23 setembro 2010

Pai sofre XIV - Lombalgia


Chegou uma época temida cá por casa: a tentação de andar.

Nunca pensei seriamente na liberdade que o acto de andar nos dá. Podermos nos levantar e ir para onde quisermos, pormos-nos em bicos de pé para alcançar algo ou correr representa grande parte da condição de ser humanos. Sempre me aterrorizou a hipótese de perder este poder e assusta-me tomá-lo como um dado adquirido.
Agora, imagine-se a descoberta desta habilidade multiplicada pela imensa curiosidade de quem tem quase um ano de idade? Pois...

Cada vez que chego a casa o que mais me apetece fazer é agarrar a minha menina e espetar-lhe um daqueles beijos que detestava que os adultos me dessem quando era criança. Quero espremê-la contra mim e tentar recuperar o tempo perdido ao longo da semana. No entanto, agora existe um pequeno problema: ela não está para aí virada.
A primeira coisa que ela faz quando a pego ao colo é apontar para o chão. Quer pôr-se de pé e vasculhar, à toda velocidade, todos os recantos da casa (até nos impossíveis do pai caber). Tudo seria maravilhoso se ela, por ventura, já o fizesse sozinha e não precisasse que o pai dela lhe agarrasse as mãos.

Lá vai a moça a rir-se segura pelas mãozitas por um pai curvado qual "Quasimodo" lusitano.
A situação é grave já que para ela tudo é novo, mesmo naquele corredor no qual acabamos de passar. Há sempre um detalhe, um objecto, uma sombra que merece uma investigação à polícia científica. Se encontrou um pedaço de plástico vermelho há que sentar, tentar ver se funciona, se parte contra a parede ou se sabe a algo bom e, depois de tudo testado, abandoná-lo a um canto e voltar a andar novamente, mesmo contra a vontade do pai.

Minutos passados assim e preciso urgentemente de uma massagem tailandesa. Até faço essa proposta à mãe cá de casa mas, tal como a filha no caso dos abraços, ela também não está para aí virada.

Um minuto passado horizontalmente no chão duro da sala e ouço as lamúrias de alguém que não se contenta mais em estar sentada e cujos brinquedos convencionais deixaram de fazer sentido... e o circo volta a estar montado.

Estou a precisar de uma destas:

Foto google

(Diazepam 10 mg 1/2 + 1 e Paracetamol 3id + duche quente no lombo e repouso)

22 setembro 2010

Perfeição (re-post)

Sempre que ando com o espírito suíno retiro este CD da estante e concentro-me na música "perfeição". Funciona como uma forma de exorcismo de problemas e mau-humor; respiro fundo e a coisa melhora... pelo menos um pouco.

Perfeição

Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escolas
Crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada Fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afectação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer da nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha, meu coração esta com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha que o que vem é perfeição...

Legião Urbana


18 setembro 2010

(Des)motivado

Image from Google


Tenho andado desmotivado.
Cena difícil de explicar sem ser pessoalmente, numa conversa com um café (ou dois, ou três, ou...) à beira.
Como é possível manter a boa disposição se se está longe de quem se gosta, quando as perspectivas futuras não são as melhores, quando se é "otário" num mundo de "chicos-espertos", ...?
Ando tão "sem saber como" que deixeis de ter vontade de escrever, de ver meus colegas da blogosfera, deixei de ter paciência para queixumes sem sentido.

Ligo a televisão e vejo gentes sorridentes a dizer que o futuro é risonho, mas o que vejo é um tragédia grega em anfiteatro ao ar livre, em dia de inverno, com o céu pronto a nos brindar com uma chuva tristonha...

Se fosse mulher diria que estava naqueles dias.

Valha-me a minha filha a gatinhar, a rir e a gritar enquanto a persigo pela sala de estar.

13 setembro 2010

Canibalismo porcino

Ao passar pela Mealhada vislumbrei o seguinte cartaz de um restaurante e que me deixou a pensar:

Um porco sorridente a segurar uma bandeja de (provavelmente) leitão? Não será o mesmo que um Homem a oferecer uma porção de bebé tostadinho?

