04 novembro 2012

Pai Sofre XXVIII - Os olhos da mão



Quando era miúdo, e quando mexia em algo que não devia, era frequente ouvir: “ei, não mexas nisso! Tens os olhos nas mãos, por acaso?”. Quando pequeno não era reguila ou maroto, mas reconheço que era um mexilhão. Assim, ouvi aquela frase milhares de vezes ao longo da minha infância.
Apesar de tudo, sempre achei piada àquela expressão. Realmente, quando bem aplicada, tem a sua graça.

Isso para dizer que “quem sai aos seus…”.
O meu mais novo tem os olhos nas mãos. Gosta de apalpar tudo o que o rodeia. Gosta de sentir a consistência, a resistência, a textura da matéria à sua volta. Gosta de pesquisar as coisas que estão ao seu alcance com uma visão que não necessita de globos, órbitas ou lentes. Não se contenta em ver com os olhos da cara e quer experimentar os outros sentidos, nomeadamente o tacto e, esporadicamente, o paladar.
Assim, dessa forma, é difícil ficar indiferente ao perigo que correm as coisas que ficam à mão de semear. Meus discos, os DVDS, os bibelôs vários, álbuns de fotos até “tremem” à sua passagem e à eventual possibilidade de pararem nas suas manápulas. Algumas delas já jazem num aterro sanitário qualquer depois de um encontro imediato do terceiro grau.

Desde que o rapaz obteve a liberdade dada pelo andar que tudo em casa ficou à sua mercê. Na casa-de-banho foi o papel higiênico que ganhou outra utilidade: decoração; e os produtos de higiene servem para limpar também materiais inorgânicos. No corredor, os livros da estante começaram também a conhecer outras disposições. Nos quartos, os brinquedos raramente permanecem no sítio por muito tempo. Todas as fotografias emolduradas expostas são para por para baixo (vergonha dos modelos?).
No entanto, o pior acontece quando a curiosidade impele o moço a abrir as portas dos armários da sala e da cozinha. As garrafas do bar e da cozinha deixaram de estar deitadas e já foram de encontro ao chão algumas vezes (salve o tapete que amortece a queda!). Alguns pratos já pariram “pratinhos”, bem como alguns copos. Os talheres já serviram como baquetas contra a escada de alumínio, numa estranha batucada. Os produtos de limpeza, dado aos brilhantes e coloridos autocolantes, passaram a ser inimigos do bem-estar.
Extensões com interruptores iluminados são para ligar e desligar e todas as máquinas que tenham botões são para apertar.

Com isto, as idas àquelas casas de lembranças, faianças e cristais estão fora de cogitação (não que eu me importe muito com este “inconveniente”).

Com toda essa curiosidade e necessidade em pesquisar tudo com as pontas dos dedos, começo a ficar preocupado quando o rapaz for para a escola…

 Imagem daqui

03 novembro 2012

Um novo holocausto

Leiam estas notícias com atenção:  

"Na Grécia já há 600 mil pessoas abandonadas pelo sistema de saúde" 

"Os médicos Robin Hood da Grécia"

A palavra holocausto tem origem grega e relaciona-se com sacrifícios feitos em honra de diversas divindades.
Hipócrates, também ele grego, é considerado o pai da medicina.

É estranha esta relação entre "holocausto", "medicina" e "Grécia". Estas notícias, que aqui publico, demonstram realmente haver novos sacrifícios em nome de uma divindade moderna: a tróika.
Em nome da tróika, nestes últimos anos, muitos "europeus" morreram e muitos outros, milhares mesmos, estão condenados.
Essa nova divindade parece ter cada vez mais seguidores dentro dos governos deste e doutros continentes. Na procura de milagres que supram desejos obscuros, vão-se juntando e atirando às piras económicas povos inteiros. Ardem direitos, sonhos e vidas.
Que tróika é essa? Que poderes tem? Quem está por trás dessa entidade mágica? Para quem faz ela milagres?
A idolatria por este deus é como uma doença contagiosa.

É extremamente preocupante a rapidez e facilidade desse contágio. Em Portugal, o SNS está prestes a entrar neste mesmo jogo doentio e, como dizem os brasileiros, a coisa vai começar a ficar grega! 
Um exemplo é essa "refundação" da Pátria, proposta pelo criminoso PM, onde se pondera a privatização também dos Centros de Saúde, panteão mais puro e sagrado do SNS, primeira porta a bater quando se necessita de cuidados de saúde.

