20 janeiro 2013

La tralha

Bugigangas, cacarecos, quinquilharia, miudezas, coisitas... merdices.

Por culpa de uma mudança de casa, este início de ano tem sido algo turbulento. Conjugar a trasfega de objectos mil com o trabalho e a criação é tudo menos fácil. 
Apesar de, após o casório, termos feito uma mudança da casa dos papás para o nosso "ninho", penso que esta é a verdadeira mudança. Isso porque, a somar a tudo que levamos daquela vez temos as inúmeras coisas que foram sendo acrescentadas nesses últimos 7 anos.

Ora, eu, na minha ingenuidade patética, pensava apenas na tarefa hercúlea de transportar os grandes móveis. Fazia planos nos quais o aparador caberia no elevador do prédio, projectava a forma mais fácil de desmontar alguns dos outros móveis e calculava a quantidade de braços amigos necessários para acartar com os sofás e os fazer descer, pelas escadas, os 5 andares do prédio.

Mas os grandes móveis não são nada comparados com as niquices que existem em casa! Móveis robustos fora do apartamento e sobram um milhão e meio de berliques e berloques para embalar e  transportar. Enquanto que os móveis precisam de força bruta para o transporte, os trastes dos obejctos pequenos requerem paciência e uma logística muitíssimo mais apurada e tecnologicamente avançada. 
Veja-se o caso de livros e uma caixa de cartão. É preciso uma pós-graduação em Tetris para os organizar no espaço de papelão! Não vale a pena as inúmeras e diferentes tentativas que se façam: irá sobrar sempre um espaço na caixa onde não cabe o último livro a embalar...
Para os copos e loiças são precisos todos os jornais editados nos últimos 6 meses para os envolver em segurança. Mesmo assim há que rezar para que não se multipliquem...
A roupa toda vai em malas e não vale a pena gastar tempo a engomá-las: vão sempre amarrotar de qualquer forma. Além disso, são necessárias grandes quantidades de cabides, mesmo para coisas que já não se usam há séculos. Ponto a favor: dá sempre para ir se livrando de coisas que, ou já não servem, ou já estão "démodé".
Os brinquedos dos miúdos levam-se dentro de outros brinquedos: caixas dentro de caixas; legos dentro de legos; peças e mais peças dentro de um carrinho-de-mão de brinquedo. Fica-se com uma pequena ideia do trabalho na Lapónia em vésperas de Natal.
As mercearias que restam em casa vão por uma 2ª vez em sacos do hiper do Belmiro, numa espécie de regurgitação de compras.

Tudo isto é muito bonito, "ah e tal" é coisinha chata, sim senhor, que peninha... mas não é comparável à tentativa de organização de "coisas" guardadas por nostalgia. Passo a explicar: penso que todos nós gostamos de guardar coisas que nos foram caras em determinado momento da vida; alguns guardam cartas de amigos coloridos; outros guardam mapas de viagens inesquecíveis; alguns ficam com jornais desportivos que lembram conquistas do seu clube; etc, etc, etc. No fim das contas, existem um sem fim de "lembrancinhas" para transvasar! Essas coisas são piores que lapas, ficam grudadas, impossíveis de amandar fora! "Ah, porque me lembra a 1ª vez que fomos ao cinema"; "Ah, porque lembra aquela vez que fomos ao Manel dos Ossos e apanhamos uma monumental bezana!", "Ah, porque sim e pronto!"... São caixotes e mais caixotes com memórias.

Por fim, ficam as coisas mais pequenas,  as coisas "inorganizáveis" em qualquer categoria, de difícil manuseamento, quase impossíveis de ver ou de agarrar. Aquelas que, pela sua infindável quantidade e diversidade, não se sabe por onde começar a apanha. Aquelas que não se sabe (ou não se lembra) porque se têm mas que pelas quais vela algo que faz com insistamos em mantê-las... mesmo que, por vezes, exista uma vontade de lhes dar um pontapé para  longe ou varrê-las para a varanda na esperança de que o vento as faça desaparecer. São essas que nos dão cabo da cabeça e das costas.

É apenas numa situação dessas que se tem noção de quanta tralha se acumula em casa.

E depois de tudo transportado e despejado na nova residência chega-se à assustadora conclusão de que ainda só se fez metade do serviço...






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