Chamo o doente ao gabinete. Vem hoje à consulta para mostrar alguns exames pedidos da última vez que nos encontramos.
Após as conversas de ocasião típicas de um encontro com qualquer outra pessoa, com os "bons dias" e "como tem passado" da praxe, peço-lhe os exames.
Depois de dar uma vista d'olhos a cada uma das provas ressalvei uma alteração no seu electrocardiograma.
- Bem, está tudo "ok" com os exames, Sr. "Manuel" (fictício). No entanto, aqui no seu ECG tem uma coisita menos bem, uma espécie de arritmia chamada fibrilhação auricular.
- Ó, Dr, eu sei porque tenho essa arritmia.
- Sabe? Então diga lá porquê (já ansiando por uma daquelas deliciosas histórias).
- É por causa dos nervos, Dr. E digo-lhe mais, até sei quando é que começou.
- A sério? O quê? A arritmia ou os nervos.
- Os nervos... ou se calhar os dois. Pois bem, em 1900 e troca o passo, aqui perto do Centro de Saúde, houve uma trovoada muito forte. Andava eu no ventre da minha mãe, está a ouvir? Bem, acontece que nesse dia caiu uma faísca na casa vizinha da dos meus pais. O raio da faísca entrou pela chaminé e matou a senhora da casa que ficou carbonizada, está a ver? A minha mãezinha que ouviu o estrondo, e depois viu o corpo da mulher toda desfeita, apanhou uma carga de nervos tal que passou para mim que estava na barriga. Desde essa altura que sou estressado e é de certeza daí que vem essa arritmia.
- Pronto, tudo bem... mas vamos ter de tomar medicação, ok?
- Prós nervos?
- Não, Sr. Manuel, para a arritmia...
Quisera eu que tudo em medicina fosse tão fácil de explicar...
11 julho 2014
30 maio 2014
Foxy fox
A raposinha convidou-o para um passeio.
O pequeno e matreiro canídeo puxou-lhe pela mão e cantou-lhe doces notas etílicas na regouga, enfeitiçando-o.
Ele, não resistindo-lhe aos encantos, deixou-se ir.
Subiram o monte em direcção ao covil da pequena raposa quase sem tocar o chão, tal era a leveza porporcionada pela hipnose do etilo.
Chegaram a toca da raposinha no cimo do monte, confortavelmente encondida entre verdes parras e formosas vides, e por lá ficaram.
Comemoraram durante horas a comunhão entre os dois. Dançaram cada vez mais rápido e pularam cada vez mais alto. Ele cantou cada vez mais desafinado e cambaleou cada vez mais embriagado. Após algum tempo de júbilo consumo, aterrou violentamente no chão, vencido pela vertigem alcoolémica e pelo peso saboroso do sumo arroxeado oferecido pela anfitriã.
Por fim, perdeu de vez todos os sentidos.
A raposinha vencera o fraco humano. Do cimo do seu monte ouviu-se uma espécie de uivo de triunfo estranhamente familiar... talvez, quem sabe, por se repetir com alguma frequência.
O pequeno e matreiro canídeo puxou-lhe pela mão e cantou-lhe doces notas etílicas na regouga, enfeitiçando-o.
Ele, não resistindo-lhe aos encantos, deixou-se ir.
Subiram o monte em direcção ao covil da pequena raposa quase sem tocar o chão, tal era a leveza porporcionada pela hipnose do etilo.
Chegaram a toca da raposinha no cimo do monte, confortavelmente encondida entre verdes parras e formosas vides, e por lá ficaram.
Comemoraram durante horas a comunhão entre os dois. Dançaram cada vez mais rápido e pularam cada vez mais alto. Ele cantou cada vez mais desafinado e cambaleou cada vez mais embriagado. Após algum tempo de júbilo consumo, aterrou violentamente no chão, vencido pela vertigem alcoolémica e pelo peso saboroso do sumo arroxeado oferecido pela anfitriã.
Por fim, perdeu de vez todos os sentidos.
A raposinha vencera o fraco humano. Do cimo do seu monte ouviu-se uma espécie de uivo de triunfo estranhamente familiar... talvez, quem sabe, por se repetir com alguma frequência.
15 maio 2014
Pai sofre XXXIV - Terror
As pessoas dizem ter medos. Têm medo da doença e/ou da morte. Têm medo do roubo e da violência e medo da pobreza e da solidão. Há pessoas que temem de tudo um pouco e temem o escuro, as aranhas, os outros e a ira de Deus.
Declaro-me aqui também medroso: eu que também tenho medos, inúmeros deles. Medo da mentira, da traição, da perda de bens materiais ou da minha dignidade. Tenho medo da incapacidade física e, não raras vezes ultimamente, medo do meu futuro e do da minha família.
Já experimentei vários medos. Já tive cagunfa, já fugi, já fiz frente a alguns dos meus temores. Senti o medo correr-me pela espinha e o gelo a apoderar-se-me das veias, mas confesso que nunca tinha experimentado o terror.
Nunca tinha sentido de perto o efeito físico do pavor.
Agarrei a mão da mais nova e atravessamos a estrada. Para trás ficava a pequena sacada (se é que se pode chamá-la assim) da casa dos meus sogros.
De repente ouvi um grito desesperado da minha senhora a chamar pelo nome do mais pequenito que, entretanto, fugira ao controlo de 3 adultos e do seu próprio pai. O pequeno atravessava a estrada no exacto momento em que se aproximava um automóvel.
Ao ouvir a mãe e, ao imaginar o que poderia ser, deixei a mais velha junto ao meu carro e corri para a estrada sem sequer me preocupar com o que me pudesse vir a acontecer.
Meu olhos estavam apenas fixos no miúdo e o meu objectivo era arrancá-lo o mais depressa possível do meio da estrada. Só depois de o ter nos braços reparei que o condutor, muito prudente e ao qual não tive oportunidade de agradecer, vinha numa velocidade correcta para aquele local e tinha abrandado ao ver a criança.
Agarrado aos meus braços, o rapaz sorria sem imaginar pelo que passara. A mãe, os avós e eu, desesperados e aturdidos, olhavam uns para os outros com expressões faciais desconhecidas. Num ataque irracional de desespero, tentava-se arranjar desculpas e culpas para o acontecido.
Geralmente os meus medos ficam dentro do meu corpo apenas alguns segundos e reflectem-se no tremer do corpo e na boca seca. Passados alguns minutos volta tudo ao normal. Neste caso foi diferente: o corpo não compreendeu o que se passou; não tremeu, não gelou, apenas reagiu de forma automática em resposta a uma mente aflita. E foi mesmo a mente que ficou com mazelas do acontecimento já que durante todo o resto do dia a cena repetiu-se na cabeça mas sempre com os finais alternativos mais tenebrosos que se possam imaginar.
Como confessei acima, já tive vários confrontos com medos mas nunca tinha sentido algo que ficasse incrustado desta forma no coração e no espírito. Imaginar a vida sem um dos meus pequenos...
O rapaz e a irmã vieram a viagem de regresso a cantar alegremente uma canção infantil qualquer; eu chorei ao longo de todo o caminho: tinha finalmente tido contacto com o sentimento de "terror".
Declaro-me aqui também medroso: eu que também tenho medos, inúmeros deles. Medo da mentira, da traição, da perda de bens materiais ou da minha dignidade. Tenho medo da incapacidade física e, não raras vezes ultimamente, medo do meu futuro e do da minha família.
Já experimentei vários medos. Já tive cagunfa, já fugi, já fiz frente a alguns dos meus temores. Senti o medo correr-me pela espinha e o gelo a apoderar-se-me das veias, mas confesso que nunca tinha experimentado o terror.
Nunca tinha sentido de perto o efeito físico do pavor.
