu, branco, que anuncias o princípio do meu fim
E que faz alarde desde que nasceu
Não te rias mais de mim
Pois cairás muito antes do que eu.

Burocratidose

Existe uma praga que está a destruir o país. É uma infecção, uma verminose, uma parasitose.
Portugal está infestado por uma espécie de seres desprezíveis, abjectos e asquerosos: os burocratas.Esses animais corroem as estranhas do Estado, sugando-lhe até ao tutano, nutrindo-se com o alheio, acabando com a paciência dos pobres mortais.
São caracterizados pela mediocridade, especialistas em compadrio, no lambe-botismo e no por-baixo-do-pano. Pululam em todos os cargos possíveis e imagináveis. Colonizam juntas, câmaras, assembleias, ministérios ou qualquer lugar cujo concurso dependa da vontade de outro burocrata. Tomam decisões baseadas na mais pura e cristalina ignorância e a sua inépcia não tem limites.
Mas, apesar de tudo, os burocratas reinam. Eles estão lá, à nossa frente, ocupando os lugares cimeiros e cargos de chefia; colocados nos respectivos assentos por outros da sua espécie, perpetuando o ciclo vicioso e doentio.
Eles mandam em tudo. Aparecem na televisão sorridentes. Escapam incólumes às vãs tentativas de os eliminar. E, apesar da tremenda cara-de-pau, são ágeis, elásticos e esquivos.
Fala-se nas mortes pela SIDA, Tuberculose ou Malária mas, amigos, não há doença que mate mais que os burocratas. Eles são piores que o cancro, vão minando, insidiosos, até ao ponto do não retorno, e tudo depois é paliativo.
Por causa deles se morre de fome e de sede, não se constroem hospitais, escolas ou outras benfeitorias; eles decidem-se sempre pelo supérfluo, desde que lhes dê lucro.
São eles que encravam as engrenagens...
Os burocratas estão por todo o lado; sempre estiveram e, temo não errar por muito, sempre estarão, ou talvez não... quem sabe arranjamos uma droga eficaz ou, quem sabe, já a temos mas não usamos.


Imagens google

09 fevereiro 2010

Isto não morre!

Alguns dias sem postar e fica um sentimento de vazio.
Nos últimos dias estava tão assoberbado de trabalho que o cansaço venceu a extrema vontade de escrever.
Muitas vezes elaborei ideias para passar para aqui mas um terrível peso nas pálpebras impossibilitou qualquer aventura no teclado.
Aí descobri que, apesar de gostar muito do meu espaço virtual e de interagir com os amigos virtuais, não sou assim tão viciado...


Afastado

Há algum tempo que não posto nada nem sequer vou às "casas" dos meus vizinhos aqui da direita.
Não gosto de abandonar este espaço por muito tempo e temo que, se isso aumentar, tenha que lhe dizer "adeus".
Enquanto isso não vem, ficam estas palavras do último Congresso Português de HTA:
- Destiffening;
- Remodeling;
- Deeper e non deeper;
- Guidelines.

E, de uma viagem de regresso de 3 horas desde o Allgarve, ficam estas belas afirmações:
- "... nas maçãs eu dou a dentada que eu quiser!"
- "... gosto da parte dura (do ananás) que é aquosa e docinha"


Amizade...

02 fevereiro 2010

O velho de Vila Velha de Ródão


Em resposta ao desafio "velhice" da Fábrica de Letras:



O velho de Vila Velha de Ródão acordou. Mais uma manhã começara. Há 87 anos que era assim e sentia-se cansado, mas hoje seria diferente.
O velho de Vila Velha de Ródão estava só. Ecoavam os seus passos na pequena e vazia casa de pedra. O chão, de madeira gasta, gemia à sua passagem. A casa, que o vira nascer, estava cansada de estar de pé e começava a ceder à passagem do velho e do tempo.
O velho de Vila Velha de Ródão olhou-se ao espelho. Observou o rosto cravejado de anos e, no seu lugar, imaginou a face do rapaz que outrora corria por ali. Aquele jovem de Vila Velha de Ródão, que um dia sonhou conhecer Lisboa, voltara por uns instantes mas, como da 1ª vez, lá se foi embora, deixando uma cara decadente a reflectir no vidro.
Ao espelho, o velho de Vila Velha de Ródão concertou o nó da gravata. Há anos que aquela peça jazia no fundo da gaveta e, por esta ocasião tão especial, resolveu tirá-la da reforma. Esfregou um pouco de “Old Spice®” na cara e preparou-se para sair.
O velho de Vila Velha de Ródão chegou ao café da vila. Lá cumprimentou muitos outros velhos de Vila Velha de Ródão que, tal como ele, cheiravam à naftalina e a braseiro e bebiam aguardente velhíssima.
Os velhos de Vila Velha de Ródão falavam alto uns com os outros, uns porque ouviam mal, outros para espantar a solidão. Notava-se, por entre as rugas, olhos de ansiedade.

