15 junho 2013

Fazer o que um político deveria fazer: ouvir o povo

Não é exagero da minha parte se vos disser que a maioria das consultas que faço diariamente têm uma grande parte do seu tempo útil gasto em críticas aos políticos em geral e a este governo em particular.
As pessoas estão descontentes e desanimadas, o que não é novidade, e para além do pulso orgânico que o médico lhes tira, também este pulso de desalento é por nós obsevado nos contactos. Também vemos o nervo das pessoas direccionado para os cargos de decisão. Também sentimos a desmoralização de quem, por ganhar pouco mais de um salário mínimo, tem agora de pagar por tudo, até para uma simples medição da tensão arterial (0.80€ num Centro de Saúde, ou seja, mais caro do que em qualquer farmácia). Observa-se a fractura existente entre um povo cada vez mais pobre e um governo cada vez mais autoritário e desinteressado pelo bem-estar dos seus concidadãos.

Infelizmente, sou um privilegiado nesta observação da lástima in loco. Infelizmente porque me rouba tempo para a medicina pura e física (no entanto, alguns estados da alma também podem vir a ser doença e, portanto, se tratam). Infelizmente apenas porque entristece e, vez por outra, desmotiva...

De todas as queixas dos doentes são estas as que me preocupam mais. Podem apresentar dores, tosse ou uma unha encravada, isso são questões físicas que ao corpo de outrem dizem respeito, mas quando começam a destilar as reclamações relacionadas com a pobreza, a exclusão, a solidão, o esquecimento a que foram atirados, demonstram que a sociedade na qual vivemos está, também ela, doente; e, dessa "doença" que me mostram, também eu sou responsável e passível de contágio.

Ontem foi mais um dia de dores e descontentamentos. Já nada me surpreende nos protestos. Existem os revoltados que esbracejam e pedem a cabeça de um ministro ou dois. Existem os resignados como o lema sempre actual do "é a vida". Existem os que vêm a luz ao fim do túnel e, portanto, saem do gabinete bem medicados. Existem os que até apoiam em parte o governo mas que acham que já se está a exagerar qualquer coisita. 
Mas ontem, apesar de já ter ouvido um pouco de tudo, uma das queixosas apresentou-me um lamento que me tocou mais profundamente. Perdera uma filha e uma neta para a França, para onde foram sob a promessa de uma vida melhor. Por essa sentença culpava o governo e os políticos. Acusava-os de serem frios e desumanos, gentinha pequena, imoral e sem alma. Não se queixava de ter sido roubada, enganada e expoliada paulatinamente dos seus direitos, apenas reinvidicava o direito de ter os seus perto de si. No fim disparou:
"- Sabe, Dr., essa gente parece não ter família nem coração. São pessoas frias, robôs. Fazer o quê, não é...", encolheu o ombro e enxugou as lágrimas mais uma vez, agradeceu a consulta e deixou o consultório.
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Os políticos são como o cometa Halley: só aparecem de tempos em tempos. Só se vislumbram em momentos de eleições. só abraçam, sorriem, interessam-se pela plebe quando dela dependem para sentar o traseiro no assento do poder. No intervalo tornam-se nos três macacos sábios... mas com pouca sapiência.
Um aviso as decisores deste país: pessoas que não têm nada a perder tornam-se extremamente perigosas. 
E estamos a ficar com poucas coisas a que nos possamos agarrar...



6 comentários:

nAnonima disse...

imagino como se fartarão de rir os ETs, quando nos sobrevoam :b

Catsone disse...

Devíamos nos sentir envergonhados pelo que se está a passar no mundo. Os ET's só se ririam se fossem como nós: insensíveis.

carrilheto Carril disse...

Infelizmente é assim que a nossa sociedade vai.. com essa "doença political" que se alastra como um cancro trazendo todos os males de uma sociedade, emigração ( como eu..), pobreza, roubos e criminalidades. Tudo isso faz com que este país a beira mar plantado, país esse que tinha a melhor qualidade de vida que alguma vez conheci, com liberdade, serenidade, alegria e glórias torne se num país doente... quem me dera poder voltar breve e poder criar a minha pequena por ai, perto dos meus e viver Portugal...

Catsone disse...

Carril, pois, essa desesperança é nos dois sentidos...

João Roque disse...

É curioso que quando vou à consulta com a minha médica de família, hoje tão amiga como médica, passamos um curto espaço de tempo a falar das coisas como estão e até é ela, e com razão, a mais queixosa.

Catsone disse...

João, também me queixo aos doentes para eles não se sentirem sozinhos nas almúrias ;)