05 outubro 2012

A cigarra e a formiga

Em resposta ao desafio "o cair da folha" da "Fábrica de Letras": 


A cigarra e a formiga

Na floresta encantada, andava feliz a cigarra a tocar o seu pífaro. O sol do verão ainda lhe dava a energia necessária para saltar por todo o lado embalada pelo som estridente do seu instrumento.
Um pouco cansada de tanta alegria e divertimento, a cigarra aterrou num cogumelo, que nascera da humidade de uma chuvada estival, e ali ficou a descansar.
Enquanto recarregava as baterias ficou a observar a azáfama que acontecia num formigueiro um pouco mais além. Via formigas a trabalhar intensamente e, intrigada, pensou em dar um salto para conversar com uma delas.

“Olá, amiga. Tudo bem consigo?” – perguntou a cigarra.
“Olá. Desculpe, mas não tenho tempo para conversas” – respondeu a formiga de forma ofegante.
“Êlá. Tenha calma, amiguinha, ou ainda tem um treco. Descanse por uns segundos e fale comigo” – insistiu a cigarra.
“Já lhe disse que não posso. Vem aí o Outono e temos de trabalhar para armazenar comida para o inverno!”.
“É por isso que trabalham tanto?”
“Claro. Porquê? Achava que era por diversão? A senhora anda aí toda contente, veja lá se chega até ao próximo verão!”.
“Credo! Não agoure. Há muita comida. Veja a quantidade de folhas nas árvores e plantas no chão. Vai ver que esse trabalho todo não é necessário. Chega de estresse, cara amiga, toca a cantar e a dançar!”
E a cigarra, dum salto, desapareceu no meio da mata deixando para trás a formiga estupefacta com tanta displicência.

O Outono chegou e passou num ápice, dando lugar a um dos Invernos mais intensos e rigorosos dos últimos tempos.
Quando a primavera chegou, as formigas voltaram a dar o ar da sua graça e começaram a aventurar-se para fora do formigueiro.  Lá fora ouviam-se os pássaros e cheiram-se os diferentes odores das flores. Da cigarra nenhum sinal.
Chegado o verão o silêncio da cigarra mantinha-se.  A formiga começou a preocupar-se e a culpar-se da nebulosa profecia que fizera sobre o futuro da cigarra. Começou por isso a indagar os outros insectos do bosque à procura de explicações para o desaparecimento da cigarra.

Falou com a moscas-da-fruta que nada sabiam porque ainda não eram nascidas no verão passado e, por isso não conheciam a cigarra.
Tentou com o escaravelho-do-estrume que disse não saber de nada porque seu olfacto, visão e audição andavam, ultimamente, numa verdadeira bosta.
Conversou com o Louva-a-Deus que desconhecia qualquer acontecimento mas que lhe garantiu uma oração para que a formiga encontrasse a amiga.
Falou com um mosquito que, para além de não ter qualquer informação útil, revelou-se uma verdadeira melga que não a largava.

Por fim, visitou a colmeia mais próxima. Lá conversou com algumas abelhas. Elas lhe contaram o que sabiam. Tinham ouvido um “zum-zum” qualquer sobre a história de uma malfadada cigarra que tinha sofrido um grave acidente no Outono passado.
“O que aconteceu?” – perguntou, angustiada, a pequena formiga.
“Bem, parece que a cigarra estava montada numa folha de uma caducifólia em Outubro” – disse uma das abelhas – “ e, inesperadamente, terá caído da planta juntamente com a folha e partido uma perna no embate com o chão”.
“Mas uma perna partida não é suficiente para matar uma cigarra” – disse, intrigada, a formiga.
“Pois não. Tens toda a razão. No entanto, parece que a cigarra ficou no chão durante algum tempo à espera do INEM, já que a ambulância estava parada por falta de profissionais. Quando finalmente vieram buscá-la, levaram-na para o hospital mais próximo. Chegando lá viram que as urgência estavam fechadas pois este serviço tinha sido concentrado noutro hospital alguns kms mais à frente. Nesse outro hospital foi confrontada com a taxa moderadora; como a cigarra não trabalhava, não tinha dinheiro para pagar a taxa e teve de deixar o pífaro como caução. No consultório foi observada por um médico duma empresa de prestação de serviços. Esse médico, pouco motivado pelos 4€/hora e que mal falava português, pediu-lhe um Rx da perna que, apesar de demonstrar uma fractura evidente, foi mal lido. A cigarra teve alta medicada apenas com um analgésico genérico que lhe foi trocado na farmácia por um de uma marca indiana desconhecida.  Com o decorrer do tempo a situação agravou-se e a perna da cigarra começou a ficar negra num claro sinal de gangrena. Por fim, no decorrer do inverno, a tua amiga pereceu por complicações devida a uma sépsis.”
“Jesus, que fim triste!” – disse a formiga, claramente chocada com o desfecho da situação.

