Passados os "Noddys", Rucas" e outros que tais, eis que a minha menina passou a gostar de outro tipo de bonecos. Não que me orgulhe muito, mas ela vê o que eu via quando, há muitos anos atrás, era também um miudito.
Na TV Cabo (já não me ligam há meses, esses malandros!) existe um canal de desenhos animados inglês que pode causar um achaque de nostalgia fulminante aos mais velhos. O canal em causa chama-se "Boomerang" e por causa dele (e dela) comecei a (re)ver "Mutley and Dastardly", "Wacky Races", "Top cat", "Tom & Jerry", "The Flintstones", "The Jetsons" e, o preferido da minha pequenita (e porque hoje é noite de Halloween):
Aliás, o visionamento do amigo Scooby é quase um ritual: começa o desenho, aquece-se o leite, uma bolacha Maria e cama; é automático!
E a moçoila até já canta em inglês, pá! Se pelo menos o Sócrates visse isso...
31 outubro 2011
7.000.000.000
Parece ter nascido o bebé 7.000.000.000... e estes (e outros exemplos que facilmente se podem encontrar) vêm provar que existe (mesmo) gente para tudo.
Que este Homo sapiens sapiens possa ter uma vida longa, saudável e digna.
20 outubro 2011
"O" Médico
Tem sido difícil acompanhar a blogosfera (e muito menos publicar o que quer que seja) durante a semana. "Culpa" do trabalho e da família que me preenchem o tempo.
No entanto, hoje deixo aqui um vídeo que encontrei após "zappingar" o seu filme no canal Hollywood:
É indescritível o amor pelo próximo narrado por este "velho" médico. Mostra uma alegria e um desprendimento tão grandes que, ao longo de várias passagens, me fez sentir envergonhado das reclamações diárias.
Houvesse mais gente assim...
PS: existe neste blog um link para o site do seu projecto mas, para facilitar, aos interessados: www.patchadams.org/
No entanto, hoje deixo aqui um vídeo que encontrei após "zappingar" o seu filme no canal Hollywood:
É indescritível o amor pelo próximo narrado por este "velho" médico. Mostra uma alegria e um desprendimento tão grandes que, ao longo de várias passagens, me fez sentir envergonhado das reclamações diárias.
Houvesse mais gente assim...
PS: existe neste blog um link para o site do seu projecto mas, para facilitar, aos interessados: www.patchadams.org/
16 outubro 2011
The (real) biggest loser
O Estado estava gordo. Estava cansado de ouvir falar de um necessário "fitness" para emagrecer o obeso glutão, sorvedouro de fundos e impostos, em que se tornara. Viciado no doce sabor do dinheiro, dependente da gordurosa perdição da corrupção e preguiçoso nos esforços de obtenção de hábitos administrativos saudáveis, já não conseguia ser suportado pela rede que o aguentava e estava a perder interesses.
O Estado investira pouco na sua educação e saúde. Suas economias eram parcas e o desenvolvimento exíguo nas últimas 3 décadas. Seu plano de seguro social era terrível e ameaçava desaparecer. Crescera pouco para cima e muito para os lados e já não cabia no traje orçamentado anualmente. O peso era tal que as suas pernas não o sustinham e deixara de andar; movimentava-se agora com canadianas, americanas, europeias, chinesas, ou qualquer outras muletas que o pudessem manter em pé.
Já por várias vezes inscrevera-se em ginásios de reputação mundial, contratara diferentes personal trainers de várias latitudes políticas, e, mesmo assim, falhara redondamente. Apesar dos esforços dos supostos profissionais, engordara cada vez mais, ficara pançudo e doente. Estava agora com obesidade mórbida e hipertenso. Aliás, a tensão estava a aumentar de tal forma que ameaçava explodir, a qualquer momento, mesmo no seu coração do poder central. A crescente gula por tudo que estava à sua volta ameaçava os seus sistemas orgânicos e arriscava-se agora à acidentes e convulsões sociais.
Cansado das dietas "ioiô" a que se tinha submetido tantas vezes, resolvera radicalizar: decidira ir à faca. Procurara auxílio de um corporação economico-estética, de renome temível internacionalmente, para resolver os problemas. Esta impingira um sério plano cirúrgico de cortes a direito em todas as suas áreas, inclusive as nevrálgicas.
Iniciara a empreitada com uma equipa cirúrgica supostamente canhota que, no entanto, demonstrara uma incrível tendência para o "show-off", a auto-propaganda e a incompetência (por coincidência, tal como as que a antecederam). Trocou-a por uma (demasiado) destra. Oficializada a nova equipa de salvadores, o Estado começou a ser intervencionado.