Depois da "racionalização" (ou será "racionamento") dos medicamentos oncológicos, propostos por uma comissão qualquer com pouca ética; depois do aumento astronómico e indecente das taxas "moderadoras" (entre aspas porque é um conceito ridículo e enganoso: essas taxas nada moderam!); depois da queda da comparticipação dos medicamentos e da selvajeria das trocas de substâncias nos balcões das boticas; vêm ai grandes mudanças no SNS... para pior, muito pior. Vai ser iniciada a "matança" dos utentes dos ficheiros dos Médicos de Família; vão ser entregues, às mãos de grupos económicos bem conhecidos, mais e mais instituições públicas de saúde; entre outras medidas que, insidiosamente, vão corroer o único serviço público que (ainda) funciona com qualidade.

É difícil, para quem está do lado de cá da barricada, ficar indiferente às cada vez maiores dificuldades dos doentes. É-nos difícil lidar com as alterações quase diárias na atribuição de isenções, ou nos critérios de transporte, ou na comparticipação de medicamentos. Isso sem contar com o verdadeiro big brother a que se está sujeito no desempenho da actividade.

O que interessa é que se deve, em nome da santa tróika, gastar o menos possível. Independe de guidelines ou linhas orientadoras interenacionais, isso nada importa. O que realmente importa, e o que este governo quer, é que os médicos curem com água, que os enfemeiros tratem com guardanapos, que os administrativos trabalhem com penas e que os auxiliares limpem com trapos e cuspo. 

Não quero ser carrasco neste novo holocausto proposto por uma espécie de nova Hécate. Não quero ser co-responsável pela morte de utentes ao cumprir normas rígidas desprovidas da maior arte da Medicina: o "bom senso". Talvez fugindo dessa responsabilidade se vejam partir, para paragens mais recionais e civilizadas, inúmeros médicos e enfermeiros, depauperando, assim, este luso rectângulo.
Resta-nos pensar em fazermos nós alguns sacrifícios. Sacrifiquemos políticos, banqueiros, especuladores. Sacrifiquemos essa corja em nome de Ares e Hades
Um holocausto de burgueses! 




31 outubro 2012

A carta mágica

Baco entregou-lhe uma carta perfumada; tresandava à farra, à orgia e a outros odores mágicos e pecaminosos. Escreveu-lhe certo mas em linhas, que no decorrer da sua leitura, se tornavam cada vez mais tortas. As palavras escrivinhadas com espécie rara de tinta roxa, estraída à força por rudes pegadas humanas, de uvas importadas das montanhas do luso Norte.

Da missiva, ele sorveu-lhe a escrita. Gota a gota, transfundiu para o seu sangue o prazer do manuscrito. Entendeu-lhe as ideias, sentiu-lhe o delit(r)o e perdeu-se numa paixão súbita e alucinogénea. Envolveu-se na poética, dissipou-se na métrica e, finalmente, tropeçou na cadência das enebriantes palavras sagradas, caindo, desamparadamente, num mar de CH3CH2OH pecaminoso.

Ah, as missivas de Dioníso têm vindo a surgir-lhe com mais frequência e, graças ao bom deus, acrecidas de repetidos, incansáveis e deliciooossoooosss Post-Scriptum!








P.S: insisto em contrariar aqueles que acham que virei alcoólatra!
E Grave (sempre gostei mais desse nick, amigo), está aqui um do Douro que é um espectáculo.

29 outubro 2012

(Más) Intenções de voto

Não ligo nenhuma às eleições americanas (embora, de forma indireta[?], nos sejam muito importantes) mas, se votasse, já tinha definido a minha intenção de boto, ou melhor, voto!






21 outubro 2012

Nem todos os Cortes sabem mal

Ele viu a chaminé e entreteve-se a explorar.
A violácea vinhateira deixou-a subir na sua estrutura. 
Sentiu o sangue assustado fugir-lhe das extremidades e, em turbulenta velocidade, ir embater com violência contra o cerne do seu ser em etílico acidente.
Experimentou a vertigem do choque do etilo mas continuou na pecaminosa experiência. 