Agarrei a mão da mais nova e atravessamos a estrada. Para trás ficava a pequena sacada (se é que se pode chamá-la assim) da casa dos meus sogros.
De repente ouvi um grito desesperado da minha senhora a chamar pelo nome do mais pequenito que, entretanto, fugira ao controlo de 3 adultos e do seu próprio pai. O pequeno atravessava a estrada no exacto momento em que se aproximava um automóvel.
Ao ouvir a mãe e, ao imaginar o que poderia ser, deixei a mais velha junto ao meu carro e corri para a estrada sem sequer me preocupar com o que me pudesse vir a acontecer.
Meu olhos estavam apenas fixos no miúdo e o meu objectivo era arrancá-lo o mais depressa possível do meio da estrada. Só depois de o ter nos braços reparei que o condutor, muito prudente e ao qual não tive oportunidade de agradecer, vinha numa velocidade correcta para aquele local e tinha abrandado ao ver a criança.
Agarrado aos meus braços, o rapaz sorria sem imaginar pelo que passara. A mãe, os avós e eu, desesperados e aturdidos, olhavam uns para os outros com expressões faciais desconhecidas. Num ataque irracional de desespero, tentava-se arranjar desculpas e culpas para o acontecido.
Geralmente os meus medos ficam dentro do meu corpo apenas alguns segundos e reflectem-se no tremer do corpo e na boca seca. Passados alguns minutos volta tudo ao normal. Neste caso foi diferente: o corpo não compreendeu o que se passou; não tremeu, não gelou, apenas reagiu de forma automática em resposta a uma mente aflita. E foi mesmo a mente que ficou com mazelas do acontecimento já que durante todo o resto do dia a cena repetiu-se na cabeça mas sempre com os finais alternativos mais tenebrosos que se possam imaginar.
Como confessei acima, já tive vários confrontos com medos mas nunca tinha sentido algo que ficasse incrustado desta forma no coração e no espírito. Imaginar a vida sem um dos meus pequenos...
O rapaz e a irmã vieram a viagem de regresso a cantar alegremente uma canção infantil qualquer; eu chorei ao longo de todo o caminho: tinha finalmente tido contacto com o sentimento de "terror".
17 abril 2014
Crónica de uma morte anunciada
Há 4 anos escrevi o texto que se segue para desabafar. Andava eu triste e revoltado com o comportamento dos jogadores do FCP após uma derrota contra o nosso maior rival. Naquela altura não suportei o facto de jogadores com a camisa do Porto andarem a distribuir pontapés nos colegas de profissão para esconderem a incapacidade de dar a volta a um resultado.
Daí para cá já fomos tricampeões nacionais, campeões da Taça de Portugal, da Supertaça e da Liga Europa.
Hoje faço um "re-post" daquele texto. No entanto, penso que a derrota de ontem foi mais perversa. Foi o culminar da época mais medíocre de que tenho memória e desde que há 20 anos me apaixonei pelo clube da Invicta.
O problema não é perder para o benfica. O problema reside na incompetência, na ausência de ideias, na confusão reinante e, principalmente, no "baixar dos braços". Não ponho em causa todo o mérito do adversário, para além de injusto seria uma grande estupidez, mas não posso tolerar que se entregue os pontos daquela maneira; no FCP luta-se sempre (vide o campeonato passado)!
Fico a imaginar a quantidade de miúdos portistas que dariam tudo pelo sonho de alguma vez poderem representar o clube num jogo oficial e andam aqueles carcamanos a fazer figuras de parvo com o emblema do FCP ao peito!!!
Espero que este post, tal como o anterior, preceda uma nova era de glória. Se for como há 4 anos, não me importo de escrever isto novamente em 2018.
"O meu FCP está moribundo; procura uma nova toca onde se possa enfiar e curar as suas profundas feridas. Ontem foi atacado na sua integridade física por uma águia sem escrúpulos que se aproveitou (e bem) das fragilidades do réptil alado cuspidor de fogo.
O FCP está doente. Nele residem fungos e bactérias multi-resistentes que o vão corroendo por dentro. Esses bichos controlam a instituição e fazem com que pareça, e se comporte, com o que não é. Não há veneno, medicamento e justiça que os destrua.
O meu FCP está descaracterizado. Não tem Baías, Pintos, Gomes e Costas para o defender. Tem representantes medíocres, violentos, trapaceiros e ensandecidos que tentam vencer a todo o custo. Envergonham o clube e não são dignos da camisa azul e branca que envergam... para não falar da braçadeira de capitão.
Tenho saudades daqueles que davam tudo em campo, que não se cansavam, que vibravam com as vitórias, que detestavam e não se conformavam com as derrotas, que tinham brio, eram ilustres e nobres; tenho saudades de jogadores a Futebol Clube do Porto: Homens de garra e glória.
Os que lá estão deixaram-se matar. Ajoelharam-se perante o maior inimigo, envergonharam os que sofrem pelo FCP; são fracos, pequenos e sem carácter; não servem para o clube, não suportam o peso do emblema e dos mais de 100 anos de história da instituição.
Não vou dar os parabéns ao adversário. Não me levem a mal os amigos benfiquistas que por aqui passam, mas ponham-se no meu lugar: perder para o rival? Não é fácil... e sem dar o mínimo de luta...Ontem foi mais uma batalha perdida, mas é normal perder para um grande adversário e o que entristece é saber que este FCP já perdeu a batalha contra si mesmo.
Que se encontre cura para as nossas maleitas e que possamos enfrentar os demais com a força de outrora."
Suspiro...
Daí para cá já fomos tricampeões nacionais, campeões da Taça de Portugal, da Supertaça e da Liga Europa.
Hoje faço um "re-post" daquele texto. No entanto, penso que a derrota de ontem foi mais perversa. Foi o culminar da época mais medíocre de que tenho memória e desde que há 20 anos me apaixonei pelo clube da Invicta.
O problema não é perder para o benfica. O problema reside na incompetência, na ausência de ideias, na confusão reinante e, principalmente, no "baixar dos braços". Não ponho em causa todo o mérito do adversário, para além de injusto seria uma grande estupidez, mas não posso tolerar que se entregue os pontos daquela maneira; no FCP luta-se sempre (vide o campeonato passado)!
Fico a imaginar a quantidade de miúdos portistas que dariam tudo pelo sonho de alguma vez poderem representar o clube num jogo oficial e andam aqueles carcamanos a fazer figuras de parvo com o emblema do FCP ao peito!!!
Espero que este post, tal como o anterior, preceda uma nova era de glória. Se for como há 4 anos, não me importo de escrever isto novamente em 2018.
Crónica de uma morte anunciada
O FCP está doente. Nele residem fungos e bactérias multi-resistentes que o vão corroendo por dentro. Esses bichos controlam a instituição e fazem com que pareça, e se comporte, com o que não é. Não há veneno, medicamento e justiça que os destrua.
O meu FCP está descaracterizado. Não tem Baías, Pintos, Gomes e Costas para o defender. Tem representantes medíocres, violentos, trapaceiros e ensandecidos que tentam vencer a todo o custo. Envergonham o clube e não são dignos da camisa azul e branca que envergam... para não falar da braçadeira de capitão.
Tenho saudades daqueles que davam tudo em campo, que não se cansavam, que vibravam com as vitórias, que detestavam e não se conformavam com as derrotas, que tinham brio, eram ilustres e nobres; tenho saudades de jogadores a Futebol Clube do Porto: Homens de garra e glória.
Os que lá estão deixaram-se matar. Ajoelharam-se perante o maior inimigo, envergonharam os que sofrem pelo FCP; são fracos, pequenos e sem carácter; não servem para o clube, não suportam o peso do emblema e dos mais de 100 anos de história da instituição.