Uma voz chamou pelos velhos de Vila Velha de Ródão. Levou-os até à praça principal onde se encontravam as velhas de Vila Velha de Ródão em grande algazarra. Reuniram-se todos à volta de um autocarro. À frente da enorme viatura um letreiro a “dizer” Lisboa.
No interior do autocarro, os velhos e velhas de Vila Velha de Ródão cantavam canções quase tão velhas como os próprios. Comungavam histórias de fome, perdas, dores e sonhos. Alguns faziam força para conter as gotas salgadas que lhes brotavam nos olhos ao lembrarem-se dos que já não estavam, outros simplesmente davam azo à maré.
Os velhos de Vila Velha de Ródão chegaram à metrópole. Espantaram-se com o tamanho dos prédios, com o barulho da urbe, com o ar pesado e sujo, com a mistura das gentes.
Alguns velhos de Vila Velha de Ródão, recusaram-se a sair do transporte, alguns caminharam como não faziam há anos. Uns estavam siderados, outros fascinados, outros (a maioria?) estavam assustados.

Aquele rapaz que aparecera ao espelho pela manhã, ressurgia agora na carne e ossos muito usados do velho de Vila Velha de Ródão. Agora, o rosto sorria, os males da carne não doíam, no seu coração apenas felicidade, daquela pura e enérgica, como não conhecia há anos.
Lisboa era grande, maior que nos seus sonhos. Era bela,sinuosa, maliciosa; nas suas colinas sonhou lânguidas colinas de moça.
Viu o sol a reflectir nas prateadas águas do seu tão conhecido Tejo, aqui mais belo e maior do que nunca. Pensou no rio como um menino que saiu da sua Vila Velha de Ródão e se fez homem na cidade grande.
Viu partir um navio e sonhou os lugares maravilhosos que poderiam ser destino mas não desejou estar noutro lugar naquele momento.
Sentiu a brisa quente lamber-lhe a face... lembrou-lhe as travessuras da juventude.
Inspirou forte, sorveu o ar da capital.

A voz, novamente, chamou pelos velhos de Vila Velha de Ródão, acordando-os do transe.
Num misto de êxtase e desilusão, lá entraram no autocarro e fitaram, ainda de pé, a despedida da grande cidade. Pareciam os que ficavam em terra a ver os navios zarpar, acenando até perder o objecto no horizonte.
Assim também foi com Lisboa que rapidamente desapareceu por trás de um monte.

O velho de Vila Velha de Ródão rodou a chave e entrou na sua, também, velha casa. Arremessou a gravata para a gaveta e sentou-se por alguns segundos à beira da cama. Olhou pela janela fosca sem intenções de ver o exterior. Na sua mente as luzes de Lisboa, seu sonho cumprido.
Levantou-se e foi à casa-de-banho. Olhou ao espelho e não viu rugas, não viu cabelos brancos ou falta de dentes. Viu aquele jovem de Vila Velha de Ródão que sorria-lhe satisfeito, piscando-lhe o olho de forma marota.

E o jovem de Vila Velha de Ródão retornara para nunca mais fugir. Todas as manhãs aparecia reflectido no espelho e presente no coração e mente do velho de Vila Velha de Ródão, para provar que apenas o corpo envelhece.

Luís Fernandes Lisboa
®

Monumento Natural Portas de Ródão (google)


31 janeiro 2010

Hai(de)ti II

A humanidade está podre. Está infectada por vermes. Nenhum país, nenhuma comunidade, ninguém está imune e não há vacinas para esta doença.
Depois da catástrofe vem a miséria. A fome, a sede e a sofreguidão assolam o território haitiano. Mas nada disso é páreo para a imensa insensatez, estupidez e ganância de alguns.

"Fotos de médicos em poses divertidas geram polémica" in Expresso
O humor é algo extraordinário. Pode-se fazer humor com praticamente tudo. Fazem-se piadas com o holacausto, com a religião e suas figuras, com as diferenças existentes entre as pessoas. Dentro em pouco, as pessoas farão "humor negro" desta catástrofe mas, por enquanto, as feridas estão longe de fechar e humor sobre o que aconteceu é como sal sobre carne exposta.
"Médicos". Esta palavra é sagrada demais para ser utilizada por indivíduos como esses. Um verdadeiro "médico" põem o semelhante muito à frente das suas pretensões pessoais. Esses palermas deveriam ter orgulho de poder disponibilizar os conhecimentos médicos em prol dos que sofrem.
"O pobre julgamento de uns poucos prejudica o enorme esforço que muitos outros fizeram para prestar cuidados médicos de qualidade", afirmou o secretário da Saúde de Porto Rico, Lorenzo Gonzalez. Frase estupenda! Espero que tome providências e, espero ainda mais, que os colegas porto-riquenhos destes patetas exijam uma punição.


