25 setembro 2010

Cada macaco no seu...

AVISO: este é o post mais longo que alguma vez escrevi neste tasco.


"Doentes vão poder escolher marca do fármaco que compram, diz tutela"in Público

Obviamente que não poderia deixar passar esta notícia em claro. Como é óbvio devo destacar o conteúdo e não a "manchete" em si, já que a mesma não reflecte o que a totalidade do que notícia quer transmitir (o que é perfeitamente normal).

Palavras chave de toda esta situação: "demagogia", "incompetência" e "conluio".

Vamos por partes:

1º Não sabia que tínhamos mais de um secretário de estado da saúde. Ah, ok, o outro é secretário de estado adjunto e da saúde. Está aí um bom exemplo de despesismo: 2 secretários que falam e não dizem (nem fazem) nada direito;

2º Parece que o governo quer que, no fim da consulta, na altura da prescrição, explique o porquê da MINHA escolha por uma marca de genérico em detrimento de outra mais barata. Será que se eu explicar aqui fico livre dessa palhaçada?
Não sei se as pessoas têm conhecimento mas as consultas em contexto de Medicina Geral e Familiar têm um tempo para serem executadas. Durante esse curtíssimo período tenho de falar sobre os problemas, fazer diagnóstico, planos de actuação, educação para a saúde, prognóstico, falar sobre o tempo e das vindimas e passar receituário. Raramente se cumpre o período estipulado porquê existem situações que merecem mais tempo de consulta. Não posso tratar uma gripe da mesma forma que uma depressão, certo? Alguém já parou para pensar numa consulta cujo motivo principal é a solidão? Agora querem que nós gastemos tempo a justificar o desnecessário, o supérfluo e o que não interessa.
As pessoas não gostam de esperar, mas querem que a consulta da vizinha seja o mais célere possível, e o pior que se pode ter é uma sala de espera insatisfeita...

3º Os genéricos: o que é preciso para ter uma marca de genéricos em Portugal? Bem é preciso ter um nome, por exemplo: Genéricos Catsone. Aprovada a marca, encomenda-se a um laboratório qualquer um lote de um determinado medicamento, por exemplo: Ibuprofeno. Depois propõem-se um preço ao Infarmed e se aprovado, tcharam, temos o Ibuprofeno Catsone. Isto é uma caricatura, provavelmente não será assim tão simples (ou não seríamos o país dos burocratas) mas não deverá andar longe.
Portugal é o país com mais marcas de genéricos. Vejam bem que eu disse "marcas", não disse laboratórios, e isso não é a mesma coisa. Posso confiar nesses? Nunca os vi, não sei o que me oferecem, se têm estudos. O que é mais barato nem sempre reflecte qualidade. A Renault e a Dácia são do mesmo grupo, terão a mesma qualidade?
No entanto, existem laboratórios de genéricos (verdadeiros laboratórios que produzem medicamentos) que fabricam até para empresas emblemáticas como Bayer, Pfizer ou MSD. Nesses eu confio. Aos laboratórios portugueses eu dou prioridade.
Depois há a questão dos delegados de propaganda médica. Quando recebo um delegado espero que este me mostre o seu produto. No caso dos delegados de empresas de genéricos, existe um documento/estudo que me interessa particularmente: o estudo de bioequivalência. Esse estudo vem mostrar que o medicamento genérico comporta-se exactamente da mesma forma que o produto original. Como posso confiar num genérico que não o tem?
Existem laboratórios que não enviam delegados ao meu encontro, terão algo a esconder? Será para poupar em pessoal? O que oferecem esses às farmácias?
Podem dizer-me: "A e tal, o INFARMED aprovou é porquê está dentro dos parâmetros", e estará realmente?

4º Existem moléculas cujo genérico não consegue obter a mesma actividade no organismo; um exemplo: furosemida. E outros exemplos há, podem dizer o que quiserem mas nós, que trabalhamos não com a venda mas com os resultados das substâncias, temos alguma noção daqueles que melhor funcionam.

