01 abril 2009

Frascos e comprimidos

Temos novos D. Sebastiões em Portugal. Um grupo que luta pelo bem-estar dos pobres doentes deste país. Sem interesses, sem segundas intenções, apenas, e tão somente, a saúde dos indivíduos.
Essa classe é composta pelos senhores doutores farmacêuticos.
Eu entrego o meu diploma da faculdade de medicina. Para que o quero, se qualquer senhor farmacêutico passa por cima do que eu decido, no fim de uma consulta com um utente? Os meus 6 anos na faculdade e os intermináveis anos de internato, afinal, não servem para nada: os farmacêuticos é que sabem.
E vêm para a televisão, com duas caixas de medicamentos, para revelar, "incrédulos", o escândalo das diferenças de preço entre duas substâncias, supostamente, idênticas.
"Olhe, por esta embalagem o doente paga 10€ e por esta, apenas 5,50€" diz a farmacêutica orgulhosa.
O que de melhor há, para se chamar a atenção, do que enxovalhar a classe corporativista dos médicos? Esses malandros que só querem prescrever a marca que lhe dá canetinhas e post-it's!!!
"Vamos, mas é, ajudar o povo a não ser roubado por essa cambada de doutores e "seus" laboratórios!"
Tudo pelo povo! Tudo pelo utente, pelo reformado e pelo doente crónico, que tem tudo comparticipado mas que não atinge objectivos nem respeita alterações do estilo de vida.
Mas, esperem um minuto...alguém já viu uma farmácia na banca rota? Hum... estranho.

Uma teoria, da conspiração, para essa "bondade" da farmácia da esquina:
"Num belo dia, um representante do laboratório de genéricos X, duma marca menos comercializada, visita a farmácia da esquina. Vem, o senhor, apresentar uma proposta para ajudar a farmácia a ajudar o utente. Oferece então 10 embalagens de Furosemida genérica pelo preço, maravilhoso, de 5. O farmacêutico, pensando no utente, aceita. No dia seguinte o médico, numa consulta, receita ao Sr. Manuel a furosemida de marca e tranca a receita, para fazer valer a sua famigerada prescrição. O Sr. Manuel vai a farmácia da esquina e é aconselhado a comprar a furosemida genérica porque é mais barata. O Sr. Manuel agradece o interesse do Sr ajudante de farmacêutico e vai para casa com o medicamento. No outro dia, o Sr. Manuel dá entrada no serviço de urgências do hospital distrital, com um edema agudo do pulmão"
Isto é uma situação caricata e serve para explicar várias coisas:
1º Nem todos os genéricos são iguais às substâncias originais. O caso da furosemida é um dos exemplos clássicos. Ninguém sabe porquê, mas a furosemida genérica não tem, nem de perto, nem de longe, a mesma eficácia que a original;
2º Os excipientes dos medicamentos variam em alguns genéricos, o que faz com que o comportamento da molécula seja diferente. O excipiente não é só farinha, ele influencia a farmacodinâmica e farmacocinéitca sobremaneira;
3º De boas intenções está o inferno cheio, já dizia a minha avó. Aqueles que criticam a promiscuidade dos médicos, em relação a pretensas prendas dos laboratórios, tentem conhecer o lado das farmácias. É um novo mundo de bons negócios; ou as pessoas acham que tudo isto é realmente pelo bem-estar do doente?
4º Acho engraçado aqueles, que têm um enorme lucro em todos os medicamentos (de marca ou genéricos), venham agora "rebelar-se" contra os que, justamente, permitem que o seu negócio prospere;
5º A prescrição do médico é soberana! Se bem ou mal intencionada, isso são outros quinhentos. Não posso admitir que outra pessoa possa alterar, aquilo que acho melhor para o meu utente, apenas porque acha que pode. Isso, nem entre colegas é ético, quanto mais pessoas que não tem a formação adequada (e responsabilidade) para tal;
6º Eu prescrevo genéricos sempre que posso, mas mesmo esses têm diferenças de preços. Será que também será alvo de trocas? Existe troca mesmo entre genéricos do mesmo preço, mas isso já não interessa que se saiba, não é?
E poderiam ser muitas mais razões, mas o post já é um dos maiores que publiquei.

Ao senhor
João Cordeiro, presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), que refutou os comentários do Bastonário da Ordem dos médicos com a seguinte frase "onde estava o Bastonário quando se ouviu que os utentes não compravam todos os medicamentos prescritos", digo-lhe o seguinte: serão este os argumentos que vai utilizar? Será com esta ligeireza que vai combater a "mercenária" classe médica? Será que são os médicos que impõem um preço às substâncias? Está preocupado, com o facto de o doente não comprar todos os medicamentos, por pensar na saúde do mesmo ou na diminuição da vendas?
Sugiro que compre uma embalagem de "pronto" para dar lustro a essa tremenda cara-de-pau! (e já agora uma lâmina de barbear).