Não vou dar os parabéns ao adversário. Não me levem a mal os amigos benfiquistas que por aqui passam, mas ponham-se no meu lugar: perder para o rival? Não é fácil... e sem dar o mínimo de luta...Ontem foi mais uma batalha perdida, mas é normal perder para um grande adversário e o que entristece é saber que este FCP já perdeu a batalha contra si mesmo.
Que se encontre cura para as nossas maleitas e que possamos enfrentar os demais com a força de outrora."
Suspiro...
13 abril 2014
94
Ela faz 94.
94 anos é muito tempo. Dos meus trinta e tais vejo-os ainda longínquos e custa-me crer que por lá passarei.
Por vezes fico a pensar em tudo o que ela passou e em tudo o que viu ao longo desses longos anos.
Ela viu, seguramente com espanto, a tecnologia dominar o quotidiano do homem. Viu o carro passar de novidade extraordinária à obsessão desnecessária. Ela viu a televisão invadir as casas e afastar as conversas da hora do jantar e também viu as pessoas passarem a conversar através de pequenos aparelhos que trazem nos bolsos das calças. Ela também soprou as velas de casa e ligou os interruptores da recém-chegada electricidade. Ela deve ter achado estranho as lembranças passarem da mente para películas de fotografia, depois para computadores e depois para lugares virtuais dos quais ela nem sequer sonha. Deve ter ficado abismada com os riscos no céu feitos pelos aviões, esses mesmos aparelhos que a levariam, anos depois, para o lado de lá do Atlântico.
O que lhe passará hoje pela cabeça quando observa este mundo e o compara com aquele, muito mais simples, que conheceu na infância?
Certamente passou por muito nesta sua longa vida. Nasceu em tempos de miséria, viveu sem luxos mas ainda foi a tempo de conhecer estes nossos tempos de fartura obscena. Viveu em tempos de guerra. Conheceu vária ditaduras e uma revolução.
Viveu na ignorância das letras por culpa de uma vida dura, por culpa de uma cultura de trabalho e dedicação a outros bens essenciais.
A sua história de amor originou 3 filhas, 9 netos e 14 bisnetos. Penso muitas vezes na sua importância para a minha própria existência. Olho para os meus filhos e penso, não raramente, que lhe devo um obrigado: sem ela, eles não estariam por cá.
Penso naquela sua história de amor. Na sua vida dedicada ao homem que escolheu para meu avô e no exemplo que nos deixa a todos. Queira eu também, ao fim de tantos anos de sofrimento para manter o bem estar de quem se ama, poder humildemente olhar nos olhos de quem se perdeu e dizer: "podia ter feito tanto mais por ti".
Ela faz 94 anos e está há 38 na minha vida. Agradeço a qualquer divindade a oportunidade que me deu de ter por tanto tempo a sua companhia. Dou graças por poder ter apresentado a ela os meus filhos e de poder tê-la usado como cobaia da minha profissão.
Não penso em quanto tempo mais estará cá connosco, facto inerente à fragilidade da vida aos 94, e limito-me a aproveitar da sua presença. Limito-me a mandar chalaças ordinárias à mesa do almoço dominical; limito-me a ouvir os seu infindáveis "ais" e o ranger das suas "artrósias"; limito-me a rir da sua teimosia; limito-me a vê-la rir-se das palhaçadas que os seus netos fazem. Limito-me a invejar-lhe os lindos olhos azuis, ainda cheios de vida.
Parabéns, avó, e obrigado por todos os ensinamentos passados. Que aos 94 eu também possa ter quem de mim tenha tanto orgulho.
94 anos é muito tempo. Dos meus trinta e tais vejo-os ainda longínquos e custa-me crer que por lá passarei.
Por vezes fico a pensar em tudo o que ela passou e em tudo o que viu ao longo desses longos anos.
Ela viu, seguramente com espanto, a tecnologia dominar o quotidiano do homem. Viu o carro passar de novidade extraordinária à obsessão desnecessária. Ela viu a televisão invadir as casas e afastar as conversas da hora do jantar e também viu as pessoas passarem a conversar através de pequenos aparelhos que trazem nos bolsos das calças. Ela também soprou as velas de casa e ligou os interruptores da recém-chegada electricidade. Ela deve ter achado estranho as lembranças passarem da mente para películas de fotografia, depois para computadores e depois para lugares virtuais dos quais ela nem sequer sonha. Deve ter ficado abismada com os riscos no céu feitos pelos aviões, esses mesmos aparelhos que a levariam, anos depois, para o lado de lá do Atlântico.
O que lhe passará hoje pela cabeça quando observa este mundo e o compara com aquele, muito mais simples, que conheceu na infância?
Certamente passou por muito nesta sua longa vida. Nasceu em tempos de miséria, viveu sem luxos mas ainda foi a tempo de conhecer estes nossos tempos de fartura obscena. Viveu em tempos de guerra. Conheceu vária ditaduras e uma revolução.
Viveu na ignorância das letras por culpa de uma vida dura, por culpa de uma cultura de trabalho e dedicação a outros bens essenciais.
A sua história de amor originou 3 filhas, 9 netos e 14 bisnetos. Penso muitas vezes na sua importância para a minha própria existência. Olho para os meus filhos e penso, não raramente, que lhe devo um obrigado: sem ela, eles não estariam por cá.
Penso naquela sua história de amor. Na sua vida dedicada ao homem que escolheu para meu avô e no exemplo que nos deixa a todos. Queira eu também, ao fim de tantos anos de sofrimento para manter o bem estar de quem se ama, poder humildemente olhar nos olhos de quem se perdeu e dizer: "podia ter feito tanto mais por ti".
Ela faz 94 anos e está há 38 na minha vida. Agradeço a qualquer divindade a oportunidade que me deu de ter por tanto tempo a sua companhia. Dou graças por poder ter apresentado a ela os meus filhos e de poder tê-la usado como cobaia da minha profissão.
Não penso em quanto tempo mais estará cá connosco, facto inerente à fragilidade da vida aos 94, e limito-me a aproveitar da sua presença. Limito-me a mandar chalaças ordinárias à mesa do almoço dominical; limito-me a ouvir os seu infindáveis "ais" e o ranger das suas "artrósias"; limito-me a rir da sua teimosia; limito-me a vê-la rir-se das palhaçadas que os seus netos fazem. Limito-me a invejar-lhe os lindos olhos azuis, ainda cheios de vida.
Parabéns, avó, e obrigado por todos os ensinamentos passados. Que aos 94 eu também possa ter quem de mim tenha tanto orgulho.
15 março 2014
Valle, ó que valle
Ele tragou do licor e deixou-se ir, escorrendo pela ingrime montanha em direcção ao mágico valle.
Pelo alucinante caminho encosta abaixo sentiu-se feliz, ouviu-se rir por tudo e principalmente por nada; viu a vida de forma diferente: viu-a em duplicado.
Ao longo da viagem embateu violentamente contra as várias cepas do terreno, mães da mágica fruta que lhe deu de beber. Chocou com as vides e sangrou da mesma cor do fermentado que enfeitava o copo e do qual sorveu em honesta quantidade. Sujou-se com a terra santa das escarpas férteis do ouro violeta e limpou-se às parras das santas plantas licorosas.
Chegou finalmente ao destino e ainda sob efeito lisérgico da arroxeada seiva ficou deitado no valle a imaginar curvas de mulher nas montanhas à sua volta e num abraço infinito tentou envolve-las a todas.
Nesse valle encantado encontrou um rio de líquido pecado e sorveu-lhe um pouco do seu conteúdo. Depois mergulhou no curso etílico e deixou-se ir a boiar em direcção a uma cascata vinhateira para, por fim, afogar-se em novo valle de prazer.
