06 fevereiro 2013

Viagens

Dizem que as viagens no tempo não existem. Talvez seja verdade mas dependerá do ponto de vista. Não existem viagens no tempo em termos físicos mas é impossível evitar que o espírito viaje...

As arrumações na casa nova tiveram o condão de me reapresentar à missivas há muito esquecidas numa gaveta qualquer. Cartas de amigos, de amigas algo coloridas e outras descoloridas, de colegas de escola e outros personagens. Pessoas que "abandonei" no regresso à lusa terra. Pessoas das quais perdi contacto e me indago, por vezes, em como estarão hoje. 

Entreti-me a lê-las por um bocado. Sacudi-lhes a poeira do tempo e li-lhes a data: algures de 1992, em algum tempo de 1993, meados de 1994 e 1995. Enquanto as lia olhei para as costas das mãos: já não estão tão lisas como outrora...

As palavras contavam-me as novidades daquele tempo, revelavam sentimentos guardados, confessavam saudades acumuladas, sucessos alcançados e formulavam desejos de felicidades na minha nova aventura portuguesa. Perguntavam de forma sincera se gostava de cá estar, sobre a minha adaptação; algumas perguntavam-me sobre aventuras outras.

Enquanto as lia não pude deixar de sorrir umas quantas vezes e suspirar umas tantas mais. Talvez, se não estiver enganado e não me falhe a memória, podia jurar que me saltou uma ou duas lágrimas pelo caminho da leitura.
Nessa tão diferente viagem pude ver-me novamente em inícios dos 90, puto imberbe e descordenado, dominado por hormonas e inexperiente. Pude rever clássicos do Paulistão e do campeonato brasileiro. Vi-me a pular o único e último carnaval numa matiné estranha rodeado de amigos. Voltei a ter 17 novamente. 
Numa delas encontrei 3 autógrados de jogadores do São Paulo F.C. enviados por um dos mais inveterados corinthianos que conheço e, ao mesmo tempo, um dos meus melhores amigos de sempre.

Arrumei-as com cuidado de volta na caixa que as conservava. Ficarão ali a hibernar. Talvez não mais volte a lê-las, talvez as revisite quando sentir necessidade de viajar para aquela altura... ou vontade de me sentir com 17 novamente.



8 comentários :

Malena disse...

Nostalgia... Companheira revisitada tantas vezes!!

nAnonima disse...

Que bom que voltaste :))))

(essas mudanças? concluidas?)

Pulha Garcia disse...

Percebo, mas evito olhar para coisas do meu passado, tipo cartas ou fotos. Deixo um dia para quando tiver filhos e outro equilíbrio há minha volta. Forte abraço.

Catsone disse...

Malena, tenho sido visitado por ela mais frequentemente nestes últimos dias.

nAnonima, ainda há sempre uma coisinha aqui, outra ali, a precisar de ser posto no seu lugar. Mas tá quase.

Pulha, sábia decisão, amigo. Abraço.

carrilheto Carril disse...

Por vezes a minha memória me falta destes tempos, mas ao ler o que escreveste do corinthiano teu amigo fez-me lembrar até da voz dele e algumas vezes que vcs me esconderam que estavam a ver s playboy ( algo que assim devo acrescentar a esta estória...) abraço

Briseis disse...

eu também tenho uma caixinha... embora não contenha objectos ou palavras vindos do outro lado do atlântico, nemde há tantos anos, o seu valor cresce todos os dias. É bom ter estes auxiliares de memória para sabermos quem fomos.

Catsone disse...

Carrilheto, estávamos apenas a ler os artigos daquela revista... que eram muito bons, btw.

Briseis, acho que todos nós temos uma caixinha dessas, mesmo que não seja uma caixinha física; e serve exactamente para não esquecermos do que fomos no passado.

João Roque disse...

É numa situação dessas (mudar de casa), que tanta coisa de que já não nos lembrávamos aparece; algumas dessas coisas, porém, já as tínhamos procurado sem sucesso.
Algumas guardamos de novo, à espera que as relamos sabe-se lá quando...
Outras, depois de lidas, vão para o lixo, pois não se pode guardar tudo, sempre.