E, lá ao fundo, uma abelha conhecida pelo seu humor negro e em jeito de provocação, manda uma chalaça:
“Pois é, a preguiçosa e obesa cigarra morreu ao cair da folha!”

25 setembro 2012

A pacifista

A Anouc não se conforma!
É para ela os meus 5 minutos dedicados ao "memecreator", lol







Aceitam-se mais ideias.

23 setembro 2012

Culinária actual: receita anti-crise

Não sou o Jamie Oliver, não tenho o seu salário e o meu inglês é macarrónico. No entanto, com os ingredientes certos vou, por vezes, arriscando na cozinha.
Trago, por isso, uma nova receita que, neste tempo de crise, criei há alguns dias atrás.
Espero que gostem, que experimentem e que dêem o feedback do resultado.


Coelho no tacho

À CAÇA:

Saia para caçar o Ma(is)cedo possível, na Assunção do dia, na Crista da manhã.  Comece por procurar um gordo e suculento Coelho. Este pequeno mamífero costuma dar os seus primeiros Passos do dia nas Relvas frescas dos campos de São Bento.
Ao identificar o animal, caminhe cuidadosamente na sua direcção e, com um pesado Cavaco ou um Ferro antigo oxidado, lhe acerte um golpe Seguro nas têmporas. 
Aguarde um momento até o bicho parar de estrebuchar e leve-o para a casa. 
Nota: apesar da aparente violência, este é um prato ecológico, seguindo a tendência da nouvelle cuisine Verde.


O PREPARO:

Por ser uma animal selvagem, o Coelho deve ser limpo cuidadosamente. Dessa forma, coloque o corpo num balde com água a ferver para que lhe saiam os parasitas mais comuns desta espécie: piolhos, pulgas, deputados, jotinhas e secretários de estado.
Tal como qualquer roedor, também o Coelho tem a irritante tendência de deitar o dente a tudo que o rodeia. Com uma faca afiada (de preferência da marca que nos patrocina a todos - Troika), esventre o animal e retire os seus rendimentos que lhe foram roubados. Tome cuidado com a vesícula biliar: o chamado fel que retém é rica em substâncias amargas e tóxicas tal como bicarbonato de sódio, colesterol, mentiras e arrogância.
Com o animal perfeitamente preparado, retire-o do tacho em que se encontra e enfie directamente num forno qualquer dentro de uma nova Louçã. Não é necessário ser um forno industrial, aliás, nem é necessário ser num forno, pode ser numa pira ou mesmo num incêndio florestal.
O tempo de cozedura deve ser variável. Confie nos seus sentidos. Se começar a cheirar a esturro estará no ponto.

O ACOMPANHAMENTO:

Antes de servir o prato principal, deleite-se com um pires de frescos corruptos, acabadinhos de pescar no pântano da Assembleia.
O Coelho no tacho fica bem acompanhado com salada de Crato e pastéis de nata da pastelaria do Álvaro. 
Para beber, pode escolher um vinho Aguiar-Branco, safra 2012, mas não exagere, Sóares desse vinho sob pena de ficar Alegre.
Para retirar o gosto Barroso do Coelho pode utilizar fatias de manga Rebelo.
É, por ser agridoce, melhor ser degustado no período de férias ou Natal. 

À MESA:

Para manter a receita num ambiente rústico, construa a mesa com 2 cavaletes e duas Portas azul bebé.
Sirva o Coelho na Louçã sobre uma Cândida toalha tricotada pelas meninas das lojas da tradicional maçonaria. 
Chame os seus amigos e, para mostrar gratidão pela peça de caça, faça uma prece a São Jerónimo. Sirva uma boa dose a cada um, mas cuidado: é preciso ter estômago para engolir esta Merkel.







