02 maio 2007

Grande manifestação pelo Tchu!

Depois da famigerada história dos cogumelos, eu costumava, depois de apanhar dos amigos, contar sobre uma manifestação que houve numa certa cidade e que apoiava a causa do Tchu. Ei-la:

Era uma tarde quente de verão. Ele cansado, sentado na sua cadeira de escritório, mirava pela janela entreaberta o sol que queimava tudo o que aparecesse pela frente.

No rádio a mesma canção vezes sem conta: “agora a nova de fulano”, típico single de verão.

Ele já estava farto, tinha tirado o nó da gravata e preparava-se para encestá-la no balde do lixo. Uma pasmaceira…

Sonhava com as margens de uma bela praia, uma brisa fresca e uma bebida qualquer com um chapéuzito parolo para enfeitar. Ao longe uma bela rapariga num biquíni colorido e ainda mais distante a vela de um barquinho quase a desaparecer no horizonte azul…”suspiro”

Nessa tarde gostava de estar em qualquer parte, menos ali naquele cubículo: “pseudo-escritório de mer”#!!!”, pensava.

De repente um som ao fundo da rua. Foi a janela espreitar e 9 andares mais abaixo uma manifestação gritava exaltada:

“- Queremos o Tchu! Tchu para sempre, Tchu para presidente!”

- Tchu? – pensou em voz alta.

Desceu em alta velocidade os 9 lanços de escada que o separavam da liberdade do ar livre e deparou-se com milhares de pessoas vestidas de amarelo que gritavam palavras de ordem em defesa do tal “Tchu”.

Correu para a primeira pessoa que individualizou na amálgama de gente:

- Ó amigo, quem é esse Tchu? – perguntou.

- Queres saber?

- Sim – sua curiosidade aumentava a cada segundo – quero participar nesta manifestação também.

- Primeiro: só podes participar se tiveres uma t-shirt amarela e uns calções pretos; segundo o Tchu só verás quando chegar a hora certa.

Ele, então, correu ao pronto-a-vestir mais próximo para tentar comprar uma t-shirt amarela e uns calções pretos.

Apenas na 8ª loja em que entrou conseguiu a tal indumentária, e correu para os transeuntes.

“- O Tchu é o maior! Queremos Tchu muitas vezes! O Tchu é grande!”, era ensurdecedor.

Começou a caminhar e a acompanhar os outros na gritaria, mas foi logo interrompido por um outro manifestante.

- Olhe lá, meu caro, o senhor não pode estar aqui nesta manif! – afirmou indignado.

- Mas por quê? Estou vestido a rigor, como um seu colega disse – tentou justificar.

- Então onde está a fica cor-de-laranja à volta da cabeça?

Só então reparou que cada um dos intervenientes possuía à volta da cabeça a tal fita cor-de-laranja. Achou um pouco estranho, mas as regras são para seguir.

- Então se conseguir essa fita posso participar? Perguntou.

- Claro, será bem-vindo se estiver correctamente vestido.

Ouvindo isso partiu em busca da tal fita: “mas onde raio irei comprar tal coisa?”, perguntava-se enquanto procurava uma retrosaria ou algo da mesma classe. Entrou na primeira loja do género que encontrou e, por sorte, o comerciante tinha recebido um carregamento das fitas misteriosas. Comprou duas, “não vá o diabo tecê-las!”.

“Viva o Tchu! Quem nunca experimentou que vá tomar no…”

Correu em direcção dos manifestantes como se fosse tirar o pai da forca.

Mal se tinha misturado na multidão, foi logo interpelado por outro indivíduo:

- Meu caro, não pode estar aqui connosco! Disse o senhor de forma educada.

- O que falta agora?

- Como?

- Alguns dos seus amigos falaram sobre a t-shirt, os calções e a fita. O que me falta agora para poder participar nesta manifestação?

- Esqueceram-se de dizer que devia estar a usar umas sapatilhas “All-Star” azuis.

- Você está a gozar, não?

- Acha que estou com cara de brincadeira? Perguntou em tom nervoso.