"Dez americanos detidos quando tentavam sair do Haiti com 33 crianças" in Jornal de Notícias
Compreendo que ver crianças a sofrer é difícil para quem ainda tem coração. No entanto, existem formas mais simples, e honestas, de as proteger. Não vejo que arrancá-las do seu ambiente seja o melhor, já sofreram com a tragédia e agora são levadas para longe.
E, juro que ainda tentei não dizer isto, mas tinham de ser pessoas de uma igreja qualquer, sempre dispostos a ajudar (?).


"Hugo Chávez acusa EUA de provocar sismo no Haiti" in Económico
Quem acompanha este blog há mais tempo conhece a minha profunda e imensurável antipatia pelo Sr. Presidente da Venezuela, Hugo Chavez. Ele, que se diz o salvador dos povos sul-americanos, marxista, socialista, vem, nessa altura de desgraça, aproveitar para alfinetar o seu inimigo. Chavez ,se calhar, deveria preocupar-se mais com os mortos diários da violência de Caracas, em fechar as televisões que não transmitem os seus devaneios, com a falta de liberdade a que sujeita os seus compatriotas e com a opressão sobre os seus opositores. Já tinha com que se entreter...

Parece que o terremoto no Haiti foi "apenas" o 1º problema para aquele povo (sem contar os que já existiam antes)...

30 janeiro 2010

TV cabo vs Catsone

Passou algum tempo desde a última vez. Agora decidi radicalizar, correndo o risco de ser ordinário, mas não foi por falta de aviso.

Ontem, após 4 chamadas não atendidas, lá conseguiram falar comigo:
17:30
Trim-Trim Trim-Trim
Eu: "Estou"
TVCabo (TVC): "Boa tarde", voz feminina.
Eu: "Boa tarde"
TVC: "Estou a falar com o Sr. Catsone?"
Eu: "Espere um pouco, vou ali ver ao espelho"
TVC: "Desculpe?"
Eu: "Só um momento... Sim, parece que é ele quem fala"
TVC: "Pois... err... boa tarde. Meu nome é _________. Falo em nome da TV Cabo e tenho uma proposta para lhe fazer"
Eu:"A sério? Pensava que ligava para convidar-me para jantar."
TVC: "Não, mas é bem visto. Já tem o nosso serviço Fantastic Life?"
Eu: "Não"
TVC: "Não? Olhe, é um plano com 70 canais por mais X€. Interessado?"
Eu: "Quantos canais pôrno há nesse plano?"
TVC: "Errr... hum... desculpe mas não há nenhum. Se quiser tem que contratar à parte."
EU: "Sabe que estou insatisfeito. Quando contratei a TV Cabo havia um canal desses filmes e agora nada..."
TVC: "Pois, mas agora só existem à parte"
EU: "Ok. Mas nestes canais "à parte" existe algum bestial?"
TVC: "Não sei porque não aprecio muito esse tipo de filmes"
EU: "Não é isso. Perguntei se há algum de bestialidade"
TVC: "(silêncio)... dê-me um segundo, SFF"

Música...

TVC: "Está? Sr. Catsone, não percebi muito bem a sua questão. Que tipo de filmes passam nesses canais"
EU: "Sexo com animais"
TVC: "..."
EU: "Estou?"
TVC: "Desculpe, mas não temos estas opções de canais".
EU: "Que pena. E de sodomia, há?"
TVC: "Filmes gay?"
EU: "Desculpe lá, está a chamar-me homossexual?"
TVC: "Desculpe, Sr. Catsone. Mas como falou sobre sodomia..."
EU: "Estas práticas não existem apenas entre pessoas do mesmo sexo, certo?"
TVC: "Bem, realmente não sei"
EU: "Não sabe? Bem, não sabe o que perde. Continuação de boa tarde"
Tu-Tu-Tu-Tu


À incauta moça do call-center dedico esta melodia:



Sexo

Ultraje a Rigor

Sexo!
Sexo!
Como é que eu fico sem Sexo?
Eu quero Sexo! Me dá Sexo!

Hoje vai passar um filme na TV
Que eu já vi no cinema
Êpa! Mutilaram o filme
Cortaram uma cena...

E só porque
Aparecia uma coisa
Que todo mundo conhece
Se não conhece
Ainda vai conhecer
E não tem nada de mais
Se a gente nasceu
Com uma vontade
Que nunca se satisfaz
Verdadeiro perigo
Na mente dos boçais...

Corri pr'o quarto
Acendi a luz
Olhei no espelho
O meu tava lá
Ainda bem
Que eu não tô na TV
Senão ia ter que cortar...

Ui!
Sexo!
Como é que eu fico sem Sexo?
Eu quero Sexo! Me dá Sexo!
Sexo!
Como é que eu fico sem Sexo?
Eu quero Sexo! Vem cá Sexo!

Bom! Vá lá, vai ver
Que é pelas crianças
Mas quem essa besta pensa
Que é prá decidir?
Depois aprende por aí
Que nem eu aprendi...