14 setembro 2012

Não, Macedo, isso foram coisas que te puseram na cabeça...

"Miguel Macedo: Situação política "raia a esquizofrenia" em alguns aspectos " in Negócios online

O Ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, tal e qual qualquer bom psiquiatra, vem dizer que a situação política em portugal raia a esquizofrenia...

É... parece ser um bom diagnóstico, senão vejamos:

- Sinto-me realmente numa realidade alterada, diferente; num mundo surreal em que os intervenientes políticos falam em unicórnios orçamentais e esforços titânicos ou hercúleos, numa clara alusão à coisas fabulosas e mitológicas;
- Sinto-me deprimido, realmente, principalmente nas zonas dos bolsos das calças e das camisas, e na bolsa e na carteira;
- Sinto a tentativa de inserção de pensamentos estranhos, como por exemplo, o de que "todo este sacrifício é para o meu bem e o bem do meu país". Ouço-o vezes sem conta e, mesmo não acreditando nele, o torpor bloqueia-me as reacções;
- Roubam-me pensamentos de bem estar cada vez que se dirigem a mim na televisão; sim, porque é mesmo para mim: SÓ PARA MIM! Vejo os senhores a olharem nos meus olhos e a falarem comigo, dizendo que tenho de sofrer, sofrer mesmo muito, para que tudo passe, num delírio obsceno, incoerente e desconcertante;
- Tenho ideias de perseguição ao meu salário cada vez que vejo um ministro na televisão;
- Abordam-me pensamentos psicóticos de que, tudo isto que este "governo" faz, tem a clara intenção de destruir um povo e, consequentemente, um país inteiro e quiça o mundo e o universo;
- Tenho alucinações auditivas que me querem fazer crer que existe felicidade e esperança em trabalhar mais por menos dinheiro e menos qualidade de vida;
- Creio vivamente que vejo políticos na câmara de deputados ou na assembleia da república, interessados no bem estar do povo, o que é claramente uma alucinação visual;
- Sinto a apatia reinante nas gentes...

Mas, apesar de uma sintomatologia tão clara, resta-me uma pequena dúvida: serão alucinações olfativas o facto de, apesar de engomados, limpos e banhados em perfume caro, em carros luxuosos e vestidos com fatos de estilistas renomados, com dentes cândidos e luzidios, cada vez que me aproximo de um político, sentir sempre o mesmo cheiro intenso a estrume? 



"- Miguel? Ó Miguel?! Não é o Seguro a voar ali no canto da sala?"
"- Cala-te, Miguel! Não vês que te faltam as gotinhas..."

09 setembro 2012

Reiniciar

Para o desafio "Recomeços", da Fábrica de Letras:

Clicar na imagem


08 setembro 2012

Coragem

Portugal sempre foi um país de corajosos. 
O infante a impor-se, os navegadores a atirarem-se ao desconhecido, expulsão de mouros, padeiras tresloucadas, entre muitos outros.
Sempre foi tradição nossa enfrentar perigos, desbravar fronteiras, ir onde ninguém foi, defender o que é nosso com unhas, dentes e fornos. 
A nossa história tem guerras, tem conquistas, tem sangue e tem triunfos.

É óbvio que a coragem abunda nos genes lusos. Com essa carga genética temos coragem para enfrentar os problemas, dar a cara, procurar soluções no estrangeiro, sem medos ou hesitações. 

Mas toda a regra tem excepções, correcto? E existem várias subjectividades na interpretação do termo "coragem". Vejo coragem em alpinistas que perdem extremidades do corpo ao tentar alcançar os pontos mais altos e assim tocar seus sonhos; vejo coragem no pescador a enfrentar intempéries em busca do sustento; há coragem no contingente luso nas missões da nato; coragem nos que querem desafiar dogmas; há coragem nos bombeiros, polícias, médicos e enfermeiros. Há coragem... mas também há fadiga.


Ouço comentadores político/económicos, após mais uma sentença à morte de outro mês de salário, que este governo tem coragem. Sorrio desconsertado! Que coragem existe em cortar salários? Que coragem está em manter cortes de pensões? Que coragem existe em proteger grandes interesses? O facto de um primeiro ministro, com um discurso pré-fabricado, dizendo aos mortos que serão novamente sacrificados à santa Tróika, em directo, sem pingo de vergonha, pode ser encarado como um acto de coragem? Que raio de gente corajosa é esta? Levar um país inteiro a miséria em nome de algo económico/mitológico é corajoso? Então e as PPP's, as Fundações, os Institutos, a GALP, EDP, os paraísos fiscais, não existe coragem para uma espetadela?