Pelo alucinante caminho encosta abaixo sentiu-se feliz, ouviu-se rir por tudo e principalmente por nada; viu a vida de forma diferente: viu-a em duplicado.
Ao longo da viagem embateu violentamente contra as várias cepas do terreno, mães da mágica fruta que lhe deu de beber. Chocou com as vides e sangrou da mesma cor do fermentado que enfeitava o copo e do qual sorveu em honesta quantidade. Sujou-se com a terra santa das escarpas férteis do ouro violeta e limpou-se às parras das santas plantas licorosas.
Chegou finalmente ao destino e ainda sob efeito lisérgico da arroxeada seiva ficou deitado no valle a imaginar curvas de mulher nas montanhas à sua volta e num abraço infinito tentou envolve-las a todas.
Nesse valle encantado encontrou um rio de líquido pecado e sorveu-lhe um pouco do seu conteúdo. Depois mergulhou no curso etílico e deixou-se ir a boiar em direcção a uma cascata vinhateira para, por fim, afogar-se em novo valle de prazer.
03 novembro 2013
"Não faço ideia porque as pessoas se irritam comigo" in "Diário de Notícias"
É só pensar um pouco, não, amigo Sócrates?
Parece-me que para pensador e filósofo será tão bom como foi como político...
É só pensar um pouco, não, amigo Sócrates?
Parece-me que para pensador e filósofo será tão bom como foi como político...
"Deixa-me ver... hum... não, não consigo mesmo perceber..."
29 outubro 2013
27 outubro 2013
Empreendedorismo
Para o primeiro ministro das finanças deste governo (aquele que desapareceu do mapa para poder descansar um pouco) o povo português é o melhor do mundo. O PM tem a mesma opinião e, orgulhosamente, por diversas vezes, lá vai dando exemplos da extraordinária criatividade e da grande capacidade de empreendedorismo nacional; eu, depois de ler esta notícia, e pela primeira vez, tenho de concordar com aqueles membros da quadrilha...
Imagem do "Público"
25 outubro 2013
Fábula infantil sob o ponto de vista médico
Vendo a versão original da Branca de Neve (1937) e observando a personagem descontraída em meio a esquilos, coelhos, ratinhos, texugos, veados e outros animaizinhos, chego à conclusão que teve uma sorte do caraças por ter sido a única gaja da idade média a não ter contraído raiva ou peste bubónica!
20 outubro 2013
À caça
Abriu a nova época de caça.
Foi novamente liberada a caça a uma espécie animal ignóbil, irritante e dispendiosa: o funcionário público.
À semelhança de qualquer actividade que envolva barbárie, como a tourada, o futebol ou o tuning, também a caça ao funcionário público está acompanhada de muita controvérsia. Os detractores agitam-se em defesa do animal dizendo que tratar-se de uma espécie em vias de extinção, que basta ir a uma instituição estatal (o seu habitat natural) para observar que já não existem em número suficiente para a demanda de trabalho e, ainda, que a sua caça é desumana e cruel. Os defensores e aficionados dizem que a caça é essencial para o equilíbrio do ambiente económico nacional, que o funcionalismo público é uma praga sugadora de recursos e, a desculpa universal de todos os defensores destas grotescas actividades, porque é "arte e tradição". Estes últimos defende-se dizendo que "o que seria de Portugal sem a tradição de se caçar animais tão perigosos como perdizes, codornizes, pombos e, agora, funcionários públicos?"
No entanto, com a conivência das autoridades, tem-se observado laivos de sadismo crescentes ao longo dos últimos anos no seio dos diferentes grupos destes "desportistas". Não obstante a boa pontaria dos caçadores, tem havido preocupantes relatos de maus tratos aos animais que não se conseguem expoliar. Esses funcionários sobreviventes parecem ter os seus direitos, subsídios, férias, condições de trabalho e salários cortados. Dessa forma, ficam os animais amputados de uma vida decente, deixados à sorte numa sociedade que não os apoia, minguando até ao seu desaparecimento. Alguns espécimes ficam encarcerados na sua instituição tendo a jornada de trabalho aumentada, de forma injusta, violenta e súbita, padecendo de esgotamento físico e psicológico. Embora as entidades responsáveis já tenham sido avisadas, escusaram-se de qualquer responsabilidade nesta selvajaria, remetendo um comentário aprofundado apenas após um estudo minucioso a ser realizado pelo grupo Galilei.
Como acontece com diversas outras espécies animais, já existem pedidos de excepção e protecção do funcionário público. Estudos mostram que, mantendo-se a sua caça desenfreada, a espécie pode desaparecer nos anos mais próximos, sendo substituída por espécies alóctones, como o funcionário privado. Neste último ponto, parece haver muito interesse de várias empresas privadas em repovoar as instiuições de saúde públicas, entre outras, com aquela espécie invasora, muito mais cómoda e económica. Esta hipótese de alteração de espécies é potencialmente danosa para todos aqueles que dependem do ecossistema público, mas o Ministério do Ambiente refere, em nota de imprensa, que "tal não é verdade" e aponta a Grécia (onde o extermínio de funcionários públicos é ainda mais tradicional) como "o exemplo a seguir para o desenvolvimento da coisa pública."
Outra solução, apontada pela Associação Nacional para a Protecção do Funcionário Público (ANPFC), entidade sem fins-lucrativos (porque o funcionário público parece não dar qualquer dividendo), não podendo evitar a caça de espécies animais, foi a troca de alvo; propõe a ANPFC que se casse políticos. Defende a entidade que "a cassação de deputados, ministros e, eventualmente, primeiros-ministos ou presidentes, pode ser um passo importante para um maior equilíbrio ambiental" e, afirma ainda a ANPFC, "eliminar estes animais do poder poderia ser um passo importante para livrar o ambiente de tanto lixo".
Que se abra, então, a caça (ou cassa) a políticos e afins!
Foi novamente liberada a caça a uma espécie animal ignóbil, irritante e dispendiosa: o funcionário público.
À semelhança de qualquer actividade que envolva barbárie, como a tourada, o futebol ou o tuning, também a caça ao funcionário público está acompanhada de muita controvérsia. Os detractores agitam-se em defesa do animal dizendo que tratar-se de uma espécie em vias de extinção, que basta ir a uma instituição estatal (o seu habitat natural) para observar que já não existem em número suficiente para a demanda de trabalho e, ainda, que a sua caça é desumana e cruel. Os defensores e aficionados dizem que a caça é essencial para o equilíbrio do ambiente económico nacional, que o funcionalismo público é uma praga sugadora de recursos e, a desculpa universal de todos os defensores destas grotescas actividades, porque é "arte e tradição". Estes últimos defende-se dizendo que "o que seria de Portugal sem a tradição de se caçar animais tão perigosos como perdizes, codornizes, pombos e, agora, funcionários públicos?"
No entanto, com a conivência das autoridades, tem-se observado laivos de sadismo crescentes ao longo dos últimos anos no seio dos diferentes grupos destes "desportistas". Não obstante a boa pontaria dos caçadores, tem havido preocupantes relatos de maus tratos aos animais que não se conseguem expoliar. Esses funcionários sobreviventes parecem ter os seus direitos, subsídios, férias, condições de trabalho e salários cortados. Dessa forma, ficam os animais amputados de uma vida decente, deixados à sorte numa sociedade que não os apoia, minguando até ao seu desaparecimento. Alguns espécimes ficam encarcerados na sua instituição tendo a jornada de trabalho aumentada, de forma injusta, violenta e súbita, padecendo de esgotamento físico e psicológico. Embora as entidades responsáveis já tenham sido avisadas, escusaram-se de qualquer responsabilidade nesta selvajaria, remetendo um comentário aprofundado apenas após um estudo minucioso a ser realizado pelo grupo Galilei.