Tão distorcido
Que é uma sorte eu não
Ser pervertido
Voltei prá sala
Vou ver o jornal
Quem sabe me deixam
Ver a situação geral
E é eleição, é inflação
Corrupção e como tem ladrão
E assassino e terrorista
E a guerra espacial
Socorro!...

Eu quero Sexo! Me dá Sexo!
Como é que eu fico sem Sexo?
Sexo!
Me dá Sexo! Me dá Sexo!
Eu quero Sexo!

Sexo! Eu quero Sexo!
Como é que eu fico sem Sexo?
Me dá Sexo! Me dá Sexo!
Eu quero Sexo!
Como é que eu fico sem Sexo?
Sexo!

Sexo! Eu quero Sexo!
Como é que eu fico sem Sexo?
Vem cá Sexo! Senta Sexo!
Vem cá Sexo! Me dá Sexo!
Solta Sexo!

24 janeiro 2010

Cratera


Imaginemos a imagem acima como a minha conta bancária.
As várias crateras pequenas serão as minhas contas mensais: água, luz, gás, cabo, net, etc e coisa e tal.
A enorme cratera central será a conta da revisão do meu popó.

Parece que, ao contrário do que se passa na lua, o resto do mês vai ter uma intensa gravidade...

21 janeiro 2010

Livro de instruções

O meu sol está na oficina para a revisão e estou com um carro emprestado pelo Stand da marca. Acho o carro confortável e tal, mas tem imensos botões. Botões para os vidros, para os retrovisores, para o rádio, para o cruise control, botões e mais botões. Tal é a confusão de botões que ainda não dei com o botão que "sopre" o ar para o vidro quando este fica embaciado!
Assim não! Tenho saudades do tempo em que, para guiar um carro, não necessitava de briefing ou livro de instruções. Aliás, sempre achei piada ao livro. Sempre com a foto do carro em branco e o desenho dos comandos e botões (essenciais) com as respectivas funções identificadas. Será que há pessoas que necessitam das informações das primeiras páginas "tipo": "como ligar o automóvel"?

Por causa dessa história dos milhentos botões e livros de instruções, numa conversa com uma amiga, ficamos a conjecturar sobre a utilidade daqueles manuais nos aviões prestes a cair.
Na Natgeo está sempre a passar um programa sobre acidentes aéreos. Em (quase) todos existe uma parte em que se acende uma luzita qualquer. O primeiro fulano a reparar no pisca-pisca (nada a ver com o post anterior), que nunca é o engenheiro de voo, diz a este último para ir ver do que se trata ao manual de instruções. A primeira pergunta é: esse engenheiro é o Sócrates? Se o gajo é engenheiro aeronáutico daquele modelo de avião, não deveria conhece-lo de trás para a frente? Podem dizer: sim claro, e tu conheces as pu"#$ das doenças todas, não? Ok, eu não conheço, mas ninguém ainda deu entrada no centro de saúde com uma luz a piscar...
E até parece que o avião está a espera de que o engenheiro, finalmente, descubra para que porra serve aquela luz para desatar a cair. Parece dizer: "demoraste muito, agora é tarde".
Com o avião a pique, com o nariz apontado para o solo, as imagens ficcionadas do cockpit mostram o homem, agarrado ao banco, a gritar o que ele pensa que se passa. Acho que é o que menos interessa naquele momento, o piloto quer é uma solução... e rápida.
Talvez deva existir, nos manuais dos aviões, um aviso do tipo: "se acender essa luz significa que estás Fod"#$". Era mais simples e evitava dramas desnecessários.

Voltando aos automóveis e seus botões, num domingo qualquer, estava a assistir ao TVturbo da Sic Notícias. Nesse programa faziam a "antevisão" (essa palavra é linda) do novo Opel Astra, passe a publicidade. Parece que o tabliê do carro tem 65 botões!
Acho que tinham botões para tudo menos para ejectar o condutor. Aliás, ter um botão de ejectar num carro desses seria um perigo: o que é que um fulano faz quando não sabe para que servem os botões? Experimenta todos! Era ver gajos a voar nas auto-estradas.

Parece-me que, com a quantidade de botões que os carros vão ganhando, vamos necessitar, num futuro próximo, de um engenheiro no banco de trás...

E já nem falo dos extras todos que um gajo pode por numa viatura... mas posso vir a falar.


19 janeiro 2010

Pisca-pisca

Em 1994, minha família regressou do Brasil. Tinha eu 18 anos e, no auge das hormonas, não encaixei esse regresso da melhor forma.
Ora vejamos, um fulano, com a liberdade proporcionada por uma carta de condução fresquinha, numa cidade com cerca de 20 milhões de habitantes (incluindo muitas "brasileiras", vejam bem!), onde existe de tudo à mão, não pode encarar muito bem a permuta para uma pachorrenta aldeia com 500 moradores (incluindo muitas idosas portuguesas tradicionais, bigode abrangido).
Em casa dos meus pais foi um pandemónio. Foi uma época de revolta intensa mas oprimida pela dependência (financeira e afins) dos pais.