Aí está uma mascote sórdida, dass.

06 setembro 2010

Respons(h)abilidade

"Sócrates: «Exige-se responsabilidade e não imaturidade»" in TVI

Já escrevi neste blog, mais do que uma vez, que este governo é óptimo em fazer publicidade. Este nosso querido PM é o "garoto-propaganda" deste executivo exímio em Marketing.

Ver o discurso do senhor PM e não esboçar um sorriso é não ter um pingo de bom humor. Nesse longo monólogo de reentré política (a 2ª!) o que mais se ouviu foi a palavra responsabilidade.


responsabilidade | s. f.


responsabilidade
s. f.
Obrigação de responder pelas acções próprias, pelas dos outros ou pelas coisas confiadas.


Bem, parece-me que o senhor PM não está familiarizado com a definição de "responsabilidade".
É ser-se responsável alguém que permite que o emprego chegue aos 11%, quando até se prometeu a criação de 150000 novos empregos em 4 anos?
É ser-se responsável alguém que permite, ao contrário dos outros "PIGS", que a despesa pública cresça em vez de diminuir?
É ser-se responsável permitir que 1 bilião de dívidas fiscais prescrevam?
É ser-se responsável embandeirar em arco um crescimento trimestral de 0.2% (1/5 da média europeia e 1/10 da Alemanha)?
Já não falo das responsabilidades ignoradas a outros níveis...


Lembro-me de, no ano passado, assistir a um debate entre o Engº Sócrates e o Secretário Geral do Bloco de esquerda, Francisco Louçã. Confesso que, na altura, era o debate que mais esperava e o que causava mais curiosidade.
Desilusão.
Francisco Louçã foi um cordeirinho na mão de um predador político. Sócrates é como os príncipes que são criados de pequeninos para, no futuro, ocuparem o lugar de rei. O PM foi incubado, treinado para estar no lugar que ocupa e aproveitou-se (com primazia, diga-se de passagem) de uma fraqueza existente no programa eleitoral do seu opositor de debate.
Que fraqueza era essa? Que ponto foi explorado até não mais pelo PM? O que foi tão batido que Louçã perdeu o pio? O que o deixou tão perplexo e sensibilizado?
O ponto da discórdia era a diminuição das deduções fiscais para gastos com saúde e educação. Louçã defendeu-se com a seguinte justificação: se o estado fornece bom serviços públicos de saúde e educação não há justificativa para as pessoas optarem pelo privado e,se o fazem, devem arcar com as custas. A meu ver uma boa defesa... se o estado fornecesse bons serviços de educação e saúde (o que, em alguns locais do território, não acontece, infelizmente).
Sócrates atacou, ironizou, ridicularizou, fez as cenas trágico-cómicas que está tão habituado: "como é possível? E o senhor diz-se de esquerda? Quer retirar benefícios à classe média? Como é possível".
Caía por terra a minha vã esperança de ver alguém dar uma tareia ao Engº.

Agora, passados alguns meses, o que é que aquele homem perplexo, incomodado, ferido na sua honra socialista, quer fazer?

"O PS quer que os portugueses paguem mais do seu próprio bolso pela saúde e educação. O PSD quer que se pague pelo menos o mesmo." in Jornal de Negócios

Pois é, RESPONSABILIDADE parece não ser o forte do PM.

05 setembro 2010

Monopoly Portugal

Para o desafio de Setembro da Fábrica de Letras:



Imagem aqui

Estive a jogar Monopoly.
Comecei na casa de partida e recebi dinheiro, não sei bem de onde e muito menos porquê, a fundo perdido.
Iniciei a minha participação e logo comprei algumas propriedades em Lisboa e um terreno na Faria Guimarães, no Porto, a partir de leilões das Finanças e após conversas, off-record, com colaboradores de um banco público.
Continuando o jogo, consegui acções da companhia de electricidade. Como se tratava da única companhia do género achei que seria um bom negócio. Ora, segundo informações fidedignas, as acções até iriam subir após a minha aquisição. Tornei-me accionista maioritário e aumentei o preço da energia aos jogadores que, inadvertidamente, contratavam o serviço. Mais tarde, por sorte (e contactos vários) obtive a maioria das acções da companhia das águas.
Logo a seguir, consegui angariar mais algum dinheiro da Caixa Geral de Dep... peço desculpas, Caixa da Comunidade. Disseram-me que tinha havido um erro do banco a meu favor e depositaram, na minha conta à ordem, alguns milhões sem importância. Com essa verba adquiri mais algumas propriedades na capital, no Porto e em Coimbra.
Entretanto, em algumas jogadas de mestre, lá consegui saber da privatização da companhia de comboios e assumi o controlo de todas as estações disponíveis, o que me deu um grande jeito e um enorme lucro.

Nesse momento, tornava-me o jogador que mais lucrava no jogo mas tive um pequeno contratempo: começava a chamar a atenção e, após algumas denúncias (e um pouco de azar nos "dados" apresentados) fui parar à prisão. Porém, graças a um cartão providenciado por altas instâncias, vi-me livre da cadeia sem precisar sequer de um advogado.

Posteriormente, e resolvido quele quiproquó, decidi construir casas e hotéis em todas as minhas propriedades. Graças a uns amigos na Câmara de Lisboa, do Porto e de Coimbra, consegui que todos os projectos que propus fossem aprovados sem grandes contratempos ou alaridos, e mesmo contra algumas votações em câmara de vereadores. Nada como um bom e$tímulo para $e tomem $ábias deci$ões.

Estava no topo, ninguém podia contra mim, pouco a pouco fui eliminando os adversários e o futuro de riqueza mantinha-se risonho.

Mas foi então que aconteceu o pior.
Ninguém gosta de ser passado para trás, principalmente pelo melhor amigo.
Ninguém gosta de ser enganado, extorquido e, depois de tanto trabalho, perder tudo o que amealhou com muito esforço.
Ninguém gosta de ser traído...

Tive de ajustar contas e pagar por alguns "erros" que cometi:


Mas não me dei por vencido: processei-o, fiquei com o resto dos seus bens e mantive-me altivo e confiante rumo ao monopólio Portugal.

Luís Fernandes Lisboa ®

30 agosto 2010

Esta semana...


Férias, 2º round

26 agosto 2010

"Mudasti" o caral"#!!!

ATENÇÃO: o texto que se segue pode, por ventura, ferir susceptibilidades. Nele podem encontrar palavras que existem no dicionário, são usadas com frequência, mas que causam elevado prurido a determinados ouvidos/olhos.
O leitor fica avisado: avançar fica por sua conta e risco.


Já não bastava este país (e o mundo) estar inundado de propaganda, publicidade, marcas, mercados e vontades. Já não bastava a língua portuguesa ser sujeita à cargas de porrada, crises e acordos ortográficos sem sentido. Já não bastava isso e agora uma empresa de bebidas quer, à força toda, incluir uma palavra no dicionário da língua de Camões?

Foto retirada daqui

"Mudasti" é uma palavra parva, estúpida, idiota e desprovida de qualquer sentido ou utilidade. Ouvir "mudasti" soa pior do que ouvir alguém dizer "então, mudastes de casa?" ou "'tás moreno, apanhastes muito sol?".
"Mudasti" é lixo, não serve para nada, é uma tentativa de passar uma mensagem subliminar: "bebe o nosso ice-tea". Porquê não aportuguesam a palavra "ice-tea"? Podia ser aisseti, não? Ah, mas lembra o refresco da concorrência, certo? Então pode ficar "chá gelado".

Alguém já viu os cromos que aparecem no comercial que visa convencer a malta a assinar a petição em prol da palavra? É cada um mais esquisito que o outro! Se calhar já usavam "mudasti" na maioria das frases que incluíssem o verbo "mudar". Se calhar também dizem treuze, ou há-des, ou camion...
Um dos personagens diz que ninguém usa as palavras manducar e cachinar nos dias que correm . No entanto, baseando-se no seu uso por aí, vamos ter de inserir o treuze, o camion, a úrsula, aiágua, entre outras e uma nova forma de conjugação verbal para aceitar o "tu mudastes", o "tu ouvistes" ou o "tu chibastes".
Vejam lá, "coirato" não está no dicionário! Defendam lá a porra do "coirato"!!!

