21 janeiro 2014

O ladrão legal

Uma pausa na pausa para vos informar que fui assaltado. Fui assaltado por quem deveria me defender. Mais uma vez, sob a vista de todos ,esse ladrão afastou-me dos meus bens, do produto do meu esforço. Com a conivência das instituições "responsáveis" da nação, daqueles que juraram lutar por quem os elegeu, das forças da ordem, de sindicatos e partidos de oposição, esse gatuno imune à lei e com a sensação libertária da impunidade saqueou-me mais uma vez: eu fui roubado pelo meu patrão, o Estado português.

Escrevo este texto indignado. É o máximo que posso fazer, parece-me. Não posso comunicar indignação por arriscar a insubordinação e, ao contrário dos ladrões que me roubaram, poder ser condenado. Não posso juntar meia dúzia de indignados como eu sob o risco de ser acusado de formação de quadrilha ou disrupção da ordem pública. Não posso criticar o roubo ou arrisco um puxão de orelhas daqueles que acham bem que me roubem. Não devo reclamar porque os púdicos apontarão para outros mais roubados do que eu. Não posso apresentar queixa porque até a autoridade foi roubada... e mantém-se calada.

O Estado português é um ladrão. Espalhem a notícia: eu, um funcionário público, disse e repito que o Estado português é um larápio desavergonhado. Não se coíbe de roubar os seus funcionários, sejam eles quem forem (mas desde que não tenham qualquer cargo político ou padrinho em grandes empresas nacionais). 
Podem dizer que eu acrescentei ainda que o Estado português é um aldrabão. É um mentiroso e trapaceiro. O Estado é um burlão que forja um contrato com os seus funcionários para, quando mais lhe convém, alterar-lhe cláusulas, riscar-lhe alíneas, acrescentar-lhe excepções e rasga acordos, muda regras do jogo, tudo sempre em prol do próprio Estado. 
Sempre ouvir dizer que havia muita gente a mamar nas tetas do Estado. Descobri que é verdade mas antes o estado tem de mamar nas tetas dos que trabalham para ele.

O meu patrão é portanto um bandido. É um estelionatário. Hipotecou o meu país e está a hipotecar a minha vida e a dos meus filhos. Pouco preocupado com os filhos da pátria, comporta-se como um filho da puta. 

Mas será culpa do Estado que o próprio se tenha corrompido? Hum, eu fui roubado, enganado, empobrecido, humilhado, acusado do caos financeiro nacional e, mesmo assim, continuo a trabalhar para o meu ladrão e acusador.
Não, a culpa não é do Estado. A culpa é minha. 

Ora foda-se!!!

(nota: vi hoje o recibo do meu salário de Janeiro. Eu, médico, com as responsabilidades inerentes de tratar PESSOAS, com 6 anos de licenciatura, mais um ano de internato geral, mais 4 de internato da especialidade, mais pós-graduações, levei para casa a estonteante quantia de 1317€ depois de mais um saque de 11% da minha esmola mensal. Publico aqui este valor por vergonha e revolta. Vergonha por viver num país que não reconhece quem se esforça e trabalha para alcançar os seus objectivos [a não ser que sejam futebolistas]; revolta porque, apesar do trabalho feito, horas a mais, dedicação ao serviço, o pagamento vem com cortes. Ora porra, nem palmadinhas nas costas? nem vaselina? Nem tau-taus gostosos no naugueiro?).





4 comentários :

Pseudo disse...

O sentimento é partilhado por milhares, como sabes, Catsy.

João Roque disse...

Tens (temos) carradas de razão.
Eu estou reformado, sempre descontei o máximo, cheguei a gahar bem, e recebo uma pensão miseráve para o que trabalhei e descontei; até me envergonho dizer quanto...e mesmo assim, sempre a diminuir.
E nós protestamos aqui e ali, mas o que é certo é que eles continuam a fazer o que muito bem querem e a encher os bolsos dos banqueiros e dos corruptos.

Demian disse...

Há já muito pouco que se possa dizer... As coisas chegaram a um estado onde já é difícil piorar, no entanto, eles conseguem sempre arranjar um estratagema qualquer para tornar as coisas ainda mais negras. O roubo está em todo o lado, mascarado, mas descarado! E o povo não se revolta, então é caso para se dizer: temos o que merecemos!

Catsone disse...

Pseudo, obviamente que sei. A questão é: até quando? Até quando vamos aguentar que nos roubem e aceitar como se fosse normal? O meu preço hora foi de 9€! Ganhava mais nas obras e tinha menos responsabilidades e dor de cabeça e, melhor, não traria trabalho para casa!

João, parece-me que os reformados são um dos principais grupos a abater. Os reformados, para essa escumalha, só consomem recursos. Esquecem-se que existem famílias inteiras a depender de uma ou duas reformas dos mais velhos, pois filhos e netos encontram-se no desemprego. Mas os "velhote" ainda são capazes de pegar em armas, não?

Demian, eles já não tem qualquer pejo em roubar à descarada. Está à vista de todos porque sabem que este povo aguenta tudo sem refilar e desde que não seja um penalti qq roubado do seu clube preferido num jogo dominical...