12 comentários :

rmp disse...

Muito bom post.

Sobre isto, digo o que já disse noutro sítio:

Para mim, é simples.

Se isto for aceite pela tutela o que eu enquanto médico farei é informar o doente de que deverá, quando a receita está "trancada", comprar aquele e só aquele medicamento.

Se optar por não o fazer, a responsabilidade terapêutica deixa de estar na esfera do Médico e passa para a do Farmacêutico que altera a prescrição, com as consequências legais que daí decorrem.

É raríssimo eu trancar uma receita.
Concordo plenamente com a prescrição por DCI, aliás pratico-a.

Independentemente disto, se "tranco" uma receita é por critérios clínicos e não outros. A discussão em relação aos excipiente e a biodisponibilidade é isso mesmo, uma discussão por isso eu não seria tão taxativo assim - a percepção sobre a furosemida é paradigmática mas ha muitos outros exemplos.

Publiquem-se os estudos de bioequivalência para não restar qualquer dúvida que os genéricos são exactamente iguais ao medicamento de marca e, aí, não há "desculpas" para os médicos.

Por outro lado, uma associação corporativa, a ANF, vem entrar num terreno que, a ser alterado, deve-o ser pela tutela e não desta forma.

É, tão só, uma questão de cumprir normas -se a receita está trancada não pode ser fornecido outro medicamento, está lá bem explícito.
Não concordam que se tranque, muito bem, mude-se a lei e veremos os efeitos.

E já agora - se querem mesmo fazer isso Srs. Farmacêuticos, aprovem lá isso com uma adenda - a farmácia é obrigada a fornecer o genérico mais barato do mercado e não aquele que lhe dá "mais jeito". Pode ser?

Sahaisis disse...

A unica coisa que eu tenho a acrescentar em relação a isso é que na generalidade o farmaceutico é um ser odioso..pelo menos os que eu trabalho são..não sei porquê mas são...será que também há farmaceuticos genéricos e os que são the real deal?

Rain disse...

Eu vou escrever do lado de "doente" e não do de médico ou farmacêutico. Se há coisa que me chateia é ver as receitas do meu avô, passadas no centro de saúde, sempre sem possibilidade da compra de genéricos e ver as mesmas receitas passadas por médicos privados que dão essa possibilidade. Penso que quem devia deixar essa possibilidade em aberto, para começar, deveriam ser os médicos do SNS pois sabem que estão a lidar com doentes com menos dinheiro. Mas lá está, não sei que tipos de canetas os médicos recebem.

Por outro lado, há uns tempos receitaram-me um genérico e eu tive uma reacção alérgica bem estranha, fiquei às bolinhas (cor-de-rosa!). O médico ficou um bocado espantado mas receitou-me o medicamento "caro" e a coisa passou.

Sinceramente, sinto-me um bocado perdida neste assunto. Não sei porque é que há médicos que NUNCA passam genéricos e não sei porque é que os genéricos não funcionam tão bem como os outros. Sei é que depois do episódio das pintinhas, prefiro o medicamento caro se o puder pagar...

Catsone disse...

Olá RMP, benvindo à esta humolde casa. Concordo plenamente contigo. A responsabilidade passaria para o farmacêutico quando, por sua sugestão, o doente levasse o genérico. Eu também não tranco a receita, mas sei que as farmácias onde meus utentes vão levantar os medicamentos, trocam os genéricos ao seu belo prazer. Quando os doentes voltam , trazem caixas de cores diferentes e, parecendo que não, isso influencia muito a terapêutica. Mas isso não interessa nada aos comerciantes...

Sahaisis, tu agora foste radical... mas estou contigo, lol

Rain, eu, sempre que posso, passo um medicamento genérico. Existem cerca de 5 a 6 laboratórios de genéricos nos quais confio plenamente. Eu não posso é concordar que um senhor que nã trata de doentes, mas sim de moléculas, passe por cima de uma decisão minha. Parecem que me tomam por interessado na prescrição de laboratório A ou B. É acima de tudo uma questão de princípios, eu não meto o nariz na farmácia , eles que não metam o deles no meu trabalho e na minha relação, de confiança, com o meu utente.
Relativamente à reacção que tiveste, é a velha história dos excipientes e bioequivalência, o que explica que nem todos os genéricos se comportam de forma idêntica ao original (que teve anos de investigação, testes e estudos).

Rain disse...

Compreendo perfeitamente e também sei que os médicos "das canetas" não definem a classe médica. Assim como em todas as profissões. Eu vou continuar a levantar o medicamento que me for receitado pelo médico sem dúvida nenhuma :)

MA-S disse...