Ó amigos da Nestlé e da Coca-Cola Company, "mudasti" não é português, pá. Português legítimo tem "cona", "foder" e "puta-que-os-pariu", ditos com a boca cheia e com orgulho em ser labajão (ops, outra que não está no dicionário)!


"Mudasti" está bom para tipos como estes:




"Mudasti"? "Mudasti" o caralho!!!

Assinem esta petição!

22 agosto 2010

Pai sofre XIII - Brinquedos, objectos vários e nódoas negras

A minha menina já vai nos (quase) 11 meses. Já senta, tenta levantar-se, pede coisas e, principalmente, explora qualquer objecto que esteja ao alcance das mãos com a energia proporcionada pela curiosidade própria de quem vê tudo pela primeira vez.

O interesse que uma criança tem, nesta fase, por um objecto é tão efémero como a semi-vida de um fotão. Num segundo está interessada numa boneca e, no segundo imediato, passa a atenção ao comando da televisão.
Quando digo "atenção e exploração" falo em "agarrar com toda a força, apertar tudo o que seja parecido com um botão e balançar o objecto na esperança que se desfaça e se possa ver o que traz por dentro". Nesse curto espaço de tempo o objecto, e quem esteja por perto, sofre as passas do Algarve: é batido, chocalhado, apalpado, enfiado em buracos, mordido e atirado o mais longe possível para logo ser pedido novamente e recomeça o processo.

No entanto, uma forma de exploração que ganha uma predilec
ção por parte da minha menina é o "bater contra a cabeça, face e afins do pai até que ele se queixe, desvie ou desmaie".
Já conheço a maioria dos brinquedos da minha filha pelo tacto, e não é o tacto superficial, é o profundo, à alta velocidade e doloroso. Se as minhas nódoas negras fossem fósseis atrairiam inúmeros arqueólogos. Não são pegadas de dinossauros mas tem um padrão semelhante e espalham-se por uma área considerável, sobretudo no cocuruto.

À medida que se aproxima a idade de gatinhar/caminhar começa a ser al
go perigoso ter objectos a menos de 1 metro do chão; é que antes de se testar se partem no chão, parece que a resistência dos mesmos tem de ser testada na testa do pai!

Com o aparecimento dos dentes as mães queixam-se das mordidelas nos mamilos. Experimentem lá levar com uma caixa de música qualquer no nari
z ou um boneco nos "países-baixos"!
E a tendência é piorar...



21 agosto 2010

E viva o touro!



Touro! Touro! Touro!

Bis, Bis! Isso sim é um espectáculo...





Deprimente!

20 agosto 2010

Tecnobol

É impressionante como o futebol também evolui e a velocidade de pensamento dos jogadores é cada vez mais célere.
Benza Deus!


(montagem com fotos do google)

19 agosto 2010

Who let the dogs out?

Sou só eu que acha que ter o Augusto Santos Silva como Ministro da Defesa representa um elevado risco de golpe de estado?

14 agosto 2010

Dead man

Para o desafio "Uma longa viagem..." da Fábrica de Letras:



Dead man

Carlos estava preso. Tinha sido encomendado à morte e aguardava agora ansioso para lhe encontrar a foice. Estava cansado de esperar e a angústia lhe apertava o coração agónico.

Levantou-se naquela manhã para espreitar o longo corredor que via da pequena janela da porta; mal conseguia ver onde terminava. Disseram-lhe que seria por ali que passaria pela última vez. Sentiu um previsível nó no estômago, mas não resistia a essa investigação diária do seu último caminho, como se perguntando se ainda estaria lá.