A coisa serenou um pouco depois que o meu pai adquiriu um popó. Na altura, havia sido lançado no mercado o novo Seat Ibiza. Naquele tempo, era uma opção interessante: motor e materiais semelhantes aos VW a um preço mais acessível. O carro era bonitinho e, o melhor, ainda não estava associado ao "azeituning".
Esse carro passou a ser o carro da família e foi nosso durante anos a fio.
Nele, vivi aventuras extraordinárias. Foi meu companheiro em Coimbra, durante o curso. Foi minha sala, quarto e biblioteca em muitas ocasiões. Foi meu estúdio durante as viagens. Foi meu confessionário. Soube muito dos meus segredos e guardou-os com ele.
Foi um amigo especial e com ele fui criando novas memórias que, embora não apagasse as que tinha, foi diminuindo a minha "raiva" pela deslocação para cá.
Hoje, como escrevi num post anterior, adoro o Brasil, mas amo Portugal, e ele teve participação nessa metamorfose interior.

Vinha eu, noutro dia, no meu novo Seat Ibiza (ficamos fãs da marca, fazer o quê?), quando, mesmo à minha frente, revejo o meu amigo de 4 rodas.
Estava ali, tal e qual o tinha visto pela última vez.
Confesso que me senti traído. Quase como um filme porno, acusei-o de se ter entregue a outro alguém; de se ter deixado penetrar por outro...
Por kms, o meu velho companheiro, arrepiou caminho à minha frente. Senti uma nostalgia enorme e ele pareceu confessar-me os meus próprios segredos e pecados. Lembrei-me dos beijos dados ao som do seu rádio, das noites de maluqueira dos sábados, dos dias inteiros a estudar no seu interior, das idas à praia. E ele a lembrar-me que nunca me deixara na mão.
Por fim, o seu "amante" põem o pisca para a direita e o meu ex vai-se embora.

E posso vos jurar que senti que, aquele sinal de pisca-pisca, foi uma espécie de: "se eu pudesse falar o que sei..."






Deixo-vos com esta bela obra lírica que me recordou o título deste post:


16 janeiro 2010

Hai(de)ti

Milhares se calaram, outros estão prestes a se calar. Os restantes vociferam, choram e esperam a sua vez.

É incrivelmente triste. O que se passou no Haiti (tal como o que se passou na Ásia em 2004) é horrendo. Milhares de vidas que se perderam e a humanidade ficou mais pobre.
Nós, com estes milhares de kms que nos separam, vamos sofrendo com o que nos vai chegando. O desespero é tão grande que parece ter chegado um "maremoto emocional" a todos os cantos.
E não podemos fazer nada. Podemos doar alimentos, roupas, dinheiro, mas não doamos o essencial: uma mão. E isso me tem afectado.
Cresce a vontade de ajudar de outra forma. Cresce a vontade de estar lá, de tirar uma pedra, de libertar alguém, de coser, de tratar, de amparar. Esta impossibilidade mói...

No meio disto, liga-se a televisão e a "obrigatoriedade de informar" implica mostrar imagem de corpos trucidados, crianças a chorar, fome e destruição por toda a parte.
E a angústia aumenta.

Chega! Quando é que a decência e o bom senso retornam à casa mãe? Isso não é informar. Isso não ajuda ninguém, apenas aqueles que tem um desejo mórbido pela desgraça alheia.

Desligo a televisão. Peço que nunca apareça o meu corpo seminu, ensanguentado, perdido em meio a entulho e ferro retorcido, como um pedaço de carne sem história.

E se não posso estar lá fisicamente, estarei de outra forma.

13 janeiro 2010

De qualquer lugar

Paula Lisboa vivia em Coimbra, mais propriamente na Rua de Tomar. Morava com a melhor amiga, Joana Guimarães, uma rapariga que conhecia dos tempos de liceu, em Braga.
As duas eram estudantes de Geografia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e estavam no 3º ano.
Paula namorava com João Porto, que era albicastrense e vivia na Rua de Saragoça. João estava no último ano de Relações Internacionais e sonhava viver com Paula para Paris, Roma ou Londres.

Muitas vezes, nas noitadas, juntavam-se num bar da Rua do Brasil, com os melhores amigos: Rui Guarda, Carla Beja, ambos de Setúbal e um colega brasileiro de São Paulo, Washington Évora. Iam dançar para a Brodway ou para a States e bebiam sempre um Manhattan.

A vida era muito boa naquela altura

Paula tinha planos para o futuro: formar-se, conhecer o mundo, criar uma família. Ela, que nascera em Angola, nunca mais havia voltado à África e ansiava por (re)conhecer o “continente negro”.

Foi quando surgiu Francisca.

Francisca Santiago era uma linda rapariga. Seus traços exóticos denunciavam a mescla de genes indianos e lusos. Era caloira de relações internacionais, na mesma faculdade de Paula, e vinha numa espécie de intercâmbio entre as Universidades de Coimbra e de Goa.

