25 setembro 2010
Cada macaco no seu...
"Doentes vão poder escolher marca do fármaco que compram, diz tutela"in Público
Obviamente que não poderia deixar passar esta notícia em claro. Como é óbvio devo destacar o conteúdo e não a "manchete" em si, já que a mesma não reflecte o que a totalidade do que notícia quer transmitir (o que é perfeitamente normal).
Palavras chave de toda esta situação: "demagogia", "incompetência" e "conluio".
Vamos por partes:
1º Não sabia que tínhamos mais de um secretário de estado da saúde. Ah, ok, o outro é secretário de estado adjunto e da saúde. Está aí um bom exemplo de despesismo: 2 secretários que falam e não dizem (nem fazem) nada direito;
2º Parece que o governo quer que, no fim da consulta, na altura da prescrição, explique o porquê da MINHA escolha por uma marca de genérico em detrimento de outra mais barata. Será que se eu explicar aqui fico livre dessa palhaçada?
Não sei se as pessoas têm conhecimento mas as consultas em contexto de Medicina Geral e Familiar têm um tempo para serem executadas. Durante esse curtíssimo período tenho de falar sobre os problemas, fazer diagnóstico, planos de actuação, educação para a saúde, prognóstico, falar sobre o tempo e das vindimas e passar receituário. Raramente se cumpre o período estipulado porquê existem situações que merecem mais tempo de consulta. Não posso tratar uma gripe da mesma forma que uma depressão, certo? Alguém já parou para pensar numa consulta cujo motivo principal é a solidão? Agora querem que nós gastemos tempo a justificar o desnecessário, o supérfluo e o que não interessa.
As pessoas não gostam de esperar, mas querem que a consulta da vizinha seja o mais célere possível, e o pior que se pode ter é uma sala de espera insatisfeita...
3º Os genéricos: o que é preciso para ter uma marca de genéricos em Portugal? Bem é preciso ter um nome, por exemplo: Genéricos Catsone. Aprovada a marca, encomenda-se a um laboratório qualquer um lote de um determinado medicamento, por exemplo: Ibuprofeno. Depois propõem-se um preço ao Infarmed e se aprovado, tcharam, temos o Ibuprofeno Catsone. Isto é uma caricatura, provavelmente não será assim tão simples (ou não seríamos o país dos burocratas) mas não deverá andar longe.
Portugal é o país com mais marcas de genéricos. Vejam bem que eu disse "marcas", não disse laboratórios, e isso não é a mesma coisa. Posso confiar nesses? Nunca os vi, não sei o que me oferecem, se têm estudos. O que é mais barato nem sempre reflecte qualidade. A Renault e a Dácia são do mesmo grupo, terão a mesma qualidade?
No entanto, existem laboratórios de genéricos (verdadeiros laboratórios que produzem medicamentos) que fabricam até para empresas emblemáticas como Bayer, Pfizer ou MSD. Nesses eu confio. Aos laboratórios portugueses eu dou prioridade.
Depois há a questão dos delegados de propaganda médica. Quando recebo um delegado espero que este me mostre o seu produto. No caso dos delegados de empresas de genéricos, existe um documento/estudo que me interessa particularmente: o estudo de bioequivalência. Esse estudo vem mostrar que o medicamento genérico comporta-se exactamente da mesma forma que o produto original. Como posso confiar num genérico que não o tem? Existem laboratórios que não enviam delegados ao meu encontro, terão algo a esconder? Será para poupar em pessoal? O que oferecem esses às farmácias?
Podem dizer-me: "A e tal, o INFARMED aprovou é porquê está dentro dos parâmetros", e estará realmente?
4º Existem moléculas cujo genérico não consegue obter a mesma actividade no organismo; um exemplo: furosemida. E outros exemplos há, podem dizer o que quiserem mas nós, que trabalhamos não com a venda mas com os resultados das substâncias, temos alguma noção daqueles que melhor funcionam.
5º Como posso confiar numa marca branca de uma marca de genéricos? Sim, existem. Será que trazem a dose indicada? Deixem-me ver, a empresa que fabrica o genérico X ainda pode fazer um genérico mais barato? Hum...
6º Vamos deixar o doente escolher o seu medicamento? Quando chegar à farmácia é mesmo isso que vai acontecer?
"Olhe, tem estas marcas de clopidogrel e de flucloxacilina. Agora escolha."
"Clopidóquê? "
Infelizmente, o analfabetismo é comum em localidades rurais e já vi não uma, nem 10 vezes, idosos a tomar a mesma medicação em duplicado porquê na farmácia lhe trocaram a marca do genérico a que estava acostumado.
Será que as pessoas sabem o que é explicar a forma de tomar a medicação a um idoso de 85 anos, que não sabe ler, que ouve e vê mal, já com algum grau de demência e com 6,7, 8 ou mais substâncias diferentes? Terão todas as instâncias preparadas para, de cada vez que o senhor levantar a medicação, esperarem (com paciência) que o "cliente" escolha todas as caixas?
7º Será que essas pessoas andam no terreno? Será que sabem o que é trabalhar num local afastado da cidade, onde dominam poderes deveras obscuros? Será que pensam que os médicos, enfermeiros e outros agentes da saúde não têm mais nada para fazer?
Quem é que legislou os medicamentos genéricos de graça há 1 mês das eleições? Quem é que hoje está à rasca porquê essa lei foi um tiro no pé e agora não tem financiamento para a honrar? A culpa será também minha que tenho uma prescrição de genéricos acima dos 50%?
8º Falar numa situação dessas numa cerimónia que assinala o Dia do Farmacêutico e poucos dias depois de baixarem a margem de lucros das farmácias e a comparticipação aos cidadãos? Então, estão a brincar? Batem e depois sopram e dão miminhos?
9º Gosto da generalização que fazem quando dizem que os médicos estão de conluio com os laboratórios. É exactamente isso que penso quando aquele senhor idoso, de que falei atrás, vem à minha consulta: "deixa-me tirar a choruda pensão ao velhote! Eh, eh, eh...".
Ninguém me conhece ou sabe a forma e como trabalho, mas aquele idoso terá o melhor que posso fazer dentro das minhas capacidades, isso garanto.
Não admito que me comprem com canetinhas, livros ou participações em congressos.
Não admito que ninguém, seja ministro, secretário de estado, colega, farmacêutico ou comentador de jornais online, venha me incluir no lote dos privilegiados por laboratórios ou ponha em causa a minha honra profissional.
Não tenho culpa de ser médico e estar metido no meio dessa podridão cuja pessoa mais prejudicada é o utente/doente.
10º Eu não viajo à pala para nenhum lugar!
Há pessoas que têm a medicina que merecem...
23 setembro 2010
Pai sofre XIV - Lombalgia
Chegou uma época temida cá por casa: a tentação de andar.
Nunca pensei seriamente na liberdade que o acto de andar nos dá. Podermos nos levantar e ir para onde quisermos, pormos-nos em bicos de pé para alcançar algo ou correr representa grande parte da condição de ser humanos. Sempre me aterrorizou a hipótese de perder este poder e assusta-me tomá-lo como um dado adquirido.
Agora, imagine-se a descoberta desta habilidade multiplicada pela imensa curiosidade de quem tem quase um ano de idade? Pois...
Cada vez que chego a casa o que mais me apetece fazer é agarrar a minha menina e espetar-lhe um daqueles beijos que detestava que os adultos me dessem quando era criança. Quero espremê-la contra mim e tentar recuperar o tempo perdido ao longo da semana. No entanto, agora existe um pequeno problema: ela não está para aí virada.
A primeira coisa que ela faz quando a pego ao colo é apontar para o chão. Quer pôr-se de pé e vasculhar, à toda velocidade, todos os recantos da casa (até nos impossíveis do pai caber). Tudo seria maravilhoso se ela, por ventura, já o fizesse sozinha e não precisasse que o pai dela lhe agarrasse as mãos.
Lá vai a moça a rir-se segura pelas mãozitas por um pai curvado qual "Quasimodo" lusitano.