Realmente, "coragem" não terá o mesmo significado para mim. Coragem para mim será ver erguer-se, novamente, desta vez com vermelho sangue em vez de cravo, um povo cansado mas corajoso e cobrar, de uma vez por toda, esta infâmia sem fim.

Alguém que dê o mote...


Parafraseando o grande Cazuza:

"...Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para..."



02 setembro 2012

Enquanto isso...

Numa universidade de verão qualquer:




As hostes se agitam para ouvir os seus líderes...

01 setembro 2012

Carnegão

A todos os casais que, numa demonstração de carinho, amor e união, se entregam mutuamente aos prazeres da grotesca e asquerosa arte de espremer formações nodulares purulentas ou sebosas das  mais diferentes e recônditas áreas dos seus untuosos corpos, em plena praia ou onde lhes dá mais jeito e a qualquer altura da noite ou do dia, a minha singela homenagem: 


 

Fica também um sincero e amigável desejo: que um carnegão lhes vaze uma vista... ou duas.

29 agosto 2012

O brasileiro de merda

Uma das minhas primeiras lembranças, talvez até mesmo a primeira, é de Março de 1978. Aos 3 anos de idade recordo-me de estar à janela de um McDonnell Douglas DC-10 a aterrar no aeroporto de Congonhas, mesmo no centro de São Paulo. 
Em Terra de Santa Cruz passei toda a minha infância e de lá regressei, muito a contragosto, aos 18 anos. 
Do Brasil trouxe as lembranças, a paixão pelo São Paulo F.C. ... e o sotaque.

Lembro-me que de 4 em 4 anos vínhamos a Portugal. Lembro-me da ansiedade da visita a terras lusas; ansiedade para rever a família, de comer uma sardinha a cavalo numa boa broa de milho e de participar nas festas da terra dos meus pais. Naquele tempo, ter sotaque brasileiro era um "must". Vinham ter connosco a falar balelas apenas para que respondêssemos com o doce sotaque da "Gabriela". 
Ao longo dos tempos a magia do sotaque foi desaparecendo, culpa das novelas, culpa dos brasileiros que invadiram os restaurantes e consultórios dentários, culpa das brasileiras que ganharam a fama de destruidoras de lares (o que a minha irmã sofreu por causa do sotaque!).

E o sotaque é difícil de perder. Passados quase 20 anos do regresso, de anos em Coimbra, de lavagens compulsivas da língua, o sotaque permanece quase intacto. Não adianta enrolar a língua, ela volta para o abrasileirado. 
Nunca tinha sentido qualquer problema por ter o estranho acento... até há poucos dias.

Noutro dia, numa jornada contínua de 16 horas de trabalho, após negar uma vontade a um utente cheio de direitos e de parcos deveres, fui presenteado com um sempre caloroso "brasileiro de merda"; frase dita mesmo ao lado da sua filha de 7 anos.
 
Fiquei a pensar naquela frase: "brasileiro de merda". Baseando-se no meu sotaque alguém quis diminuir-me ao insultar-me. Gente pobre de espírito e pequena em educação.Talvez um misto de frustração pela nega à veleidade sem sentido que tinha mais a decepção de ser eu a usar a bata branca e, por conseguinte, ter o poder da decisão.

Depois da raiva e do leve desejo homicida, a verdade é que achei piada e dei-lhe o que merecia: o meu silêncio e desprezo. Dei-lhe as minhas costas para que soubesse que o "brasileiro de merda" é que mandava e ele, coitado...

Mas confesso que tive vontade de lhe responder:  "brasileiro de merda não sou não, meu senhor, mas sim: um verdadeiro português do caralho!"




27 agosto 2012

Pai sofre XXVI: Férias em família ≠ de descanso

Quando se é solteiro ou quando, em casal, não se tem filhos, a malta vai de férias para descansar. Vai para a praia, “trabalha pró bronze”, mira as meninas em trajes (cada vez mais) pequenos, bebe uma mini na esplanada acompanhados de um pires de mariscos do Eusébio e vai tateando, aqui ou ali, peixes-aranha que calmamente adornam o fundo do mar gelado da nossa costa.