Paula adoptou Francisca como sua caloira. Apresentou-a aos amigos que logo se deixaram enfeitiçar pela doçura da moça. Francisca tinha esse poder asiático de encantamento.

Francisca passou a ser a melhor amiga de Paula…









































No entanto, João Porto, namorado de Paula, traiu-a com a sua nova melhor amiga e ela, como boa geógrafa que era, mandou-o para a puta que o pariu!






Disneylândia
Titãs

Filho de imigrantes russos casado na Argentina
Com uma pintora judia,
Casou-se pela segunda vez
Com uma princesa africana no México

Música hindú contrabandiada por ciganos poloneses faz sucesso
No interior da Bolívia zebras africanas
E cangurus australianos no zoológico de Londres.
Múmias egípcias e artefatos íncas no museu de Nova York

Lanternas japonesas e chicletes americanos
Nos bazares coreanos de São Paulo.
Imagens de um vulcão nas Filipinas
Passam na rede dc televisão em Moçambique

Armênios naturalizados no Chile
Procuram familiares na Etiópia,
Casas pré-fabricadas canadenses
Feitas com madeira colombiana
Multinacionais japonesas
Instalam empresas em Hong-Kong
E produzem com matéria prima brasileira
Para competir no mercado americano

Literatura grega adaptada
Para crianças chinesas da comunidade européia.
Relógios suiços falsificados no Paraguay
Vendidos por camelôs no bairro mexicano de Los Angeles.
Turista francesa fotografada semi-nua com o namorado árabe
Na baixada fluminense

Filmes italianos dublados em inglês
Com legendas em espanhol nos cinemas da Turquia
Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos ingleses na Nova Guiné

Gasolina árabe alimenta automóveis americanos na África do Sul.
Pizza italiana alimenta italianos na Itália

Crianças iraquianas fugidas da guerra
Não obtém visto no consulado americano do Egito
Para entrarem na Disneylândia

12 janeiro 2010

Coração distraído


Agora, mesmo agora, lembrei-me de ti.
Acontece-me tantas vezes...
Assim, de repente, sem estar à espera.
Agora, exactamente como há dois minutos atrás.

Lembrei-me porque o coração bateu à porta
E perguntou à minha mente onde estarias.
E ela tentou lembrar-se do teu sorriso,
Do teu cheiro e do teu calor,
Dos teus gigantescos
olhos cheios de vida
Que quando se abrem, quase, permitem que te veja a alma.
Vagueou por memórias "prazerosas"
(Alimento da saudade).

A mente, depois destas lembranças,
Perguntou ao coração onde estaria ele com a "cabeça".
Afinal, ela mora bem lá dentro do músculo cardíaco,
num quarto quente e confortável.

O coração acalmou-se... por uns instantes.

10 janeiro 2010

Santo do caraças

"Santo padroeiro de Paraitinga é achado em escombros" G1

Parece que no meio de uma catástrofe onde houve feridos, destruição e terror, lá foi encontrada, no meio de escombros, uma imagem de um santo praticamente intacta.
Isso é que ser santo! As pessoas desesperadas, ameaçadas e com a vida por um fio, e o santo a salvar o próprio couro!

Aleluia!

09 janeiro 2010

Eu gosto é de mulher

Não podia deixar de escrever sobre o dia de ontem.
Parece que agora as pessoas podem casar com quem quiserem. Parece que é possível, finalmente, quem ama alguém, passar o resto da vida com essa pessoa, usufruindo dos mesmos direitos (ou quase) de qualquer outra dupla.
Tempos houve em que eu teria sido contra a lei aprovada ontem. Eram tempos no qual reinava o produto de uma educação católica, de direita e heterossexual tradicional. Esta educação forçava-me a avaliar como certo apenas o que era comum ou vulgar: uma normalidade condicionada.
Hoje mantenho-me heterossexual e levemente pendente para a direita, mas as experiências de vida levaram-me a encarar todos os cenários como possíveis.
Actualmente, não tenho pruridos em falar sobre o casamento homossexual. Não me custa aceitar que uma pessoa queira viver até o fim dos seus dias na companhia de quem ama, independente da cor, religião, posição política, profissão, cor clubística ou orientação sexual.
O que me custa, hoje em dia, é ver parceiros condenados a viver em relações falidas apenas porque "deus" impôs, ver mulheres batidas e violadas por mentecaptos, homens agarrados a mulheres irascíveis e fibromiálgicas, raparigas agarradas a príncipes que nunca deixarão de ser sapos. O que me custa é ver relações coladas com tudo, menos amor. Isso não quer dizer que estes problemas não ocorram com os homossexuais, onde também existem agressores e afins...
O que me custaria, ainda mais, era ter que ir às urnas votar esta lei. Custa-me ter que aguentar com a retórica do clero e beatas mal fodi"#! que vem para a televisão cuspir o seu ódio e intolerância. Se fosse para decidir se queria a porra do TGV, auto-estradas, 3ª travessia sobre o Tejo, ajudas a bancos, etc e coisa e tal, ía a correr para as urnas votar um valente NÃO!!!

