“- Meninos, amanhã queria que trouxessem um trabalho sob o tema “O dia-a-dia”, ok? Pode ser uma composição, um desenho, uma montagem, façam o que quiserem e o que mais gostarem, certo?”
E em coro as crianças responderam um sonoro “tá bem!”, arrumaram as coisas nas mochilas e foram-se apressadas, uma após outra.
Clara ficou preocupada. Pensava em como iria transpor para o papel um tema como “dia-a-dia”. O que quereria a professora que a malta fizesse em torno de um tema tão estranho? Poderia ter escolhido, sei lá, “o que fizemos nas férias” ou “brincadeiras”, mas “dia-a-dia”? Será que ela queria que ela trabalhasse em torno de um dia comum ou do que acontece no mundo actualmente?
Chegou a casa casmurra e foi lanchar.
“- Olá para ti também! Vens tão chateada porquê?”, perguntou a mãe.
“- Olá. A professora quer que nós façamos um trabalho para amanhã e não sei por onde começar”, respondeu.
“- E é sobre o quê mesmo?”
“- Sobre o dia-a-dia!”
“- Ai menina, se o trabalho fosse dado a mim seria tão fácil…”, sussurrou a mãe.
“- O quê?”, perguntou a menina.
“- Nada, nada”, respondeu a mãe a disfarçar, “come e vai para o quarto trabalhar, então”.
Clara chegou ao quarto, deitou as coisas sobre a secretária e… nada. Durante o que restava da tarde pensou no que poderia fazer e népias, nenhuma inspiração, nenhuma lâmpada sobre a cabeça, zero.
“- CLARA, VEM JANTAR!”
A menina sentou-se à mesa desolada. Ficara ao lado do pai como sempre e recebeu, do progenitor, um beijinho na testa.
“- Então, moço, como foi o teu dia”, perguntou a mãe ao senhor da casa.
“- Ó pá, sempre o mesmo dia-a-dia”, respondeu por entre um sopro de desalento.
Clara despertou: “o meu pai disse “dia-a-dia”?”
“- Um gajo só ouve falar de “crise”! Já estou farto, mulher! Isso está como nos dias de inverno: tudo nublado a ameaçar tempestade. Um gajo anda sempre na corda bamba, num emprego que o patrão quer cortar à força toda.”
“- Tem calma, há sempre uma luz ao fundo do túnel”, acalentou a esposa.
“- Já não sei, linda, cá para mim o nosso futuro passa por emigrar, ainda só não sei para onde! Se caio desse emprego aterro no inferninho, não é? Vemos o meu salário voar todos os meses, imagina se ficamos sem ele? Agora só se ouve a troika, tal deus, a mandar em tudo e em todos… humpf”.
“- Anda cá, faço-te um miminhos”.
“- És um anjito…”
Clara saltou da cadeira e correu para o quarto, nem ligou aos chamamentos da mãe para que voltasse para a mesa. Não queria perder a inspiração.
No outro dia quase não tomou o pequeno-almoço. Saiu a correr em direcção ao autocarro com a mochila às costas e uma cartolina azul sob o braço.
Clara chegou à casa radiante. Tinha um sorriso tão grande quanto o daqueles “smiles” amarelos. Vinha de peito feito e quando viu a mãe saiu a correr para lhe contar a boa nova.
“- Mãe, mãe!”
“- Elá, miúda…”
“- A professora gostou imenso do meu trabalho, queres ver?”
“- Calma, calma. Claro que quero ver. Mostra-me”
E Clara, então, estendeu a cartolina azul sobre a mesa.
“- Graças a ti e ao pai consegui arranjar a ideia para o trabalho.”

“- Tive nota máxima: ex-ce-len-te!”, comemorou a menina, "a professora até suspirou!"
"- Pois, pois, como eu a compreendo..."










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