Na sala de cirurgia mundial, o Estado foi manietado, anestesiado e esquartejado. Com o seu âmago exposto, seus órgãos funcionais foram cobiçados e ficaram à mercê de um mercado traficante/agiota/especulativo: órgãos funcionantes, com dividendos, foram cuidadosamente retirados; os podres lá se mantiveram, corroendo-lhe as remanescentes entranhas. Nessa cirurgia demorada ( que levará ainda décadas a terminar) grande parte da gordura foi mantida e apenas a riqueza intelectual, o sangue bom e os neurónios funcionantes foram migrados para outros Estados mais saudáveis e activos. Os cortes indiferenciados feriram os tecidos estatais retirando-lhes a sua nutrição e matando-os lentamente.
O Estado então ficou magro de nutrientes e gordo de venenos. Terminou pobre, (miserável mesmo), subdesenvolvido e cheio de sequelas físicas e psíquicas. A desnutrição intelectual levou-o à insanidade. A falta de nutrientes económicos levou-o à anemia e à fraqueza muscular/braçal, atirando-o para a inanição.
Como resultado da abdução das suas mais valias, o Estado implodiu. Caiu por colapso das infraestruturas. Seu esqueleto social ruiu perante a falta das vitaminas laborais e económicas necessárias para o manter activo.
No fim, o Estado, obeso de vícios/magro de virtudes, tornou-se moribundo. Agónico e perdido, morreu pouco-a-pouco e, fagocitado por algo maior, desapareceu...
... ficou, no entanto, num grão das suas cinzas, a lembrança de poemas de glória e de um fino à beira-mar...
O Estado investira pouco na sua educação e saúde. Suas economias eram parcas e o desenvolvimento exíguo nas últimas 3 décadas. Seu plano de seguro social era terrível e ameaçava desaparecer. Crescera pouco para cima e muito para os lados e já não cabia no traje orçamentado anualmente. O peso era tal que as suas pernas não o sustinham e deixara de andar; movimentava-se agora com canadianas, americanas, europeias, chinesas, ou qualquer outras muletas que o pudessem manter em pé.
Já por várias vezes inscrevera-se em ginásios de reputação mundial, contratara diferentes personal trainers de várias latitudes políticas, e, mesmo assim, falhara redondamente. Apesar dos esforços dos supostos profissionais, engordara cada vez mais, ficara pançudo e doente. Estava agora com obesidade mórbida e hipertenso. Aliás, a tensão estava a aumentar de tal forma que ameaçava explodir, a qualquer momento, mesmo no seu coração do poder central. A crescente gula por tudo que estava à sua volta ameaçava os seus sistemas orgânicos e arriscava-se agora à acidentes e convulsões sociais.
Cansado das dietas "ioiô" a que se tinha submetido tantas vezes, resolvera radicalizar: decidira ir à faca. Procurara auxílio de um corporação economico-estética, de renome temível internacionalmente, para resolver os problemas. Esta impingira um sério plano cirúrgico de cortes a direito em todas as suas áreas, inclusive as nevrálgicas.
Iniciara a empreitada com uma equipa cirúrgica supostamente canhota que, no entanto, demonstrara uma incrível tendência para o "show-off", a auto-propaganda e a incompetência (por coincidência, tal como as que a antecederam). Trocou-a por uma (demasiado) destra. Oficializada a nova equipa de salvadores, o Estado começou a ser intervencionado.
Na sala de cirurgia mundial, o Estado foi manietado, anestesiado e esquartejado. Com o seu âmago exposto, seus órgãos funcionais foram cobiçados e ficaram à mercê de um mercado traficante/agiota/especulativo: órgãos funcionantes, com dividendos, foram cuidadosamente retirados; os podres lá se mantiveram, corroendo-lhe as remanescentes entranhas. Nessa cirurgia demorada ( que levará ainda décadas a terminar) grande parte da gordura foi mantida e apenas a riqueza intelectual, o sangue bom e os neurónios funcionantes foram migrados para outros Estados mais saudáveis e activos. Os cortes indiferenciados feriram os tecidos estatais retirando-lhes a sua nutrição e matando-os lentamente.
O Estado então ficou magro de nutrientes e gordo de venenos. Terminou pobre, (miserável mesmo), subdesenvolvido e cheio de sequelas físicas e psíquicas. A desnutrição intelectual levou-o à insanidade. A falta de nutrientes económicos levou-o à anemia e à fraqueza muscular/braçal, atirando-o para a inanição.
Como resultado da abdução das suas mais valias, o Estado implodiu. Caiu por colapso das infraestruturas. Seu esqueleto social ruiu perante a falta das vitaminas laborais e económicas necessárias para o manter activo.