5º Como posso confiar numa marca branca de uma marca de genéricos? Sim, existem. Será que trazem a dose indicada? Deixem-me ver, a empresa que fabrica o genérico X ainda pode fazer um genérico mais barato? Hum...

6º Vamos deixar o doente escolher o seu medicamento? Quando chegar à farmácia é mesmo isso que vai acontecer?
"Olhe, tem estas marcas de clopidogrel e de flucloxacilina. Agora escolha."
"Clopidóquê? "
Infelizmente, o analfabetismo é comum em localidades rurais e já vi não uma, nem 10 vezes, idosos a tomar a mesma medicação em duplicado porquê na farmácia lhe trocaram a marca do genérico a que estava acostumado.
Será que as pessoas sabem o que é explicar a forma de tomar a medicação a um idoso de 85 anos, que não sabe ler, que ouve e vê mal, já com algum grau de demência e com 6,7, 8 ou mais substâncias diferentes? Terão todas as instâncias preparadas para, de cada vez que o senhor levantar a medicação, esperarem (com paciência) que o "cliente" escolha todas as caixas?

7º Será que essas pessoas andam no terreno? Será que sabem o que é trabalhar num local afastado da cidade, onde dominam poderes deveras obscuros? Será que pensam que os médicos, enfermeiros e outros agentes da saúde não têm mais nada para fazer?
Quem é que legislou os medicamentos genéricos de graça há 1 mês das eleições? Quem é que hoje está à rasca porquê essa lei foi um tiro no pé e agora não tem financiamento para a honrar? A culpa será também minha que tenho uma prescrição de genéricos acima dos 50%?

8º Falar numa situação dessas numa cerimónia que assinala o Dia do Farmacêutico e poucos dias depois de baixarem a margem de lucros das farmácias e a comparticipação aos cidadãos? Então, estão a brincar? Batem e depois sopram e dão miminhos?

9º Gosto da generalização que fazem quando dizem que os médicos estão de conluio com os laboratórios. É exactamente isso que penso quando aquele senhor idoso, de que falei atrás, vem à minha consulta: "deixa-me tirar a choruda pensão ao velhote! Eh, eh, eh...".
Ninguém me conhece ou sabe a forma e como trabalho, mas aquele idoso terá o melhor que posso fazer dentro das minhas capacidades, isso garanto.
Não admito que me comprem com canetinhas, livros ou participações em congressos.
Não admito que ninguém, seja ministro, secretário de estado, colega, farmacêutico ou comentador de jornais online, venha me incluir no lote dos privilegiados por laboratórios ou ponha em causa a minha honra profissional.
Não tenho culpa de ser médico e estar metido no meio dessa podridão cuja pessoa mais prejudicada é o utente/doente.


10º Eu não viajo à pala para nenhum lugar!

Há pessoas que têm a medicina que merecem...

13 comentários:

Sahaisis disse...

estou demasiado podre e doente para ler tudo, mas como utente/doente fico-te muito grata pelo ultimo paragrafo..cá beijinho miúdo ;) e nem toda a gente vem no mesmo saco, tenho na familia exemplos parecidos contigo e tenho muito orgulho nisso...nao nos devemos vender pela forma como usamos a nossa caneta...

Sahaisis disse...

p.s: e o que escreves em relação à prescrição propriamente dita só prova que nao te comportas de maneira leviana em relação à forma como a fazes...

caminhante disse...

li com muita atenção todas as alíneas. foram bastante esclarecedoras.

mas, gostaria de fazer uma só pergunta:

caro catsone... ainda não deu para entender que este país pensa em tudo menos no cidadão, seja médico, seja doente, seja lá ele o que for [desde que não faça parte da monstruosa maquinaria do estado e dos imensos lobbies que se alimentam dele]?

é triste. mas não é à toa que nós somo o país do fado....

MA-S disse...

Pá, que orgulho!
Não queres ser meu MGF? lol

P.S: o miúdo ficou com medo de ti...

Lala disse...