A mim não mete medo o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que mete medo são comentários como os proferidos (no jornal da SIC, se não me engano) por um rapazinho, dos seus 20 anos, que professa o fim da raça humana com a aprovação dessa lei. A esse rapaz digo apenas que a lei não o obriga a casar com outro rapaz e que ele pode tentar passar os seu genes para a próxima geração... embora isso seja deveras deprimente.


Agora um vídeo para provar que sou hetero
Mr. Green



E a versão da Ana Carolina:




Eu Gosto De Mulher
Ultraje a Rigor
Composição: Roger Moreira

Vou te contar o que me faz andar
Se não é por mulher não saio nem do lugar
Eu já não tento nem disfarçar
Que tudo que eu me meto é só pra impressionar

Mulher de corpo inteiro
Não fosse por mulher eu nem era roqueiro
Mulher que se atrasa, mulher que vai na frente
Mulher dona-de-casa, mulher pra presidente

Mulher de qualquer jeito
Você sabe que eu adoro um peito
Peito pra dar de mamar
E peito só pra enfeitar

Mulher faz bem pra vista
Tanto faz se ela é machista ou se é feminista
'Cê pode achar que é um pouco de exagero
Mas eu sei lá, nem quero saber,
eu gosto de mulher, eu gosto de mulher
eu gosto de mulher

Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!
Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!
Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!
Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!
Ooo ooo ooo oo
Eu gosto é de mulher!

Nem quero que você me leve a mal
Eu sei que hoje em dia isso nem é normal

Eu sou assim meio atrasadão
Conservador, reacionário e caretão

Pra quê ser diferente
Se eu fico sem mulher eu fico até doente
Mulher que lava roupa, mulher que guia carro
Mulher que tira a roupa, mulher pra tirar sarro

Mulher eu já provei
Eu sei que é bom demais, agora o resto eu não sei
Sei que eu não vou mudar
Sei que eu não vou nem tentar

Desculpe esse meu defeito
Eu juro que não é bem preconceito
Eu tenho amigo homem, eu tenho amigo gay
Olha eu sei lá, eu sei que eu não sei,
Eu gosto é de mulher Eu gosto é de mulher

[Refrão]

Eu adoro mulher!
Eu não durmo sem mulher!

06 janeiro 2010

Desafi(n)o

Desafiou-me a Stôra Denise. Pedia ela que eu fizesse um auto-retrato. Há já algum tempo, "postei" um texto meu dos tempos da borbulha na cara, mas vamos lá ver o que me sai agora.

Eu sou um fulano não muito aprazível ao primeiro contacto. Sou assim, porquê já tive algumas decepções na vida e agora investigo antes de investir. No entanto, se considerar que vale a pena, torno-me num bom amigo.

Sou sonhador. Perco-me muitas vezes em cenários estranhos. Vivo situações inventadas (quase) como se fossem verdadeiras. É algo que me acompanha desde a infância e que pretendo manter; assim estou sempre entretido com alguma coisa.

Adoro música. Eu nem conheço os barulhos do meu carro, tal é o volume da música no interior do bólide. Entro em transe muitas vezes ao som de determinadas composições e, estas, são uma grande fonte de inspiração dos meus devaneios.

Gosto de futebol. Gosto de ver, discutir e, principalmente, jogar. A quantidade de endorfinas que segrego num só remate dava para por metade dos toxicodependentes de Coimbra numa trip do caraças!

Adoro a minha família. Faria tudo pelas minhas duas mulheres. Por vezes fico assustado...

Gosto muito mais de escrever do que de ler.

Gosto de uma noite com os amigos. Uma noite daquelas que inclua um bom jantar, piadas e histórias estúpidas/estranhas, uma cartada e um abraço de despedida depois de combinarmos a próxima noitada.

Gosto do Brasil, mas amo Portugal.

Sou viciado em café.

Não gosto de me auto-retratar. É dificílimo e, quase sempre, peca-se por defeito ou excesso. Prefiro os outros a fazê-lo...

E eu me amo... muito às vezes.



Eu Me Amo
Ultraje a Rigor

Há quanto tempo eu vinha me procurando
Quanto tempo faz, já nem lembro mais
Sempre correndo atrás de mim feito um louco
Tentando sair desse meu sufoco
Eu era tudo que eu podia querer
Era tão simples e eu custei pra aprender
Daqui pra frente nova vida eu terei
Sempre a meu lado bem feliz eu serei

Refrão
Eu me amo, eu me amo
Não posso mais viver sem mim

Como foi bom eu ter aparecido
Nessa minha vida já um tanto sofrida
Já não sabia mais o que fazer
Pra eu gostar de mim, me aceitar assim
Eu que queria tanto ter alguém
Agora eu sei sem mim eu não sou ninguém
Longe de mim nada mais faz sentido
Pra toda vida eu quero estar comigo

Refrão

Foi tão difícil pra eu me encontrar
É muito fácil um grande amor acabar, mas
Eu vou lutar por esse amor até o fim
Não vou mais deixar eu fugir de mim
Agora eu tenho uma razão pra viver
Agora eu posso até gostar de você
Completamente eu vou poder me entregar
É bem melhor você sabendo se amar



03 janeiro 2010

A terra dos feios


Em resposta ao desafio "Beleza" da Fábrica de Letras.