LoL...curioso como acabei de reflectir sobre o "german man"...
anyway...
Sobre o post digo...
Uma vez a veterinára da urgência aqui da misericórdia receitou-me uma espécie de anti-histamínico genérico, que nem cócegas à pontinha da unha do pé me fez, pelo contrário agudizou-me o estado...
Não sou a favor nem contra os genéricos...cada um sabe da sua bolsa.
Cabe ao médico esclarecer ao doente se este manifestar desejo de um genérico por ser mais barato, e encaminhar da melhor maneira possível...
O doente tem que deixar de ir ao farmacêutico a pensar que vai ao shôtôr e pensam que a única diferença é não pagar taxa moderadora...
P.S: Também há médicos que não percebem um cuzito de química...e tal...

Artemysa disse...

Eu queria só dizer que como há farmacêuticos "odiosos", também há os médicos "odiosos". Podia dar-vos inúmeros exemplos, mas acho que ataques pessoais não são relevantes. Não me vou por aqui a dissertar sobre bioequivalência mas sei a formação que tive e a formação que tiveram os meus colegas de curso. Só que há bons e maus laboratórios, com bons e maus profissionais. E, desculpem-me lá senhores doutores, se há falta de ética nos laboratórios e famácias, também há falta de ética pelos consultórios e hospitais desse país.

Digo-vos ainda que esta picardia entre médicos e farmacêuticos é triste e só prejudica quem realmente interessa, o doente. Se os profissionais de saúde colaborassem decentemente entre si poupava-se muito dissabor. Mas não, vivemos num país em que cada um rema por si.

Catsone disse...

Artemysa, concordo que em todas as profissões existem os "odiosos" e os bonzinhos. Eu não fiz ataques pessoais, ou melhor, se calhar fiz, quando disse o nome do presidente da ANF: como se pode propor como promessa eleitoral esta "revolta"?.
Eu só tenho problemas quando se metem no que é única e exclusivamente da responsabilidade do médico, ou seja, a prescrição. Eu nunca tranco a receita, crendo no bom-senso do farmacêutico. desejo apenas é que quando necessitar trancar que não se abra com pé-de-cabra.
O doente, realmente, é o mais importante, isso nem está em causa. Concordo que, mais vezes que o desejável, é o último a ser consultado e o mais facilmente atingido pelas picardias dos profissionais de saúde.

Artemysa disse...

Eu já tive que me meter na prescrição mais que uma vez e não gostei. Não gostei porque não é da minha competência realmente. E porque sabia que iria levar com uma reacção do tipo das aqui descritas por parte de um médico atarefado.

Mas tive de o fazer. Porque o doente não podia levar para casa um medicamento "hibrido" que não existia (primeiras letras de um medicamento, últimas letras de outro medicamento), ou numa dosagem absurda. E porque se dispensasse o medicamento errado ou na dosagem incorrecta seria legalmente responsabilizada.

É claro que sei há erros para os dois lados, mas o diálogo deveria ser encarado como uma coisa positiva, de modo a evitarem-se situações graves, e não como um ataque ao médico. Eu, pelo menos, de todas as vezes que falei com um médico neste sentido nunca foi para criticar. E posso garantir-te que nunca fui bem tratada. Daí que me chateie ler comentários em tom de generalização que os farmacêuticos são uma classe "odiosa".

Sei que não fizeste ataques pessoais, embora a tendência geral seja essa (nas duas classes, sei perfeitamente).

Também sei que existem muitos lobbies na saúde e honestamente sei que é muito difícil mudar seja o que for. Mas se os diferentes profissionais se concentrassem menos no próprio umbigo e trabalhassem mais em equipa e com mais respeito pelas diferentes valências, as coisas poderiam ser bem melhores.

Catsone disse...

Artitude, não poderia estar mais de acordo.
Reconheço que a minha classe está cravejada de gente odiosa, mas há uma nova leva de gente nova a surgir, com ideias totalmente renovadas. Isso não quer dizer, no entanto, que acabamos com todos os energúmenos. Isso é mais difícil que acabar com uma infestação de baratas japonesas.
Longe de mim generalizar. Odeio quando o fazem com os médicos, mão posso aceitar quando o fazem para as outras classes (a excepção da política, lol).
Eu não posso concordar com as atitudes de pessoas que se encontram à frente de associações de profissionais e fomentem este tipo de atitudes. Os dirigente têm de ser comedidos.
Infelizmente, como dizia alguém que conheço, este país está entregue a medíocres que tudo fazem para aparecer...
E, vê lá, existem medicamentos híbridos: omeprarina, sinvastatona, Nifedipol,etc, etc.
Sabias que no Brasil os médicos pagam multas se não escreverem nas receitas de forma legível?

Artemysa disse...

Não, não sabia, mas parece-me bem :P

Balhau disse...

Com esta conversa toda fiquei sem vontade de ficar doente...