Essa malta “desgraçada” e despreocupada faz viagens de 3 horas bem andadas entre o Porto e o “Allgarve”, sem verdadeiras necessidades de parar em estações de serviço, viajam com o ar condicionado ligado no máximo e a ouvir a música que lhes apetece no volume que lhes dá na telha. Chegados ao “Marrocos lusitano”, o people abanca em casa, come qualquer coisa regada com um vinho rosé bem fresquinho e vai para o areal, sem guarda-sol, equipados com toalha e protector solar factor 12, às 3 da tarde. Levam um conjunto de entretenimento composto apenas por bola + raquetes + baralho de cartas. Ficam por lá, ora deitados, ora a jogar, ora dentro d’água, até, pelo menos, às 8 da noite, dependendo apenas da vontade e da metereologia. 

Cambada de filhos da mãe! 

Não é que eu seja invejoso, longe de mim, mas são uns ignorantes, esses tipos! 
Ignoram que, com crianças, a viagem demora o dobro do tempo e vai se conhecendo as pitorescas decorações das casas-de-banho das autoestradas. Ignoram que se deve ter uma temperatura amena na viatura e que as escolhas musicais estão feitas antes do carro arrancar e não vão além daquele cd infantil que a cria já canta com grande à vontade, tal o número de "repeats". Ignoram que a palavra “esplanada” deixou, subitamente, de constar no dicionário e que “minis” se refere aos ditadores cá de casa. Quanto à arte de “ir à praia”, eles ignoram que se tem de acordar às 8 da matina (sim, essa hora existe, mesmo em Agosto) para apanhar o tempo mais fresquinho mas que só às 9:30 se está mesmo pronto para arrancar. Ignoram que, ao chegar à praia, se tem de descarregar tudo o que a mala pôde transportar, mais a mulher e as crianças, e depois andar à procura de lugar para estacionar a carroça, lugar esse que dista, quase sempre, entre 5 a 10 minutos do areal. Ignoram que o material de veraneio deve incluir uma mala com toalhas, fraldas (do mais pequeno), conjuntos de roupa, garrafas e biberões d’água, mais uma outra sacola que albergue moinhos, pás, baldes, figuras alusivas a moluscos ou artrópodes marinhos entre outros entretenimentos infantis e que, no seu conjunto, pesam sempre uma tonelada cada (produto do peso real pelo calor abrasador que já se faz sentir). Ignoram que as toalhas dos adultos não servem para descanso já que se passa pouco tempo lá deitado. Ignoram a vida para além do factor 12 de protecção solar e a existência da arte do “besuntar” dos pupilos até que fiquem brancos "albino-like". Ignoram que a maltinha só pode ir à água acoplados à nossa mão e sob a protecção de uma camisola e de um “sombrero” mexicano. Ignoram que parece existir uma estranha atracção entre a areia e a boca de um bebé. Ignoram que a praia deve ser o único lugar onde “filho” não traz sex appeal. Ignoram que às 11 horas da manhã são horas em que se devia sair da praia. Ignoram que pedir aos pimpolhos para que não sujem o carro com areia é uma utopia. Ignoram que apenas se pode voltar à praia às 5:30 da tarde para que tudo recomece… e tudo isso obedecendo à tirana vontade dos pequenitos. 

No entanto, às 5:30 da tarde, sob um tempo mais ameno e uma maré mais baixa, quando brinco com os miúdos a fazer castelos de areia ou corro atrás da mais velha enquanto esta ri como uma desalmada na esperança vã de que não a alcance; e molho os seus pequenos pés à beira mar e os seus cabelos com um balde cheio d’água acabada de “colher”; e caminho ao lado do pequeno que cambaleia sobre a areia fresca mais a sua fralda inchada da água salgada ao mesmo tempo que aponta para uma gaivota mais atrevida que pousa mesmo a 2 metros de nós; e sento com os dois mais a mamã, com os corpos a colar, salgados e cheios de areia, a observar um pôr-do-sol vermelho do verão, lá bem longe no horizonte, com a sonoplastia da mãe natureza, qual dj, rodopiando doces ondas numa praia agora mais calma; acabo por pensar que, afinal, e apesar da tremenda canseira que tudo isso acarreta, os que vivem na ignorância não sabem o que perdem. 