Como acontece com diversas outras espécies animais, já existem pedidos de excepção e protecção do funcionário público. Estudos mostram que, mantendo-se a sua caça desenfreada, a espécie pode desaparecer nos anos mais próximos, sendo substituída por espécies alóctones, como o funcionário privado. Neste último ponto, parece haver muito interesse de várias empresas privadas em repovoar as instiuições de saúde públicas, entre outras, com aquela espécie invasora, muito mais cómoda e económica. Esta hipótese de alteração de espécies é potencialmente danosa para todos aqueles que dependem do ecossistema público, mas o Ministério do Ambiente refere, em nota de imprensa, que "tal não é verdade" e aponta a Grécia (onde o extermínio de funcionários públicos é ainda mais tradicional) como "o exemplo a seguir para o desenvolvimento da coisa pública."
Outra solução, apontada pela Associação Nacional para a Protecção do Funcionário Público (ANPFC), entidade sem fins-lucrativos (porque o funcionário público parece não dar qualquer dividendo), não podendo evitar a caça de espécies animais, foi a troca de alvo; propõe a ANPFC que se casse políticos. Defende a entidade que "a cassação de deputados, ministros e, eventualmente, primeiros-ministos ou presidentes, pode ser um passo importante para um maior equilíbrio ambiental" e, afirma ainda a ANPFC, "eliminar estes animais do poder poderia ser um passo importante para livrar o ambiente de tanto lixo".
Que se abra, então, a caça (ou cassa) a políticos e afins!
selvajaria
"Selvajaria", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/Selvajaria [consultado em 20-10-2013].
"Selvajaria", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/Selvajaria [consultado em 20-10-2013].
14 outubro 2013
Foge, foge
Os meus amigos já se foram
E, repara, também já se foram os teus.
Ficámos nós os dois e os velhos e as crianças,
Os únicos com a ridícula esperança
De que melhores dias virão
E de que terão as preces ouvidas por Deus.
07 setembro 2013
Mix
Bruno Alves, jogador da nossa selecção, após o golo que marcou ontem:
"Jesus, obrigado, caralho!!!"
Sempre gostei dessa mistura de religiosidade e blasfémia.
(a não ser que o Bruno estivesse a mandar o outro Jesus para o caralho o quê, dado o seu passado, até faz algum sentido)
"Jesus, obrigado, caralho!!!"
Sempre gostei dessa mistura de religiosidade e blasfémia.
(a não ser que o Bruno estivesse a mandar o outro Jesus para o caralho o quê, dado o seu passado, até faz algum sentido)
14 agosto 2013
Palmas
Finalmente estou em férias. São merecidas e as mais desejadas de sempre tal a quantidade de trabalho que me tem caído na cabeça ultimamente.
E o que melhor há para fazer nas férias do que ver os programas de verão nas televisões lusas, hã? Espectáculo! Festas para imigrantes, música pop portuguesa com gritadores secundados por gajas a baloiçar tudo o que deve ser baloiçado, apresentadores estridentes acompanhados por gente que pertence a outra espécie animal também ela bípede, you name it!
Embora tudo nesses programas seja bastante aliciante, nada me agrada mais do que ver as variações populares de bater as palmas. Sinceramente não sei como vocês o fazem mas eu costumo bater uma palma da mão contra a outra, violentamente e num sentido horizontal, muitas vezes de forma um pouco cínica e pouco entusiasta (para que aqueles que as merecem não ficarem a pensar que o trabalho terminou e que já não há espaço para melhorias). Não sei se é melhor forma, se é a correcta, mas é a que uso desde criança e não quero, neste momento, alterá-la.
No entanto, confesso que gosto de ver as senhoras de meia idade que fazem com que o acto de bater as palmas das mãos pareça o desenho de um caça F22. Estas moças costumam fazer danças com os braços para depois chocar as palmas fazendo que, para além do som, também o estremecer do corpo seja engraçado. É incrível o arco que um membro superior consegue descrever, algo que não vem em livros de biomecânica, com certeza.
Mas existem mais variações interessantes. Existem aqueles que não acertam com o ritmo da cantiga e os que falham constantemente as próprias palmas das mãos, talvez distraídos, talvez por serem incrivelmente descoordenados (ainda mais que eu!); há os que parecem aqueles macacos de brinquedo com pratos quando abrem os braços até acertarem no nariz do vizinho e, em linha recta, amandar os membros um contra o outro para executar o acto (sob o risco de acertarem no cocuruto do indivíduo à frente); temos ainda os que batem palmas e saltam ao mesmo tempo, não fazendo nada de jeito nas duas coisas; há os delicados, que batem as pontas dos dedos contra a palma da mão contrária o que não é, na verdade, um bater as palmas; enfim, vale a pena ver um número musical desses programas (com o volume reduzido,é claro: segurança auditiva primeiro) só para ver essas variações sobre este tema.
E, "prontos" (também gosto dos estrangeirismos [ou será melhor "esquisitismos"] linguísticos da silly season), vou ali às festas da terra ver os perdigotos kamikazes dos novos falantes de francês que, como as andorinhas, migram de volta para estas áreas do Liz.
Férias no seu esplendor!
E o que melhor há para fazer nas férias do que ver os programas de verão nas televisões lusas, hã? Espectáculo! Festas para imigrantes, música pop portuguesa com gritadores secundados por gajas a baloiçar tudo o que deve ser baloiçado, apresentadores estridentes acompanhados por gente que pertence a outra espécie animal também ela bípede, you name it!
Embora tudo nesses programas seja bastante aliciante, nada me agrada mais do que ver as variações populares de bater as palmas. Sinceramente não sei como vocês o fazem mas eu costumo bater uma palma da mão contra a outra, violentamente e num sentido horizontal, muitas vezes de forma um pouco cínica e pouco entusiasta (para que aqueles que as merecem não ficarem a pensar que o trabalho terminou e que já não há espaço para melhorias). Não sei se é melhor forma, se é a correcta, mas é a que uso desde criança e não quero, neste momento, alterá-la.
No entanto, confesso que gosto de ver as senhoras de meia idade que fazem com que o acto de bater as palmas das mãos pareça o desenho de um caça F22. Estas moças costumam fazer danças com os braços para depois chocar as palmas fazendo que, para além do som, também o estremecer do corpo seja engraçado. É incrível o arco que um membro superior consegue descrever, algo que não vem em livros de biomecânica, com certeza.
Mas existem mais variações interessantes. Existem aqueles que não acertam com o ritmo da cantiga e os que falham constantemente as próprias palmas das mãos, talvez distraídos, talvez por serem incrivelmente descoordenados (ainda mais que eu!); há os que parecem aqueles macacos de brinquedo com pratos quando abrem os braços até acertarem no nariz do vizinho e, em linha recta, amandar os membros um contra o outro para executar o acto (sob o risco de acertarem no cocuruto do indivíduo à frente); temos ainda os que batem palmas e saltam ao mesmo tempo, não fazendo nada de jeito nas duas coisas; há os delicados, que batem as pontas dos dedos contra a palma da mão contrária o que não é, na verdade, um bater as palmas; enfim, vale a pena ver um número musical desses programas (com o volume reduzido,é claro: segurança auditiva primeiro) só para ver essas variações sobre este tema.
E, "prontos" (também gosto dos estrangeirismos [ou será melhor "esquisitismos"] linguísticos da silly season), vou ali às festas da terra ver os perdigotos kamikazes dos novos falantes de francês que, como as andorinhas, migram de volta para estas áreas do Liz.
Férias no seu esplendor!
07 agosto 2013
Mentir ao telefone ou como nunca teria sucesso com uma traição
Já eram quase 9:30 da noite e, com a desculpa de querer ligar a um amigo mas não ter saldo no telefone, saí a caminho de um multibanco. Aproveitando a deixa diriji-me a um centro comercial aqui da terra para comprar uma prenda à madame, já que está próximo o aniversário do nosso longo namoro.