No fim, o Estado, obeso de vícios/magro de virtudes, tornou-se moribundo. Agónico e perdido, morreu pouco-a-pouco e, fagocitado por algo maior, desapareceu...
... ficou, no entanto, num grão das suas cinzas, a lembrança de poemas de glória e de um fino à beira-mar...
15 outubro 2011
Vontade de abalar
No seguimento de mais um roubo, mais cortes finos e dementes, cresce a vontade de abalar. Enquanto não decido para onde deserto, vou sonhando com Parságada.
Vou-me Embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira
Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90
Vou-me Embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90
06 outubro 2011
Yo quería ser de América Latina*
Adicionar sobrenome latino-americano: hecho;
Utilizar sotaque da América do Sul: hecho;
Adicionar "Portunhol" em idiomas: hecho;
Foto de Hugo Chavez na carteira: hecho;
Solário para bronze Barranquilha-like: programado;
Inscrição no partido de Bolívar: programado;
Curso de Marinera: en la ponderación;
Registo na página do Sendero Luminoso ou FARC: pendiente de aprobación;
Formação adicional na Faculdade de Medicina da Universidade Anton de Kom - Suriname: programado;
Finalmente:
Nuevo contrato con el ARS: bajo negociación;

*PS: private joke.
Utilizar sotaque da América do Sul: hecho;
Adicionar "Portunhol" em idiomas: hecho;
Foto de Hugo Chavez na carteira: hecho;
Solário para bronze Barranquilha-like: programado;
Inscrição no partido de Bolívar: programado;
Curso de Marinera: en la ponderación;
Registo na página do Sendero Luminoso ou FARC: pendiente de aprobación;
Formação adicional na Faculdade de Medicina da Universidade Anton de Kom - Suriname: programado;
Finalmente:
Nuevo contrato con el ARS: bajo negociación;
*PS: private joke.
Desabafo
Caro leitor, encare este texto apenas como um desabafo, um desalento de alguém entristecido. Não sinta pena, não tenha compaixão, não julgue; apenas leia se tiverem pachorra e encare isto como algo sem qualquer importância e que só serve para aliviar um pouco a alma de quem o escreveu.
Estou de férias. Uma semana que saio do inferno do meu trabalho, mas trago-o comigo, como um moedouro que não me permite o afastamento completo.
Desde miúdo cultivei um sonho: ser médico. Trabalhei muito ao longo do liceu, privei minha adolescência de várias “coisas da idade”; namorei tarde, saí tarde, vivi pouco daquela fase buscando o objectivo que tinha em mente. Fui muitas vezes tentado, ridicularizado, provocado por aqueles do “deixa-estar”, do “empurrar-os-anos-com a barriga”, do “tu-só-sabes-estudar": bando de chicos-espertos.
Porquê ser médico? Porque sempre tive tendência para ser otário. Sim, isso mesmo: otário. Porquê? Porque, pensava eu, poderia, assim, ajudar quem mais precisasse. Ajudar o doente, o dependente, o desesperado. Coisas que vejo, agora, terem pouca ou nenhuma importância para a sociedade em que vivemos. O interesse actual gira em torno de outros dogmas muito menos magnos.
Tinha o médico como um ídolo e um modelo que gostaria de seguir. A beleza da arte me fascinava: a preocupação para com o próximo, o segurar da mão e o mimo ao doente, o sorriso fomentador de esperança, o consolo da família. Tinha um enorme respeito pelo médico que ía, solícito, à casa do doente; adorava ver o que tinha na mala e prestava atenção à observação que fazia ao doente. Idolatrava a postura, a sabedoria, a delicadeza e a educação inerentes à profissão. Ignorava que era um trabalho igual a tantos outros e sujeito a alvíssaras. Era isso que desejaria fazer para sempre e faria tudo o que pudesse para alcançar esse propósito.
Passados os anos de clausura (e muitas vezes solidão) veio a recompensa: Coimbra. Passei as passas do Algarve para acabar o meu curso. Estudava durante a semana, tentava ajudar os meus pais no fim-de-semana, arrisquei o meu relacionamento com a minha mais-que-tudo. Não aguentei a pressão e deprimi passado algum tempo, pensei e planeei formas de entrar em contacto directo com o Criador, foram lágrimas, suor e quase, mesmo quase, sangue. O meu percurso na faculdade não me orgulha… mas levantei, sacudi a poeira, dei a volta por cima e consegui.
Fiz o Juramento de Hipócrates e nessa altura senti-me médico por inteiro. Não foi o diploma ou o cartão da ordem que me fizeram médico, foi o meu esforço espelhado naquelas frases feitas mas com uma minha interpretação própria.