Pensava muito na sua sentença. No início sentiu uma revolta enorme. Sentira-se sempre inocente e vociferou contra aquela injustiça. Agora, passados alguns meses, depois de meditar e conversar com aquelas paredes brancas, reconhecia a sua culpa. Já não adiantava chorar, bater com as mãos no colchão duro ou com a cabeça nas paredes. “O que está feito, feito está”, e rendeu-se…

Estava decrépito, exausto, perdera o apetite e, ao observar-se no espelho, também o amor próprio.
Restava-lhe aguardar até que o carrasco lhe viesse buscar.

Nessa mesma manhã esperava pela visita do melhor amigo, e advogado pessoal, Dr. Dias. Ansiava por esse contacto semanal como alguém, perdido num deserto, anseia por um oásis.
“Olá Carlos. Como está?”, sussurrou-lhe ao ouvido durante um longo abraço.
“Ó Dias, uns dias mau, outros pior. Há períodos em que não me conformo mas, mesmos esses, são cada vez mais raros. Estou farto de esperar e é isso que dói! As tuas visitas lá me vão elevando um pouco a moral”
“Amigo, folgo em saber que, pelo menos para isso, posso ser útil”
“Dias, falaste com os daqui? Ainda posso ter esperanças?”
“Carlos, falei com o Dr. Vasconcelos. Não há grande esperança e, embora não possa ser preciso quanto à data, não tens muito mais tempo.”
“Porra, pá! Então que cumpram logo essa sentença!”
“Sabes que essas coisas não são assim. Existem ordens Superiores… vais ter que te aguentar”
Depois de mais alguns minutos de conversa, os amigos despediram-se:
“Ainda te volto a ver, Dias?”
“Posso não estar aqui quando te fores…”
“Deixa estar, amigo, levo-te no coração na mesma” e sorri em despedida.

Carlos acordou a meio da noite em sobressalto. À sua volta 5 pessoas lhe tentavam manietar. Quatro deles lhe seguraram os membros enquanto outro lhe injectara algo nas veias.
E sentiu tudo à roda, pouco a pouco deixou de resistir. Tinha dificuldades em respirar e mal ouvia o coração: Deixou-se ir.
Os 5 mantinham-se à sua volta, controlando seus sinais vitais, até que Carlos, finalmente, encontrou a foice.

“Estou? Posso falar com o Dr. Dias?”
“É ele mesmo. Quem fala?”
“Olá, Dr.. Aqui é o Dr. Vasconcelos. Tenho a informar que o Sr. Carlos faleceu esta noite.”
“Meu Deus, não me diga…”
“Ainda tentemos reanimá-lo. Injectamos alguns fármacos endovenosos, mas nada. Sabe como é, o Sr. Carlos estava em fase terminal, certo? Infelizmente, é o nosso dia-a-dia aqui nos Paliativos. Sinto muito. Continuação de bom dia”.

Nessa tarde, Carlos percorreu o tal corredor muitas vezes, por ele, observado.
E foi o início da sua última e mais longa viagem...

Luís Fernandes Lisboa ®

12 agosto 2010

Só tenho tempo para isto...

...postar alguns vídeos de música:









01 agosto 2010

Afinal...

Sem saber para onde ir nestas férias? Vá para Cona!



30 julho 2010

Feio é morrer


Este senhor da foto era forte e era o Feio. O Tóni, o António ou o Zé da Trincha. O Tóni foi um exemplo de força nestes últimos tempos; de força numa luta desigual. Acabou por perder a batalha mas fez frente à malvada e vendeu cara a derrota.
Tive a sorte de o ver, a ele e ao seu grande amigo JPG, no teatro José Lúcio. Nessa altura já se sabia da doença e mesmo assim o espectáculo aconteceu, num exemplo de profissionalismo e dedicação ao seu público.


No ano passado, enquanto estava de férias, morreu Solnado. Este ano, enquanto estou de férias, morreu o Feio.
Nunca mais tiro férias ou corro o risco de perder as poucas pessoas que me fazem rir.

Até sempre, Tóni!

