02 fevereiro 2010

O velho de Vila Velha de Ródão


Em resposta ao desafio "velhice" da Fábrica de Letras:



O velho de Vila Velha de Ródão acordou. Mais uma manhã começara. Há 87 anos que era assim e sentia-se cansado, mas hoje seria diferente.
O velho de Vila Velha de Ródão estava só. Ecoavam os seus passos na pequena e vazia casa de pedra. O chão, de madeira gasta, gemia à sua passagem. A casa, que o vira nascer, estava cansada de estar de pé e começava a ceder à passagem do velho e do tempo.
O velho de Vila Velha de Ródão olhou-se ao espelho. Observou o rosto cravejado de anos e, no seu lugar, imaginou a face do rapaz que outrora corria por ali. Aquele jovem de Vila Velha de Ródão, que um dia sonhou conhecer Lisboa, voltara por uns instantes mas, como da 1ª vez, lá se foi embora, deixando uma cara decadente a reflectir no vidro.
Ao espelho, o velho de Vila Velha de Ródão concertou o nó da gravata. Há anos que aquela peça jazia no fundo da gaveta e, por esta ocasião tão especial, resolveu tirá-la da reforma. Esfregou um pouco de “Old Spice®” na cara e preparou-se para sair.
O velho de Vila Velha de Ródão chegou ao café da vila. Lá cumprimentou muitos outros velhos de Vila Velha de Ródão que, tal como ele, cheiravam à naftalina e a braseiro e bebiam aguardente velhíssima.
Os velhos de Vila Velha de Ródão falavam alto uns com os outros, uns porque ouviam mal, outros para espantar a solidão. Notava-se, por entre as rugas, olhos de ansiedade.

Uma voz chamou pelos velhos de Vila Velha de Ródão. Levou-os até à praça principal onde se encontravam as velhas de Vila Velha de Ródão em grande algazarra. Reuniram-se todos à volta de um autocarro. À frente da enorme viatura um letreiro a “dizer” Lisboa.
No interior do autocarro, os velhos e velhas de Vila Velha de Ródão cantavam canções quase tão velhas como os próprios. Comungavam histórias de fome, perdas, dores e sonhos. Alguns faziam força para conter as gotas salgadas que lhes brotavam nos olhos ao lembrarem-se dos que já não estavam, outros simplesmente davam azo à maré.
Os velhos de Vila Velha de Ródão chegaram à metrópole. Espantaram-se com o tamanho dos prédios, com o barulho da urbe, com o ar pesado e sujo, com a mistura das gentes.
Alguns velhos de Vila Velha de Ródão, recusaram-se a sair do transporte, alguns caminharam como não faziam há anos. Uns estavam siderados, outros fascinados, outros (a maioria?) estavam assustados.

Aquele rapaz que aparecera ao espelho pela manhã, ressurgia agora na carne e ossos muito usados do velho de Vila Velha de Ródão. Agora, o rosto sorria, os males da carne não doíam, no seu coração apenas felicidade, daquela pura e enérgica, como não conhecia há anos.
Lisboa era grande, maior que nos seus sonhos. Era bela,sinuosa, maliciosa; nas suas colinas sonhou lânguidas colinas de moça.
Viu o sol a reflectir nas prateadas águas do seu tão conhecido Tejo, aqui mais belo e maior do que nunca. Pensou no rio como um menino que saiu da sua Vila Velha de Ródão e se fez homem na cidade grande.
Viu partir um navio e sonhou os lugares maravilhosos que poderiam ser destino mas não desejou estar noutro lugar naquele momento.
Sentiu a brisa quente lamber-lhe a face... lembrou-lhe as travessuras da juventude.
Inspirou forte, sorveu o ar da capital.

A voz, novamente, chamou pelos velhos de Vila Velha de Ródão, acordando-os do transe.
Num misto de êxtase e desilusão, lá entraram no autocarro e fitaram, ainda de pé, a despedida da grande cidade. Pareciam os que ficavam em terra a ver os navios zarpar, acenando até perder o objecto no horizonte.
Assim também foi com Lisboa que rapidamente desapareceu por trás de um monte.

O velho de Vila Velha de Ródão rodou a chave e entrou na sua, também, velha casa. Arremessou a gravata para a gaveta e sentou-se por alguns segundos à beira da cama. Olhou pela janela fosca sem intenções de ver o exterior. Na sua mente as luzes de Lisboa, seu sonho cumprido.
Levantou-se e foi à casa-de-banho. Olhou ao espelho e não viu rugas, não viu cabelos brancos ou falta de dentes. Viu aquele jovem de Vila Velha de Ródão que sorria-lhe satisfeito, piscando-lhe o olho de forma marota.