Enveredei pela parente pobre das especialidades médicas: a Medicina Geral e Familiar. Tão falada nas notícias, tão pouco compreendida por todos (inclusive muitos dos que a representam e praticam). A especialidade que "vê" a pessoa como um todo e que é a pedra basilar do sistema de saúde. Se for feita com seriedade e respeito: a mais bela forma de se fazer medicina.
Foram quase quatro anos de mais trabalho, de investigação, de aprendizagem e de mais privação pessoal e familiar. Novamente consegui e desta vez com distinção.
Hoje sou Médico de Família. Trabalho no que sempre quis e sonhei... mas quem sonha muito, por vezes, tem noites em que sonha mal.
Estando no terreno vê-se o que não se vê nas polegadas da TV. O que jornalistas, políticos, alguns médicos e utentes dizem não corresponde à inteira realidade e não pinta o quadro todo. Quem "é de fora" não tem noção (nem compreende) a dificuldade da tarefa, as pressões várias dos doentes, dos colegas, dos chefes, dos políticos e as limitações do próprio médico. Não se pense que é fácil ser-se médico e gerir todo um mundo de interesses que de medicina nem sequer chegam a ter cheiro.
Tal qual a imagem que sonhava, norteio a minha prática pela ética, honestidade, seriedade, rectidão e trabalho. Chego à conclusão que todas estas virtudes encontram-se subvalorizadas. Quem por elas se orienta é alvo a abater porque encrava o sistema instituído. Vejamos, é mais fácil mentir, aceitar, resignar-se e ir com a corrente do que insistir e lutar contra o que se considera errado. Quem muito cria raízes arrisca-se a sofres mais na hora de ser arrancado do sistema.
Cheguei à conclusão (em muito pouco tempo) de que, ao fim dos meus dias de trabalho, pouca medicina faço. Sou mais um secretário. São papéis a mais e estetoscópio a menos. São burocracias, economias, números e estatística, vontades e direitos hipertrofiados; ninguém dá valor aos deveres e responsabilizações.
Cansa muito mais ser íntegro; seria mais simples juntar-me à manada.
Depois de tantos anos de trabalho árduo em busca de um sonho, entristece-me concluir que andei atrás de uma fantasia, de um unicórnio alado. Cheguei à triste conclusão de que, mais que os doentes, é a própria medicina e seus agentes que padecem de patologia. A medicina e o sistema de saúde estão podres e os seus valores subvertidos. A figura do médico, que me apaixonou à infância, existe agora em forma residual, aqui e ali; deixou-se borrar pelos interesses instituídos, pelo sonho de riqueza, pela arrogância de um posto, pela má gestão e pelo facilitismo. Deixou-se levar pela falácia dos políticos, pelos desejos insustentáveis e impaciência dos utentes e esqueceu-se dos verdadeiros doentes. Elegeu pessoas para as representar que não têm a visão daquele que sofre no horizonte e que apenas defende os seus subscritores (e mesmo assim nem todos e nem nas situações que deveria). A Medicina está agónica e a precisar urgentemente de um Hipócrates ou Galeno.
Talvez seja eu e a minha irritante tendência ao exagero. Talvez a culpa seja minha de idealizar uma imagem que nunca correspondeu à realidade. Talvez seja apenas muito ingénuo (mea culpa). Talvez seja apenas uma fase em que esteja hiper-hidratado e necessite libertar alguma água pelos olhos sempre que termine o dia de trabalho. Talvez nada disso exista e seja apenas uma miragem da minha personalidade negativista. Talvez... quem sabe?
Neste momento, a medicina que sou obrigado a fazer deixou de ser apaixonante, divertida e, pior, deixou de fazer sentido.
Espero por dias melhores...
Estou de férias. Uma semana que saio do inferno do meu trabalho, mas trago-o comigo, como um moedouro que não me permite o afastamento completo.
Desde miúdo cultivei um sonho: ser médico. Trabalhei muito ao longo do liceu, privei minha adolescência de várias “coisas da idade”; namorei tarde, saí tarde, vivi pouco daquela fase buscando o objectivo que tinha em mente. Fui muitas vezes tentado, ridicularizado, provocado por aqueles do “deixa-estar”, do “empurrar-os-anos-com a barriga”, do “tu-só-sabes-estudar": bando de chicos-espertos.
Porquê ser médico? Porque sempre tive tendência para ser otário. Sim, isso mesmo: otário. Porquê? Porque, pensava eu, poderia, assim, ajudar quem mais precisasse. Ajudar o doente, o dependente, o desesperado. Coisas que vejo, agora, terem pouca ou nenhuma importância para a sociedade em que vivemos. O interesse actual gira em torno de outros dogmas muito menos magnos.