Obviamente que a moça não sabia dessa segunda parte da missão e acreditava que a minha saída seria lesta.
Chegei ao centro comercial e me perdi por entre as lojas. Comprar coisas para senhoras não é trabalho fácil para um homem... que não esteja acostumado à tarefa (já tive de pedir ajuda a uma das senhoritas que por este blog põem os olhos).
Resumindo: demorei mais do que deveria.
Numa jogadaidiota de mestre resolvi ligar à chefa dizendo que teria encontrado um amigo do futebol junto ao multibanco e que ficámos na conversa. Disse que lhe estava a ligar para não deitar os miúdos antes de eu chegar e que já estava a voltar para casa.
"Encontraste quem?", perguntou ela.
"O fulano do futebol. Agora vou ali à caixa geral para "por" dinheiro no telemóvel", respondi eu, ansioso pela mentirinha.
"Mas essa caixa geral já fechou há uns tempos..."
"Ah, pois é. Bolas, tenho de ir a outro lado então"
"Mas estive a ver aqui a nossa conta na net e já foste ao multibanco..."
"Er...", pensando numa boa desculpa, "ok, vim comprar-te uma prenda...", desisti logo.
Ela riu-se... e muito.
Fica ela sossegada quanto à hipótese deste jegue alguma vez pular a cerca...
Obviamente que a moça não sabia dessa segunda parte da missão e acreditava que a minha saída seria lesta.
Chegei ao centro comercial e me perdi por entre as lojas. Comprar coisas para senhoras não é trabalho fácil para um homem... que não esteja acostumado à tarefa (já tive de pedir ajuda a uma das senhoritas que por este blog põem os olhos).
Resumindo: demorei mais do que deveria.
Numa jogada
"Encontraste quem?", perguntou ela.
"O fulano do futebol. Agora vou ali à caixa geral para "por" dinheiro no telemóvel", respondi eu, ansioso pela mentirinha.
"Mas essa caixa geral já fechou há uns tempos..."
"Ah, pois é. Bolas, tenho de ir a outro lado então"
"Mas estive a ver aqui a nossa conta na net e já foste ao multibanco..."
"Er...", pensando numa boa desculpa, "ok, vim comprar-te uma prenda...", desisti logo.
Ela riu-se... e muito.
Fica ela sossegada quanto à hipótese deste jegue alguma vez pular a cerca...
30 julho 2013
Forreta? Eeeeuuu?!
Numa grande rotunda de Coimbra, desde há algum tempo, estão uns saltimbancos a distrair os automobilistas enquanto aguardam pela sinalética verde dos semáforos. Entretém o people com pinos e bolas já que são todos malabaristas.
Confesso que acho interessante esta forma de ganhar a vida. É muito melhor tê-los ali a mostrar o seu talento do que ter que aguentar vendedores fajutas de "Borda d'água", "Cais" ou os famigerados limpadores de pára-brisas. Não pedem nada, mas é óbvio que têm um objectivo com o espectáculo público: no final da "apresentação", estendem um chapéu no sentido de receber qualquer coisa dos impacientes condutores.
Eu, na minha magnânima solidariedade, resolvi "amandar" para a cobertura capilar uma moeda de 20 cêntimos.
"Só 20 cêntimos!?", perguntarão vocês, indignados com a avareza.
Pois, 20 cêntimos. Parece pouco? Também achei a princípio, mas depois fiz as contas: se em cada sinal vermelho, 10 condutores fornecerem 20 cêntimos; se em cada hora houver, no mínimo, 10 sinais encarnados; se trabalharem as 8 horas de um normal trabalhador; se estiverem ali 20 dias por mês; quanto isto dará no fim do mês, limpinho, limpinho de impostos? Pois bem, para facilitar, digo-vos eu: 3200€! Ou seja, mais do dobro que eu recebo com o meu trabalho como Médico de Família.
Ao longo do caminho fiquei a pensar que deveria ter enveredado pelo mundo do malabarismo (que de certa forma vou fazendo com o orçamento doméstico). No entanto, como são necessários talento, destreza e uma grande dose de coordenação motora, obviamente que esta hipótese foi imediatamente posta de parte. Mas como a minha madame está desempregada...
Confesso que acho interessante esta forma de ganhar a vida. É muito melhor tê-los ali a mostrar o seu talento do que ter que aguentar vendedores fajutas de "Borda d'água", "Cais" ou os famigerados limpadores de pára-brisas. Não pedem nada, mas é óbvio que têm um objectivo com o espectáculo público: no final da "apresentação", estendem um chapéu no sentido de receber qualquer coisa dos impacientes condutores.
Eu, na minha magnânima solidariedade, resolvi "amandar" para a cobertura capilar uma moeda de 20 cêntimos.
"Só 20 cêntimos!?", perguntarão vocês, indignados com a avareza.
Pois, 20 cêntimos. Parece pouco? Também achei a princípio, mas depois fiz as contas: se em cada sinal vermelho, 10 condutores fornecerem 20 cêntimos; se em cada hora houver, no mínimo, 10 sinais encarnados; se trabalharem as 8 horas de um normal trabalhador; se estiverem ali 20 dias por mês; quanto isto dará no fim do mês, limpinho, limpinho de impostos? Pois bem, para facilitar, digo-vos eu: 3200€! Ou seja, mais do dobro que eu recebo com o meu trabalho como Médico de Família.
Ao longo do caminho fiquei a pensar que deveria ter enveredado pelo mundo do malabarismo (que de certa forma vou fazendo com o orçamento doméstico). No entanto, como são necessários talento, destreza e uma grande dose de coordenação motora, obviamente que esta hipótese foi imediatamente posta de parte. Mas como a minha madame está desempregada...
17 julho 2013
Pai sofre XXXIII - Ver vídeos na internet, mas sempre com protecção que é para não apanhar vírus
O tempo de ver filmes na televisão já lá vai. Os miúdos de hoje parecem se entreter mais ao ver os seus bonecos através do computador ou telemóvel. Culpa dessas novas tecnologias que põe à mão de semear qualquer conteúdo audiovisual que se pretenda sem grandes inconvenientes ou dificuldades.
Assim, numa bela tarde, e em resposta a um pedido deste tipo vindo de um dos pimpolhos, foi o pai ligar o ordenador. Acedeu à netinha para navegar com destino ao sítio dos filmes e escolheu aquele pretendido. A criança, de olhos bem abertos e impaciente pelo início da animação, deixou-a sentada na cadeira e foi à sua vida de pai satisfeito por agradar a cria. Tudo preparado para alguns minutos de pura diversão infanto-juvenil ingénua e pura, mas…
Um à parte: quem costuma visitar estes grandes servidores de vídeos sabe que, quase sempre, antes de cada filme existe uma publicidade a qualquer coisa. São telemóveis, produtos de higiene, comida para cão, qualquer coisa se vende a quem tiver uns segundos de paciência ou muito interesse em ver o vídeo que vem a seguir.
Como ia dizendo, a criança esperava ansiosamente pelo início do boneco e eis que, ao invés de um desenho colorido e infantil, surge um comercial de uma famosa marca de quê mesmo? De quê? De rebuçados? De chocolates? De gelados? De brinquedos? Não? Então de quê, caraças... suspense...tcharam: PRESERVATIVOS!!! E não eram uns quisquer, não, eram preservativos que diziam ser “sensação pele com pele”!!! Mas que o quê, em nome de um deus qualquer, é “sensação pele com pele”?!
Mas quem foi o génio que plantou uma propaganda semi-erótica antes de um vídeo infantil!? Quem achou conveniente por um comercial com esfregação e pecado num canal de animação? Tudo bem que era de animação que se estava à procura mas não desse tipo, caramba! O que valeu foi a destreza do pai em dissimular a cena.