Tem calma. Relaxa. Daqui levo que és um médico excelente. Com carácter e profissionalismo. As restantes "peripécias" não são grande novidade no nosso país. Vê lá que agora até descobriram que estamos em crise política [só agora?]... para além da financeira, da económica, da habitacional, da escolar, da saúde, da... da... e da...

...

Acabei de fazer um exercício de meditação e agora, ao ler o teu post os músculos contraíram-se de tal forma que fiquei com os pelinhos todos levantados.

Rain disse...

Assim é que se fala rapaz! Hehe

E infelizmente sei que os genéricos não fazem sempre o papel do medicamento original "the hard way"!

Gostei muito de ler :)

Cirrus disse...

Bem, o primeiro não entrou, tento outra vez.
A única coisa que sei sobre isso é que tomo genéricos para controlar o castrol, e fui que os pedi. E sei que há genéricos que não se comportam como outros medicamentos.

Sei também que há classes profissionais que se julgam inatingíveis, e descansam sentados enquanto quase todo o país é atingido duramente por medidas injustas. Folgo em saber que não és desses. E quanto à generalização que referes, é bem verdade, e espero que sim, que não embarcas em congressos. Mas digo-te desde já que és o único médico que conheço que nunca viajou à pala de ninguém. E isso diz muito daquilo que és e do que este país Há muito deixou de ser: honesto.

meldevespas disse...

Siseramente nao sei o que esta gente pensa da vida! (era o que diria a minha maezinha).
A pessoa em si, utente, doente, ser humano, cada vez ´´e mais relegado para planos que ficam mais ou mnos ao nivel do esquecimento. Esta "guerrilha" toda da medicaçao cheira-me sempre a tilintar de dinheiro, e nao devia. A coisa devia ser feita ali direitinha e sempre com o intuito priomeiro de servir quem precisa, ou seja o doente, e da melhor forma possivel. Tem que haver humanidade, contacto, atençao, tem que haver respeito. Eu concordo contigo no essencial, ate porque a um doente se lhe dizem que o generico mais barato faz o mesmo (nao fazendo) o doente nem sequer tem maneira de refutar a questao, e nesse ponto entra a tal "guerrilha" que faz as pessoas emprenharem pelos ouvidos. N~~ao percebo nada de nada deste assunto, mas como utente so quero nao ser ludibriada. Ainda outro dia a falar com um professor, ele me dizia, daqui a pouco com tantas exigencias por parte dos governantes, daqui a pouco nao temos tempo pra dar aulas.
Ora eu chamo a isto ser mais papista que o papa, os nossos governantes, estao a sonhar acordados com um estado feito em papel timbrado e asisnado por baixo, e isto nao sera bem assim, ha aqui gente, ouviram!
...
Beijinho

Catsone disse...

Sahaisis, é mesmo isso, a caneta (venha de onde vier) não deve estar viciada.
Bj

Caminhante, este foi o post mais longo que escrevi mas poderia ter sido muito maior. Eu sou um pouco naive e teimo em não compreender que quem está lá por cima não se pode estar a lixar para aqueles que os elegeram...
E vamos cantando o fado que é nacional e é muito bom ;)
Bj

MA-S, eu selecciono criteriosamente o meu ficheiro de utentes, lol
Bj

Lala, relaxados já estamos nós a assistir o país a dirigir-se rapidamente e sem travões para o abismo... :(
Bj

Rain, olha aí está. Nada como "ver para crer", certo?
Bj

Cirrus, eu já aceitei inscrições em congressos. Existem congressos e Congressos. Existem congressos da treta e Congressos em que se aprende muito. O problema é que, como interno, a receber o que recebo, sou incapaz de pagar inscrições sem causar um rombo ao orçamento (e não aceitam financiamento em inscrições).
No entanto, não é por me ajudarem em inscrições que vou prescrever mais desse laboratório; mas se existirem empates em preço, obviamente vou lembrar-me de quem me ajudou e isso é eticamente correcto.
Casos houve em que delegados começaram por dizer "sabe, se prescrever tantas caixas nós podemos..." e eu completei "... ficar por aqui?". Houve os que disseram "que o Sr. Dr. não prescreve muito a nossa marca" e retorqui "e se continuar a falar assim vou prescrever menos ainda".
Existem classes que se acham intocáveis, comecemos por pô-los na ordem e digo: comecemos pelos políticos!
Abraço.