E o jovem de Vila Velha de Ródão retornara para nunca mais fugir. Todas as manhãs aparecia reflectido no espelho e presente no coração e mente do velho de Vila Velha de Ródão, para provar que apenas o corpo envelhece.

Luís Fernandes Lisboa
®

Monumento Natural Portas de Ródão (google)


15 comentários:

Francisco Vieira disse...

Ok, eu confesso; nao gosto de ler. Por vezes faco um esforco para comentar alguns posts que exigem uma leitura mais profunda e me obrigam a marrar no texto.

Mas este teu texto amarrou-me ao ecra, como ha tempos nao me acontecia.
Estiveste muito bem e este conto transporta-nos. Parabens!

Um abraco e boa noite.

Sahaisis disse...

;)

Brown Eyes disse...

Apenas o corpo envelhece mas é o suficiente para provocar uma grande angústia. A icapacidade que vai aumentando, de ano para ano, leva à angustia de uma vida habituada a ser auto-suficiente.

johnny disse...

Muita sorte, a deste homem, de ver ao espelho o que sentia por dentro.

Pegadas disse...

“Ser velho é a guerra já ter acabado, e saber onde estão os refúgios agora inúteis”
Joan Margarit
Ser velho, ter consciencia disso e acima de tudo gostar de sê-lo! Uma lição de vida!
Abraço

Eva Gonçalves disse...

Gostei francamente deste texto. :) That's the spirit! Apenas o corpo envelhece... mas isso, a ironia da vida só mais tarde ensinará aos mais jovens :)Abraço

Catsone disse...

Francisco, boa noite! Obrigado pelo teu sincero comentário. Grande abraço.

Sahisis, :P

Brow eyes, já nem quis por aí, senão teria muito mais linhas para escrever ;)

Johnny, quem nos dera chegar aos 80 vendo-nos jovens como neste texto.

Pegadas, o pior da vida é não saber envelhecer. E ainda vou só nos 30's e já me custa olhar para trás...
Abraço.

Eva, obrigado. Espero só perceber a vida lá pelos 90-95... :)

pinguim disse...

O segredo é precisamente esse: olhar para o espelho e ser capaz de distinguir o natural envelhecimento físico do envelhecimento interior, que pode permanecer jovem enquanto quisermos...
Muito bela a comparação dos dois momentos do Tejo...

Gravepisser disse...

Bolas... Mas era tudo assim tão velho? A vila, o after-shave, o próprio senhor... Quase fico com rugas, só de ler isto. :D

Agora a sério: excelente, uma vez mais.

Ainda darei a minha contribuição deste mês, já tenho uma ideia do que vou escrever, mas a preguiça... :p

Abraço

meldevespas disse...

Gostei muito do teu texto. Gostei do desassossego que este velho ainda sentia, gostei de o ver cumprir a sua vontade, e ganhar a mocidade de volta, mesmo que só por dentro.
Beijinhos

Lala disse...

E não será dentro de cada um de nós que está a nossa "idade real"?

Fantástico!

Gingerbread Girl disse...

Se quando for velha, me meterem num autocarro e me levarem a Lisboa, vamos ter problemas. -.-'
Ainda se for Paris, ou assim...

:p

Mas olha, gostei muito do texto. Muito suave e intenso ao mesmo tempo. ;)


**

Catsone disse...

Ó Ginger, 2 dias de autocarro para Paris? E para veres milhões de franceses?

*

continuando assim... disse...

Convite para ler

O livro "Continuando assim...", foi maltratado...

Resolvi por isso, e porque tanta gente não encontra o livro onde deveria estar (nas livrarias), recontar a história , lá no
…. Continuando assim…

Vamos em metade da história, o livro reescrito , não está igual (nem podia) ao que foi editado.
Um obrigada especial a quem segue (pois só vale a pena assim).
A quem chega de novo, umas boas vindas sinceras. E outro obrigada .

Mais uma reflexão em relação a todo este assunto, e um conselho, se é que me é permitido:

--- quando vos pedirem dinheiro para editar as vossas palavras, simplesmente digam que não ---
Bj
Teresa

Dulce Santana disse...

Há 4 anos vim eu de Lisboa, para...Vila Velha de Ródão!
Neguei-a, pois não ara a minha raiz, fugi dela tantas vezes quantas o comboio me permitiu!
Hoje, venho aqui, depois de ter partilhado este texto, com uma sensação estranha!
Será que a raiz não é aqui?!
Não sei se me farei velha aqui...e a minha Lisboa|Almada não sendo miragem é cada dia mais uma lembrança boa!
Grata
Dulce Santana