 Alvor

13 agosto 2012

Um sorriso bem disposto contra a crise

Dizem que o país está em crise.
Parece-me ser verdade.
Quando observo as incontáveis fábricas e empresas da terra, quase centenárias, de construção civil, de moldes, de vidro, que se fecham atirando para a rua seus devotos funcionários, vejo a crise a chegar.
Quando ando pela parte antiga da minha capital de distrito e observo o elevado número de lojas abandonadas - lojas que conhecia desde a longínqua infância e que tratava os donos com a amizade de um cliente fiél - verifico que a crise assentou arraiais.
Quando vislumbro placas da Remax a ornamentar quase por completo a fachada de inúmeros prédios, sinto que a crise está presente tal entidade paranormal.
Quando vejo a fila de pessoas à porta do IEFP mendigando uma oportunidade, apercebo-me da força da crise. Quando se fecham as portas aos jovens com formação universitária e aos menos jovens com formação "da lide dura da vida", vislumbro-a e temo-a.
Quando vejo os números, as progressões, as estimativas e os medos dos mercados, filhos mal paridos do ventre de putas economistas com chulos agiotas e/ou especuladores, vejo a famigerada a crescer.

Em tudo isso vejo a crise mas é com prazer que, aqui e ali, vemos gente a sorrir, lutando contra a crise. A crise a eles não afecta porque sabem, ou souberam, como lidar com ela. Para estes empreendedores não existe conjuntura que lhes faça frente, que lhes meta medo, que lhes cause mossa. São imunes porque souberam ver mais longe, foram astutos e precavidos. Agora sorriem enquanto a maioria chora ou, pelos menos, resmunga/geme.
Meus parabéns a estes exemplares portugueses e um bem haja pela alegria do seu sorriso aberto e verdadeiro.



Ministerio da Defesa Nacional
Cargo: Adjunto 
Nome: João Miguel Saraiva Annes – PSD 
Idade:28 anos 
Vencimento Mensal Bruto: 5.183,63 €

31 julho 2012

Eu me amo!

O narcisismo moderno será um tipo gostar do seu próprio estado no Facebook?

30 julho 2012

"Educação" não tem 50% de desconto em cartão Continente!


Como costumo dizer cá por casa: "educação não se vende em prateleiras..."
Estava eu, no meu popó, estacionado entre outros dois veículos, quando o vizinho do lado esquerdo chega com os seus dois pimpolhos, preparados para abandonar a zona. 

Um à parte: sei como são as crianças. Por experiência própria, já experimentei da ansiedade e irreverência infantil e compreendo que, às vezes, é difícil domar um pequenote.

Voltando à situação.
O dono da viatura abriu o carro e, consequentemente, "libertou" o fecho central. O mais pequeno abriu a porta e testou a rigidez da porta do meu carro provocando um estrondoso e melodioso som: "Bum!".
O pai foi exemplar: austero e educador; e repeendeu-o da seguinte forma:
"Então? Cuidado filho! Não vês que estão pessoas nesse carro?", enquanto o acomodava na respectiva cadeira de segurança. 
Fiquei à espera de um "desculpe, sabe como são as crianças" e uma averiguação dos estragos... mas nada. A malta aninhou-se na viatura e foi-se.


Conclui então que, para aquele progenitor, se não houver ninguém na viatura vizinha, os seus filhos podem bater com a porta  à vontade; melhor, podem dar pontapés, usar uma maça de guerra,  uma bazuca ou uma machadinha apache em propriedade alheia; aprendi também que "peço desculpas" é uma frase sobrevalorizada e, com esta crise, uma grande percentagem de agregados familiares não a podem suportar.


Pior que a crise financeira e esta que actualmente vivemos: a de valores (imateriais).  


PS: como a porta tem de ser arranjada por outra mazela mais antiga não me preocupei muito (mas anotei a matrícula na mesma: pode ser que vislumbre o prevaricador [a terra é pequena]).



19 julho 2012

Eles estão a chegar... insidiosos...

A observar esta sequência de acontecimentos:

1) A TROIKA sugere no "memorandum" a VENDA do Negócio da SAÚDE da CGD;

2) O Governo nomeia António Borges para CONSULTOR para as VENDAS dos negócios Públicos;

3) A Jerónimo Martins (Grupo Soares dos Santos) CONTRATA o mesmo António Borges para Administrador (mantendo as suas funções de VENDEDOR dos negócios públicos);

4) O Grupo Soares dos Santos (Jerónimo Martins) anuncia a criação de um novo negócio: a SAÚDE (no início DESTA SEMANA);

5) A TROIKA exige a VENDA URGENTE do negócio da SAÚDE da CGD já este mês (notícia de HOJE).