A situação é grave já que para ela tudo é novo, mesmo naquele corredor no qual acabamos de passar. Há sempre um detalhe, um objecto, uma sombra que merece uma investigação à polícia científica. Se encontrou um pedaço de plástico vermelho há que sentar, tentar ver se funciona, se parte contra a parede ou se sabe a algo bom e, depois de tudo testado, abandoná-lo a um canto e voltar a andar novamente, mesmo contra a vontade do pai.
Minutos passados assim e preciso urgentemente de uma massagem tailandesa. Até faço essa proposta à mãe cá de casa mas, tal como a filha no caso dos abraços, ela também não está para aí virada.
Um minuto passado horizontalmente no chão duro da sala e ouço as lamúrias de alguém que não se contenta mais em estar sentada e cujos brinquedos convencionais deixaram de fazer sentido... e o circo volta a estar montado.
Estou a precisar de uma destas:
(Diazepam 10 mg 1/2 + 1 e Paracetamol 3id + duche quente no lombo e repouso)
22 setembro 2010
Perfeição (re-post)
Perfeição
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
Crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada Fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afectação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer da nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha, meu coração esta com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha que o que vem é perfeição...
Legião Urbana
18 setembro 2010
(Des)motivado
Tenho andado desmotivado.
Cena difícil de explicar sem ser pessoalmente, numa conversa com um café (ou dois, ou três, ou...) à beira.
Como é possível manter a boa disposição se se está longe de quem se gosta, quando as perspectivas futuras não são as melhores, quando se é "otário" num mundo de "chicos-espertos", ...?
Ando tão "sem saber como" que deixeis de ter vontade de escrever, de ver meus colegas da blogosfera, deixei de ter paciência para queixumes sem sentido.
Ligo a televisão e vejo gentes sorridentes a dizer que o futuro é risonho, mas o que vejo é um tragédia grega em anfiteatro ao ar livre, em dia de inverno, com o céu pronto a nos brindar com uma chuva tristonha...
Se fosse mulher diria que estava naqueles dias.
Valha-me a minha filha a gatinhar, a rir e a gritar enquanto a persigo pela sala de estar.
13 setembro 2010
Canibalismo porcino
06 setembro 2010
Respons(h)abilidade
Já escrevi neste blog, mais do que uma vez, que este governo é óptimo em fazer publicidade. Este nosso querido PM é o "garoto-propaganda" deste executivo exímio em Marketing.
Ver o discurso do senhor PM e não esboçar um sorriso é não ter um pingo de bom humor. Nesse longo monólogo de reentré política (a 2ª!) o que mais se ouviu foi a palavra responsabilidade.
responsabilidade | s. f. |
Bem, parece-me que o senhor PM não está familiarizado com a definição de "responsabilidade".
É ser-se responsável alguém que permite que o emprego chegue aos 11%, quando até se prometeu a criação de 150000 novos empregos em 4 anos?
É ser-se responsável alguém que permite, ao contrário dos outros "PIGS", que a despesa pública cresça em vez de diminuir?
É ser-se responsável permitir que 1 bilião de dívidas fiscais prescrevam?
É ser-se responsável embandeirar em arco um crescimento trimestral de 0.2% (1/5 da média europeia e 1/10 da Alemanha)?
Já não falo das responsabilidades ignoradas a outros níveis...
Lembro-me de, no ano passado, assistir a um debate entre o Engº Sócrates e o Secretário Geral do Bloco de esquerda, Francisco Louçã. Confesso que, na altura, era o debate que mais esperava e o que causava mais curiosidade.
Desilusão.
Francisco Louçã foi um cordeirinho na mão de um predador político. Sócrates é como os príncipes que são criados de pequeninos para, no futuro, ocuparem o lugar de rei. O PM foi incubado, treinado para estar no lugar que ocupa e aproveitou-se (com primazia, diga-se de passagem) de uma fraqueza existente no programa eleitoral do seu opositor de debate.
Que fraqueza era essa? Que ponto foi explorado até não mais pelo PM? O que foi tão batido que Louçã perdeu o pio? O que o deixou tão perplexo e sensibilizado?
O ponto da discórdia era a diminuição das deduções fiscais para gastos com saúde e educação. Louçã defendeu-se com a seguinte justificação: se o estado fornece bom serviços públicos de saúde e educação não há justificativa para as pessoas optarem pelo privado e,se o fazem, devem arcar com as custas. A meu ver uma boa defesa... se o estado fornecesse bons serviços de educação e saúde (o que, em alguns locais do território, não acontece, infelizmente).
Sócrates atacou, ironizou, ridicularizou, fez as cenas trágico-cómicas que está tão habituado: "como é possível? E o senhor diz-se de esquerda? Quer retirar benefícios à classe média? Como é possível".
Caía por terra a minha vã esperança de ver alguém dar uma tareia ao Engº.
Agora, passados alguns meses, o que é que aquele homem perplexo, incomodado, ferido na sua honra socialista, quer fazer?
"O PS quer que os portugueses paguem mais do seu próprio bolso pela saúde e educação. O PSD quer que se pague pelo menos o mesmo." in Jornal de Negócios
Pois é, RESPONSABILIDADE parece não ser o forte do PM.
05 setembro 2010
Monopoly Portugal

Imagem aquiEstive a jogar Monopoly.
Comecei na casa de partida e recebi dinheiro, não sei bem de onde e muito menos porquê, a fundo perdido.
Iniciei a minha participação e logo comprei algumas propriedades em Lisboa e um terreno na Faria Guimarães, no Porto, a partir de leilões das Finanças e após conversas, off-record, com colaboradores de um banco público.
Continuando o jogo, consegui acções da companhia de electricidade. Como se tratava da única companhia do género achei que seria um bom negócio. Ora, segundo informações fidedignas, as acções até iriam subir após a minha aquisição. Tornei-me accionista maioritário e aumentei o preço da energia aos jogadores que, inadvertidamente, contratavam o serviço. Mais tarde, por sorte (e contactos vários) obtive a maioria das acções da companhia das águas.
Logo a seguir, consegui angariar mais algum dinheiro da Caixa Geral de Dep... peço desculpas, Caixa da Comunidade. Disseram-me que tinha havido um erro do banco a meu favor e depositaram, na minha conta à ordem, alguns milhões sem importância. Com essa verba adquiri mais algumas propriedades na capital, no Porto e em Coimbra.
Entretanto, em algumas jogadas de mestre, lá consegui saber da privatização da companhia de comboios e assumi o controlo de todas as estações disponíveis, o que me deu um grande jeito e um enorme lucro.
Nesse momento, tornava-me o jogador que mais lucrava no jogo mas tive um pequeno contratempo: começava a chamar a atenção e, após algumas denúncias (e um pouco de azar nos "dados" apresentados) fui parar à prisão. Porém, graças a um cartão providenciado por altas instâncias, vi-me livre da cadeia sem precisar sequer de um advogado.
Posteriormente, e resolvido quele quiproquó, decidi construir casas e hotéis em todas as minhas propriedades. Graças a uns amigos na Câmara de Lisboa, do Porto e de Coimbra, consegui que todos os projectos que propus fossem aprovados sem grandes contratempos ou alaridos, e mesmo contra algumas votações em câmara de vereadores. Nada como um bom e$tímulo para $e tomem $ábias deci$ões.
Estava no topo, ninguém podia contra mim, pouco a pouco fui eliminando os adversários e o futuro de riqueza mantinha-se risonho.
Mas foi então que aconteceu o pior.
Ninguém gosta de ser passado para trás, principalmente pelo melhor amigo.
Ninguém gosta de ser enganado, extorquido e, depois de tanto trabalho, perder tudo o que amealhou com muito esforço.
Ninguém gosta de ser traído...
Tive de ajustar contas e pagar por alguns "erros" que cometi:

Mas não me dei por vencido: processei-o, fiquei com o resto dos seus bens e mantive-me altivo e confiante rumo ao monopólio Portugal.
Luís Fernandes Lisboa ®
30 agosto 2010
26 agosto 2010
"Mudasti" o caral"#!!!