Não quero censurar nada aos pequenos mas cada coisa a seu tempo, ok? Sei que existem miúdos precoces mas que os meus o sejam em matemática ou literatura báltica.
Já estava ciente de que a net era coisinha insegura e promíscua mas isto parece-me algo exagerado.
Assim, numa bela tarde, e em resposta a um pedido deste tipo vindo de um dos pimpolhos, foi o pai ligar o ordenador. Acedeu à netinha para navegar com destino ao sítio dos filmes e escolheu aquele pretendido. A criança, de olhos bem abertos e impaciente pelo início da animação, deixou-a sentada na cadeira e foi à sua vida de pai satisfeito por agradar a cria. Tudo preparado para alguns minutos de pura diversão infanto-juvenil ingénua e pura, mas…
Um à parte: quem costuma visitar estes grandes servidores de vídeos sabe que, quase sempre, antes de cada filme existe uma publicidade a qualquer coisa. São telemóveis, produtos de higiene, comida para cão, qualquer coisa se vende a quem tiver uns segundos de paciência ou muito interesse em ver o vídeo que vem a seguir.
Como ia dizendo, a criança esperava ansiosamente pelo início do boneco e eis que, ao invés de um desenho colorido e infantil, surge um comercial de uma famosa marca de quê mesmo? De quê? De rebuçados? De chocolates? De gelados? De brinquedos? Não? Então de quê, caraças... suspense...tcharam: PRESERVATIVOS!!! E não eram uns quisquer, não, eram preservativos que diziam ser “sensação pele com pele”!!! Mas que o quê, em nome de um deus qualquer, é “sensação pele com pele”?!
Mas quem foi o génio que plantou uma propaganda semi-erótica antes de um vídeo infantil!? Quem achou conveniente por um comercial com esfregação e pecado num canal de animação? Tudo bem que era de animação que se estava à procura mas não desse tipo, caramba! O que valeu foi a destreza do pai em dissimular a cena.
Não quero censurar nada aos pequenos mas cada coisa a seu tempo, ok? Sei que existem miúdos precoces mas que os meus o sejam em matemática ou literatura báltica.
Já estava ciente de que a net era coisinha insegura e promíscua mas isto parece-me algo exagerado.
25 junho 2013
A trip(a)
Primeira consulta do dia, numa segunda-feira, noite mal dormida e mau humor associado.
Chamo a primeira doente: completamente tresloucada; discurso verborreico, sem nexo, a saltar de um assunto para outro como se fosse um canguru com um foguete no rabo. Deixo-a falar, falar, falar, sem não parar e escondo-me atrás de um par de mãos a sussurrar o porquê de vir para medicina.
E então:
"Sabe doutor, eu tenho muitos gases. Tenho sempre a barriga assim inchada (não é da gordura, não...). Acho que é de ter a tripa grossa", diz ela.
"Desculpe, o que disse?", pergunto eu, tentando perceber o que tinha acontecido.
"Pois, tenho a tripa grossa, sim. Disseram-me num exame que me fizeram há uns anos. Faz sentido, Dr..Quando era pequena, lembro-me de obrar ao lado do meu irmão e olhar para as nossas fezes e perguntar a ele porque o meu cocó era maior que o dele. Ele já na altura disse-me: "és tu que tens a tripa grossa!". Vê? Sempre tinha razão, o meu irmão"
Confesso que não aguentei e escangalhei-me a rir sob o olhar incrédulo da senhora.
Haja paciência, carago, um gajo não é de ferro!!!
Chamo a primeira doente: completamente tresloucada; discurso verborreico, sem nexo, a saltar de um assunto para outro como se fosse um canguru com um foguete no rabo. Deixo-a falar, falar, falar, sem não parar e escondo-me atrás de um par de mãos a sussurrar o porquê de vir para medicina.
E então:
"Sabe doutor, eu tenho muitos gases. Tenho sempre a barriga assim inchada (não é da gordura, não...). Acho que é de ter a tripa grossa", diz ela.
"Desculpe, o que disse?", pergunto eu, tentando perceber o que tinha acontecido.
"Pois, tenho a tripa grossa, sim. Disseram-me num exame que me fizeram há uns anos. Faz sentido, Dr..Quando era pequena, lembro-me de obrar ao lado do meu irmão e olhar para as nossas fezes e perguntar a ele porque o meu cocó era maior que o dele. Ele já na altura disse-me: "és tu que tens a tripa grossa!". Vê? Sempre tinha razão, o meu irmão"
Confesso que não aguentei e escangalhei-me a rir sob o olhar incrédulo da senhora.
Haja paciência, carago, um gajo não é de ferro!!!
23 junho 2013
O verdadeiro cancro
Bonifácio carregava o exame para mostrar ao médico. Batia violentamente com os pés no chão num demonstrar inequívoco de ansiedade crescente. Finalmente ouviu o seu nome a ser chamado e dirigiu-se ao consutório.
Após os cumprimentos de ocasião, o médico pediu-lhe o exame. O clínico abriu o envelope e analisou o conteúdo. Em meio a "hum"'s proferidos pelo doutor, Bonifácio aumentava a adrenalina em circulação.
Por fim, após um longo e desolador suspiro do médico, a tão estremecedora notícia:
"Senhor Bonifácio, o meu amigo tem um cancro e o que temos de fazer agora é pensar na melhor maneira de tratar e..."
Toda a explicação, Bonifácio ouviu sem ouvir. Só estava realmente interessado numa coisa: o prognóstico.
"Bem, senhor Bonifácio, o prognóstico para estes casos é reservado. Vai depender da resposta ao tratamento convencional: quimio, radio e, quem sabe, cirurgia."
Bonifácio saiu do consultório um pouco atordoado. Não tinha dores físicas mas sentia o seu espírito agredido no estômago, caído ao chão, continuando a ser pisoteado pela cruel verdade.
Foi directamente para casa tentando arranjar um texto tipo para passar tão devastadora informação à família; já bastava o seu próprio sofrimento.
Passaram-se alguns meses e Bonifácio respondia mal aos tratamentos. Sua última tentativa seria uma nova droga que parecia ter evidenciado benefícios para a sua doença. A esperança residia na possibilidade de ser administrada o mais rapidamente possível mas restrições orçamentais obrigavam a aprovação do pedido pelo Ministério da Saúde.
"Bonifácio, tenho más notícias para si. O hospital não vai poder providenciar a medicação. O senhor ministro rejeitou o pedido alegando não haver evidência científica suficiente para a sua utilização".
"Mas, senhor doutor, o ministro é médico?"
"Não"
"Então não percebo"
"Eu também não, senhor Bonifácio"
"Então, e agora, senhor doutor? Sei que nunca fez um prognóstico temporal mas, quanto tempo me resta?"
"Bem, sem rodeios, Bonifácio, sem esta droga... talvez 2 meses, mais coisa, menos coisa"
Bonifácio abandonou o hospital. Vagueou por algum tempo pela baixa de Lisboa e decidiu-se por caminhar um pouco mais até a avenida João Crisóstomo, nº9. Chegando lá, aguardou.
Pouco tempo depois, Bonifácio viu aproximar-se um belo carro negro. Levantou-se e esperou que o veículo se imobilizasse.
Do carro negro, Bonifácio viu sair um senhor de facto impecavelmente engomado que concluiu ser o ministro da saúde. Abordou o senhor e perguntou-lhe em jeito de confirmação:
"Bom dia. É o senhor o excelentíssimo ministro da saúde"
"Sou sim, meu caro"
Bonifácio, ao aperceber-se da resposta positiva, retirou do bolso uma pequena Beretta calibre 22 e aplicou 5 injecções de chumbo no tórax ministerial, impelindo o alvo numa queda lenta à retaguarda, apenas amparada por metade dos seus guarda-costas, visto a outra metade estar a manietar o agressor.