(in Artº 21º)

E a malta vai se chateando com Relvas e afins...



18 julho 2012

Plagiando

"Paulo Macedo, é aquele iluminado, que saiu do privado para vir ganhar rios de dinheiro para o sector público, devido à sua elevada competência e mérito. Na altura, todos diziam (incluindo o próprio) que se queríamos os melhores no sector público era necessário pagar e bem por isso.

Já em relação aos médicos, quanto piores as condições de trabalho e a remuneração melhor. Continua a fazer sentido, afinal de contas, nem este governo nem este ministro, querem os melhores no serviço nacional de saúde. Pelo contrário, querem degradá-lo de tal maneira, que daqui a cinco anos a qualidade seja tão miserável que não haja oposição dos cidadãos, ao seu encerramento.

Entretanto, inúmeras manifestações de inveja social têm sido promovidas: "os médicos são uns previligiados", "ganham muito", entre outras alarvidades.

Este pensamento mesquinho de "eu estou mal, logo o outro tem de estar como eu" é miserável, mas dá frutos. É uma propaganda que pega bem, sem dúvida.

Ainda não ouvi ninguém falar do salário e regalias dos gestores hospitalares, nomeados politicamente e com resultados para lá de duvidosos. Ainda não ouvi reclamar sobre todo os cêntimos que pagamos ao incompetente do Passos Coelho, serem cêntimos pagos a mais.

Ouço reclamarem com os médicos, os mesmos que após um turno de 24 horas, e ao contrário do que está na lei, são obrigados a fazer mais um turno na enfermaria, para os doentes não ficarem ao abandono.

Quando Gaspar erra nas contas públicas, diz que foi um lapso; quando um médico erra, leva um processo da ordem das centenas de milhares de euros... mas faz sentido que reclamem com os médicos. Façam um altar aos banqueiros, ou aos Mexias, Catrogas, Dias Loureiros e afins! Esses sim são os que nos tratam da saúde e fazem serviço público.

Que país é este, sinceramente? Paulo Macedo veio dos grupos privados da saúde, para continuar a trabalhar para eles. Repararam que desta vez, ao contrário de quando foi para cobrador de impostos, ele não exigiu um salário milionário? Alguém duvida que, à boa imagem de outros ex-ministros, ele será premiado com uma cadeira dourada, assim que acabar o seu servicinho?

Paulo Macedo está a angariar clientes para o privado e a destruir o serviço nacional de saúde, para benefício dos seus ex e futuros patrões. Os médicos viram isso a tempo, e não querem acabar em mão de obra barata para a Médis, Multicare e afins.

Quem, no seu juízo perfeito, os pode censurar? "

Francisco da Silva

Retirado daqui: artigo 58

11 julho 2012

09 julho 2012

Porque greve?

Hoje no BMJ online (British Medical Journal):  "... a suspicious sign of a progressive move towards the privatisation of Portugal’s National Health System, which took decades to build, and which some years ago was considered by the World Health Organization as one of the best in the world."

Algumas coisas que andam por ai: 

"Hospitais privados vão ter internos: O Governo prepara-se para incluir o sector privado na formação pós-graduada dos jovens licenciados em Medicina..." (Fonte: Tempo Medicina")

"Hospital-escola de gondomar abre em Setembro" (Porto 24)

"Isabel Vaz: "Só preciso que o Estado não me chateie" (Negócios Online)

Não à privatização do SNS!!!