O leitor fica avisado: avançar fica por sua conta e risco.
"Mudasti" é lixo, não serve para nada, é uma tentativa de passar uma mensagem subliminar: "bebe o nosso ice-tea". Porquê não aportuguesam a palavra "ice-tea"? Podia ser aisseti, não? Ah, mas lembra o refresco da concorrência, certo? Então pode ficar "chá gelado".
Alguém já viu os cromos que aparecem no comercial que visa convencer a malta a assinar a petição em prol da palavra? É cada um mais esquisito que o outro! Se calhar já usavam "mudasti" na maioria das frases que incluíssem o verbo "mudar". Se calhar também dizem treuze, ou há-des, ou camion...
Um dos personagens diz que ninguém usa as palavras manducar e cachinar nos dias que correm . No entanto, baseando-se no seu uso por aí, vamos ter de inserir o treuze, o camion, a úrsula, aiágua, entre outras e uma nova forma de conjugação verbal para aceitar o "tu mudastes", o "tu ouvistes" ou o "tu chibastes".
Vejam lá, "coirato" não está no dicionário! Defendam lá a porra do "coirato"!!!
Ó amigos da Nestlé e da Coca-Cola Company, "mudasti" não é português, pá. Português legítimo tem "cona", "foder" e "puta-que-os-pariu", ditos com a boca cheia e com orgulho em ser labajão (ops, outra que não está no dicionário)!
"Mudasti" está bom para tipos como estes:
"Mudasti"? "Mudasti" o caralho!!!
Assinem esta petição!
22 agosto 2010
Pai sofre XIII - Brinquedos, objectos vários e nódoas negras
O interesse que uma criança tem, nesta fase, por um objecto é tão efémero como a semi-vida de um fotão. Num segundo está interessada numa boneca e, no segundo imediato, passa a atenção ao comando da televisão.
Quando digo "atenção e exploração" falo em "agarrar com toda a força, apertar tudo o que seja parecido com um botão e balançar o objecto na esperança que se desfaça e se possa ver o que traz por dentro". Nesse curto espaço de tempo o objecto, e quem esteja por perto, sofre as passas do Algarve: é batido, chocalhado, apalpado, enfiado em buracos, mordido e atirado o mais longe possível para logo ser pedido novamente e recomeça o processo.
No entanto, uma forma de exploração que ganha uma predilecção por parte da minha menina é o "bater contra a cabeça, face e afins do pai até que ele se queixe, desvie ou desmaie".
Já conheço a maioria dos brinquedos da minha filha pelo tacto, e não é o tacto superficial, é o profundo, à alta velocidade e doloroso. Se as minhas nódoas negras fossem fósseis atrairiam inúmeros arqueólogos. Não são pegadas de dinossauros mas tem um padrão semelhante e espalham-se por uma área considerável, sobretudo no cocuruto.
À medida que se aproxima a idade de gatinhar/caminhar começa a ser algo perigoso ter objectos a menos de 1 metro do chão; é que antes de se testar se partem no chão, parece que a resistência dos mesmos tem de ser testada na testa do pai!
Com o aparecimento dos dentes as mães queixam-se das mordidelas nos mamilos. Experimentem lá levar com uma caixa de música qualquer no nariz ou um boneco nos "países-baixos"!
E a tendência é piorar...

21 agosto 2010
20 agosto 2010
Tecnobol
Benza Deus!
(montagem com fotos do google)
19 agosto 2010
Who let the dogs out?
14 agosto 2010
Dead man

Carlos estava preso. Tinha sido encomendado à morte e aguardava agora ansioso para lhe encontrar a foice. Estava cansado de esperar e a angústia lhe apertava o coração agónico.
Levantou-se naquela manhã para espreitar o longo corredor que via da pequena janela da porta; mal conseguia ver onde terminava. Disseram-lhe que seria por ali que passaria pela última vez. Sentiu um previsível nó no estômago, mas não resistia a essa investigação diária do seu último caminho, como se perguntando se ainda estaria lá.
Pensava muito na sua sentença. No início sentiu uma revolta enorme. Sentira-se sempre inocente e vociferou contra aquela injustiça. Agora, passados alguns meses, depois de meditar e conversar com aquelas paredes brancas, reconhecia a sua culpa. Já não adiantava chorar, bater com as mãos no colchão duro ou com a cabeça nas paredes. “O que está feito, feito está”, e rendeu-se…
Estava decrépito, exausto, perdera o apetite e, ao observar-se no espelho, também o amor próprio.
Restava-lhe aguardar até que o carrasco lhe viesse buscar.
Nessa mesma manhã esperava pela visita do melhor amigo, e advogado pessoal, Dr. Dias. Ansiava por esse contacto semanal como alguém, perdido num deserto, anseia por um oásis.
“Olá Carlos. Como está?”, sussurrou-lhe ao ouvido durante um longo abraço.
“Ó Dias, uns dias mau, outros pior. Há períodos em que não me conformo mas, mesmos esses, são cada vez mais raros. Estou farto de esperar e é isso que dói! As tuas visitas lá me vão elevando um pouco a moral”
“Amigo, folgo em saber que, pelo menos para isso, posso ser útil”
“Dias, falaste com os daqui? Ainda posso ter esperanças?”
“Carlos, falei com o Dr. Vasconcelos. Não há grande esperança e, embora não possa ser preciso quanto à data, não tens muito mais tempo.”
“Porra, pá! Então que cumpram logo essa sentença!”
“Sabes que essas coisas não são assim. Existem ordens Superiores… vais ter que te aguentar”
Depois de mais alguns minutos de conversa, os amigos despediram-se:
“Ainda te volto a ver, Dias?”
“Posso não estar aqui quando te fores…”
“Deixa estar, amigo, levo-te no coração na mesma” e sorri em despedida.
Carlos acordou a meio da noite em sobressalto. À sua volta 5 pessoas lhe tentavam manietar. Quatro deles lhe seguraram os membros enquanto outro lhe injectara algo nas veias.
E sentiu tudo à roda, pouco a pouco deixou de resistir. Tinha dificuldades em respirar e mal ouvia o coração: Deixou-se ir.
Os 5 mantinham-se à sua volta, controlando seus sinais vitais, até que Carlos, finalmente, encontrou a foice.
“Estou? Posso falar com o Dr. Dias?”
“É ele mesmo. Quem fala?”
“Olá, Dr.. Aqui é o Dr. Vasconcelos. Tenho a informar que o Sr. Carlos faleceu esta noite.”
“Meu Deus, não me diga…”
“Ainda tentemos reanimá-lo. Injectamos alguns fármacos endovenosos, mas nada. Sabe como é, o Sr. Carlos estava em fase terminal, certo? Infelizmente, é o nosso dia-a-dia aqui nos Paliativos. Sinto muito. Continuação de bom dia”.
Nessa tarde, Carlos percorreu o tal corredor muitas vezes, por ele, observado.
E foi o início da sua última e mais longa viagem...
Luís Fernandes Lisboa ®
12 agosto 2010
01 agosto 2010
30 julho 2010
Feio é morrer

Este senhor da foto era forte e era o Feio. O Tóni, o António ou o Zé da Trincha. O Tóni foi um exemplo de força nestes últimos tempos; de força numa luta desigual. Acabou por perder a batalha mas fez frente à malvada e vendeu cara a derrota.
Tive a sorte de o ver, a ele e ao seu grande amigo JPG, no teatro José Lúcio. Nessa altura já se sabia da doença e mesmo assim o espectáculo aconteceu, num exemplo de profissionalismo e dedicação ao seu público.
No ano passado, enquanto estava de férias, morreu Solnado. Este ano, enquanto estou de férias, morreu o Feio.
Nunca mais tiro férias ou corro o risco de perder as poucas pessoas que me fazem rir.
Até sempre, Tóni!
Dieta mental
Também eu apoio uma dieta mental... e estou a praticá-la:
"A Obesidade Mental - Andrew Oitke
Por João César das Neves - 26 de Fev 2010
O prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro «Mental Obesity», que
revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.
Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito
em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade
moderna.
«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos
do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.
Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e
conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»
Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos
que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de
carbono.
As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos
tacanhos, condenações precipitadas.
Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.
Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e
comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e
realizadores de cinema.
Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e
romances são os donuts da imaginação.»
O problema central está na família e na escola.
«Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se
comerem apenas doces e chocolate.
Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta
mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e
telenovelas.
Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina, romance,
violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma
vida saudável e equilibrada.»
Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado "Os
Abutres", afirma:
«O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de
reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações
humanas.
A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e
manipular.»
O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade
fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante.
«Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»
Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.
«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.
Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi
Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que
é que ela serve.
Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam
porquê.
Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um
cateto».
As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.
«Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes
realizações do espírito humano estejam em decadência.
A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura
banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.
Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo.
Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da
civilização, como tantos apregoam.
É só uma questão de obesidade.
O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.
O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos.
Precisa sobretudo de dieta mental.»
22 julho 2010
21 julho 2010
Abanca
Coitaditos dos bancos: emprestam o dinheiro e depois não lhes pagam, ninguém mais investe em poupanças e produtos bancários...
Estão mesmo em crise, probezitos! Quase falidos, mas... hum...
"Lucro do BPI aumenta 11,8% para 99,5 ME no primeiro semestre" in Lusa
Ei, esperaí!!!
20 julho 2010
Descoberta

Em resposta ao desafio "Disparou" da Fábrica de letras:
Tinha ouvido zuns-zuns na escola. Os colegas de turma falavam entre-dentes de coisas que faziam a eles próprios. Era algo que tinham aprendido há pouco tempo e comentavam em meio à galhofada.
Pedro ainda não pertencia ao grupo. Procurou perceber o procedimento. Perguntou como quem não quer a coisa a colegas de classe, em meio a aulas mais chatas, mas todos viravam o rosto e sorriam. Pareciam tontinhos e não transmitiam a informação que queria.
Demorou cerca de 2 semanas até encontrar um colega que abrisse o jogo. Era um daqueles indivíduos menos populares, que não tinha nada a perder, e, por isso, não tinha pudor em dizer o que se passava.
Pedro tomou atenção a tudo. Achou estranho e sentiu-se incomodado com o protocolo mas decidiu ouvir até ao fim.
Foi para casa a pensar naquilo.
E lá estava ele a olhar-se no espelho: cara de pateta + angústia.
O coração a mil por hora associado a um estômago embrulhado.
Despiu-se e olhou para baixo. Viu o penduricalho ali à mão de semear e começou a executar as instruções:
"Bem, ele disse que fazendo assim...", teve uma espécie de vergonha de apanhar o pequeno amigo que há 13 anos andava ali escondido nas cuecas, "agora puxo esta pele para trás e... elá, o qué isso?!" teve a sua primeira erecção.
Continuou a manusear, fechou os olhos e pensou em "coisas" indefinidas.
Passados 39 segundos disparou...
Um êxtase nunca antes sentido invadiu-lhe o corpo. Quase caiu de costas. Tremeu dos pés ao mais alto dos cabelos arrepiados que enfeitavam o cucuruto.
Olhou-se novamente no espelho. Viu olhos castanhos esbugalhados encrustados numa face imbecilóide, misto de espanto e de algo estranho e que os outros chamavam "prazer"; depois sentiu vergonha de si próprio, num sentimento de pecado e arrependimento... que durou 2 minutos até voltar à nova investida.
10 anos depois:
Pum-Pum-Pum na porta da casa-de-banho:
"Mas qué que se passa aí?"
"Nada, mãe! Já estou a sair!"
Nunca mais parou...
Luís Fernandes Lisboa ®
12 julho 2010
Pearl Jam
08 julho 2010
Hibernação II
Hoje reedito-o e publico-o novamente.
Faço-o porquê nestes últimos 3 meses senti-me como naquela altura e porquê este período foi deveras difícil, tão difícil que deixei de fazer muitas coisas de que gosto: escrever, ver (e jogar) futebol, estar com a família e, principalmente, brincar com a minha filhota (e com a mãe dela...).
Mas valeu a pena. Aliás, quanto maior é o esforço, quanto mais suor, adrenalina, calão metralhado e sujo, ideação suicida, quanto maior é o sofrimento maior e mais saborosa é a vitória. E, ainda bem que não sou diabético, porquê foi bem doce!
Estás num lugar sem paredes, sem tecto, sem chão. Lugar escuro, isolado e frio. À tua volta apenas o breu quebrado por uma ténue luz amarela de um candeeiro antigo.
Estás sentado à uma velha secretária e cercado por volumes vários de livros empoeirados e montes de papéis. À tua frente apenas uma folha preenchida por gatafunhos à qual a tua visão está fixa.
Não sabes se é Domingo ou Quinta-feira, se são 6 da tarde ou 2 da manhã. Não sabes o mês e não conheces o ano.
Não sabes como ali chegaste nem o que fazer, apenas sabes que tens um objectivo, algo a alcançar.
A música calou há muito e também os sons do quotidiano. Apenas ecoam palavras e frases, repetidas um sem número vezes; e mais uma vez, e outra...; pelo meio, esconjuras.
O que ouves, muito de vez em quando, são vozes que te chamam; vozes tentadoras para levar-te, mas, mesmo contra vontade, permaneces.
Teus músculos não obedecem.
Não tens fome, não tens sede.
Teu sono é ostracizado.
Durante horas a fio, ficas ali, autómato, quase inanimado.
E estás cansado, muito cansado, cada vez mais... mas continuas.
És objecto de algo maior, que te domina e manieta. Não consegues, ou não podes, ou não queres, fazer nada contra isso.
Não dizes nada que faça sentido. Como crente, rezas uma oração imperceptível ao comum dos humanos. Por vezes, no entanto, reconhecem-te preces a pedir o fim do sofrimento.
Por vezes choras desalmadamente, por vezes ris feito louco, por vezes os dois em simultâneo.
Por vezes sonhas acordado.
Os que estão à tua volta, não se podem aproximar mas chamam por ti, oram por ti, e impulsionam-te. Sentes-te mais forte. Inicias o processo que te levará à liberdade. Sabes que, finalmente, essa clausura sem sentido, essa condenação sem crime, está perto do fim.
Tudo o que antes não tinha sentido agora está tão claro! Como não viste isto antes? A tarefa era grande, penosa, mas aquilo que te desafiou agora não te é capaz de manter mais tempo enclausurado.
Acaba. Tem de acabar! O teu grito do Ipiranga, a tua tomada da Bastilha, a tua força vem ao de cima e partem-se as amarras.
Uma última prova prestada a este cenário e será o fim...
Acabou.
Tudo, esse lugar, fez para te deitar abaixo. Conjurou, conspirou, fez alianças contra ti, mas conseguiste.
O limbo perdeu."
Libertaste-te."
De Catsone, ex-interno, agora, ORGULHOSAMENTE, especialista de Medicina Geral e Familiar.
10 junho 2010
08 junho 2010
Mundial 2010

Japão 2010
Esquema: 4-4-2
Gr: Takabora Naturave
Dd: Tokaido Dumakeda
De: Robaro Miasuzuki
Dc: Havara Noku Doi
Dc: Takamao Natukara
Md: Shumio Miokazako
Me: Mataro Miogato
Mc: Fujiro Kayama
Mc: Hiraopito Namata
Pl: Takarasha Nomuro
Pl: Hirao Kumata
Suplentes:
Gr: Hoji Ianamoto
Gr: Benji
Dd: Tsukasa Onamia
De: Daiki Osoko
Dc: Taaki Noai
Dc: Tsutomo Unsumo
Md: Ishibasha Ishikaga
Me: Ken Kumeo Aki
Mc: Miomazda Nonta Mazaki
Mc: Setsukai Matsuka Teuku
Pl: Ishibati Nakina Shora
Pl: Oliver Tsubasa
Treinador: Toko Kudo Endo
Preparador físico: Daikama Aken Takosono
Massagista: Eutoko Teukatso
Fisioterapeuta: Mashashi Takara
Aos meus amigos japoneses (que são bastantes) peço perdão... ou faço um Seppuku (agora sem trocadilho):
Ébrio
Luzes coloridas e ruídos bizarros.