Fumou os odores do sagrado sumo e  "helicoidou-se".
Mais um copo, mais uma taça, mais um graal evaporaram-lhe o espírito. 
Volátil, foi ao topo, dirigiu-se ao céu tal balão de ar ardente.

Deixou-se cair ao ritmo no qual o efeito dos (de)graus lhe passava e à medida que a hepática parafernalha lhe ia queimando o combustível.

Retornou ao terreno por pouco. 
Mais um pouco do estímulo báquico e voltou a subir a chaminé: foi perguntar a Deus se escondia algo de melhor só para Si... 
O Senhor disse que não mas lhe entregou mais um lanço de escadas dizendo: "cuidado com o tortuoso e frutado caminho da chaminé. Não deixais que te envenene a alma com os seus perfumes..."



17 outubro 2012

"Sporting TV arranca em 2013" in Record

Canal especializado em tragicomédia?

14 outubro 2012

Dedicatória

No rescaldo da palhaçada protagonizada pelo senhor deputado Carlos Zorrinho e o seu compincha Francisco Assis, fica aqui uma singela homenagem em forma de canção.

Deixo também uma sugestão: que os deputados andem uns sobre os outros para passarem todos a andar de mula!




12 outubro 2012

A bela droga

Hoje, numa consulta:
"Dr, tenho tido problemas durante o sono. Não descanso nada porque tenho muitos sonhos!"
"Ok. Quer dizer que a senhora quer algo para que desapareçam os sonhos, certo?
"Sim, era isso que pretendia".
"'Tá certo. Olhe, sugiro-lhe "política". Pode tomar genéricos: PSD, PP, PS... vai ver que lhe tiram os sonhos todos de uma vez por todas".
"Oh, doutor, esses não que têm muitos efeitos secundários!"

Humor: o que vai valendo para manter alguma motivação...

10 outubro 2012

Pai SofreXXVII: a justiça aos olhos de uma criança de 3 anos




Nestes dias de descalabro económico-social, vem a minha pequena falar de justiça.
Gostava ela de ficar um pouco mais de tempo a brincar na rua, com a sua mota cor-de-rosa adereçada com autocolantes daquela gata japonesa estranha, mas recebeu a revoltosa ordem para voltar para casa. Ela chorou, esperneou, fez a sua birra infantil, na expectativa de aquecer os “frios” corações dos pais, e, com os olhos rasos d’água, proferiu uma triste reclamação: “não é justo!”.

Engraçada a justiça vista pela óptica de uma miúda de 3 anos. Engraçada a sua forma de reclamar. Estranha a semelhança com a vida nossa de adultos. Engraçado o mesmo resultado: a vontade insatisfeita.
Afinal, que justiça a destes pais? Negar mais uns minutos de prazer em brincadeiras de criança, ou negar mais uns minutos de televisão antes da cama, ou negar mais uma bolacha antes do almoço, ou tantas outras coisas que ela gostaria de fazer e que vão contra a vontadinha do pai ou da mãe.

Onde foi ela arranjar essa noção de justiça? Como terá entendido que quando se é negado algo, que se acha ter direito, é uma situação injusta? Onde terá ela tido contacto com essa expressão?
Se calhar a moça terá ouvido as reclamações dos seus mais próximos. Terá escutado as comiserações paternas em frente à televisão aquando de notícias da actualidade nebulosa na qual vivemos. Terá, quem sabe, visto as lágrimas que por vezes caem do rosto do seu velho e feito, ela mesma, a sua interpretação do cenário, criando a sua  própria cena de reacção às contrariedades: “aquando de uma nega: esbracejar, chorar, espernear e soltar um “não é justo”, tal como o pai faz de vez em quando em frente à TV, rádio, computador ou ao ler um matutino”.

Tenho um misto de orgulho e pena pela sua resistência. Orgulho porque estou a criar alguém que não se coíbe em mostrar a sua insatisfação perante aquilo de que não concorda. Pena porque, por mais que reclame, por mais que grite ou esperneie, os ouvidos do poder são surdos perante as reclamações dos seus patrícios e as suas revoltas tenderão a cair em saco rôto.