Tinha o médico como um ídolo e um modelo que gostaria de seguir. A beleza da arte me fascinava: a preocupação para com o próximo, o segurar da mão e o mimo ao doente, o sorriso fomentador de esperança, o consolo da família. Tinha um enorme respeito pelo médico que ía, solícito, à casa do doente; adorava ver o que tinha na mala e prestava atenção à observação que fazia ao doente. Idolatrava a postura, a sabedoria, a delicadeza e a educação inerentes à profissão. Ignorava que era um trabalho igual a tantos outros e sujeito a alvíssaras. Era isso que desejaria fazer para sempre e faria tudo o que pudesse para alcançar esse propósito.
Passados os anos de clausura (e muitas vezes solidão) veio a recompensa: Coimbra. Passei as passas do Algarve para acabar o meu curso. Estudava durante a semana, tentava ajudar os meus pais no fim-de-semana, arrisquei o meu relacionamento com a minha mais-que-tudo. Não aguentei a pressão e deprimi passado algum tempo, pensei e planeei formas de entrar em contacto directo com o Criador, foram lágrimas, suor e quase, mesmo quase, sangue. O meu percurso na faculdade não me orgulha… mas levantei, sacudi a poeira, dei a volta por cima e consegui.
Fiz o Juramento de Hipócrates e nessa altura senti-me médico por inteiro. Não foi o diploma ou o cartão da ordem que me fizeram médico, foi o meu esforço espelhado naquelas frases feitas mas com uma minha interpretação própria.
Enveredei pela parente pobre das especialidades médicas: a Medicina Geral e Familiar. Tão falada nas notícias, tão pouco compreendida por todos (inclusive muitos dos que a representam e praticam). A especialidade que "vê" a pessoa como um todo e que é a pedra basilar do sistema de saúde. Se for feita com seriedade e respeito: a mais bela forma de se fazer medicina.
Foram quase quatro anos de mais trabalho, de investigação, de aprendizagem e de mais privação pessoal e familiar. Novamente consegui e desta vez com distinção.
Hoje sou Médico de Família. Trabalho no que sempre quis e sonhei... mas quem sonha muito, por vezes, tem noites em que sonha mal.
Estando no terreno vê-se o que não se vê nas polegadas da TV. O que jornalistas, políticos, alguns médicos e utentes dizem não corresponde à inteira realidade e não pinta o quadro todo. Quem "é de fora" não tem noção (nem compreende) a dificuldade da tarefa, as pressões várias dos doentes, dos colegas, dos chefes, dos políticos e as limitações do próprio médico. Não se pense que é fácil ser-se médico e gerir todo um mundo de interesses que de medicina nem sequer chegam a ter cheiro.
Tal qual a imagem que sonhava, norteio a minha prática pela ética, honestidade, seriedade, rectidão e trabalho. Chego à conclusão que todas estas virtudes encontram-se subvalorizadas. Quem por elas se orienta é alvo a abater porque encrava o sistema instituído. Vejamos, é mais fácil mentir, aceitar, resignar-se e ir com a corrente do que insistir e lutar contra o que se considera errado. Quem muito cria raízes arrisca-se a sofres mais na hora de ser arrancado do sistema.
Cheguei à conclusão (em muito pouco tempo) de que, ao fim dos meus dias de trabalho, pouca medicina faço. Sou mais um secretário. São papéis a mais e estetoscópio a menos. São burocracias, economias, números e estatística, vontades e direitos hipertrofiados; ninguém dá valor aos deveres e responsabilizações.
Cansa muito mais ser íntegro; seria mais simples juntar-me à manada.
Depois de tantos anos de trabalho árduo em busca de um sonho, entristece-me concluir que andei atrás de uma fantasia, de um unicórnio alado. Cheguei à triste conclusão de que, mais que os doentes, é a própria medicina e seus agentes que padecem de patologia. A medicina e o sistema de saúde estão podres e os seus valores subvertidos. A figura do médico, que me apaixonou à infância, existe agora em forma residual, aqui e ali; deixou-se borrar pelos interesses instituídos, pelo sonho de riqueza, pela arrogância de um posto, pela má gestão e pelo facilitismo. Deixou-se levar pela falácia dos políticos, pelos desejos insustentáveis e impaciência dos utentes e esqueceu-se dos verdadeiros doentes. Elegeu pessoas para as representar que não têm a visão daquele que sofre no horizonte e que apenas defende os seus subscritores (e mesmo assim nem todos e nem nas situações que deveria). A Medicina está agónica e a precisar urgentemente de um Hipócrates ou Galeno.