Minha mente estava oca.
Vertigens, tremores, enurese, risos incontroláveis e histéricos… eu era um estranho fora de controlo.
Parece que tentei preencher a falta estranha que fazias e tapar a incrível cratera criada pelo meteoro tu. Refugiei-me em copos de diversos tamanhos, formatos e cores, preenchidos por tudo que contivesse álcool na composição.
Bendito etanol que o meu corpo tentava desesperadamente metabolizar. Quase podia sentir as suas moléculas a dançar no mar vermelho de veias e artérias.
Mais o hálito incendiário e o vómito compulsivo de um estômago revolucionário e marxista a protestar veementemente contra a atitude incompreensível da maioria neuronal que cedera aos interesses sentimentalistas instalados: “porra de paixão vs razão…”
Agora era a gravidade terráquea, travestida de jupiteriana, que empurrava o monte de carne e ossos, embebidos em vindalho, para um chão húmido e fétido. Cambaleava, como se fosse feito de gelatina, pela pista de dança e chocava com tudo e todos que cruzavam a minha órbita errática; quando meu fraco equilíbrio foi finalmente ultrapassado, estatelei-me no solo.
No caminho da queda vi sorrisos jocosos, em duplicado pela diplopia alcoólica, e dedos apontados em reprovação; ouvia sussurros maldizentes em meio a odiosa música electrónica que insistia em martelar a bigorna.
A partir do toque no terreno não senti mais nada, ouvi dizer que perdera os sentidos e partira para um mundo novo…
Vi-me, então, a cair de um céu negro e sentia o corpo leve, como a planar. Um vento quente parecia abrandar-me a descida. Vestia um smoking já comido pelas traças e calçava umas sandálias de couro castanhas.
Estava rodeado pelos mais exóticos animais, alguns deles já extintos há muito e outros que nem era suposto poderem voar. Todos eles sorriam para mim enquanto dançavam com um copo de cidra na pata/asa e uma cigarrilha no canto da boca. Alguns ofereciam-me mais um “drink”.
No fim da descida fui depositado gentilmente, por quatro borboletas bigodudas, num leito cândido e brilhante rodeado por bips electrónicos.
Acordei.
A visão turva permitiu-me ver um cateter penetrando o meu braço esquerdo, o gráfico do ecg que corria num monitor verde e as grades prateadas às quais tinha as mão atadas. Não reconhecia o símbolo do EPE que me hospedava, mas reconhecia estar num serviço de observação hospitalar.
Sentia-me mal. Parecia ter obras no interior da cabeça realizadas por um conjunto de pedreiros e trolhas estrangeiros que martelavam sem parar os ossos cranianos. Os ouvidos teriam, talvez, uma colmeia de abelhas, tal eram os zumbidos que ouvia. A língua mais seca que o Atacama e o estômago em greve sem pré-aviso. A bexiga estava invadida por um cateter e a televisão transmitia, de perrice, um programa matinal grosseiro.
O coração, esse, estava completamente vazio.
De repente, uma mão quente na testa e a tua voz:
“Idiota!.... tive medo de te perder…”
E embriaguei-me, finalmente.
Luís Fernandes Lisboa ®
07 junho 2010
Querida Sony®
Adquiri um Sony Vaio. Li numa revista de informática que o modelo apresentava a melhor relação custo/benefício quando comparado com outras máquinas concorrentes e, lido isto, escrito por experts, resolvi comprar um exemplar.
Fiquei espantado com o facto de estar esgotado em todos os lados; não havia na FNAC®, Worten®, Media Markt®, Rádio Popular®, etc®, devia mesmo ser coisa boa. Procurei-o pela net e encontrei-o numas páginas obscuras de lojas online, mas prefiro gastar meu dinheiro em lugares mais fisicamente palpáveis.
Um belo dia, porém, recebo pelo correio propaganda da Staples® e ei-lo, em toda a sua glória e explendor, escarrapachado nas páginas escarlates da publicidade.
Telefonei logo à madama para ir dar um salto à loja, já que me encontrava longe, e ela lá foi...
Era filho único, o último, o sobrevivente, o derradeiro... e era meu.
Como uma criança, tirei-o da caixa e, antes de o ligar, admirei-o como um turista admira a Gioconda no Louvre. Cliquei no botão on/off que logo acendeu uma luzita e... começaram as desilusões.
O gajo "cracha" com uma frequência que considero desagradável, o Touchpad não presta, os botões fazem uns "poings" estranhos, não é tão rápido quanto pensava...
(Suspiro)
Talvez (o mais provável) seja culpa minha. Talvez tivesse uma expectativa desproporcionada ou talvez ele seja moderno demais para mim. Talvez eu seja apenas tonto... quem sabe?
Resta-me esta curta mensagem à Sony®:
"Vaio pró caraio!"
Espero que saibam traduzi-la para japonês...
02 junho 2010
O homem que tinha dinheiro

O homem que tinha dinheiro tinha tudo. Tinha uma bela casa, tinha bons carros, viajava, comia do bom e bebia do melhor.
Vivia à grande e, naquela semana, era “casado” com uma francesa mais jovem que ele… bem mais jovem que ele.
O homem que tinha dinheiro tinha um nome enorme e que acabava em números romanos. Tinha herança de família. Vivia do império conquistado pelos antecedentes familiares.
Desistiu de estudar e não “tirou” nenhum curso, mas era chamado de “Dr.”. Nunca foi à tropa mas no Brasil era “Capitão”. O facto de ter recheio financeiro fazia-o ser respeitado e idolatrado pelos menos afortunados. Ele era admirado mas ninguém sabia porquê.
Não era músico mas ia à opera, no entanto, nenhuma lhe arrancava lágrimas. Falava de livros que não leu e de peças que não viu, era um erudito sem nunca o ter sido.
Não cozinhava, não limpava, não sabia fazer nada, sua melhor qualidade era gastar e nisso era profissional. Não investia em nada que trouxesse retorno e o dinheiro esvaía-se, mas esse era infinito, tal como a sua ignorância. Não tinha ciúmes do seu dinheiro e compartilhava-o como os “amigos” de cada ocasião.
Não mexia uma palha. Não corria mas ia às olimpíadas; não jogava ténis mas estava em Roland Garros, na primeira fila com um borsalino branco; não pedalava, não nadava… não lutava.
À sua amante francesa, seguiu-se uma brasileira, depois uma tailandesa e uma africana (em simultâneo) e, depois, muitas outras das mais variadas formas, tamanhos, “cores e sabores”. Dizia não enjeitar nenhuma experiência e, assim, experimentava todas. Elas sempre lhe ficavam com um pouco da matéria já que o espírito não lhes tinha nada para oferecer.
Ia passando os anos assim, de mulher em mulher, de lugar em lugar, e não se agarrava à nada. Tinha muito dinheiro, mas apenas conseguia ombros para chorar ou colos onde se deitar desde que aceitassem Visa®.
O homem que tinha dinheiro ria-se muito e era feliz… ou, pelo menos, parecia.
Mas mesmo ele havia de morrer e o homem que tinha dinheiro morreu como os outros: fechou os olhos e susteve a respiração por toda a eternidade. Morreu jovem, mais cedo do que pretendia, deixando o dinheiro, seu único e verdadeiro amor, para trás. Esse entregou-se a outros que seguiram os passos do antigo “amante”.
O homem que tinha dinheiro foi deitado num caixão negro e foi morar no jazigo da família, situado num canto soturno do cemitério da sua cidade natal. Não houve homenagens, não houve salva de tiros ou boas lembranças da sua passagem, e o cortejo fúnebre estava vazio… tal e qual como fora a sua vida.
Luís Fernandes Lisboa ®
Prémios
As digníssimas Helga e Ane presentearam-me com este prémio que muito agradeço: "trata-se de um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc."
Fico lisonjeado pela atribuição de tal distinção a este humilde blog mas vou pedir desculpas por um pequeno pormenor: não costumo passar os prémios.