Dieta mental

Uma amiga enviou-me o texto seguinte e eu não quis deixar passar sem o publicar neste obscuro estaminé.
Também eu apoio uma dieta mental... e estou a praticá-la:

"A Obesidade Mental - Andrew Oitke

Por João César das Neves - 26 de Fev 2010

O prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro «Mental Obesity», que
revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.
Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito
em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade
moderna.
«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos
do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.
Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e
conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»
Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos
que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de
carbono.
As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos
tacanhos, condenações precipitadas.
Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.
Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e
comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e
realizadores de cinema.
Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e
romances são os donuts da imaginação.»
O problema central está na família e na escola.
«Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se
comerem apenas doces e chocolate.
Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta
mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e
telenovelas.
Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina, romance,
violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma
vida saudável e equilibrada.»
Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado "Os
Abutres", afirma:
«O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de
reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações
humanas.
A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e
manipular.»
O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade
fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante.
«Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»
Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.
«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.
Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi
Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que
é que ela serve.
Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam
porquê.
Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um
cateto».
As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.
«Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes
realizações do espírito humano estejam em decadência.
A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura
banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.
Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo.
Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da
civilização, como tantos apregoam.
É só uma questão de obesidade.
O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.
O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos.
Precisa sobretudo de dieta mental.»

22 julho 2010

Pai sofre XII - Babyfather



"Your daddy love come with a lifetime garantee"

Tão verdade.

21 julho 2010

Abanca

"Crédito malparado sobe, depósitos descem" in Expresso

Coitaditos dos bancos: emprestam o dinheiro e depois não lhes pagam, ninguém mais investe em poupanças e produtos bancários...
Estão mesmo em crise, probezitos! Quase falidos, mas... hum...

"Lucro do BPI aumenta 11,8% para 99,5 ME no primeiro semestre" in Lusa


Ei, esperaí!!!

20 julho 2010

Descoberta


Em resposta ao desafio "Disparou" da Fábrica de letras:

A descoberta

Pedro entrou na casa-de-banho e trancou a porta à chave.

Tinha ouvido zuns-zuns na escola. Os colegas de turma falavam entre-dentes de coisas que faziam a eles próprios. Era algo que tinham aprendido há pouco tempo e comentavam em meio à galhofada.
Pedro ainda não pertencia ao grupo. Procurou perceber o procedimento. Perguntou como quem não quer a coisa a colegas de classe, em meio a aulas mais chatas, mas todos viravam o rosto e sorriam. Pareciam tontinhos e não transmitiam a informação que queria.
Demorou cerca de 2 semanas até encontrar um colega que abrisse o jogo. Era um daqueles indivíduos menos populares, que não tinha nada a perder, e, por isso, não tinha pudor em dizer o que se passava.
Pedro tomou atenção a tudo. Achou estranho e sentiu-se incomodado com o protocolo mas decidiu ouvir até ao fim.
Foi para casa a pensar naquilo.

E lá estava ele a olhar-se no espelho: cara de pateta + angústia.
O coração a mil por hora associado a um estômago embrulhado.
Despiu-se e olhou para baixo. Viu o penduricalho ali à mão de semear e começou a executar as instruções:
"Bem, ele disse que fazendo assim...", teve uma espécie de vergonha de apanhar o pequeno amigo que há 13 anos andava ali escondido nas cuecas, "agora puxo esta pele para trás e... elá, o qué isso?!" teve a sua primeira erecção.
Continuou a manusear, fechou os olhos e pensou em "coisas" indefinidas.
Passados 39 segundos disparou...
Um êxtase nunca antes sentido invadiu-lhe o corpo. Quase caiu de costas. Tremeu dos pés ao mais alto dos cabelos arrepiados que enfeitavam o cucuruto.
Olhou-se novamente no espelho. Viu olhos castanhos esbugalhados encrustados numa face imbecilóide, misto de espanto e de algo estranho e que os outros chamavam "prazer"; depois sentiu vergonha de si próprio, num sentimento de pecado e arrependimento... que durou 2 minutos até voltar à nova investida.

10 anos depois:
Pum-Pum-Pum na porta da casa-de-banho:
"Mas qué que se passa aí?"
"Nada, mãe! Já estou a sair!"
Nunca mais parou...

Luís Fernandes Lisboa ®