Talvez seja eu e a minha irritante tendência ao exagero. Talvez a culpa seja minha de idealizar uma imagem que nunca correspondeu à realidade. Talvez seja apenas muito ingénuo (mea culpa). Talvez seja apenas uma fase em que esteja hiper-hidratado e necessite libertar alguma água pelos olhos sempre que termine o dia de trabalho. Talvez nada disso exista e seja apenas uma miragem da minha personalidade negativista. Talvez... quem sabe?
Neste momento, a medicina que sou obrigado a fazer deixou de ser apaixonante, divertida e, pior, deixou de fazer sentido.
Espero por dias melhores...
03 outubro 2011
Ilhas dos amores? Sois vós Açores.
Para o desafio viagens da "Fábrica de Letras":

Das (poucas, infelizmente) viagens que fiz, a que mais me surpreendeu foi a que me levou até aos Açores. Surpreendeu-me talvez porque não estava preparado para o que ía ver. Não tinha qualquer noção do que me apresentariam as diferentes ilhas e fiquei apaixonado, desejoso de voltar...
Este envergonhado projecto de poema que vos apresento surgiu-me na viagem de regresso num repente, quase sem pensar, daí poder parecer negligente ou infantil, mas é assim que o coração "escreve" quando está enamorado, certo?
O que surgiu foi, portanto, puro e verdadeiro.

(foto da minha autoria)

Das (poucas, infelizmente) viagens que fiz, a que mais me surpreendeu foi a que me levou até aos Açores. Surpreendeu-me talvez porque não estava preparado para o que ía ver. Não tinha qualquer noção do que me apresentariam as diferentes ilhas e fiquei apaixonado, desejoso de voltar...
Este envergonhado projecto de poema que vos apresento surgiu-me na viagem de regresso num repente, quase sem pensar, daí poder parecer negligente ou infantil, mas é assim que o coração "escreve" quando está enamorado, certo?
O que surgiu foi, portanto, puro e verdadeiro.
(foto da minha autoria)
01 outubro 2011
Gastronomia madrugadora
Meu vizinho tem um galo que, às 4 horas da manhã, faz-me pedir por um bom arroz de cabidela...
20 setembro 2011
20 anos
Há cerca de 17 anos, ao entreter-me com uma revista "especializada" em música, lia um artigo, de um erudito qualquer, que vaticinava o fim dos Pearl Jam logo ao 2º álbum. Ironizava o sabichão que o líder da banda se tinha aburguesado, que a música do grupo não respondia à chamada grunge da origem e que estava por isso, esse trabalho, destinado ao fracasso.
O álbum em questão era o "Vs", por sinal um colossal (está na moda) sucesso. Parece-me que para profeta, o tal escritor dava um excelente mestre-d'obras...
Mais 20, sff.
O álbum em questão era o "Vs", por sinal um colossal (está na moda) sucesso. Parece-me que para profeta, o tal escritor dava um excelente mestre-d'obras...
Mais 20, sff.
19 setembro 2011
PS (porto Seguro)
Depois do último congresso do PS; depois de ouvir o ardente, sincero, verdadeiro (e amnésico?) discurso do sucessor de Sócrates; depois de ouvir as suas inúmeras e infindáveis declarações, opiniões e acusações diárias; de sentir as suas preocupações; fiquei extremamente aliviado: afinal o PS nunca deixará o povo na mão e estará sempre aí para nos salvar!
Aleluia
Aleluia
17 setembro 2011
Bonfire of the Vanities
"Cristiano Ronaldo: “Assobiam-me porque sou bonito, rico e um grande futebolista. Não tenho outra explicação” in Público
É por não "encontrar outra explicação" que não pode acrescentar "inteligente" a essa frase, certo?
É por não "encontrar outra explicação" que não pode acrescentar "inteligente" a essa frase, certo?
Pai sofre XXIII: remédio
Sexta-feira. Mais uma semana de intenso trabalho terminou.
Cheguei à casa estafado. Vinha chateado com a vida e com um trabalho que cada vez mais me desaponta. Estudar uma vida toda para fazer algo que está há milhas de distância leva a um sentimento de frustração e impotência que nunca havia experimentado. Reclamações, exigências desmesuradas e excesso de direitos atiram-me para um lugar ao qual não estou acostumado. Cansa-me muito tentar ser justo e honesto. Seria mais fácil ceder às vontades e vícios e essa insistência, em fazer o que meus pais ensinaram, estafa-me.
Liguei a televisão. Vi buracos, miséria, guerras, corrupção e o Vítor Pereira no telejornal. Nada me interessa, nada me tira o gosto amargo de 5 dias de decepções.
