29 dezembro 2014

A migração

Outro abibe aproximou-se e "meteu conversa" com o incauto adito. Com o seu canto alcoólico e sua dança  hipnotizante, encantou-lhe o pobre espírito.
Após tê-lo nas mãos iniciou a conquista do seu corpo. Esvoaçou perante os seus olhos e descreveu, no céu violáceo, vertiginosas e pungentes manobras etílicas, enfeitiçando-o. Após tão ardilosas acrobacias mergulhou violentamente boca adentro rasgando-lhe o palato e fazendo cócegas ao olfato. Continuou na pecaminosa jornada e dirigiu-se a toda velocidade em direcção ao estômago onde fez acrobático ricochete, subindo imediatamente até ao encéfalo do pobre alcoólatra. Lá fez ninho e descansou, tendo como companhia outros abibes que ali também se tinham aninhado antes.
Aturdido mas estranhamente feliz, o homem deixou-se ser alvo da invasão daquele bando e fez votos para que, quando partirem, sejam céleres num novo doce, pecaminoso e inebriante fluxo “embriagatório”.