19 maio 2015

Nobre desporto?

Como qualquer bom portista, foi com tristeza que vi o maior rival ser campeão novamente. Pior ainda, foi possibilitar a antecipação dessa vitória com uma colaboração da "minha" equipa em mais uma péssima, horrenda e tristonha apresentação, dessa feita no Restelo.
Mas, como desportista, tenho de saudar a conquista do rival e ter esperança de que na próxima época posssamos ganhar qualquer coisa (começo a ficar preocupado que este discurso comece a ficar demasiadamente colado aos dos adeptos do scp).

No entanto, não posso ficar indiferente aos acontecimentos deste fim-de-semana. Num país visto como rico (vide as palavras do Coelho) e desenvolvido, como pode um acontecimento desportivo se transformar em batalha. Tumultos, vandalismo, tiroteio e cobardia, aconteceu de tudo neste domingo.
Se fosse benfiquista ficaria revoltado se meia dúzia de mentecaptos acabassem com a minha festa de bicampeonato. Se fosse vimaranense ficaria indignado se 2 ou 3 vândalos destruíssem o "meu" estádio e, mais ainda, se alguns desses vândalos vestissem de preto e branco. Como sportinguista, de Lisboa ou Braga, ficaria preocupado com as balas perdidas.
Mas, não sendo de nenhum daqueles clubes, e mesmo que não gostasse de futebol, como cidadão revolto-me com tudo aquilo e principalmente com o acontecimento mais nefasto daquela tarde de domingo. Não consigo encontrar um motivo plausível, seja ele cuspo, palavrões ou o que seja, para que um agente da autoridade agrida feroz e violentamente quem quer que seja e, principalmente, perante uma criança. A agressividade do polícia é indesculpável; até poderão dizer que naquela situação "se perde a cabeça e deve-se impor algum respeito sob o risco de contágio aos outros adeptos...", mas pergunto: não deve estar o agente preparado psicologicamente para não perder a cabeça? Não deve dar o exemplo? Não deve analisar os efeitos que pode ter naqueles que o rodeiam?
Imaginemos o que se passará na cabeça de um miúdo de 9 anos ao ver o seu pai agredido e manietado daquela forma e o seu avô esmurrado violentamente. Quando se tem 9 anos o mundo é ainda algo inocente, a meu ver (pelo menos o meu era). Deve ser difícil compreender o porquê de tanta raiva. Imagino a criança a perguntar-se o que terá o pai feito para ser batido daquela forma. Como depois se explica àquela criança que a polícia existe para nos defender?

Espero que este caso não caia no esquecimento e que se faça justiça como deve ser: é grave demais para passar sem castigo.
Fica também algum consolo na imagem do outro polícia a abraçar o miúdo, numa esperança de que não veja a cena (não se deve generalizar comportamentos).
Ainda, não consigo e não quero compreender a tentativa de desculpar a atitude da guarda com a frase "então o pai não sabia que não devia levar uma criança para um jogo destes?". Não quero entender isto como uma atenuante, caraças. Quer dizer que, num país civilizado e livre, não posso ir aonde quero com o meu filho? É desculpável e expectável com a maior naturalidade, comportamentos como aqueles apenas porque sim? Um espectáculo desportivo deve ser entendido como algo potencialmente perigoso? Não seria melhor tentar combater a violência de forma verdadeira e saudável ensinando às crianças a rivalidade de maneira responsável e educada? Parece-me que algo está realmente mal e não consigo compreender esta aceitação da violência nos jogos importantes do campeonato. A expressão "Auto-risco" para mim só para a prevenção de algumas doenças .

Nota: a imagem do miúdo a chorar, urinado e desesperado é extremamente forte. Devia ser mostrada repetidamente às entidades responsáveis e aos adeptos de futebol. A bola não foi feita para fazer chorar...