Começo a ficar preocupado com a gota no canto do olho, a insónia e a falta de apetites...
Ela chegou. Os olhos enormes e vivaços miraram-me, as pernas aceleraram, os braços abriram-se num grande pequeno abraço e a língua, no início da afinação, estala um grande "É o pai!" na minha triste face.
E puff!... tudo o resto deixou de ter qualquer importância.
Amor: está aqui um remédio que tenho de começar a prescrever mais vezes...
Cheguei à casa estafado. Vinha chateado com a vida e com um trabalho que cada vez mais me desaponta. Estudar uma vida toda para fazer algo que está há milhas de distância leva a um sentimento de frustração e impotência que nunca havia experimentado. Reclamações, exigências desmesuradas e excesso de direitos atiram-me para um lugar ao qual não estou acostumado. Cansa-me muito tentar ser justo e honesto. Seria mais fácil ceder às vontades e vícios e essa insistência, em fazer o que meus pais ensinaram, estafa-me.
Liguei a televisão. Vi buracos, miséria, guerras, corrupção e o Vítor Pereira no telejornal. Nada me interessa, nada me tira o gosto amargo de 5 dias de decepções.
Começo a ficar preocupado com a gota no canto do olho, a insónia e a falta de apetites...
Ela chegou. Os olhos enormes e vivaços miraram-me, as pernas aceleraram, os braços abriram-se num grande pequeno abraço e a língua, no início da afinação, estala um grande "É o pai!" na minha triste face.
E puff!... tudo o resto deixou de ter qualquer importância.
Amor: está aqui um remédio que tenho de começar a prescrever mais vezes...
01 setembro 2011
31 agosto 2011
Vaselina fiscal
Depois de, mais uma vez, o Ministro Víctor Gaspar ("Soninho" para os íntimos) vir anunciar novas medidas (leia-se "mais impostos) para minorar o défice luso, veio-me à lembrança uma passagem do "Evolution":
Sábias palavras as de Orlando Jones:
"There's always time for lubricant!!!"
Sábias palavras as de Orlando Jones:
"There's always time for lubricant!!!"
15 agosto 2011
Santíssima pândega
"Santana Lopes convidado para Provedor da Santa Casa" in Iinformação
Qual é a vossa opinião sobre os motivos de tão assertiva escolha?
Qual é a vossa opinião sobre os motivos de tão assertiva escolha?
12 agosto 2011
Aumentos
"Governo antecipa aumento do IVA na electricidade e gás" - in Público
Hoje à noite já se iluminará a casa com velas.
Já comprei um ratinho para montar um microgerador para o computador.
E, a partir de hoje, 2 refeições diárias contendo feijão e/ou repolho.
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Política
09 agosto 2011
Inglesada
A polícia inglesa revelou os nomes de alguns dos jovens presos nos desacatos na área metropolitana de Lomdres. Ei-los:
- Ahremessa Al-Calhau;
- Pontus Nathesta;
- Isaac Nathein Job;
- Amin Nan Ah-Kembata;
- Juan Lleno de Dolores;
- Amândio Rochas;
- Storvas Zaragatas;
- Allipio Rada;
- Aiden McCair O'Dent;
- Chang Ia Lee;
- Alan Smith.
Todos eles ingleses à excepção do último: australiano.
Post baseado neste.
- Ahremessa Al-Calhau;
- Pontus Nathesta;
- Isaac Nathein Job;
- Amin Nan Ah-Kembata;
- Juan Lleno de Dolores;
- Amândio Rochas;
- Storvas Zaragatas;
- Allipio Rada;
- Aiden McCair O'Dent;
- Chang Ia Lee;
- Alan Smith.
Todos eles ingleses à excepção do último: australiano.
Post baseado neste.
08 agosto 2011
06 agosto 2011
Estrelinha de azar
Já há algum tempo que tenho pensado em escrever sobre esta matéria e esta semana, depois de mais um quiproquó com um destes de que vou falar, resolvi finalmente dissertar sobre o tema.
No nosso país parece haver um culto ao carro. Típico de países atrasados, em Portugal quem tem um bom carro parece estar envolto num halo de status vindo sabe-se lá de onde ou porquê. Muitas pessoas geram opiniões sobre outrem baseadas na viatura conduzida pelo vizinho. A pessoa pode ser a maior vadia, mau carácter, desprezível, mas, se tiver um bom automóvel, já deve valer alguma coisa. Isso pode explicar o facto de os tugas comprarem todo o lixo que os alemães já não querem.