Não me levem a mal mas não consigo atribuir apenas a alguns blogs. Dessa forma, acho que os que tenho na lista da "concorrência" merecem o prémio também (senão não estavam na lista ;).
Mais uma vez obrigado pela distinção.
28 maio 2010
Town of sadness
Nestes dias de sol envergonhado e vento frio, que esconde o calor de primavera, pensa-se sobre a efemeridade da vida.
Escrevi este post sobre a nossa incapacidade e pequenez perante situações irreversíveis. A irreversibilidade confirmou-se hoje, através de um daqueles telefonemas que ninguém quer ouvir.
E é como que se o tempo parasse e nos trouxesse à mente memórias há muito escondidas, imagens já amareladas do passar dos anos; imagens em Super 8, mudas mas alegres, de tempos longínquos e que não voltam mais. Lembro-me dos tempos de criança, das visitas e viagens à terra dos meus pais, das noites na tua casa, do carinho do teu abraço de amizade sincera. A verdade é que ficam memórias boas, vivências, bons momentos, coisas que nem a morte nos pode roubar.
Graças aquilo em que acredito, penso que estás agora num lugar melhor, onde a dor e sofrimento dos últimos tempos não não mais te assolam e onde terás algum merecido conforto e descanso. Talvez esta crença traga a mim, inconscientemente, algum consolação... quem sabe.
Resta-me a certeza de que, apesar de hoje ser o teu velório, sei perfeitamente que daqui para frente serás tu a velar por todos nós.
A ti, querida tia, que muito raramente vi triste, descansa em paz e até um dia destes.
27 maio 2010
Pai sofre XI - O "assédio"
Embarcámos os três no popó e lá fomos nós.
Enquanto a patroa foi à loja do Belmiro fui eu, com a minha pequena, dar uma volta pelos corredores do centro comercial..
Tudo ia bem até ter reparado num (deveras) interessante e misterioso fenómeno. Comecei a aperceber-me que muchachas várias achavam engraçado (e fofinho!) o facto de um gajo passear um bebé. Olham primeiro a cria, sorriem e depois fitam as fuças do empurrador de carrinho. Parecem avaliar o potencial do macho.
Conjecturei sobre o que iria na cabeça das moças: “… aquele até é fértil, quem diria…”, “…hum, não parece com o pai…”, “…deve ser adoptada…”, etc, etc.
Confesso que achei piada, afinal não é comum ser observado dessa forma tão, digamos, lasciva. Mas, passado algum tempo, começou a ser incomodativo. Senti um pouco do que os famosos sentem. Montes de olhos em cima de nós… não estou acostumado (e quem me conhece percebe porque).
Tentei disfarçar o embaraço e olhar para algumas montras mas a miúda estava tão bem disposta que passou o tempo todo a palrear e dar gritinhos... o que atraiu, ainda mais, a atenção. Parecia um chamamento para o sexo oposto: e mais sorrisos, “cuti-cutis” e olhares constrangedores.
De interessante, o fenómeno passou a ser caliginoso e antes que alguma desse o bote, acelerei o passo em busca do conforto que existe por baixo da asa da patroa; com a velocidade do carrinho, a filhota ria-se…
Encontrei a minha “chefa” na fila da caixa:
“- Tás branco…”
Ainda a arfar, pensei que poderia alugar a miúda aos meus amigos solteiros... pode ser que ainda ganhe algum cacau com este estranha manifestação.
15 maio 2010
Dinos
07 maio 2010
Vontades
Aos colegas operários peço desculpas por não visitá-los com mais frequência mas, por aqui, "la cosa esta peluda"...
Em resposta ao desafio "paixão" da Fábrica:

Vontades
Hoje senti vontade de te ter ao pé de mim.
Instalou-se sem que desse conta
Um desejo de abraçar-te,
Olhar-te nos olhos
E falar-te da falta que me fazes
Hoje senti vontade de dizer-te: amo-te.
Um desejo incoerente e forte
De falar da minha paixão
E explica-la como um menino explica
À mãe o seu dia na escola.
Hoje senti vontade de ser feliz…
E compreendi porque me lembrei de ti…
02 maio 2010
08 abril 2010
04 abril 2010
Intelectualices
Já falei aqui, e várias vezes, sobre os opinadores. Os opinadores são aqueles animaizitos que têm opinião sobre tudo, desde a conjuntura macrossocial da sociedade da República do Laos e do Sultanato do Butão até a adstringência, quantidade em taninos, sabor frutado e odor amadeirado do vinho branco de Albergaria dos Doze.
Os opinadores enervam-me, muito... mesmo muito. Mas os que mais me enervam são aqueles opinadores intelectualóides, daqueles que usam palavras caras, de difícil definição, e que andam às voltas sobre um tema, terminando no mesmo sítio onde começaram. São os que dão as voltas de 360º, os que "falam-falam, falam-falam, e eu não os vejo a fazer nada", os cuspidores de direitos, mas que quando espremidos nem gota de sabedoria deitam... apenas a pura, cristalina, cândida e alba ignorância e estupidez das quais são constituídos.
Ok, eu também estou a ser intelectualóide e ando às voltas com este texto de treta, e também já opinei muito neste blog, dando a volta ao meu próprio estômago; então vou directo ao assunto.
Fui alertado para esta notícia publicada no "Público". Bem, fui alertado mais para os comentários à notícia do que para a própria notícia. Nem sequer li o texto informativo e comecei a ler as "opiniões" dos opinadores. Logo no primeiro comentário deparei-me com esta pérola de imbecilidade:
" joaorapace, coimbra. 03.04.2010 16:11
médicos de família é um engodo
Os médicos de família serão assim tão importantes? Pouco mais sabem do que um cidadão com alguma destreza. A maioria que eu conheço são muito fracos, aliás os médicos em geral, salvo honrosas excepções a alguns, que estão situados em Lisboa e no Porto. O resto, quando é uma operação mais delicada não sabem fazer. Esta é a realidade. Houve aí alguém a falar de enfermeiros poderem ser médicos de família? Talvez! O que faz um médico de família? Bem a minha vê a tensão e passa receitas. Quando lhe digo que estou constipado, vai ao computador, a algum programa e vê o que me há-de dar! Relatórios médicos não é com ela! Deixem-se de alarmismos. Uma pessoa mais esperta pode ser médico de família!"
Este comentário lembrou-me duas aulas do tempo da faculdade: uma de Ortopedia, na qual se falava de epitrocleíte e epicondilíte, duas situações que podem dar dor-de-cotovelo; e outra de psiquiatria, na qual se dissertava sobre frustrações, situações que, como qualquer pessoa com alguma destreza sabe, não são passíveis de tratamento.
Cheguei a algumas conclusões depois de ler este mimo de idiotice. Primeiro, o Sr. João não me parece que tenha alguma destreza, ou senão, segundo as suas próprias ideias, seria médico de família. Segundo, o Sr. João parece desconhecer por completo o que é Medicina e deve estar sentado com o rabiosque no seu escritório ou banco de táxi; devo aconselha-lo, se me permite, a tomar cuidado: a posição "sentado" pode originar problemas hemorroidários e, sabendo-se ser uma cirurgia muito delicada, pose ser necessário despachar esse seu traseiro para um país mais avançado nestas técnicas, como por exemplo... hum... o Djibuti. Terceiro, parece também não saber o que faz um Enfermeiro; tenho muitos amigos enfermeiros (alguns até vão ler isto, se tiverem pachorra), mas o meu trabalho é o meu trabalho e o deles (muitíssimo meritório) é o deles; sou contra as injecções dadas por farmacêuticos, por exemplo, e contra este tipo de comentários "especializados" feitos por mentecaptos como o Sr. João; já diz a sabedoria do povo: "cada macaco no seu galho", parece-me que o Sr. João não terá um galho disponível, mas pode ser que se contente com uma bela e saborosa banana. Quarto, "o que faz um médico de família?", poderia dissertar filosoficamente sobre este tema, mas isso seria demais para a dupla neuronal que o Sr. João alberga no projecto de encéfalo; se quiser saber, pode sempre ler um tratado de Medicina Familiar, mas ler... para si... não me parece... talvez "a bola" ou o "público" online; ainda bem que não vai assim tanto à sua médica de família, ou teriam os outros doentes que aguardar até ela voltar da baixa por danos psicológicos; ela passa receitas? Você também passou-nos uma a quem o pôde ler: como provar a ignorância em apenas 9 linhas; se ela não quiser passar-lhe um relatório, não se preocupe, pare alguém com alguma destreza no meio da rua e pode ser que tenha alguma sorte. Quinto, "uma pessoa esperta pode ser médico de família"; caríssimo, esperto são os cães... se calhar você é esperto, talvez tenha se enganado no local onde necessita de cuidados de saúde...
