15 março 2012

Matrioska

E agora, um pequeno devaneio:

"Numa sala de estar:

- Pois é, amigos, o mundo não é aquilo que vocês pensam mas sim o que vos permitem ver. Isto é tudo um sonho. "Eles" não querem que conheçamos o verdadeiro mundo. Isto que palpamos, que sentimos, que gostamos ou desgostamos, são coisas que nos implantaram na mente. O objectivo é ver como reagimos às diversas situações que nos surgem e estudar, dessa forma, o nosso comportamento.
- Como? Tudo isto é uma miragem? E a família? E as memórias?
- Miragens sim, um cenário onde tu e eu somos actores. A família é “sorte” e matéria de exame. As memórias, no entanto, são verdadeiras e o resultado das nossas vivências, a única coisa em que "eles" não intervêm já que mantém a ilusão.
- Desculpa lá, mas isso não faz sentido. Se esses "eles" existem como é que não os vemos?
- Porque somos infinitamente pequenos perante eles: estão fora do alcance da nossa arcaica visão. É o equivalente nosso de observar uma colónia de bactérias ao microscópio. Vê lá bem que nós nem conseguimos ver o nosso universo por completo e o nosso universo está contido no "deles".
- 'Péra lá, o universo, desde o Big Bang, tem biliões de anos, certo. Nós só surgimos como espécie há pouco mais do que um punhado de milhares de anos. O que fizeram no intervalo?
- No intervalo fizeram testes. Testaram variações do mesmo tema, variações em carbono, nitrogénio, oxigénio, etc, etc. Foram eles os responsáveis pelas grandes extinções, tal e qual um miúdo que destrói o seu castelo de cartas depois de muito tempo e empenho a contruí-lo. Além disso, a nossa noção de tempo não é a mesma da deles, se é que têm uma noção para "tempo". Um exemplo: a mosca da fruta tem uma vida média de 26 dias, será que para ela a sua vida é tão efémera quanto para nós? Talvez os biliões de anos do nosso universo não passem de um segundo noutra esfera.
- 'Tá bem, mas não é o universo infinito?
- Talvez? Será? Se sim, estaria em expansão, não é o que se ouve? No entanto, há uma linha de pensamento que refere que estará em retracção e que contrair-se-á até dar origem a um novo Big Bang. Mas se assim é, o que é que ocupará o espaço deixado pelo nosso universo?
- Simples: vácuo!
- Sim, mas… segundo a teoria quântica de campos, mesmo na ausência total de átomos ou de qualquer partícula elementar, o espaço não pode ser considerado totalmente vazio. O que digo é que o universo não é infinito mas sim deve estar contido noutro: o "deles"; e esse noutro e assim por diante, isso sim é infinito. Podemos comparar às Matrioskas russas. Para mim são os universos paralelos de que tanto falam, só não são é paralelos.
- Então, e nós, temos a nosso cargo algum "universo?
- Já tinha dado o exemplo da colónia de bactérias...
- Ok, tudo bem, mas como serão esses "eles"? São parecidos connosco?
- Voltando às bactérias: elas são parecidas connosco?
- Pois... mas quando criamos alguma coisa tentamos fazer à nossa imagem e semelhança, tal e qual fez Deus, certo? Talvez esses seres de que falas tenham algumas semelhanças connosco.
- Deus? A sério? Depois de tudo o que vos disse ainda acreditam nessa imagem divina? Bem, se encararem os criadores como deuses, tudo bem. Mas, relativamente à imagem e semelhança, lembrem-se que vos falei de várias tentativas anteriores, vários formatos e variações. Talvez a nossa morfologia actual seja a mais indicada para o nosso ambiente. Duvido que o nosso fenótipo se adequaria aos diversos mundos existentes; temos de entrar em linha de conta com as diferenças físico-químicas dos diferentes mundos.
- E a evolução da nossa espécie?
- Upgrades…
- Quer dizer que nada disso é verdadeiro. As nossas guerras, construções, relações, conquistas como espécie, a nossa evolução nada disso importa? E o livre-arbítrio?
- Tal como disse em relação à memória, podemos decidir o que fazer, dentro de determinados limites. Eles permitem os saltos evolutivos e até nos auxiliam no desenvolvimento tecnológico, tudo isso com o intuito de estudar as nossas reacções. Acho que sentem a nossa evolução como uma vitória. Vejam lá, se criam algo que funciona não ficam orgulhosos?
- Orgulho? Então estás a dizer que eles têm sentimentos semelhantes aos nossos?
- Pelo contrário, nós é que os temos semelhantes aos deles. Olhem os exemplos dos robôs que insistimos em criar: tentamos incutir emoções e formas de pensar semelhantes às nossas, não é verdade?
- E fazem-nos o mesmo? Então também odeiam, amam, choram, têm saudade?
- É provável, mas lembro-vos que eles incutiram determinadas bases em nós e depois elas evoluíram num sentido que pode ter sido diferente do deles. Talvez sejam mais compreensivos e inteligentes do que nós - o que não será difícil- e nós evoluímos para um sentido no qual associaram-se a vingança, o ódio, a inveja... talvez seja isso que nos mantém vivos, por mais paradoxal que pareça: talvez tenhamos algo que eles não têm ou que não conheciam e isso faz com que não partam para "outro projecto", se é que me faço entender. Além disso não nos julgam, reitero que somos apenas um projecto científico.
- Epá, isso é fantástico mas… como sabes tudo isso? Já os viste?
- Sim.
- JÁ?! Quando? Onde?
- Ontem à noite vieram ter comigo e contaram-me tudo! Contaram-me sem dizer uma palavra. Custei a entender o que se estava a passar. Tal como vos contei, não são semelhantes a nós nem a nada que alguma vez fora descrito. Incutiram imagens na minha cabeça que fizeram perceber tudo o que vos disse. Mas não fiquei a saber tudo porque quando estavam a mostrar o futuro da humanidade... acordei! Olhem... chatices, é o que é.
- COMO!!! Oh pá, tu és doido...
- Então, mas para estar aqui não temos de o ser todos?