O pai também reclama; também ele se chateia, range os dentes… mas nada; ninguém o ouve, ninguém tem peninha dele e os “maus” continuam a lhe tirar o que pensava ter direito.
Afinal, que justiça a deste país? Empobrecer a malta, endividá-la, enviá-la (como mercadoria) para exportação, enevoar o seu futuro e o da república, retirar direitos primários, levar “o melhor povo do mundo” para muito próximo de um ataque de nervos colectivo…

Esperem lá… querem ver que eu, ao ignorar a reclamação da moça, impondo as minhas regras e ordens, represento uma espécie de governo absolutista doméstico?
Credo!!!  Não, claro que não. A minha actuação representa as pequenas vicissitudes da educação enquanto que os “outros”, aqueles que não me ouvem, esses parecem nunca terem sido sequer educados…

Contudo, perante à cópia da pequenita,  concluo ter de ter mais cuidado com o calão que, por vezes, acompanham as minhas birras de adulto sob pena de, algum dia, passar por uma vergonha: as crianças costumam ser muito espontâneas…

07 outubro 2012

"Burocratidose"

Depois de mais um "enorme aumento de impostos" e do elogio, que muito nos envaidece, de sermos o "melhor povo do mundo", resolvi fazer um re-post de um texto do início de 2010. 


Burocratidose

Existe uma praga que está a destruir o país. É uma infecção, uma verminose, uma parasitose.
Portugal está infestado por uma espécie de seres desprezíveis, abjectos e asquerosos: os burocratas.Esses animais corroem as estranhas do Estado, sugando-lhe até ao tutano, nutrindo-se com o alheio, acabando com a paciência dos pobres mortais.
São caracterizados pela mediocridade, especialistas em compadrio, no lambe-botismo e no por-baixo-do-pano. Pululam em todos os cargos possíveis e imagináveis. Colonizam juntas, câmaras, assembleias, ministérios ou qualquer lugar cujo concurso dependa da vontade de outro burocrata. Tomam decisões baseadas na mais pura e cristalina ignorância e a sua inépcia não tem limites.
Mas, apesar de tudo, os burocratas reinam. Eles estão lá, à nossa frente, ocupando os lugares cimeiros e cargos de chefia; colocados nos respectivos assentos por outros da sua espécie, perpetuando o ciclo vicioso e doentio.
Eles mandam em tudo. Aparecem na televisão sorridentes. Escapam incólumes às vãs tentativas de os eliminar. E, apesar da tremenda cara-de-pau, são ágeis, elásticos e esquivos.
Fala-se nas mortes pela SIDA, Tuberculose ou Malária mas, amigos, não há doença que mate mais que os burocratas. Eles são piores que o cancro, vão minando, insidiosos, até ao ponto do não retorno, e tudo depois é paliativo.
Por causa deles se morre de fome e de sede, não se constroem hospitais, escolas ou outras benfeitorias; eles decidem-se sempre pelo supérfluo, desde que lhes dê lucro.
São eles que encravam as engrenagens...
Os burocratas estão por todo o lado; sempre estiveram e, temo não errar por muito, sempre estarão, ou talvez não... quem sabe arranjamos uma droga eficaz ou, quem sabe, já a temos mas não usamos.



Imagens google

05 outubro 2012

A cigarra e a formiga

Em resposta ao desafio "o cair da folha" da "Fábrica de Letras": 


A cigarra e a formiga

Na floresta encantada, andava feliz a cigarra a tocar o seu pífaro. O sol do verão ainda lhe dava a energia necessária para saltar por todo o lado embalada pelo som estridente do seu instrumento.
Um pouco cansada de tanta alegria e divertimento, a cigarra aterrou num cogumelo, que nascera da humidade de uma chuvada estival, e ali ficou a descansar.
Enquanto recarregava as baterias ficou a observar a azáfama que acontecia num formigueiro um pouco mais além. Via formigas a trabalhar intensamente e, intrigada, pensou em dar um salto para conversar com uma delas.

“Olá, amiga. Tudo bem consigo?” – perguntou a cigarra.
“Olá. Desculpe, mas não tenho tempo para conversas” – respondeu a formiga de forma ofegante.
“Êlá. Tenha calma, amiguinha, ou ainda tem um treco. Descanse por uns segundos e fale comigo” – insistiu a cigarra.
“Já lhe disse que não posso. Vem aí o Outono e temos de trabalhar para armazenar comida para o inverno!”.
“É por isso que trabalham tanto?”
“Claro. Porquê? Achava que era por diversão? A senhora anda aí toda contente, veja lá se chega até ao próximo verão!”.
“Credo! Não agoure. Há muita comida. Veja a quantidade de folhas nas árvores e plantas no chão. Vai ver que esse trabalho todo não é necessário. Chega de estresse, cara amiga, toca a cantar e a dançar!”
E a cigarra, dum salto, desapareceu no meio da mata deixando para trás a formiga estupefacta com tanta displicência.