Vou ser claro: eu receio e odeio os Mercedes-Benz 190 ® e afins que encontro na estrada!Recear porquê? Porquê, na maior parte, são conduzidos ou por velhotes, que mal se podem mexer, ou por putos que querem um Mercedes® para impressionar. Odiar porquê? São feios, velhos, poluentes; odeio-os principalmente porque põem a nu uma faceta da sociedade que me chateia, aquela em que "não é preciso ser, é preciso parecer". Ficam convencidos que, comprando esses trambolhos sobre rodas, passam a pertencer a uma elite qualquer.
Um 190 na estrada é sinónimo de grandes filas e de infracções ao código. Daí que, quando vou atrás de um no IC2, dou uma distância de segurança: 1º porque representam um perigo à segurança dos outros condutores; 2º porque não quero ficar intoxicado com o fumo; 3º porquê são horríveis;
Para além disso, o facto de um fulano conduzir um Mercedes® não invalida que o mesmos deixe de ser uma besta. Já os vi cavalgados nas bermas, em segunda fila, a ultrapassar pela direita ou a pisar riscos contínuos, a esbracejar e esbravejar com tudo e com todos e por tudo e por nada. Parece que educação e civismo, na maioria dos casos, não faz parte do equipamento de série...
Mas a culpa não é da Mercedes®. A marca apenas fabrica os carros. A culpa é de uma sociedade que julga os outros pelo que têm, pelo que veste, pelo que aparenta... triste comunidade motorizada.
No entanto, há oásis nesse deserto de mediocridade. Não sei se já escrevi aqui, mas há pouco tempo ouvi um jovem colega meu proferir uma das frases mais simples e bonitas que ouvi nos últimos tempos. Dizia ele que gostava de ter 5 filhos. Falei do meu espanto, de que não é normal hoje em dia o desejo de famílias numerosas e das dificuldades económicas que as pessoas referem para criar um filho. O meu amigo, de forma muito calma e singela, respondeu: "se não puder ter um Mercedes® tenho um Renault Clio®".
Valha-nos esses que nos "enxergam" para além da nossa embalagem e nos julgam pela nossa alma.
"Se não fosse o 190 não arranjava essas gajas boas (todas com mais de 18!)"
No nosso país parece haver um culto ao carro. Típico de países atrasados, em Portugal quem tem um bom carro parece estar envolto num halo de status vindo sabe-se lá de onde ou porquê. Muitas pessoas geram opiniões sobre outrem baseadas na viatura conduzida pelo vizinho. A pessoa pode ser a maior vadia, mau carácter, desprezível, mas, se tiver um bom automóvel, já deve valer alguma coisa. Isso pode explicar o facto de os tugas comprarem todo o lixo que os alemães já não querem.
Vou ser claro: eu receio e odeio os Mercedes-Benz 190 ® e afins que encontro na estrada!Recear porquê? Porquê, na maior parte, são conduzidos ou por velhotes, que mal se podem mexer, ou por putos que querem um Mercedes® para impressionar. Odiar porquê? São feios, velhos, poluentes; odeio-os principalmente porque põem a nu uma faceta da sociedade que me chateia, aquela em que "não é preciso ser, é preciso parecer". Ficam convencidos que, comprando esses trambolhos sobre rodas, passam a pertencer a uma elite qualquer.
Um 190 na estrada é sinónimo de grandes filas e de infracções ao código. Daí que, quando vou atrás de um no IC2, dou uma distância de segurança: 1º porque representam um perigo à segurança dos outros condutores; 2º porque não quero ficar intoxicado com o fumo; 3º porquê são horríveis;
Para além disso, o facto de um fulano conduzir um Mercedes® não invalida que o mesmos deixe de ser uma besta. Já os vi cavalgados nas bermas, em segunda fila, a ultrapassar pela direita ou a pisar riscos contínuos, a esbracejar e esbravejar com tudo e com todos e por tudo e por nada. Parece que educação e civismo, na maioria dos casos, não faz parte do equipamento de série...
Mas a culpa não é da Mercedes®. A marca apenas fabrica os carros. A culpa é de uma sociedade que julga os outros pelo que têm, pelo que veste, pelo que aparenta... triste comunidade motorizada.
No entanto, há oásis nesse deserto de mediocridade. Não sei se já escrevi aqui, mas há pouco tempo ouvi um jovem colega meu proferir uma das frases mais simples e bonitas que ouvi nos últimos tempos. Dizia ele que gostava de ter 5 filhos. Falei do meu espanto, de que não é normal hoje em dia o desejo de famílias numerosas e das dificuldades económicas que as pessoas referem para criar um filho. O meu amigo, de forma muito calma e singela, respondeu: "se não puder ter um Mercedes® tenho um Renault Clio®".
Valha-nos esses que nos "enxergam" para além da nossa embalagem e nos julgam pela nossa alma.
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