E assim caminham os quadrúpedes opinadores intelectualóides da sociedade lusa.
Sei que não devia desperdiçar meu tempo para isto, mas fazer o quê, sabe bem despejar neste espaço algumas "angústias"... é exactamente para isso que isto, de ter blogues, serve.
O Sr. João bem podia deixar de ir ao seu CS e deixar o lugar aqueles que não têm médico atribuído, de certeza que lhe agradeciam.
E se acha que a sua médica não sabe tratar das suas constipações, venha ter comigo, tenho a receita certa para si:
- Umas gotinhas de haloperidol;
- Uma "amarguinha";
- 2 supositórios de Paracetamol 500 mg;
- 1 injecção de água destilada.
Garanto-lhe que passaria muito tempo até pensar em voltar...
"A estupidez é uma doença para a qual não existe remédio"
Provérbio Árabe
03 abril 2010
Trocadilho
01 abril 2010
À beira

Júlia subiu à grade daquela ponte sobre o rio Zêzere e respirou fundo. Tinha decidido saltar e não havia nada nem ninguém que a impedisse.
Olhou para o céu azul de início de primavera e fechou os olhos tentando absorver cheiros, ruídos e o calor ténue do sol. Uma brisa lânguida lambia-lhe a face.
Olhou para baixo e calculou o tempo da queda; vislumbrou o rio a correr calmamente, como que ignorando o que estava para acontecer, e bandos de pássaros a pulular entre árvores no festim do cio primaveril.
Júlia planeara isto há algum tempo mas, no entanto, faltara-lhe sempre a coragem necessária. Chamaram-na fraca muitas vezes ao longo da sua curta vida, mas agora iam todos ver do que era capaz. Já não tinha dúvidas e agora faltava pouco tempo para o concretizar.
O seu coração quase não dava conta do recado.
Ultrapassada a grade, Júlia postou-se mesmo a beirinha da imensa construção de betão, agarrada à vida por um fio, suando frio, mas decidida. Cantarolava “I believe I can fly” por entre os dentes de forma a ignorar a ansiedade que a consumia. Sentia dores lombares de tanto trabalho que dava às suprarrenais.
“Vai Ju, força, é só mais um passo”, tentando empurrar-se com a mente.
Baloiçou os braços, respirou o mais fundo possível, cerrou os olhos… saltou…
Partiu em silêncio.
Sentiu um frio no estômago e uma sensação de êxtase nunca antes vivida. Seguia naquela queda vertiginosa mas que, ao mesmo tempo, parecia-lhe em câmara lenta. Podia ver a ponte a afastar-se em direcção ao céu e o rio a aproximar-se majestoso.
Pensou… pensou muito durante aquela viagem.
Pensou no trabalho rotineiro das 9 às 5; trabalho mecânico sensaborão, arranjado por um amigo de um amigo, numa empresa tipo “João sempre-em-pé”, tipo vai-não-vai para esfumar-se. Seca, chatice, maçada.
Pensou nas relações falhadas, nos tipos com quem saiu, nos tipos para quem se entregou e nos restantes. Pensou nos flirts, nos affairs, namoriscos que experimentou e tampas que aplicou. “Os homens, esses inúteis”.
Pensou nas dívidas, nas contas mensais, nas coisas que gostava de ter e, principalmente, no dinheiro que não tinha.
Pensou na família, nos amigos… nos inimigos.
Pensou em tanta coisa e em tão pouco tempo, e nem o barulho do vento abstraiu-a dos seus pensamentos.
Mas já não tinha mais tempo para pensar. Acelerava para o fim da viagem, o rio ali tão perto. Sentia a fresquidão que emanava do curso d’água.
Abriu os braços e entregou-se de corpo e alma… o rio quase, quase…
Desacelerou. A velocidade que ganhara, dissipara-se num milésimo de segundo. Ainda tocou com os seus cabelos negros na água antes de ser puxada violentamente de volta para cima.
O elástico fizera a sua parte e, então, finalmente, Júlia gritou:
“Que se fôda tudo o resto, é tão bom estar viva!!!”
E a música que agora cantava era outra:
Luís Fernandes Lisboa ®
Foto: www.panoramio.com
31 março 2010
30 março 2010
29 março 2010
Cinco
Desde que comecei a escrever neste espaço já me formei, me casei e fui pai.
Aqui já desabafei, critiquei, mostrei um pouco de mim mesmo e conheci pessoas deveras interessantes.
O que será que me reservam os próximos 5 anos?

Aqueles que por aqui passam e deixam um pouco de si mesmos, muito obrigado!
27 março 2010
O melhor?
Os "best of" são um estratagema das editoras para sacar mais uns trocos dos fãs e daqueles outros consumidores que só querem os "hits" de determinado artista. Então pergunto-me: terá o Toy tantos "hits" que não caibam apenas num "recordações" para que seja necessário um "recordações 2"?
A própria existência de tais obras faz arrepiar até o pêlo escondido no mais recôndito local do corpo.
Lembrei-me daquele programa "mui" educativo que versava sobre o dia-a-dia desse cantor romântico e romance foi a última coisa que me veio à cabeça.
E lá foi "correndo" o clip. Um must de labreguice retro. Uma música (?) cheia de azeite, tal e qual o autor... mas vende, tanto que está no top! Culpa dos ministros da educação, digo eu...
Desliguei a televisão e voltei para o trabalho com muito mais vontade.
Se aquilo era o best, nem quero imaginar o "worst"!

"Chama o António..."
NOT!!!
25 março 2010
Tempo (falta de)
Faço este pequeno aviso apenas porquê gosto de visitar os blogs, companheiros de labuta virtual, que se encontram à direita e assim "explicar" minha ausência em suas "casas".
Não tenho tido o tempo que gostaria para os visitar, nem aquele necessário para escrever e assim, escrever por escrever, não é a mesma coisa.
Dessa forma, vou aparecendo pelos vossos tascos de vez em quando e nesta taberna vou servindo "pratos" a espaços mais largos.
Mas não se livram de mim

19 março 2010
Pai sofre X - Dia do pai
Há 400 kms de distância a nos separar e a minha prenda ideal seria um xi ao meu pobre coração...
14 março 2010
Oceans
Lembra-me banco de trás de um carro, com uns walkman nas mãos e uns fones que englobavam todo o pavilhão auricular.
Lembra-me descer a serra em direcção à Riviera de São Lourenço em Bertioga, São Paulo. O mar lá em baixo tão pequeno que cabia dentro da minha mão e as inúmeras cascatas da serra, mesmo ao nosso lado, chorando as águas da condensação da neblina.
Lembra-me tentar imaginar o corpo de uma mulher nos limites das montanhas enquanto inspirava o cheiro de mata atlântica (semi-)virgem.
Lembra-me domingos de verão, com céu nublado, 35ºC e humidade a 85% e amizade a 110%.
E hoje, neste dia de sol deslumbrante, e apesar dos 7ºC que estão lá fora, lembrei-me desta música e ouvi-la foi fazer novamente aqulea viagem...
Bom domingo, friends!
13 março 2010
Mónei fóde bóis
Ontem foi dia de debate e votação do orçamento... finalmente.
Mas não é bem isso que me faz escrever aqui hoje.
Não gosto de gente que fica em "cima do muro". Gente que não sabe dizer que sim nem não. Que não têm opinião relativamente a temas importantes e que lhes dizem respeito.