O Outono chegou e passou num ápice, dando lugar a um dos Invernos mais intensos e rigorosos dos últimos tempos.
Quando a primavera chegou, as formigas voltaram a dar o ar da sua graça e começaram a aventurar-se para fora do formigueiro.  Lá fora ouviam-se os pássaros e cheiram-se os diferentes odores das flores. Da cigarra nenhum sinal.
Chegado o verão o silêncio da cigarra mantinha-se.  A formiga começou a preocupar-se e a culpar-se da nebulosa profecia que fizera sobre o futuro da cigarra. Começou por isso a indagar os outros insectos do bosque à procura de explicações para o desaparecimento da cigarra.

Falou com a moscas-da-fruta que nada sabiam porque ainda não eram nascidas no verão passado e, por isso não conheciam a cigarra.
Tentou com o escaravelho-do-estrume que disse não saber de nada porque seu olfacto, visão e audição andavam, ultimamente, numa verdadeira bosta.
Conversou com o Louva-a-Deus que desconhecia qualquer acontecimento mas que lhe garantiu uma oração para que a formiga encontrasse a amiga.
Falou com um mosquito que, para além de não ter qualquer informação útil, revelou-se uma verdadeira melga que não a largava.

Por fim, visitou a colmeia mais próxima. Lá conversou com algumas abelhas. Elas lhe contaram o que sabiam. Tinham ouvido um “zum-zum” qualquer sobre a história de uma malfadada cigarra que tinha sofrido um grave acidente no Outono passado.
“O que aconteceu?” – perguntou, angustiada, a pequena formiga.
“Bem, parece que a cigarra estava montada numa folha de uma caducifólia em Outubro” – disse uma das abelhas – “ e, inesperadamente, terá caído da planta juntamente com a folha e partido uma perna no embate com o chão”.
“Mas uma perna partida não é suficiente para matar uma cigarra” – disse, intrigada, a formiga.
“Pois não. Tens toda a razão. No entanto, parece que a cigarra ficou no chão durante algum tempo à espera do INEM, já que a ambulância estava parada por falta de profissionais. Quando finalmente vieram buscá-la, levaram-na para o hospital mais próximo. Chegando lá viram que as urgência estavam fechadas pois este serviço tinha sido concentrado noutro hospital alguns kms mais à frente. Nesse outro hospital foi confrontada com a taxa moderadora; como a cigarra não trabalhava, não tinha dinheiro para pagar a taxa e teve de deixar o pífaro como caução. No consultório foi observada por um médico duma empresa de prestação de serviços. Esse médico, pouco motivado pelos 4€/hora e que mal falava português, pediu-lhe um Rx da perna que, apesar de demonstrar uma fractura evidente, foi mal lido. A cigarra teve alta medicada apenas com um analgésico genérico que lhe foi trocado na farmácia por um de uma marca indiana desconhecida.  Com o decorrer do tempo a situação agravou-se e a perna da cigarra começou a ficar negra num claro sinal de gangrena. Por fim, no decorrer do inverno, a tua amiga pereceu por complicações devida a uma sépsis.”
“Jesus, que fim triste!” – disse a formiga, claramente chocada com o desfecho da situação.

E, lá ao fundo, uma abelha conhecida pelo seu humor negro e em jeito de provocação, manda uma chalaça:
“Pois é, a preguiçosa e obesa cigarra morreu ao cair da folha!”

25 setembro 2012

A pacifista

A Anouc não se conforma!
É para ela os meus 5 minutos dedicados ao "memecreator", lol







Aceitam-se mais ideias.

23 setembro 2012

Culinária actual: receita anti-crise

Não sou o Jamie Oliver, não tenho o seu salário e o meu inglês é macarrónico. No entanto, com os ingredientes certos vou, por vezes, arriscando na cozinha.
Trago, por isso, uma nova receita que, neste tempo de crise, criei há alguns dias atrás.
Espero que gostem, que experimentem e que dêem o feedback do resultado.