08 julho 2012

Manifesto (pessoal):Direito à indignação

Neste momento de crise, material e de valores, alguns se sentem indignados. Sentem-se indignados porque não têm trabalho, ou porque têm baixos salários, ou não têm subsídios, ou não têm oportunidades, ou não têm nada daquilo que costumavam ter e, porque lhe foram retirados das suas benfeitorias, indignam-se. No entanto, sentem-se na legítima posse desse sentimento e parecem não querer cedê-lo a todos. Parece-me que não me querem deixar estar indignado também. Parece que não tenho direito ao desalento por ter o que chamam de “privilégios”. Têm razão em dizer que tenho alguns privilégios; tenho o privilégio de exercer a profissão pela qual lutei ao longo da vida, e o privilégio de ter contacto com o doente, e o de poder encontrar solução para um problema de saúde grave, e o imensurável privilégio de ouvir mais “obrigados” do que críticas. Mas não são desses privilégios que os outros indignados me acusam. Acusam-me de ter privilégios materiais, de ganhar muito, de fazer pouco, de ter status, de ter o rei na barriga, de ter emprego garantido, entre outros privilégios que, a sua falta de visão periférica, permite ver. Esquecem-se que faltam outros privilégios como, por exemplo, condições de trabalho, férias, feriados, natais em família, oportunidade para constituir família, de (por vezes) exercer medicina de forma livre…

Pergunto aos indignados “ de verdade”: quem me traz de volta o tempo perdido dos “teens” e dos 20’s em que estive a estudar em detrimento da boa vida dos indignados “à séria”? Quem me traz de volta o 1º andar do meu filho que perdi por estar em serviço? E o bacalhau da consoada? E a distância da família durante os anos de estudo e internato? Parece que não me posso indignar pela perda de direitos e pelas injustiças. Parece que não cumpro com os meus deveres de cidadão. Parece que o meu cartão de eleitor não tem valor, o número de contribuinte não serve para nada e o serviço militar cumprido era escusado (e era, na verdade). Parece que, por ser médico, sou menos cidadão. Parece que sou imune às doenças e à possível necessidade de ser utilizador do sistema de saúde. Parece que, pela literacia e ofício, não tenho direito, eu também, à reivindicação e à revolta contra aqueles que me querem tirar direitos como profissional e eventual doente. Sugerem-me que não devo lutar pela manutenção do único sistema público funcional e internacionalmente (bem) reconhecido deste país. Suspeito que não me querem a manifestar contra as injustiças de cortes cegos, feitos por quem apenas reconhece em mim um objecto e, no utente, um número de cartão. Parece que não posso querer ter uma carreira. Parece que não me querem avaliar pela qualidade e competências e que não posso lutar para que não me considerem como uma embalagem de supermercado com um selo promocional. Parece que não tenho direito ao uso do calão português para qualificar quem quer destruir o meu SNS.

Quem me retirou o direito à indignação? Quem é dono desse sentimento e não “mo” quer emprestar? Porque tenho eu de aceitar que me diminuam como profissional e cidadão sem que possa mostrar a minha revolta? Porque tenho de aceitar que, depois de tanto sacrifício, pessoal e familiar, seja um dado adquirido da sociedade sem vontades ou direitos? Quem me quer impedir de lutar por direitos conquistados por quem lutou antes de mim? Querem-me fazer crer que tenho de me envergonhar e que não tenho moral para a amotinação, qualidades de quem quer ser um verdadeiro “indignado”? Não sou daquele tempo, mas parece-me que existiram médicos no 25 de Abril. Não me lembro de ter lido que tinham sido escusados à revolução. Lembro-me de ouvir estarem juntos a padeiros, pedreiros, costureiros, militares e prostitutas, e de envergarem, eles também, simbólicos cravos. Não percebo o que terá mudado tantos anos depois… Dessa forma, sinto-me indignado. Indignado por todos os direitos que me foram já retirados, e pelos que ainda pretendem subtrair, como profissional e utente do SNS. Assim, nos dias 11 e 12 de Julho de 2012, pretendo fazer-me ouvir, no bom e velho estilo de uma República democrática, aquela mesma dos meus pais e avós… e ai de quem me quiser retirar esse direito!!!

Para os que querem ainda acreditar que esta greve é puramente salarial e/ou politizada (como insistem em insinuar o Sr. Ministro e Secretários da Saúde):

- Carreira, reconhecimento das especialidades, valorização do internato e dos internos, tabelas justas, gratuidade do SNS, regulamentação do Acto Médico, acessibilidade garantida a todos, anti-cortes cegos que impeçam o acesso a todos os tratamentos, renegociação urgente das PPP’s da saúde, anti-privatização e anti-americanização do SNS e, acima de tudo, anti-desumanização do Serviço Nacional de Saúde!!!

 E, parafraseando uma música bem velhinha (indignação - Skank) "... indignação indigna, indigna INACÇÃO!"