Nota: será mesmo necessária a estatina para o teu colesterol? ;)

Mel, essa coisa toda do medicamento e sua prescrição muitas vezes fez-me por em causa a escolha profissional. Estamos no meio de interesses tão obscuros como as noites negras de inverno.
Pensar no doente/utente? Há muito que se esqueceu que sem utentes/doentes/clientes (esta última palavra irrita-me solenemente) não existiria SNS, Médicos ou farmácias...
Trabalhar neste meio é como ser mergulhador em costas sul-africanas ou australianas:
infestadas de tubarões.
Bj

Dylan disse...

Boa noite.
Só queria rebater alguns pontos:

- Um genérico só surge quando a patente de um medicamento caduca. Portanto, não é tão fácil abrir um laboratório de genéricos. Não sei se sabe mas o "Clopidogrel" e, mais recentemente, o "Sildenafil", tiveram problemas para entrarem no mercado, desde acções judiciais a outras curiosas peripécias...

- Se o sr. Dr. espera que todos os laboratórios de genéricos enviem delegados ao seu consultório não vai ter tempo de atender os seus doentes. É que são tantos que nem imagina! É que têm sido tantos delegados despedidos que nem imagina...

- A Farmácia troca o genérico porque simplesmente não pode ter todos as marcas do mercado (teriamos que alargar o espaço de armanezamento) e porque a lei assim o permite.

- O que é que os laboratórios oferecem às Farmácias? Muito pouco, meu caro. Algumas transações comerciais mais vantajosas, umas canetas, uns blocos de apontamentos, e uns sacos de gosto duvidoso.

Catsone disse...

Olá Dylan. Presumo que sejas farmacêutico, certo?
Obrigado pelo teu comentário, mas vou rebater algumas das ideias que expões.

1- Obviamente que um genérico depende da queda da patente e conheço bem a situação do clopidogrel. O que eu disse é que é fácil iniciar uma empresa de genéricos porque estava implícita a ideia da queda da patente. Mas gostava de saber porquê não consigo prescrever uma atorvastatina genérica, já q. a patente caiu há que tempos...

2- Não quero que todos as empresas de genéricos mandem os delegados ao meu encontro, o que quero é que essas empresas sejam em menor número. Não faz sentido 50 losartans de marcas diferentes, não concorda? Porquê tantas marcas? Não me venham com a história da competitividade...

3- Pode ser que a farmácia troque o genérico pq não tem aquele q foi prescrito mas isso é uma minoria dos casos. Porquê troca um genérico que já providenciou aquele mesmo utente em ocasiões anteriores. Mais um motivo para haver uma diminuição do número de marcas.

4- É o que ouço da contra-informação dos delegados, farmacêuticos meus conhecidos e colegas médicos. A verdade é que, se não tem as marcas mais frequentemente prescritas, não consigo compreender que possuam em estoque marcas de genéricos desconhecidas.

5- Que fique claro que não sou contra os genéricos, farmacêuticos ou o que quer que seja. Sou contra a burocracia e este show-off que criado à volta dos genéricos. Para mim existiriam no máximo 10 marcas (de laboratórios) de genéricos, dando-se prioridade às portuguesas, e estas discutiriam em conjunto com o governo o preço das moléculas. Seria mais fácil, mais célere e económico.

Abraço.

Cirrus disse...

Eh pá, a parva da estatina parece que é mesmo necessária...

Balhau disse...

Pah tenho uma dor no cu. Não sei se é dos genéricos. O que me receita neste momento?

Agora a brincar, gostei muito do teu texto. Até pareces um médico de verdade. Hehe
Parabéns
:D