Coelho no tacho

À CAÇA:

Saia para caçar o Ma(is)cedo possível, na Assunção do dia, na Crista da manhã.  Comece por procurar um gordo e suculento Coelho. Este pequeno mamífero costuma dar os seus primeiros Passos do dia nas Relvas frescas dos campos de São Bento.
Ao identificar o animal, caminhe cuidadosamente na sua direcção e, com um pesado Cavaco ou um Ferro antigo oxidado, lhe acerte um golpe Seguro nas têmporas. 
Aguarde um momento até o bicho parar de estrebuchar e leve-o para a casa. 
Nota: apesar da aparente violência, este é um prato ecológico, seguindo a tendência da nouvelle cuisine Verde.


O PREPARO:

Por ser uma animal selvagem, o Coelho deve ser limpo cuidadosamente. Dessa forma, coloque o corpo num balde com água a ferver para que lhe saiam os parasitas mais comuns desta espécie: piolhos, pulgas, deputados, jotinhas e secretários de estado.
Tal como qualquer roedor, também o Coelho tem a irritante tendência de deitar o dente a tudo que o rodeia. Com uma faca afiada (de preferência da marca que nos patrocina a todos - Troika), esventre o animal e retire os seus rendimentos que lhe foram roubados. Tome cuidado com a vesícula biliar: o chamado fel que retém é rica em substâncias amargas e tóxicas tal como bicarbonato de sódio, colesterol, mentiras e arrogância.
Com o animal perfeitamente preparado, retire-o do tacho em que se encontra e enfie directamente num forno qualquer dentro de uma nova Louçã. Não é necessário ser um forno industrial, aliás, nem é necessário ser num forno, pode ser numa pira ou mesmo num incêndio florestal.
O tempo de cozedura deve ser variável. Confie nos seus sentidos. Se começar a cheirar a esturro estará no ponto.

O ACOMPANHAMENTO:

Antes de servir o prato principal, deleite-se com um pires de frescos corruptos, acabadinhos de pescar no pântano da Assembleia.
O Coelho no tacho fica bem acompanhado com salada de Crato e pastéis de nata da pastelaria do Álvaro. 
Para beber, pode escolher um vinho Aguiar-Branco, safra 2012, mas não exagere, Sóares desse vinho sob pena de ficar Alegre.
Para retirar o gosto Barroso do Coelho pode utilizar fatias de manga Rebelo.
É, por ser agridoce, melhor ser degustado no período de férias ou Natal. 

À MESA:

Para manter a receita num ambiente rústico, construa a mesa com 2 cavaletes e duas Portas azul bebé.
Sirva o Coelho na Louçã sobre uma Cândida toalha tricotada pelas meninas das lojas da tradicional maçonaria. 
Chame os seus amigos e, para mostrar gratidão pela peça de caça, faça uma prece a São Jerónimo. Sirva uma boa dose a cada um, mas cuidado: é preciso ter estômago para engolir esta Merkel.







14 setembro 2012

Não, Macedo, isso foram coisas que te puseram na cabeça...

"Miguel Macedo: Situação política "raia a esquizofrenia" em alguns aspectos " in Negócios online

O Ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, tal e qual qualquer bom psiquiatra, vem dizer que a situação política em portugal raia a esquizofrenia...

É... parece ser um bom diagnóstico, senão vejamos:

- Sinto-me realmente numa realidade alterada, diferente; num mundo surreal em que os intervenientes políticos falam em unicórnios orçamentais e esforços titânicos ou hercúleos, numa clara alusão à coisas fabulosas e mitológicas;
- Sinto-me deprimido, realmente, principalmente nas zonas dos bolsos das calças e das camisas, e na bolsa e na carteira;
- Sinto a tentativa de inserção de pensamentos estranhos, como por exemplo, o de que "todo este sacrifício é para o meu bem e o bem do meu país". Ouço-o vezes sem conta e, mesmo não acreditando nele, o torpor bloqueia-me as reacções;
- Roubam-me pensamentos de bem estar cada vez que se dirigem a mim na televisão; sim, porque é mesmo para mim: SÓ PARA MIM! Vejo os senhores a olharem nos meus olhos e a falarem comigo, dizendo que tenho de sofrer, sofrer mesmo muito, para que tudo passe, num delírio obsceno, incoerente e desconcertante;
- Tenho ideias de perseguição ao meu salário cada vez que vejo um ministro na televisão;
- Abordam-me pensamentos psicóticos de que, tudo isto que este "governo" faz, tem a clara intenção de destruir um povo e, consequentemente, um país inteiro e quiça o mundo e o universo;
- Tenho alucinações auditivas que me querem fazer crer que existe felicidade e esperança em trabalhar mais por menos dinheiro e menos qualidade de vida;
- Creio vivamente que vejo políticos na câmara de deputados ou na assembleia da república, interessados no bem estar do povo, o que é claramente uma alucinação visual;
- Sinto a apatia reinante nas gentes...