É isso que se passa com o PSD e o CDS- P(q)P.
Esses 2 partidos não sabem o que querem... ou sabem?
Nunca deixei de votar. Fui sempre exercer meu dever e votei , se bem ou mal não sei, mas fui.
Sempre fui contra a abstenção. Acho que as pessoas devem ter o direito de escolher quem os represente nas instâncias políticas.
Nas últimas eleições aqueles mesmos partidos lutaram para que as pessoas fossem votar. O Sr. Paulito, em todos os comícios, vinha relembrar o zé para que votasse. A Sra Dª Manuela lembrava a importância de uma baixa abstenção. Os dois em conjunto fizeram das tripas coração para que as pessoas percebessem que, não indo votar, estariam a ajudar o eng. Sócras. Incitaram as pessoas a defender a democracia através da opinião.
Então, depois desse aula de altruísmo, dessa prova de cidadania, dessa exemplo de liderança, o que é que eles fizeram ontem na votação do OE? O quê, o quê?
Se abstiveram!!!
Então... mas não era... ó que caraças!
Ri-me para não chorar; os defensores da participação, não participaram.
É preciso ter lata, quando se lhe pedem opinião não são carne nem são peixe!
"Eu acho que este OE é uma porcaria mas vou viabilizá-lo". E ainda têm a cara-de-pau de criticar o OE. Se não concordavam com o mesmo votassem NÃO; se o queriam viabilizar votassem SIM. Agora, absterem-se para dar a impressão que não concordam mas ao mesmo tempo aprovar um OE só para ver no que vai dar? E se a coisa correr mal ainda vêm dizer "reparem que a gente não votou sim"...
Quem querem enganar com essa atitude?
Politiquices...
Nas próximas eleições talvez me recorde disto.
12 março 2010
Contra a maré II
No seguimento do post anterior...
Houve um laboratório que, a pretexto de publicitar um medicamento para o colesterol, deu-nos um modelo de artéria. Essa artéria está dividida em quartos que demonstram a evolução da deposição do colesterol nas paredes do vaso. No 1º quarto a artéria está sãzinha da Silva e no último está ocluída por um trombo num estreitamento causado pelo colesterol.
É esse modelo que apresento aos candidatos à morte súbita. Os inúmeros Sr. Fulanos que a vêem esbugalham os olhos para aquilo, não sei se percebendo o que a "artéria" lhes tenta "dizer" ou porque o modelo é feio comó caraças.
Essa pequena introdução para quê?
Há já algum tempo, muito tempo mesmo, percebi que é difícil (ou impossível) lutar contra o poder da publicidade. É a publicidade que oferece patrocínio aos clubes de futebol e grandes festivais de música para que promovam cerveja, por exemplo.
As crianças estão sujeitas a eternos períodos de propaganda que lhes enfiam ideias comercialóides pela cabeça: são brinquedos no natal, são chocolates na páscoa, são morangos, são açúcar, etc, etc.
Imagine-se um comercial onde uma rapariga muito... hum... digamos, jeitosa, saia do mar numa praia ensolarada, tire a tampa a uma mini e se insinue a um marmanjo qualquer: será possível que, depois dessa cena, esse mesmo marmanjo esteja interessado em saber que o álcool da mini lhe é prejudicial? Bem, com uma mini apenas não há problema, dirão os senhores, mas o problema é que, para alguns XY, as minis são como as cerejas...
E é mesmo muito difícil lutar contra isso, contra essa ideia de que é cool beber-se à noite, comer de tudo e à fartazana e no fim manter-se com o corpo de uma Sónia Araújo (caraças de fetiche) ou de algum gajo bom qualquer (não conheço nenhum, as meninas que por aqui passam que dêem sugestões).
Toda essa lenga-lenga para dizer que ontem, enquanto almoçava e assistia às notícias num canal qualquer, surgiu no ecrã uma nova publicidade extraordinária.
Algum génio resolveu criar o acepipe dos anjos gordurosos e que passo, eu também, a publicitar:

Para que fique claro: eu gosto de pizza (muito), gosto de hambúrguer e gosto de bacon, mas porra, tudo isso junto na mesma dentada?! O que mais catso falta por nessas fatias que acresça o teor em castrol e trigres? Dass! Mais vale injectar manteiga directamente na veia, o entupimento da circulação sempre era mais lento!
Isso arrebenta a escala das milhares calorias! E acompanhado com quê? Coca-cola?
Imagino a cara dos miúdos ao verem isso...
PS: alguém conhece algum ingrediente que não se possa por numa pizza?
11 março 2010
Contra a maré...
O Sr. Fulano é um sujeito bonacheirão, o gordo simpático. No seu corpo alberga um tratado de patologia, ele é obesidade mórbida, hipertensão, diabetes, dislipidémia mista, gota, artroses e desgostos.
O Sr. Fulano é um senhor de vícios: álcool, tabaco, venham eles! Nas patuscadas com os “amigos” ele se sente bem…
Falo com o Sr. Fulano para o alertar dos perigos a que está exposto. Aconselho-o a mudar estilos de vida, parar com as adições, alertar para os perigos das amizades de tasca, fazer exercício físico.
Aí começam as desculpas: “porque me doem as pernas”, “também não tenho tempo nem hipóteses de caminhar”, “é difícil deixar de ir ao tasco, xótor, meus colegas chateiam-me e tenho que beber um copo… ou mais”, “não gosto da comida insonsa”, “o que são orégãos?”, “eu como pouco, não sei porque engordo” e o famigerado “prometo-lhe que vou mudar e da próxima vez já vou estar mais magro!”.
Entretanto o Sr. Fulano sai do gabinete equipado com credenciais para análises completas (comparticipadas a - quase - 100%) que irá fazer antes da próxima consulta (que não paga por ser isento) e medicação (quase totalmente gratuita, já que a maioria é genérica). Um doente que custa ao Estado uns bons milhares de € anualmente; mas isso não interessa, eu continuo a achar que a saúde deve ser, tendencialmente, gratuita.
Fiz a minha parte.
Então o dia de trabalho acaba. Entro no meu popó e vou até a padaria comprar uns pãezinhos acabados de sair do forno (a minha mais pura adição).
A padaria situa-se numa esquina e logo aí vejo a incrível mania do português em deixar o carro à frente da porta. Não importa se atrapalha o trânsito, o que interessa é estar o mais próximo possível do local onde se quer ir. É perdida uma hipótese de caminhar.
Deixo a minha viatura no parque do prédio (completamente vazio, já que os outros clientes aglomeraram os respectivos automóveis no meio da estrada à frente da padaria) e caminho 20 segundos até a porta.
Lá dentro vejo algumas das pessoas que dizem aqueles “clichés” que transcrevi antes.
Entre os espécimes está o Sr. Fulano devidamente apetrechado com uma mini e um prato de orelha de porco e moelas de frango que bóiam num molho vermelho e reluzente.
Quando me vê o Sr. Fulano sorri desconsertado. Eu não digo nada; não sou seu pai e a minha fatiota de médico deixei no centro de saúde.
Carrego a mercadoria que pedi e vou-me embora.
No caminho ponho em causa todo o meu trabalho. Para quê levantar às 7 da manhã? Para quê gastar o meu latim, a minha saliva e o meu saber? Para isto? Para quê me esforçar para garantir que os serviços de saúde sejam praticamente de graça? Para que todo esse esforço para garantir que, este candidato a um AVC ou enfarte agudo do miocárdio (EAM), possa viver mais algum tempo com qualidade de vida?
Mas a pergunta fundamental: para que me preocupar com isto? Tenho uma vida e é nela que tenho que pensar. Começo a deixar de me preocupar em salvar almas, deixo essa tarefa aos senhores padres.
Vou para casa e passo um pouco de manteiga (magra) no pão ainda a fumegar. Entre uma dentada e outra desejo que, quando o Sr. Fulano tiver o seu EAM, este seja fulminante, para que, pelo menos, não nos fique ainda mais caro.
(Tudo isto é fictício…
será?)










