05 outubro 2017

Vai pela sombra

Passos Coelho vai abandonar o seu PSD. Devido a esta decisão, muitos têm escrito mensagens de apoio deveras emocionadas. Têm escrito o quão bom é o homem e o muito que fez por Portugal, dedicando-lhe quase mais que à própria vida ou à família. 
Confesso que, numa fase inicial, emocionei-me. Sim, desde que fui pai comecei a ficar lamechas. Vídeos de gatinhos ou expulsões do Masterchef têm a estranha capacidade de me tentar a auforria de uma lágrima ou duas. 
No entanto, e depois de uma curta reflexão, a comiseração que senti desapareceu. Foi substituída por um estranho deleite. Sim, é com prazer que vejo sair de cena o pior, e mais desprovido de sentimentos, político que conheci... bem, estará ali taco-a-taco com o Cavaco nessa disputa e de mãos dadas com o senhor Eng. Sócrates.
Apesar da comoção de muitos dos jornalistas, comentadores políticos e lambe-botas da nossa praça, o meu subconsciente veio logo abrir umas gavetas da memória, soprou o pó de alguns acontecimentos e a seguir escarrapachou-os à minha frente.
Mostrou-me o corte dos subsídios de férias e natal; depois o "colossal" aumento de impostos, aumento de todas as siglas com a inicial "I": IVA, IMI, IRC, ISV,...; relembrou-me o congelamento de carreiras, o agravamento das condições de trabalho, a "descartabilidade" da mão de obra e a mais elevada taxa de desemprego do pós-25 de Abril; os cortes nas pensões que os amigos de azul-bebé tanto protegiam; os cortes severos nos sectores da saúde, educação e justiça, levando quase à sua desmantelação; cortes no subsídio por doença e nas indemnizações por despedimento e no subsídio de desemprego e nos feriados e nas férias, cortes e mais cortes. A uníca coisa que se aumentou foi o empobrecimento e a facturação das empresas que produziam sinais: nunca se vira tantos à porta de estabelecimentos falidos ou das varandas dos apartamentos. 
Tudo isso em prol do crescimento do pais, dizia ele, embora o país, ano após ano, viesse a definhar mais, mesmo com a maquilhagem do défice após várias medidas extraordinárias. Muita vassoura se usou para empurrar para baixo do tapete as trafulhices do BES e do Banif e dos, aparentemente 10.000.000.000 (quase gastei a tecla "0") que apanharam um avião e devem estar a apanhar sol numa praia paradisíaca qualquer.
Afinal não fiquei com nostalgia ao ver este senhor sair pela porta pequena, fiquei contente. Até porque acabei por me lembrar que foi este sujeito que mentiu descaradamente a uma menina ou mandou a malta emigrar e deixar de ser piegas, coisa difícil quando algumas pessoas têm filhos e não têm nada para lhes pôr a mesa já que o governo lhes cortou o RSI ou as "pernas".

Vai, Passos, vai, e, por favor, não nos faças o mesmo que o Cavaco!

 


Nota importante: sou apartidário, sou ambidestro político. Não tenho inclinação ideológica. Os defensores deste senhor escusam de me dizer que o PS fez isso ou aquilo porque provavelmente cou concordar; aliás, à excepção da cor e do símbolo, não há muito mais que os separe.

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