Mas, apesar de uma sintomatologia tão clara, resta-me uma pequena dúvida: serão alucinações olfativas o facto de, apesar de engomados, limpos e banhados em perfume caro, em carros luxuosos e vestidos com fatos de estilistas renomados, com dentes cândidos e luzidios, cada vez que me aproximo de um político, sentir sempre o mesmo cheiro intenso a estrume? 



"- Miguel? Ó Miguel?! Não é o Seguro a voar ali no canto da sala?"
"- Cala-te, Miguel! Não vês que te faltam as gotinhas..."

09 setembro 2012

Reiniciar

Para o desafio "Recomeços", da Fábrica de Letras:

Clicar na imagem


08 setembro 2012

Coragem

Portugal sempre foi um país de corajosos. 
O infante a impor-se, os navegadores a atirarem-se ao desconhecido, expulsão de mouros, padeiras tresloucadas, entre muitos outros.
Sempre foi tradição nossa enfrentar perigos, desbravar fronteiras, ir onde ninguém foi, defender o que é nosso com unhas, dentes e fornos. 
A nossa história tem guerras, tem conquistas, tem sangue e tem triunfos.

É óbvio que a coragem abunda nos genes lusos. Com essa carga genética temos coragem para enfrentar os problemas, dar a cara, procurar soluções no estrangeiro, sem medos ou hesitações. 

Mas toda a regra tem excepções, correcto? E existem várias subjectividades na interpretação do termo "coragem". Vejo coragem em alpinistas que perdem extremidades do corpo ao tentar alcançar os pontos mais altos e assim tocar seus sonhos; vejo coragem no pescador a enfrentar intempéries em busca do sustento; há coragem no contingente luso nas missões da nato; coragem nos que querem desafiar dogmas; há coragem nos bombeiros, polícias, médicos e enfermeiros. Há coragem... mas também há fadiga.


Ouço comentadores político/económicos, após mais uma sentença à morte de outro mês de salário, que este governo tem coragem. Sorrio desconsertado! Que coragem existe em cortar salários? Que coragem está em manter cortes de pensões? Que coragem existe em proteger grandes interesses? O facto de um primeiro ministro, com um discurso pré-fabricado, dizendo aos mortos que serão novamente sacrificados à santa Tróika, em directo, sem pingo de vergonha, pode ser encarado como um acto de coragem? Que raio de gente corajosa é esta? Levar um país inteiro a miséria em nome de algo económico/mitológico é corajoso? Então e as PPP's, as Fundações, os Institutos, a GALP, EDP, os paraísos fiscais, não existe coragem para uma espetadela?


Realmente, "coragem" não terá o mesmo significado para mim. Coragem para mim será ver erguer-se, novamente, desta vez com vermelho sangue em vez de cravo, um povo cansado mas corajoso e cobrar, de uma vez por toda, esta infâmia sem fim.

Alguém que dê o mote...


Parafraseando o grande Cazuza:

"...Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para..."



02 setembro 2012

Enquanto isso...

Numa universidade de verão qualquer:




As hostes se agitam para ouvir os seus líderes...

01 setembro 2012

Carnegão

A todos os casais que, numa demonstração de carinho, amor e união, se entregam mutuamente aos prazeres da grotesca e asquerosa arte de espremer formações nodulares purulentas ou sebosas das  mais diferentes e recônditas áreas dos seus untuosos corpos, em plena praia ou onde lhes dá mais jeito e a qualquer altura da noite ou do dia, a minha singela homenagem: 


 

Fica também um sincero e amigável desejo: que um carnegão lhes vaze uma vista... ou duas.