Ele saiu disparado para uma sapataria. Não entendia para quê tanta cerimónia. Será que a finalidade daquilo tudo seria a implementação de um sistema autoritário? Quem seria esse Tchu? Tudo isso não importava, ele queria participar de algo que fizesse sentido. Estava farto da mesmice do trabalho, da robótica da repetição. Comprou as “All-Star” azuis: “afinal sempre queria ter umas mesmo”.

“Queremos o Tchu! O Tchu é boa gente! Tchu para presidente!”

Entrou no meio da multidão para fazer parte do mesmo organismo vivo que exalava contestação. Dessa vez ninguém veio chateá-lo. Estava, finalmente, feliz. Não sabia porque, mas isso era o que menos interessava naquela altura.

A manifestação andou cerca de 2 km pelas largas avenidas da cidade. Repórteres estimavam os números do aglomerado: “São aproximadamente 10.000 os manifestantes que aqui…” dizia o repórter da televisão estatal; “são cerca de 200.000 os revoltosos que hoje…” era a estimativa do colega da televisão privada sensacionalista.

“ - Queremos o Tchu! Tchu, Tchu, Tchu! Para sempre Tchu!”

“ - O povo unido mantém o Tchu erguido!”

Em palanques improvisados, os mais indignados gritavam as mesmas frases com megafones. Outros atiravam-se para cima dos demais, como mergulhadores em mar-alto. A populaça estava em grande alvoroço, reinava a confusão.

Ao longe, e sempre ao longe, a tropa de choque fitava o cortejo com ar austero. Os cães babavam-se enraivecidos, quase possuídos.

E a comitiva continuava. Como peregrinos, em uníssono, entoavam:

“- O Tchu é o salvador! O Tchu é que tem valor” e “Abaixo à repressão, o Tchu é a solução”.

Chegaram à uma grande rotunda, uma das maiores da cidade. Nas 5 pistas que circundavam a praça circular foram-se acomodando, como podiam, as milhares e milhares de pessoas. Nunca pararam de entoar seus cânticos de revolta: “Tchu, Tchu, Tchu”, agora cada vez mais alto, cada vez mais estrondoso…

No centro da Rotunda erguia-se uma grande estátua de um estadista importante da história da nação, rodeada de um lago artificial e um chafariz do qual jorrava uma água esverdeada. Era já uma obra antiga, corroída pelo tempo, já verde da poluição citadina. No topo da estátua um indivíduo enorme gritava:

“- O que vocês querem?”

“- Queremos o Tchu”- gritava a multidão acentuando a última palavra. Suas vozes unidas podiam ser ouvidas a vários quilómetros de distância.

No topo o sujeito incitava ainda mais a população. Era um homem de raça negra e que apresentava na mão direita uma tocha com o fogo mais brilhante alguma vez visto. O corpo atlético parecia uma figura esculpida no próprio ébano. Media mais de 2 metros de altura e impunha grande respeito. Sua voz grossa e eloquente desafiava a massa à sua mercê e provocava uma reacção instantânea de júbilo:

“- Eu repito: o que vocês querem?”

“- Queremos o Tchu! - respondiam submissos.

“ – Se querem o Tchu, gritem mais alto”

“- Queremos o Tchu, queremos o Tchu!

“- Mais alto!”

“- Tchu! Tchu! Tchu!”

A histeria tomou conta das gentes:

“ –MAIS ALTO!”

“ – Tchu! Tchu! Tchu!

“- MAIS…”

“-TCHU! TCHU! TCHU”

E nisso o negro com seus dois metros de altura, num movimento ágil e rápido lança a sua tocha à água do lago e…TCCCHHhhuuuuuuuuuuuuuuuuuu!

(Obs. este Tchu tem que demorar praí uns dois segundos)

4 comentários :

Té la mà Maria disse...

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Rain disse...

Suponho que a pessoa do comentário acima deve ter percebido e adorado a tua história em português! lol

Sim senhor, eu já estava à espera de um final apoteótico, mas superaste-te! He he

Catsone disse...

A pessoa do 1º comentário estava lá para ver o Tchu!!!

Rain disse...

Ah, é daí que a conheço!!