A terra dos feios

Na terra dos feios, tudo era feio.
As ruas da terra dos feios eram feias, os carros eram feios, as casas eram horríveis, a comida tenebrosa, o ambiente aterrador.
As pessoas da terra dos feios eram… feias, claro está. As pessoas casavam-se e tinham filhos feios, vestiam-se com roupas feias e viviam a sua existência isenta de beleza.
Mas as pessoas da terra dos feios aceitavam a sua feiura. Aliás, para eles, a noção do que era feio ou bonito não existia, e assim eram felizes.

A terra dos feios estava afastada da civilização. Para chegar à terra dos feios, era necessária uma viagem penosa por estradas perigosas, esburacadas e… feias.
Não existia electricidade e outro meio de comunicação senão um telefone e o correio. As pessoas, praticamente, não tinham contacto com outros que não fossem dali e permaneciam como uma ilha em pleno continente: isolados.
As pessoas tinham poucas posses. O pouco que se amealhava vinha da venda dos produtos da agricultura a comerciantes da cidade mais próxima. Sem posses e com tudo o que precisavam logo ali, nunca saiam da terra dos feios. Não havia imigração e os poucos, que saíram da terra, nunca mais regressaram.

Bela nasceu e cresceu na cidade dos feios. Era feia como as irmãs, pais e avós. Tradição de família. Porém, não era mais feia que a filha do vizinho. Eram ambas feias.
Bela estudou na mais feia (e única) escola da terra. Compartilhava a carteira com uma colega igualmente feia e sonhava namorar com o rapaz mais porreiro da turma. Esse, no entanto, estava apaixonado por uma bola, coisa de rapazes que crescem mais tarde.

Foi mais ou menos nesta altura que o progresso chegou à terra. Começavam a ser “plantados” os primeiros postes que trariam a electricidade à população. Com a chegada da “luz”, chegaram também outras modernidades. Primeiro foi uma, depois duas, mais tarde todas as casas estavam equipadas com uma televisão. Os populares começaram a ver as notícias e a ficção dos outros. E começou a ser introduzido um novo conceito: a beleza.
As pessoas começaram a estranhar as feições, a vestimenta e os trejeitos dos que apareciam na televisão. Começaram a se olhar de forma diferente. Deixaram de se ver como iguais. Iniciaram as comparações mútuas. Afinal existiam diferenças entre os nativos. Afinal a filha da vizinha era mesmo mais feia. Afinal o rapaz até podia ser o mais simpático da turma, mas não era definitivamente o mais bonito e perdeu o encanto.

Bela foi apanhada no meio da mudança. Começou a dar ao espelho uma importância que antes não lhe reconhecia. Desejou comprar os vestidos das meninas da novela e usou maquilhagem pela primeira vez.
Bela começou a ser cortejada pelos rapazes da terra, e compreendeu o significado do seu nome. Afinal era a bela, a mais bela da cidade. Sentiu algo que nunca sentira antes, um orgulho estranho. Começou a andar em bicos de pés e de nariz empinado. Sua companheira de carteira deixou de ser igual a ela e passou a ser a feia. Mudou-se de carteira e tentou encontrar uma colega mais digna da sua companhia. Perdeu amigos e arranjou modelos.
A sua beleza mudou-se do seu interior e alojou-se exclusivamente no seu invólucro. Tornou-se oca e supérflua.
E não foi a única a mudar.

A terra dos feios entrou numa metamorfose nunca antes vista. As casas passaram a primar pela cor e arrumação. As estradas estavam cuidadas e a escola decorada. Inauguraram-se novos prontos-a-vestir, cabeleireiros e perfumarias. A revolução da beleza chegara finalmente.
No entanto, as pessoas deixaram de se cumprimentar. Ninguém acenava a cabeça ou sorria. Passavam uns pelos outros e miravam-se dos pés à cabeça. Via-se e reconhecia-se algo que nunca existira antes: a inveja.

A terra dos feios terminou a metamorfose, passou de lagarta feia para borboleta rara. E, apesar de tantas mudanças e de tanta beleza, a terra dos feios manteve-se feia… cada vez mais.


Luís Fernandes Lisboa
®



Tim Maia: Imunização Racional (Que Beleza)

02 janeiro 2010

01 janeiro 2010

Começa bem...

"Nova Zelândia foi o 1º pais a entrar em 2010!" Telejornal RTP

Que coincidência, no ano passado foi igual!
E pró ano, qual será o 1º?




Isso é reciclagem jornalística, meus amigos!