Ouve-se o ferrolho da porta: era o enfermeiro:
"- Quem tomou os medicamentos pode ir para o quarto..."





9 comentários:

Pseudo disse...

Antes do final, ia perguntar-te se estiveste a ver filmes infantis ultimamente, nomeadamente: "Horton e o mundo dos Quem ", "Wall-e" e "Robots". :)

Marta disse...

Pisquei os olhos uma série de vezes enquanto lia este posts. Cheguei a ficar baralhada. Confesso que fiquei assustada com "eles".
No fim, soltei uma valente gargalhada ;)

Catsone disse...

Pseudo, desses de que falas só vi o "robots".

Marta, eram essas as intenções :D

Rain disse...

Curioso, os filmes que me vieram à cabeça foi o "Matrix" e o "Dark City". Gostei bastante, tanto pela frase final que me trouxe um sorriso como pela ideia dos universos matrioskas - aposto que os russos apoiam essa. Gostei! ;)

(Aproveito para dizer que detesto esta cena de ter que meter as palavras para ver que sou uma humana pq eu passo a vida a enganar-me! Sou um bot!!!)

Sahaisis disse...

Pode ir então :P

Catsone disse...

Inês, também podíamos falar do MIB (que têm uma civilização inteira dentro de um cacifo). Isso da ideia de universos contidos noutros foi sempre algo que esteve comigo; isso da "infinitabilidade" não me convence :D
PS: já tirei a confirmação de palavras!

Catsone disse...

Sahaisis, neste momento sou um deles, sou :D

Briseis disse...

Tão giro, Catsone!! E, curiosamente, apesar da exclamação indignada de "Deus??! A sério??!", eu interpretei tudo como sendo precisamente Deus essa entidade, esses "eles" que tudo controlam e experimentam. Algo que está para lá da nossa vista e compreensão, divino ou não, merece esse nome. =) Resta-me dizer ainda que os "doidos", os das alucinações esquisitas e das teorias maradas, apesar de não lhes ser dado muito crédito, vêem mais do que nós em muitos sentidos!

Catsone disse...

Bríseis, esse doido era agnóstico, não terá muito a ver com o autor do texto ;)
E sim, vêem muito para além da nossa curta visão (mesmo alguns usando óculos :D