16 janeiro 2010

Hai(de)ti

Milhares se calaram, outros estão prestes a se calar. Os restantes vociferam, choram e esperam a sua vez.

É incrivelmente triste. O que se passou no Haiti (tal como o que se passou na Ásia em 2004) é horrendo. Milhares de vidas que se perderam e a humanidade ficou mais pobre.
Nós, com estes milhares de kms que nos separam, vamos sofrendo com o que nos vai chegando. O desespero é tão grande que parece ter chegado um "maremoto emocional" a todos os cantos.
E não podemos fazer nada. Podemos doar alimentos, roupas, dinheiro, mas não doamos o essencial: uma mão. E isso me tem afectado.
Cresce a vontade de ajudar de outra forma. Cresce a vontade de estar lá, de tirar uma pedra, de libertar alguém, de coser, de tratar, de amparar. Esta impossibilidade mói...

No meio disto, liga-se a televisão e a "obrigatoriedade de informar" implica mostrar imagem de corpos trucidados, crianças a chorar, fome e destruição por toda a parte.
E a angústia aumenta.

Chega! Quando é que a decência e o bom senso retornam à casa mãe? Isso não é informar. Isso não ajuda ninguém, apenas aqueles que tem um desejo mórbido pela desgraça alheia.

Desligo a televisão. Peço que nunca apareça o meu corpo seminu, ensanguentado, perdido em meio a entulho e ferro retorcido, como um pedaço de carne sem história.

E se não posso estar lá fisicamente, estarei de outra forma.

9 comentários:

Gingerbread Girl disse...

É mesmo isso... poder estar lá e ajudar, faria toda a diferença.
Uma pessoa até de sente estúpida por doar €5, enquanto se está deitadinho no sofá. :s

Sara disse...

AInda hoje de manhã olhava para essas imagens "desinformadoras" e apeteceu-me saltar pelo ecrã... Todos os nossos "pseudo-mínimos-problemas" se tornam ainda mais insignificantes perante tudo aquilo... quis de uma forma tão visceral saltar esta inercia burocrática em que nos envolvemos e, de facto, ser uma mão real naquele cenário... E sei que um dia o vou fazer. Até lá...partilho o teu sentimento!
(A Marques)

Sahaisis disse...

Não me dei ao trabalho de ver as notícias..ontem quando liguei a TV passei pela TVI (logo o melhor de todos) e lia-se um e-mail de uma portuguesa que estava por lá...achei aquilo de uma falta de respeito e de um sensacionalismo nojentos. Também eu partilho do teu sentimento. Quem me dera ter a coragem (e a experiência) para largar tudo e ajudar (com o pouco que sei), ontem do outro pouco que vi, médicos e enfermeiros é do que mais falta faz por lá...

Francisco Vieira disse...

Acima de tudo, angustia-me esta sensacao de que acontece sempre aos mais desfavorecidos.

Está certo, houve um maior numero de vitimas por metro quadrado porque as cidades estavam exageradamente povoadas, mas o certo é que a merda da terra tinha de tremer logo ali! Nao podia tremer no meio do deserto, onde nao mora ninguem?!

Abracos e bom fim de semana, Cat

Gravepisser disse...

Já metem nojo, a comunicação social neste país vai de mal a pior. Deixou de se poder ver o telejornal à hora das refeições, porque é simplesmente impossível engolir o que quer que seja, com o cenário dantesco que descreves como pano de fundo.
Aproveitarem-se de uma tragédia desta dimensão para terem mais audiências, não só é moralmente reprovável, como é repugnante e deveria ser proibido.
Se fosse possível fazer algo mais do que lamentar, e ter-se aquele povo no pensamento, fá-lo-ia. Mas não posso. Dias melhores virão, há que pensar assim...

pinguim disse...

Eu não sei o que hei-de dizer desta tragédia...
As imagens não ajudam, é claro, a não ser quando se vê alguém a salvar-se; e depois há uma certa hipocrisia nas ajudas sem um imediato, mas mesmo IMEDIATO plano de socorro àquela gente; passados dias ainda se aguarda a chegada de soldados americanos que salvaguardem a distribuição de comida a uma população absolutamente esfomeada; é o caos, na sua mais crua realidade!!!

Catsone disse...

Ginger, nem mais.

Marques, quando fores (talvez) faça-te companhia.

Sahaisis, foste logo parar à TVI? lol. Acho que tu és uma pessoa que faz, realmente,falta por lá (digo isso de forma sincera).

Francisco, boa noite! O problema é que as construções de lá devem ser de areia e ferro! A terra treme quase diariamente no Japão e as casa não caem (ou pelo menos tantas).

Grave, podes crer. Almoçar com a televisão ao pé até dá um sentimento de culpa.

Pinguim, tens razão. Já não bastava o sismo, agora chegam a doença e a violência, irmãs gémeas do sofrimento!

Sahaisis disse...

cats: não sei se isso é um elogio: vais masé pó haiti pá :P...agora a sério, conheço um dos tipos do INEM que foi para lá e sinto uma inveja imensa dele, poder ajudar de verdade, com conhecimento, com capacidade técnica, salvar vidas, o que em ultima análise fomos ensinados a fazer (ou não), right?

Catsone disse...

Gostaria de ir, mesmo muito, mas, infelizmente não é possível :(

Mas tenho planos para África num futuro. Estou farto de gajos gordos, diabéticos, hipertensos, e afins, que, não responsabilizados, fazem o que querem e o que não querem. Se, por exemplo, os diabéticos tivessem tratamentos e análises pagos por objectivos (com análises próximas do controlo, manutenção do peso, etc, certo? Mas isso foi só um desabafo sobre a ingratidão de alguns.

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