O incidente chocou a pequena e anárquica república. Bonifácio foi imediatamente preso e apresentado ao juiz. Deveria ser julgado de forma célere para servir de exemplo e assim evitar alastramentos de revolta.
O julgamento de Bonifácio foi alvo da maior cobertura jornalística alguma vez vista no país. Milhares de jornalistas nacionais e estrangeiros aguardavam à porta do tribunal. Aguardavam a sentença e especulavam sobre o período de cárcere destinado ao criminoso. Alguns analistas teciam comentários sobre a terrível ironia da possível maior sentença da justiça portuguesa poder traduzir-se num período exíguo de prisão efectiva, dado que o réu estava em fase terminal.
Finalmente o veredito.
Bonifácio saiu pela porta da frente do tribunal, abraçado ao advogado e à esposa, perante o olhar atónito daqueles que ali puderam estar presentes. O inocente homem entrou numa viatura e abandonou o local, ficando o seu advogado a dar explicações:
"O senhor Bonifácio sempre se declarou inocente e o juiz percebeu isso claramente após o depoimento do meu cliente"
"Mas como foi isso possível? Havia uma série de testemunhas de acusação; elas viram o seu cliente assassinar a sangue frio o ministro da saúde", perguntou incrédulo um dos jornalistas.
"Sim, claro, elas depuseram, mas de nada valeu ao Ministério Público. A nossa alegação foi muito mais forte", respondeu triunfante o advogado.
"Mas, para além da inocência, o que mais o seu cliente alegou?", questionava furioso um novo jornalista.
"Meu cliente, perante a recusa, por parte do senhor ministro da saúde, da medicação que lhe salvaria a vida, alegou obviamente legítima defesa!"
Após os cumprimentos de ocasião, o médico pediu-lhe o exame. O clínico abriu o envelope e analisou o conteúdo. Em meio a "hum"'s proferidos pelo doutor, Bonifácio aumentava a adrenalina em circulação.
Por fim, após um longo e desolador suspiro do médico, a tão estremecedora notícia:
"Senhor Bonifácio, o meu amigo tem um cancro e o que temos de fazer agora é pensar na melhor maneira de tratar e..."
Toda a explicação, Bonifácio ouviu sem ouvir. Só estava realmente interessado numa coisa: o prognóstico.
"Bem, senhor Bonifácio, o prognóstico para estes casos é reservado. Vai depender da resposta ao tratamento convencional: quimio, radio e, quem sabe, cirurgia."
Bonifácio saiu do consultório um pouco atordoado. Não tinha dores físicas mas sentia o seu espírito agredido no estômago, caído ao chão, continuando a ser pisoteado pela cruel verdade.
Foi directamente para casa tentando arranjar um texto tipo para passar tão devastadora informação à família; já bastava o seu próprio sofrimento.
Passaram-se alguns meses e Bonifácio respondia mal aos tratamentos. Sua última tentativa seria uma nova droga que parecia ter evidenciado benefícios para a sua doença. A esperança residia na possibilidade de ser administrada o mais rapidamente possível mas restrições orçamentais obrigavam a aprovação do pedido pelo Ministério da Saúde.
"Bonifácio, tenho más notícias para si. O hospital não vai poder providenciar a medicação. O senhor ministro rejeitou o pedido alegando não haver evidência científica suficiente para a sua utilização".
"Mas, senhor doutor, o ministro é médico?"
"Não"
"Então não percebo"
"Eu também não, senhor Bonifácio"
"Então, e agora, senhor doutor? Sei que nunca fez um prognóstico temporal mas, quanto tempo me resta?"
"Bem, sem rodeios, Bonifácio, sem esta droga... talvez 2 meses, mais coisa, menos coisa"
Bonifácio abandonou o hospital. Vagueou por algum tempo pela baixa de Lisboa e decidiu-se por caminhar um pouco mais até a avenida João Crisóstomo, nº9. Chegando lá, aguardou.
Pouco tempo depois, Bonifácio viu aproximar-se um belo carro negro. Levantou-se e esperou que o veículo se imobilizasse.
Do carro negro, Bonifácio viu sair um senhor de facto impecavelmente engomado que concluiu ser o ministro da saúde. Abordou o senhor e perguntou-lhe em jeito de confirmação:
"Bom dia. É o senhor o excelentíssimo ministro da saúde"
"Sou sim, meu caro"
Bonifácio, ao aperceber-se da resposta positiva, retirou do bolso uma pequena Beretta calibre 22 e aplicou 5 injecções de chumbo no tórax ministerial, impelindo o alvo numa queda lenta à retaguarda, apenas amparada por metade dos seus guarda-costas, visto a outra metade estar a manietar o agressor.
O incidente chocou a pequena e anárquica república. Bonifácio foi imediatamente preso e apresentado ao juiz. Deveria ser julgado de forma célere para servir de exemplo e assim evitar alastramentos de revolta.
O julgamento de Bonifácio foi alvo da maior cobertura jornalística alguma vez vista no país. Milhares de jornalistas nacionais e estrangeiros aguardavam à porta do tribunal. Aguardavam a sentença e especulavam sobre o período de cárcere destinado ao criminoso. Alguns analistas teciam comentários sobre a terrível ironia da possível maior sentença da justiça portuguesa poder traduzir-se num período exíguo de prisão efectiva, dado que o réu estava em fase terminal.
Finalmente o veredito.
Bonifácio saiu pela porta da frente do tribunal, abraçado ao advogado e à esposa, perante o olhar atónito daqueles que ali puderam estar presentes. O inocente homem entrou numa viatura e abandonou o local, ficando o seu advogado a dar explicações:
"O senhor Bonifácio sempre se declarou inocente e o juiz percebeu isso claramente após o depoimento do meu cliente"
"Mas como foi isso possível? Havia uma série de testemunhas de acusação; elas viram o seu cliente assassinar a sangue frio o ministro da saúde", perguntou incrédulo um dos jornalistas.
"Sim, claro, elas depuseram, mas de nada valeu ao Ministério Público. A nossa alegação foi muito mais forte", respondeu triunfante o advogado.
"Mas, para além da inocência, o que mais o seu cliente alegou?", questionava furioso um novo jornalista.
"Meu cliente, perante a recusa, por parte do senhor ministro da saúde, da medicação que lhe salvaria a vida, alegou obviamente legítima defesa!"
20 junho 2013
James GOLDolfini
Hoje, durante o trabalho, sinto o telemóvel a avisar-me que tinha recebido uma mensagem. Num intervalo entre consultas li "o ator que fazia os sopranos morreu: ataque cardíaco". Pensei logo no Gandolfini, já que a pessoa que escreveu a mensagem não via a série.
Gandolfini era o "boss" e por isso era reconhecido por quem não via o programa. Era ele a âncora de uma série que ia muitíssimo mais além da simples problemática da máfia. Aliás, a questão da organização era apenas um pretexto para apresentar um conjunto de outras problemáticas muito interessantes e complexas.
Um exemplo disso mesmo: um grande amigo meu, psiquiatra, dizia que pensara em escrever um trabalho sobre toda a psicopatologia existente nas diferentes personagens; psicoses, personalidades megalómanas, depressão, demência, ataques de pânico, you name it - um verdadeiro graal.
Quem nunca viu esqueça a máfia e veja por outro prisma: vai ficar espantado.
Nota: É incrível ver as manifestações de carinho e afecto que este grande actor está a ser alvo. Reconhecimento de um trabalho extraordinário e de fãs do mesmo calibre.
Até um dia, Tony.
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